Late at night, the flat is quiet but your head isn’t.
Tarde da noite, o apartamento está silencioso - mas a tua cabeça não.
O brilho do frigorífico é quase teatral quando o abres “só para ver”. Um gelado a meio. Meia pizza. O resto dos cereais das crianças. Não tens fome. Tu sabes disso. E, no entanto, a tua mão mexe-se mais depressa do que os teus pensamentos, e há um breve silêncio no peito quando a primeira dentada acontece.
No sofá, migalhas na T‑shirt, a Netflix a perguntar se ainda estás a ver, e o arrependimento familiar chega. Prometes a ti próprio que amanhã vai ser diferente. Amanhã vais ter força de vontade, disciplina, controlo.
Amanhã chega, claro. E com ele chegam os e-mails, o stress, a solidão, o aborrecimento.
Há algo mais profundo a acontecer.
Porque é que a comida se tornou o teu primeiro “socorro”
A alimentação emocional raramente começa na idade adulta. Muitas vezes começa em silêncio, anos antes, quando a comida se torna a forma mais rápida e segura de mudar a maneira como te sentes. Uma bolacha por seres “bem‑comportado(a)”. Comida para fora quando a mãe está demasiado exausta para falar. Chocolate depois de um dia difícil na escola. O teu cérebro vai registando estes momentos e liga uma equação simples: sensação desconfortável = comer, sentir-me melhor, repetir.
Com o tempo, esse atalho torna-se quase automático. Sentes-te ansioso(a), stressado(a), vazio(a), ou apenas ligeiramente “estranho(a)” - e o teu corpo procura algo para mastigar antes sequer de dares nome à emoção. O alívio é real, mas curto. Depois vem a culpa, a vergonha, o ciclo do “o que é que se passa comigo?” que torna a próxima tempestade emocional ainda mais difícil de atravessar sem comida.
Um inquérito YouGov de 2022 no Reino Unido concluiu que cerca de 6 em cada 10 adultos admitem comer comida de conforto quando estão stressados. E isso são apenas os que estão dispostos a dizê-lo em voz alta. Para muitos, a alimentação emocional esconde-se atrás de piadas sobre ser “um foodie” ou estar “cheio de fome e mal‑humorado(a)”. Uma professora de 34 anos com quem falei descreveu comer meio pão no carro depois de uma reunião de encarregados de educação, sem saborear uma única fatia. “Era como carregar em mute no meu cérebro”, disse ela. “Depois o som voltava duas vezes mais alto.”
É assim que o ciclo aperta. O stress ou a solidão aparecem, a comida anestesia, a culpa vem a seguir, a autocrítica acrescenta mais stress, e o teu cérebro volta a registar a comida como o botão de escape mais rápido. Quando isto acontece várias vezes por semana, o teu sistema nervoso começa a procurar a porta do frigorífico da mesma forma que um fumador procura um isqueiro. Tu não és fraco(a). Foste treinado(a).
Do ponto de vista do cérebro, a alimentação emocional é um problema de “ligações”, não uma falha moral. Os alimentos altamente palatáveis - aquelas doses de açúcar, gordura ou sal - desencadeiam dopamina e acalmam o sistema nervoso. O teu cérebro lembra-se desse conforto e vai dar-lhe prioridade na próxima vez que te sentires ameaçado(a), quer a ameaça seja um prazo no trabalho ou um domingo à tarde de solidão silenciosa. A lógica, os planos alimentares, até as dietas rígidas têm dificuldade em competir com um padrão de sobrevivência profundamente enraizado.
A reviravolta é que quanto mais lutas contra ti - regras estritas, conversa interna dura, “recomeço na segunda-feira” - mais forte se torna a carga emocional à volta da comida. O que começou como conforto transforma-se numa batalha, e as batalhas são exaustivas. Libertar-te não é sobre “ser bom(boa)”. É sobre encontrar novas formas de te sentires em segurança que não moram na despensa.
Formas práticas de te desligares da alimentação emocional
A primeira mudança real acontece quando deixas de perguntar “Como é que paro de comer?” e começas a perguntar “O que é que eu estou realmente a sentir agora?” Um hábito útil é a pausa de 3 minutos. Antes de ires para a cozinha, carrega num pequeno travão mental. Senta-te, fica de pé, encosta-te à bancada - e faz a ti próprio(a) três perguntas:
- O que é que estou a sentir no meu corpo?
- Que emoção está aqui?
- O que é que eu preciso mesmo neste momento?
Não estás a tentar impedir-te de comer. Estás apenas a inserir um fiozinho de consciência antes do gesto automático. Talvez notes o peito apertado e pensamentos acelerados - isso é ansiedade. Talvez te sintas pesado(a) e “plano(a)” - isso é tristeza ou exaustão. Às vezes vais comer na mesma, e está tudo bem. A vitória é que, devagar, o teu cérebro começa a aprender que existe um espaço entre “sentir-me mal” e “boca cheia”. É nessa pequena folga que a mudança começa.
Outro passo poderoso é o que os psicólogos chamam de urge surfing (surfar a vontade). Da próxima vez que uma vontade intensa aparecer, imagina-a como uma onda. Forte, barulhenta, convincente - mas temporária. Define um temporizador para 10 minutos. Nesse intervalo, faz algo neutro ou calmante: bebe água aos goles, vai lá fora, manda uma mensagem a um amigo, escreve três frases num caderno. Não estás proibido(a) de comer. Simplesmente combinaste contigo que esperas até o temporizador tocar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas nos dias em que consegues, algo subtil muda. Aprendes, pela experiência, que as vontades sobem e descem. Quando o temporizador tocar, se ainda quiseres o snack, come-o sem a dose extra de auto-ódio. Muita gente fica surpreendida ao ver que a vontade amoleceu o suficiente para permitir uma escolha diferente. E quando não “ganhas” à onda? Isso não apaga o teu progresso. Só mostra onde a corrente é mais forte.
