Saltar para o conteúdo

Como escolher o fogão a lenha certo? Veja cinco pontos importantes a considerar na compra.

Pessoa mede fogão a lenha com fita métrica, notas numa mão, lenha empilhada e chaleiras ao fundo.

O sorriso do vendedor não se mexeu quando o casal perguntou o preço.

O recuperador à frente deles brilhava por trás do vidro: chamas falsas em loop num ecrã, enquanto o frio verdadeiro se infiltrava por baixo da porta da loja. Lá fora, as pessoas apressavam-se com casacos e gorros. Cá dentro, tentavam decidir se aquela caixa de metal preto estava prestes a engolir três meses de poupanças… ou finalmente tornar o inverno suportável.

Na parede, dez modelos alinhavam-se como carros em miniatura: modernos, rústicos, pequenos, gigantes. Cada um com uma etiqueta brilhante, um número de quilowatts, uma promessa de “eco” e de “alta eficiência”.

O marido murmurou: “Só não quero errar nisto.”

O vendedor começou a despejar termos técnicos a grande velocidade: potência, tiragem, combustão limpa, Ecodesign, distâncias de segurança a materiais combustíveis. Os olhos da mulher desviaram-se para a foto de uma família junto a um fogo a crepitar. Aconchegante. Perfeito. Irreal.

Algures entre a fantasia e o orçamento, a escolha verdadeira está escondida.

1. Acerte no tamanho e na potência (ou o sonho vira sauna)

Todos os invernos, milhares de pessoas compram recuperadores simplesmente potentes demais para a sala. O instinto é compreensível: fogo maior, mais calor, mais segurança. O resultado é um espaço que parece uma estufa em janeiro. Janelas entreabertas “só um bocadinho”, enquanto os troncos ardem a meia carga e o vidro fica preto.

Um recuperador a lenha não é um ecrã de lareira. É uma máquina com uma potência específica - e essa potência tem de corresponder à sua divisão. Se o seu espaço é pequeno, aquela unidade dramática de 12 kW vai ser um pesadelo. Um modelo modesto de 4–5 kW, bem escolhido, consegue aquecer a divisão e os ossos sem lhe cozinhar o cérebro.

Escolha mal a potência e vai andar a lutar contra o recuperador, em vez de o desfrutar.

Um instalador nas Midlands contou-me o caso de um cliente com uma sala de 25 m² que insistiu em “algo impressionante”. Saiu da loja com um monstro de 10 kW pensado para conversões de celeiros. No primeiro inverno, usou-o três noites por semana e passou essas noites descalço e de t-shirt, com a porta do pátio aberta e o ar gelado a entrar.

Ligou em fevereiro para reclamar que o recuperador era “demasiado quente e gasta demasiada lenha”. O problema não era a marca. Era o desajuste entre a máquina e a divisão. O instalador acabou por trocá-lo por uma unidade de 5 kW. Mesma casa, mesma chaminé, metade da potência. De repente, a sala voltou a parecer um espaço acolhedor em vez de uma sauna.

Histórias destas repetem-se em todas as regiões, discretamente escondidas por trás de fotos de fogo perfeitas no Instagram.

Há um ponto de partida simples: cerca de 1 kW de potência térmica por cada 10 m³ de volume, se a casa estiver razoavelmente isolada. Assim, uma divisão de 4 m × 5 m com 2,4 m de pé-direito tem cerca de 48 m³. Isso sugere algo como 4–5 kW. Depois ajusta-se à realidade. Casa antiga de pedra, com correntes de ar e vidros simples? Vai precisar de mais. Construção recente, janelas estanques e bom isolamento? Um pouco menos.

Pense em como vive de facto. Quer aquecer apenas uma divisão, ou “tirar o frio” a todo o rés-do-chão? No inverno, mantém portas abertas ou fechadas? Um recuperador ligeiramente subdimensionado costuma ser mais agradável do que um demasiado grande. Pode sempre vestir uma camisola. Não dá para baixar um fogo a lenha até zero.

