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Como lidar com mudanças sem stressar

Pessoa sentada à mesa com chávena, caderno aberto, ampulheta e caixa de cartão ao fundo.

O e-mail que mudou tudo chegou às 9h17 de uma terça-feira, mesmo entre um lembrete para pagar a conta do gás e uma promoção de ténis a metade do preço.

“Atualização de reestruturação”, dizia o assunto - que é código corporativo para: a tua vida está prestes a ficar estranha. Às 9h20, o coração já está a bater depressa demais, o chá arrefeceu e tu já estás, mentalmente, a arrumar uma caixa de cartão. Ainda nem sabes o que vai mudar, mas o teu corpo faz o que sempre faz: primeiro entra em pânico, depois processa.

A mudança não espera por uma boa altura. Chega quando o carro chumba na inspeção, quando o senhorio vende a casa, quando o teu parceiro diz “precisamos de falar”, quando o médico arqueia uma sobrancelha ao olhar para um exame. Algumas mudanças são escolhidas e cintilantes - novo trabalho, novo país, novo corte de cabelo - e, mesmo assim, até as mais entusiasmantes te podem virar o estômago daquele jeito estranho de montanha-russa. Gostamos de dizer a nós próprios que somos adaptáveis, modernos, resilientes. Depois algo muda, e de repente voltamos a ser uma criança perdida à porta de um supermercado, a tentar não chorar.

E então a pergunta fica ali, discreta, num canto da sala: como é que se lida com a mudança sem se desmoronar por dentro?

O mito da “pessoa tranquila” que adora mudanças

Todos nós conhecemos aquela pessoa que diz que “vive bem com mudanças”. Muda de cidade por impulso, troca de carreira como quem troca de roupa, corta o cabelo numa franja dramática às 2 da manhã. O Instagram dela diz: destemida, livre, indiferente. Ao lado dela, a tua ansiedade por causa de uma atualização de software começa a parecer um bocado ridícula. Ficas a pensar se estás “feito ao contrário”.

Sejamos honestos: a maioria de nós não é assim tão tranquila com mudanças; só é boa a fingir. Dizemos coisas como “sim, é uma boa oportunidade” enquanto o cérebro, em silêncio, corre simulações de desastre em segundo plano. O mito do ser humano calmo e infinitamente flexível faz com que toda a gente sinta que está a falhar um teste invisível da vida. Se não estás “a deixar-te ir na corrente”, aparentemente estás a fazer mal a vida de adulto.

A verdade é que o teu cérebro está desenhado para ver a mudança como uma ameaça potencial. Novo significa incerto, e incerto significa “presta atenção, algo pode magoar-te”. Isto não é fraqueza; é programação. O problema começa quando nos julgamos por aquele primeiro pico de medo, em vez de o tratarmos como aquilo que é: um alarme que podemos baixar, não um incêndio em que estamos condenados a arder.

Aqueles primeiros 10 minutos de pânico

Pensa na última grande mudança que enfrentaste. Normalmente há uma janela de dez minutos em que o corpo assume o volante. Coração acelerado, palmas um pouco húmidas, pensamentos a saltar como bolas de ténis dentro de uma máquina de secar. Não estás a pesar opções com calma; estás a catastrofizar em alta definição: “E se eu não consigo lidar com isto? E se estrago tudo? E se isto arruína tudo?”

Esses dez minutos parecem um veredicto sobre toda a tua personalidade. Não são. São química. Adrenalina, cortisol, memórias antigas de outras vezes em que a vida descarrilou. A mudança mais útil não é tentares impedir a primeira onda, mas decidires o que fazes enquanto ela te atravessa. Às vezes é literalmente afastar-te do ecrã, lavar a cara com água fria, ou dizer em voz alta: “Ok. Estou a entrar em pânico. Isso é permitido.”

A mudança assusta muito menos quando deixas de exigir que devias estar sereno perante ela. Não precisas de ser a pessoa tranquila. Só precisas de ser a pessoa que fica na mesma sala consigo própria enquanto a tempestade passa.