Com o tempo, vais precisar de alternativas à comida que te acalmem de verdade. Não a versão de autocuidado do Instagram, mas a versão desalinhada e real que cabe numa terça-feira à noite atarefada. Pensa numa lista curta - três ou quatro coisas - que te ajudem a desacelerar:
- um duche quente sem telemóvel;
- dar uma volta ao quarteirão;
- deitar-te no chão com música nos ouvidos;
- mandar mensagem a um amigo: “Estou a ter uma noite difícil”.
Num dia calmo, escreve isto num papel e cola-o num sítio visível, porque no calor do momento o teu cérebro fica em branco.
“A comida deixou de ser a minha inimiga no dia em que percebi que era a minha estratégia de lidar - não um defeito de carácter.”
Ajuda esperar algum ensaio e erro meio caótico. Em algumas noites vais conseguir fazer a pausa, surfar a onda, escolher algo da tua lista. Noutras, vais estar a meio do pacote de bolachas antes de te lembrares de alguma coisa deste artigo. Isso não significa que voltaste ao zero. Significa apenas que a tua “cablagem” antiga está alta - e tu estás em processo de a recablar.
- Mantém as ferramentas simples: pausa de 3 minutos, temporizador de 10 minutos, uma mini-lista de confortos sem comida.
- Larga o pensamento tudo-ou-nada: um episódio de alimentação emocional não destrói o teu “progresso”.
- Fala contigo como falarias com um(a) amigo(a) próximo(a), sobretudo nos dias difíceis.
Reescrever a tua história com a comida, uma escolha de cada vez
Há uma força silenciosa em admitir que a alimentação emocional tem menos a ver com fome e mais a ver com necessidades que nunca aprenderam a falar. Às vezes essas necessidades são simples: descanso, tranquilização, uma pausa da responsabilidade constante. Às vezes são mais antigas e pesadas: não te sentires ouvido(a), aguentar demasiado durante demasiado tempo, viver num corpo que é comentado desde a infância. Quando a comida se torna a tua principal tradutora de tudo isso, cada desejo vira uma conversa complicada.
Quebrar o ciclo não é tornar-te alguém que nunca mais come emocionalmente. Essa fantasia é só outra dieta disfarçada. A liberdade parece-se mais com isto: reparar no dia mau antes de chegares à máquina de snacks. Apanhar-te a meio e escolher abrandar, mesmo que ainda acabes a tablete de chocolate. Pedir comida para fora e, ao mesmo tempo, mandar mensagem a um amigo: “Hoje estou a comer os meus sentimentos, podemos falar?” Pequenos atos imperfeitos de consciência que amaciam a vergonha e convidam à ligação.
Num nível humano, todos já tivemos aquele momento em que o garfo fica a meio do caminho e uma voz baixinha sussurra: “Isto não é realmente sobre comida.” Esse sussurro é o início de uma história diferente. Uma história em que o teu corpo não é um campo de batalha, o teu prato não é um boletim moral, e as tuas emoções não precisam de entrar às escondidas pela cozinha. O ciclo da alimentação emocional não se quebra numa única decisão dramática. Afrouxa em silêncio: na forma como falas contigo depois de um exagero, na forma como fazes uma pausa antes de um snack, na forma como começas a confiar que podes sentir as coisas plenamente - e continuar em segurança.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Identificar os verdadeiros gatilhos | Passar de “Eu não valho nada” para “O que é que estou realmente a sentir?” | Perceber que a solução não está em mais força de vontade, mas em mais clareza emocional. |
| Criar um espaço entre emoção e ação | Usar a pausa de 3 minutos e o urge surfing de 10 minutos | Recuperar margem de manobra no momento em que tudo parece automático. |
| Substituir a vergonha por curiosidade | Observar cada episódio de “comer” como uma mensagem, não como um fracasso | Aliviar a culpa e tornar a mudança sustentável, sem uma guerra interior permanente. |
FAQ:
- A alimentação emocional é o mesmo que perturbação de compulsão alimentar? Nem sempre. Muitas pessoas comem por emoções sem cumprir os critérios clínicos de perturbação de compulsão alimentar, que envolve episódios mais graves, recorrentes e com sofrimento associado. Se te sentes frequentemente sem controlo à volta da comida, falar com o médico de família ou com um terapeuta é um bom próximo passo.
- Devo cortar completamente os alimentos “gatilho”? Entrar a fundo na restrição pode sair pela culatra e tornar esses alimentos ainda mais “poderosos” na tua cabeça. Uma abordagem mais suave é mantê-los na tua vida de forma intencional, em momentos em que não estás em crise emocional, para perderem parte da carga de “proibidos”.
- Como sei se tenho fome física ou fome emocional? A fome física cresce gradualmente, sente-se no corpo (estômago, níveis de energia) e fica satisfeita com vários tipos de alimentos. A fome emocional é urgente, muitas vezes fixa-se em alimentos específicos e costuma aparecer de repente associada a certos estados de humor ou situações.
- A alimentação consciente (mindful eating) pode mesmo fazer diferença? Sim, mas só se for usada como ferramenta de consciência - não como mais uma regra para falhar. Até comer a “comida de conforto” devagar, reparando na textura e no sabor, pode ajudar-te a reconectar com o corpo em vez de desligar por completo.
- E se a minha família ou cultura gira à volta da comida? Não precisas de te afastar das refeições partilhadas para melhorares a tua relação com a comida. Foca-te em como te sentes antes e depois de comer, define pequenos limites quando conseguires, e lembra-te: tens o direito de apreciar comida e, ao mesmo tempo, trabalhar para não a usares como única saída emocional.
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