2. Para lá das chamas: eficiência, normas e a sua chaminé

O espetáculo das chamas vende o recuperador, mas são os números por trás dele que fazem (ou desfazem) a relação. Os recuperadores modernos são muito mais eficientes do que as lareiras abertas com que muitos crescemos. Um bom recuperador fechado pode chegar aos 75–85% de eficiência. Isso significa que a maior parte do calor fica em casa, em vez de desaparecer pela chaminé.

No Reino Unido, modelos Ecodesign-ready e com classificação clearSkies estão a tornar-se norma. Estas etiquetas não são apenas autocolantes “verdes”; indicam que o recuperador foi testado em emissões e desempenho. Um recuperador de alta eficiência queima mais limpo, consome menos lenha e deixa menos fuligem na chaminé. Ao longo dos anos, isso é dinheiro e aborrecimentos poupados.

A melhor chama não é a mais alta. É a mais limpa e controlada.

Um inquérito partilhado por vários retalhistas em 2023 trouxe um detalhe revelador: muitos compradores ainda decidem sobretudo pelo aspeto. Um dono de showroom em Londres admitiu que cerca de 70% dos clientes “entram a apontar para o recuperador mais bonito e só depois perguntam o que é que ele faz”. É humano. Somos atraídos por vidros grandes e linhas elegantes.

Mas pergunte aos instaladores onde começam os problemas e eles falarão das partes invisíveis: chaminés antigas nunca entubadas, condutas demasiado estreitas ou demasiado largas, curvas na tubagem, chapéus mal colocados. Um recuperador estiloso numa conduta fraca é como um carro desportivo preso em primeira. Vai fumar, vai emburrar e vai fazê-lo praguejar em noites frias.

Um casal reformado em Yorkshire comprou um modelo escandinavo topo de gama, mas manteve a chaminé dos anos 50 “tal como está” para poupar. Dois invernos depois, após episódios repetidos de fumo e uma visita tensa do limpa-chaminés, acabaram por ter de entubar na mesma. Pagaram duas vezes. Não por luxo - apenas para pôr a coisa a funcionar como deve ser.

Pense no recuperador e na chaminé como um sistema único. O recuperador queima combustível; a chaminé cria a sucção (tiragem) que mantém o ar a circular e o fumo a sair. Se a conduta for demasiado grande, os gases arrefecem e abrandam. Se for demasiado pequena, o recuperador “não respira”. Uma conduta entubada e isolada costuma significar acendimento mais fiável, menos condensação e vidro mais limpo.

Peça a eficiência sazonal do recuperador (não apenas o valor máximo do folheto). Verifique a classificação de emissões. Pergunte, sem rodeios, se o modelo é adequado ao seu tipo de casa e à chaminé existente. Um bom instalador vai falar de altura da chaminé, árvores e telhados próximos e até ventos dominantes.

Essa conversa técnica pode parecer aborrecida na loja. É ela que decide se acende o recuperador em três minutos… ou se fica ali a praguejar no meio de uma nuvem de fumo.

3. As cinco coisas a ter em conta antes de comprar

A forma prática de evitar uma má decisão é abrandar e passar por cinco perguntas básicas. Primeira: o seu objetivo real de aquecimento. O recuperador vai ser a fonte principal de calor, um backup, ou um “ambiente” para as noites? A resposta muda tudo - do tamanho ao tipo de combustível.

Segunda: a sua casa. Não a casa ideal na sua cabeça - a casa onde vive. Idade, isolamento, tamanho das janelas, planta. Uma moradia em banda vitoriana com correntes de ar comporta-se de forma diferente de uma casa nova compacta ou de um celeiro convertido em open space. Terceira: a chaminé/conduta. Tem uma? Precisa de entubamento? Vai precisar de um sistema de dupla parede a atravessar uma parede ou o telhado?