Controla o metro quadrado onde estás de pé

Quando a vida inclina, nós alargamos o plano. Projetamos imediatamente para o futuro, construindo enredos inteiros com base em quase nenhuma informação. Dizem-te que a empresa se vai fundir e, cinco minutos depois, no teu futuro imaginário estás sem-abrigo, a viver de noodles instantâneos e arrependimento. Esse cérebro em modo avanço rápido é impressionante, mas também esgotante. Não admira que sintas o peito apertado.

Uma pergunta surpreendentemente estabilizadora nesses momentos é: “O que é que eu controlo na próxima hora?” Não no próximo mês, nem no próximo ano. Nos próximos 60 minutos. É um filtro brutalmente simples. Não controlas quem é promovido. Não controlas o que o teu ex pensa. Não controlas o mercado imobiliário, a lista de espera do SNS, nem a opinião do teu tio sobre as tuas escolhas. Podes decidir fazer uma chamada, enviar um e-mail, escrever uma lista, beber água, comer qualquer coisa que não seja uma bolacha.

Este foco no “pequeno metro quadrado” não é negação. É controlo de danos. Reduz o problema a algo que o teu sistema nervoso consegue aguentar sem sobreaquecer. O teu cérebro adora a ilusão de que tudo se resolve a partir do sofá se pensares com força suficiente. Mas a verdadeira mudança costuma acontecer nestes movimentos pequenos, quase aborrecidos, controláveis.

O poder de um passo prático

Há um momento, depois de o choque inicial acalmar um pouco, em que podes ficar a rodopiar em “e se…” ou agarrar-te a uma ação concreta. Não precisa de ser impressionante. Se te acabaram de dizer que o teu lugar está em risco, esse passo pode ser atualizar o cabeçalho do teu CV, não aperfeiçoar o documento todo de uma vez. Se a tua relação terminou, pode ser mandar mensagem a um amigo e dizer: “Posso passar aí hoje à noite e ainda não falar sobre isto?”

Esse primeiro passo é como acender uma pequena lâmpada numa sala escura. O espaço continua lá, com móveis e sombras e tudo, mas já não parece infinito. Lembras-te de repente de que não és só passageiro; ainda tens as mãos em algumas alavancas. A situação pode continuar má, injusta, ou profundamente desconfortável. Ainda assim, no minuto em que ages sobre algo específico, o stress desce meio ponto. Mostras ao teu cérebro que não estás desamparado - e ele ouve mais do que pensas.

O luto que não admitimos que é luto

Uma das coisas mais estranhas da mudança é a frequência com que ela se parece com tristeza, mesmo quando tecnicamente nada “mau” aconteceu. Novo emprego, melhor salário, escritório mais agradável - e, no entanto, dás por ti a sentir falta da tua caneca velha rachada e daquele rangido exato das portas do elevador. Tendemos a ignorar esta parte da mudança. Dizemos a nós próprios para sermos gratos, para focarmos o positivo, para “seguir em frente”. Por baixo, há muitas vezes um luto silencioso, não reconhecido.

Não precisas de perder uma pessoa para viver uma perda. Podes fazer luto por uma rotina. Por uma versão de ti. Por um plano que já não serve. Pelo trajeto que costumavas odiar, mas que agora, na memória, parece estranhamente reconfortante. Quando mudas de casa, não deixas para trás apenas tijolos e argamassa; deixas o rangido familiar das escadas, o rádio do vizinho através da parede às 7 da manhã, a mancha de luz da tarde que caía no sofá.

Todos já tivemos aquele momento em que voltas a um sítio a que já pertenceste - uma escola, um local de trabalho, uma cidade antiga - e percebes que seguiu em frente sem ti. As pessoas têm novas piadas internas. A tua secretária é de outra pessoa. O café mudou o menu. Aquela dor no peito? Isso é luto, vestido com roupa do dia a dia.

