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Condutores séniores: as cartas de condução serão automaticamente retiradas após os 70 anos?

Homem idoso a sorrir dentro de carro, segurando uma carta de condução.

No parque de estacionamento do supermercado, um pequeno drama em câmara lenta: um utilitário avança devagar, trava tarde demais e encosta na barreira metálica. Ao volante, uma mulher nos seus 70 e poucos fica quieta, mãos no volante, olhos muito abertos. Um jovem por perto hesita: ajuda ou finge que não viu? Ela sai, olha para o para-choques e suspira: “Juro que isto antes nunca me acontecia.”

A pergunta fica no ar - e quase ninguém a diz em voz alta.

Os seniores são realmente mais perigosos ao volante?

A ideia de “tirar a carta aos 70” aparece muitas vezes em conversas e na televisão porque é simples e emocional. Só que a estrada raramente é simples.

Em geral, condutores muito jovens (sobretudo <25) continuam a surgir no topo dos acidentes graves, frequentemente ligados a velocidade, álcool e condução noturna. Já os condutores mais velhos tendem a aparecer mais em cenários específicos: cruzamentos, mudanças de direção, rotundas e manobras onde contar segundos e ver “de lado” faz diferença.

Há, ainda, um ponto que confunde a discussão: com a idade, o corpo fica mais frágil. Mesmo quando o acidente não é “culpa” do sénior, as consequências físicas costumam ser mais sérias.

O que raramente vira manchete é a autorregulação: muitos séniores conduzem menos quilómetros, evitam horas de ponta, chuva forte, noite e autoestradas - e isso reduz risco. No fim, a idade por si só diz pouco. O que pesa mais costuma ser:

  • visão (incluindo sensibilidade ao encandeamento e contraste)
  • tempo de reação e mobilidade do pescoço/tronco
  • atenção e cognição (especialmente sob stress)
  • medicação e doenças crónicas (sonolência, hipoglicemias, tonturas)
  • hábitos: distância de segurança, velocidade, descanso

O que realmente muda depois dos 70… e o que pode ser feito

Depois dos 70, as mudanças costumam ser graduais: mais dificuldade em virar a cabeça num cruzamento, mais encandeamento à noite, mais esforço para ler sinais e acompanhar o trânsito ao mesmo tempo. O risco não vem só de “ser mais lento”; vem de ter menos margem para corrigir um erro.

O lado bom é que há muito a fazer antes de chegar ao “ou conduzes como antes ou entregas as chaves”.

Ajustes práticos que costumam ajudar (e são pouco intrusivos):

  • Visão e óculos atualizados: não espere “dar por isso”. Para quem conduz, revisões regulares são um investimento barato em segurança. Se conduz de noite, teste isso especificamente.
  • Postura e espelhos: sentar-se demasiado baixo/afastado piora tempo de reação e ângulos mortos. Um ajuste de banco, volante e espelhos (ou espelhos auxiliares) pode reduzir sustos em mudanças de faixa.
  • Rotas e horários mais simples: mais luz do dia, menos cruzamentos complexos e menos pressa. Se uma rotunda específica já “dá nó”, mude o percurso.
  • Medicação sem tabu: alguns ansiolíticos, analgésicos fortes, anti-histamínicos e medicamentos para dormir podem afetar atenção e reflexos. Vale levar a lista ao médico e perguntar diretamente: “Isto é compatível com conduzir?”
  • Uma reciclagem curta: uma ou duas aulas com instrutor (em trânsito real) ajudam a detetar vícios, rever prioridades e ganhar estratégias para rotundas e cruzamentos - sem humilhação.

“O que me assustava não era perder a carta”, diz João, 74 anos. “Era perder a independência. Fiz uma aula e até o meu neto aprendeu coisas. Mudou tudo.”

Devem as cartas ser retiradas automaticamente após os 70?

Uma regra automática parece “limpa”, mas ignora realidades portuguesas: quem vive numa aldeia com poucos autocarros, quem é cuidador do cônjuge, quem tem consultas frequentes. Tirar a carta sem avaliar capacidades pode transformar pessoas seguras em pessoas isoladas.

Ao mesmo tempo, fingir que nada muda também é perigoso. Há situações em que o risco sobe de forma real - e às vezes antes dos 70: AVC, declínio cognitivo, episódios de hipoglicemia, problemas de visão não corrigidos, efeitos secundários de medicamentos. Ignorar sinais porque “sempre conduzi bem” é uma forma comum (e silenciosa) de negação.

Em Portugal, a carta não é retirada automaticamente por fazer 70. O que costuma mudar é a renovação: prazos de validade mais curtos e, regra geral, necessidade de atestado médico (e, conforme a categoria de carta, podem existir requisitos adicionais). Como os detalhes dependem da categoria e do perfil, vale confirmar as regras em vigor no IMT antes da data-limite.

Entre “proibição por idade” e “deixar andar”, há um caminho mais útil: avaliações regulares, proporcionais e focadas na capacidade real. Para muitas famílias, o ponto decisivo é começar cedo e com calma - quando ainda há margem para ajustar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A idade não é tudo Visão, mobilidade, saúde, medicação e hábitos prevêem melhor o risco do que um aniversário Ajuda a evitar decisões injustas e discussões estéreis
Há caminhos intermédios Reciclagem, controlos médicos e adaptação de rotas/horários Mantém autonomia com mais segurança
Falar cedo muda resultados Conversas calmas + sinais objetivos evitam crises e “retiradas forçadas” Protege relações e reduz risco na estrada

FAQ:

  • Pergunta 1 As cartas de condução são mesmo retiradas automaticamente após os 70?
    Resposta 1 Não. Em Portugal, fazer 70 anos não cancela a carta. O que muda é a renovação (normalmente com prazos mais curtos e atestado médico). As regras variam por categoria, por isso confirme com antecedência.

  • Pergunta 2 Os seniores são condutores mais perigosos do que os mais jovens?
    Resposta 2 Em média, os acidentes mais graves continuam muito associados a condutores jovens (velocidade, álcool, noite). Nos séniores, o risco tende a concentrar-se em cruzamentos/manobras e pode agravar-se com visão, mobilidade e medicação - embora muitos compensem conduzindo menos e com mais cautela.

  • Pergunta 3 Que sinais sugerem que um condutor mais velho deve reavaliar a sua condução?
    Resposta 3 Pequenas batidas repetidas, hesitação em rotundas/cruzamentos, “quase acidentes”, perder-se em trajetos habituais, dificuldade em ler sinais, comentários frequentes de passageiros, novas medicações com sonolência/tonturas, ou evitar cada vez mais situações por medo.

  • Pergunta 4 Como posso falar com um pai ou avô sobre a condução dele?
    Resposta 4 Escolha um momento calmo e use factos concretos (“naquela rotunda ficaste muito indeciso”), não rótulos (“conduzes mal”). Proponha passos intermédios: consulta para rever visão/medicação, uma aula de reciclagem, ou limitar noite/chuva - em vez de exigir “parar já”.

  • Pergunta 5 Que soluções existem se um sénior tiver de deixar de conduzir?
    Resposta 5 Depende muito da zona, mas normalmente dá para combinar: transporte público quando existe, táxi/TVDE para consultas, boleias em família, redes de vizinhos, entregas ao domicílio e (em alguns concelhos) transporte a pedido/apoio social. Perder o volante não tem de significar perder mobilidade.

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