O teu corpo está aqui. A tua cabeça, nem sempre.
Quando o “e se…” começa a correr sozinho (no café, no autocarro, na cama às 2h), uma técnica simples pode baixar o volume em poucos minutos: grounding pelos sentidos.
Porque é que o teu cérebro não se cala (e porque é que o grounding funciona)
Pensar demais parece “resolver”, mas muitas vezes é só o sistema nervoso em modo alerta: o cérebro varre o futuro à procura de perigo e o passado à procura de erros. O corpo acompanha (respiração curta, tensão na mandíbula/ombros, coração acelerado) e essa tensão alimenta ainda mais pensamentos.
O grounding funciona porque troca um problema abstrato (cenários, memórias, previsões) por dados concretos do momento presente. Em vez de tentares “ganhar” uma discussão com a tua mente, dás-lhe uma tarefa sensorial que ocupa a atenção e sinaliza segurança ao corpo.
Regras úteis (e realistas):
- O objetivo não é “ficar zen”; é ficar estável o suficiente para escolher o próximo passo.
- Em muitas pessoas, a primeira diferença é pequena (10–20% mais calma). Isso já conta.
- Se estiveres muito ativado, começa ainda mais simples: pés no chão + 3 coisas que vês.
A técnica de grounding 5–4–3–2–1 na vida real
A técnica 5–4–3–2–1 é direta e não precisa de condições perfeitas. Fazes mentalmente (ou em voz baixa) esta sequência:
- 5 coisas que consegues ver.
- 4 coisas que consegues sentir.
- 3 coisas que consegues ouvir.
- 2 coisas que consegues cheirar.
- 1 coisa que consegues saborear.
O que a torna eficaz é a forma como usas a atenção: nomeia e descreve um detalhe (cor, textura, temperatura, peso, distância). Não é uma leitura rápida do ambiente; é “tocar” o real com a atenção.
Exemplo rápido (deitado no escuro): “a linha de luz na parede, a cortina, o puxador do roupeiro…”; “o lençol nas pernas, o peso do edredão…”; “o zumbido do frigorífico…” - e por aí fora. Muitas vezes, a respiração abranda sem teres de a controlar.
Pequenas adaptações que ajudam sem estragar o método:
- Se não houver cheiros/sabores óbvios, troca por “2 coisas que gosto de cheirar” ou toma um gole de água/chá.
- Se tens tendência a dissociar, foca-te mais no “sentir” (pés, mãos, cadeira) do que em “ver” ao longe.
- Se estiveres a conduzir ou a atravessar a rua, usa uma versão segura: mantém os olhos na via e faz só sentir + ouvir.
Como usar grounding em 5 minutos quando os pensamentos entram em espiral
1) Pára por 1 segundo. Endireita a postura e sente os pés. Pressiona o chão como se quisesses “marcar” os sapatos no pavimento.
2) Faz o 5–4–3–2–1 devagar. Dá ~1 respiração a cada item (5–10 segundos).
3) Fecha com uma ação pequena. Um passo concreto: enviar o e-mail, tomar banho, beber água, escrever 1 frase.
Isto é um botão de reset, não uma cura. A eficácia vem mais da repetição do que da intensidade.
Erros comuns (e como corrigir):
- Esperar um milagre: se baixou o ruído, já funcionou. O cérebro aprende por repetição.
- Fazer em piloto automático: acrescenta um detalhe por item (“caneca branca, fria, com risco no bordo”).
- Virar auto-crítica: “não devia precisar disto” é só mais um pensamento. Volta ao próximo sentido.
“Um pensamento ansioso só precisa de uma coisa para sobreviver: a tua atenção total. O grounding é a forma de recuperares essa atenção, com gentileza.”
Dicas que costumam aumentar o efeito sem complicar:
- Faz em voz alta quando puderes (ativa linguagem + audição e ajuda a manter o foco).
- Treina quando estás apenas ligeiramente stressado (para ser mais fácil usar em espiral).
- Usa uma “âncora de bolso” (chave, moeda, anel) para começar pelo “sentir”.
Deixar os pensamentos serem altos sem deixá-los mandar
O objetivo não é eliminar pensamentos - é criar uma janela de 5 minutos em que eles deixam de conduzir. Com o tempo, isso traduz-se em coisas práticas: decidir mais depressa, ruminar menos depois de conversas, comer com mais presença, dormir com menos “auditorias mentais”.
Pensar demais não é identidade; muitas vezes é hábito + stress. E hábitos podem ser interrompidos, mesmo que por pouco tempo. Se a ansiedade for intensa, frequente, ou te bloquear a vida, o grounding pode ser um bom complemento - mas vale a pena procurar apoio profissional. Em crise ou risco imediato, pede ajuda urgente (112).
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Compreender o ciclo do pensar demais | Pensar demais = cérebro em modo controlo, corpo em modo alerta | Dá um nome ao que se passa, reduz a vergonha e a confusão |
| Aplicar o 5–4–3–2–1 | Usar os cinco sentidos para voltar ao momento presente | Dá um método concreto para usar em menos de 5 minutos |
| Criar um reflexo de regresso ao real | Repetir a ancoragem nas situações do dia a dia | Transforma uma ferramenta pontual num apoio discreto no quotidiano |
FAQ
- O grounding funciona mesmo em apenas 5 minutos? Muitas vezes sim - no sentido de acalmar o suficiente para funcionares. Com prática, a resposta costuma ser mais rápida.
- E se eu me sentir ridículo a nomear coisas à minha volta? É comum. Faz em silêncio, ou descreve como se estivesses a “narrar” uma cena para alguém.
- Posso usar grounding durante um ataque de pânico? Podes, com suavidade. Em vez da lista toda, começa por sentir os pés e nomear 3 coisas que vês.
- Tenho de seguir o 5–4–3–2–1 exatamente? Não. Podes adaptar (3–3–3, ou só “ver + sentir”). O essencial é mudar a atenção para os sentidos.
- O grounding substitui terapia ou medicação? Não. É uma ferramenta útil. Se o teu pensar demais for avassalador ou persistente, usa-a em conjunto com apoio profissional - não como substituto.
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