Deixar-te sentir estranho em relação a isso

A mudança torna-se muito menos stressante quando deixas de policiar as tuas reações. Podes estar entusiasmado e triste ao mesmo tempo. Podes sentir alívio por algo ter acabado e, ainda assim, ter saudades com uma nostalgia afiada, quase física. Não existe uma sequência “correta” de emoções, nem um modelo arrumadinho de cinco fases que tenhas de passar como num exame de condução.

Às vezes, o gesto mais gentil é incrivelmente simples: dar nome ao que estás a perder. Dizer a ti próprio, ou escrever. “Estou a perder o conforto de conhecer os meus colegas. Estou a perder a rotina das quintas-feiras no pub. Estou a perder a fantasia de que esta relação ia durar para sempre.” Não resolve nada. Só significa que o teu corpo não tem de gritar tão alto para ser ouvido.

O luto não é um erro no software da mudança. É uma funcionalidade. Quanto mais espaço lhe deres, menos ele te vai sequestrar mais tarde sob a forma de irritação sem explicação, insónias ou lágrimas súbitas no corredor dos cereais do supermercado.

Rituais lentos em épocas rápidas

Quando tudo está a mudar, instintivamente aceleramos. Achamos que, se nos mexermos depressa o suficiente, se estivermos ocupados o suficiente, se fizermos scroll o suficiente, conseguimos fugir ao desconforto. Os dias confundem-se. As refeições tornam-se “qualquer coisa rápida”. O sono fica aos bocados. O nosso mundo encolhe para ecrãs e resolução de problemas, enquanto o corpo nos toca no ombro em silêncio a pedir… qualquer coisa mais suave.

A mudança aterra muito mais leve quando escolhes uma ou duas coisas lentas e as proteges como protegerias uma consulta médica. Uma caminhada de manhã antes de olhares para o telemóvel. Dez minutos a ler um livro que não menciona produtividade nem desenvolvimento pessoal. Fazer o mesmo pequeno-almoço simples todos os dias durante algum tempo, só para que uma parte da tua vida pareça previsível.

Estes rituais pequenos não são projetos de bem-estar para o Instagram; são âncoras. O cheiro do café na cozinha, o peso de uma caneca familiar na mão, a mesma playlist no caminho para o trabalho. Nos dias em que a caixa de entrada é caos e recebes notícias que não pediste, estes detalhes repetidos sussurram: “Alguma coisa continua igual. Tu ainda estás aqui.”

O corpo mantém a contabilidade

Há uma razão para tanta gente ficar doente imediatamente após uma grande mudança de vida. O teu corpo esteve a correr nos bastidores, a aguentar o stress enquanto tu seguias em frente. Depois, no momento em que paras, ele colapsa um pouco, como um técnico de palco que se senta numa caixa quando as cortinas fecham. Se alguma vez apanhaste uma constipação dois dias depois de começares um novo trabalho, ou sentiste as costas a travarem depois de uma separação, já viste este fenómeno de perto.

A mudança é mais fácil de gerir quando tratas o teu corpo menos como uma máquina e mais como… um amigo ligeiramente dramático. Dá-lhe comida a sério. Deixa-o dormir mal durante algumas noites sem entrares em pânico. Alongar enquanto a chaleira ferve. Repara quando os ombros estão a viver algures perto das orelhas. Não precisas de um retiro de ioga em Bali. Precisas de check-ins de cinco minutos em que perguntas: “O que é que está mesmo a acontecer no meu peito, na minha mandíbula, no meu estômago, agora?” e ajustas um pouco.

A tua mente vai dar-te comentários intermináveis sobre a mudança. O teu corpo vai dar-te, em silêncio, a verdade sobre o quanto estás a aguentar. Ouve mais esse segundo.

As histórias que contas a ti próprio sobre quem és

Por baixo do caos prático da mudança, há muitas vezes uma crise mais silenciosa: “Se isto muda, o que é que isso faz de mim?” A professora que sai da sala de aula ao fim de vinte anos. O pai ou a mãe cujos filhos saem de casa. A pessoa cujo trabalho era a identidade, cuja relação era a âncora, cuja saúde era a única coisa em que confiava. A mudança não ameaça só a tua agenda; mexe com o teu sentido de quem és.

Construímos identidades como casas pequenas e acolhedoras. “Sou o/a responsável.” “Sou a alma da festa.” “Eu nunca desisto.” “Sou a pessoa que tem sempre um plano.” Depois a vida derruba uma parede a que estavas muito agarrado, e a corrente de ar que entra pode parecer brutal. Já não és a pessoa que sabe sempre o que vem a seguir. Nem tens a certeza de quem és, neste meio-termo.

Há uma liberdade estranha escondida nesse caos, se conseguires aguentar olhar para ela. Se não és apenas o teu trabalho, a tua relação, o teu código postal, então podes ser mais do que essas coisas. Podes perguntar: “O que mais pode ser verdade sobre mim agora?” Essa pergunta é desconfortável, sim. Mas também é a raiz de qualquer boa reviravolta.

Deixar a tua identidade ser uma versão, não um veredicto

Uma mudança suave é pensar na tua identidade como atualizações de software, não como um sistema operativo final. Não estás a trair o teu “eu verdadeiro” quando mudas de ideias, te afastas, ou de repente queres coisas diferentes. Só estás a evoluir da Versão 3.2 para a 3.3. Um pouco com bugs, talvez, mas a funcionar.

Quando a mudança chega, repara nas afirmações duras e pesadas que saltam na tua cabeça. “Sou péssimo/a com dinheiro.” “Eu não aguento a incerteza.” “Eu estrago sempre tudo.” Isso não são factos; são histórias antigas, muitas vezes herdadas dos medos e frustrações de outras pessoas. Experimenta trocá-las por linguagem mais suave e mais atual: “Estou a aprender a gerir isto.” “Acho a incerteza difícil, mas já sobrevivi a isto antes.” Parece piegas. Não é. O teu cérebro tira pistas das palavras que usas sobre ti.

A mudança não te está a pedir para te tornares uma pessoa completamente nova de um dia para o outro. Está a convidar-te a conhecer a versão de ti que existe do outro lado disto - aquela que sabe um pouco mais, se importa menos com certas coisas e tem novas linhas na cara que contam uma história.

Quando ainda nada faz sentido (e está tudo bem)

Há sempre um período em qualquer grande mudança em que estás entre histórias. A estrutura antiga caiu. A nova ainda não se formou. Os dias parecem improviso e as noites parecem mau cinema, cheias de sonhos estranhos e ansiosos. Estás sempre a pensar: “Quando isto acabar, vou sentir-me melhor.” Mas a mudança não tem um ponto arrumado de “acabou”. Ela vai-se infiltrando lentamente na normalidade enquanto tu estás ocupado a atualizar o e-mail.

O stress nestas fases vem menos da mudança em si e mais da tua exigência de que ela já devia fazer sentido. Queremos uma narrativa clara: porque aconteceu, o que significa, que lição supostamente devemos aprender, quem seremos depois. No entanto, algumas das maiores mudanças só revelam o seu significado anos mais tarde, quando reparas num fio que liga aquele “então” ao “agora”.

Durante algum tempo, o teu trabalho não é compreender, mas continuar a mexer-te de forma pequena e gentil dentro do nevoeiro. Pede ajuda a pessoas com quem te sentes seguro/a. Deixa que os dias sejam confusos sem assumires que isso significa que estás a falhar. Lembra-te de que toda a gente que conheces passou por alguma versão disto - essa época instável, de limbo, em que nada encaixa muito bem e o futuro parece um esboço a meio.

Não precisas de adorar a mudança. Não precisas de a “manifestar”, de a validar mentalmente, nem de a transformar em conteúdo. Só precisas de sobreviver à próxima hora, contar a ti próprio uma história mais amável, fazer luto pelo que estás a perder e encontrar um par de rituais pequenos que te lembrem que, apesar de tudo estar a mexer, um facto sólido permanece: já lidaste com todas as mudanças que enfrentaste até hoje, até as horríveis. Algures, por baixo do ruído, o teu sistema nervoso já sabe como voltar a fazê-lo.

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