Quarta: o seu estilo de vida com lenha. Está disposto a empilhar toros, verificar humidade e limpar cinzas? Quinta: o seu orçamento a 10 anos - não apenas o preço de compra. O recuperador mais barato pode sair mais caro no longo prazo se gastar muita lenha e exigir atenção constante.

Uma família que conheci em Devon resumiu isto ao chá. Tinham entrado “só para um fogo acolhedor ao fim da tarde”. Realidade: zona rural, cortes de energia frequentes, caldeira a gasóleo perto do fim. Após conversa com um instalador honesto, reformularam o pedido. Escolheram um recuperador multi-combustível um pouco mais robusto, de 6 kW, com opção de serpentina/“back-boiler” para adicionar mais tarde.

Nesse inverno, uma tempestade deixou-os dois dias sem eletricidade. Enquanto os vizinhos tremiam, eles fizeram sopa em cima do recuperador e secaram meias numa cadeira puxada para perto. A mulher riu-se, dizendo que o recuperador passou de “extra agradável” a plano de emergência não oficial.

É isso que acontece com recuperadores a lenha. Não está apenas a comprar uma chama bonita. Está a comprar uma pequena e teimosa fatia de independência.

Vamos destrinçar esses cinco pontos com a cabeça mais fria:

  1. Objetivo de aquecimento: escreva literalmente uma frase num papel. “Queremos que este recuperador…” aqueça o rés-do-chão; torne a sala melhor à noite; nos mantenha quentes em apagões. Essa linha impede-o de se perder no brilho do showroom.
  2. Casa e divisão: meça. Comprimento, largura, altura. Repare em janelas e portas. Há escadas abertas para a divisão? A divisão está fechada?
  3. Chaminé/conduta: tire fotos por dentro e por fora. Anote manchas de humidade, curvas estranhas, ventilação antiga.
  4. Estilo de vida: seja honesto sobre a frequência de uso. Todas as noites desde outubro, ou só aos domingos quando há visitas?
  5. Orçamento de longo prazo: inclua instalação, entubamento, base/placa de proteção, validação/inspeção, primeira entrega de lenha, acessórios e limpeza anual da chaminé. Depois compare dois ou três modelos ao longo de cinco ou dez anos de consumo provável de lenha. Muitas vezes, o recuperador eficiente “caro” sai mais barato do que o modelo “pechincha”. Os números são aborrecidos; dedos dos pés gelados são piores.

4. Design, uso diário e os pequenos detalhes de que ninguém fala

Depois de fixar potência e desempenho, volta a parte divertida: como o recuperador se encaixa na sua vida e na sua sala. A altura importa. Um recuperador baixo e atarracado fica lindamente numa lareira antiga, mas numa sala moderna pode querer o fogo um pouco mais alto, quase ao nível dos olhos a partir do sofá. Isso muda a frequência com que fica a olhar para as chamas… que, no fundo, é parte do objetivo.

O tipo de porta muda o ritmo do dia a dia. Uma porta de carregamento lateral facilita colocar toros mais compridos. Um vidro frontal grande dá um efeito “cinema”, mas também mostra cada ponto de fuligem. Pegas, controlos de ar, formato do cinzeiro: estes detalhes decidem se usar o recuperador é um pequeno prazer ou uma pequena maçada.

Pense onde vai ficar o cesto da lenha. Onde acabam as botas molhadas. Onde estarão crianças ou animais em relação ao metal quente.

Numa terça-feira chuvosa de fevereiro, todo o romantismo desaparece se o recuperador for pouco prático. Um proprietário disse-me que adorava o seu modelo de designer… até perceber que o cursor de controlo do ar estava tão baixo que tinha de se ajoelhar na base sempre que o ajustava. “Fica incrível nas fotos”, disse. “É menos incrível quando os joelhos doem.”

Raramente falamos de cinza. E, no entanto, a cinza é o que vai gerir todos os dias. Com que frequência vai esvaziá-la? O recuperador tem cinzeiro integrado para levar para fora, ou tem de escavar? Dá para abrir a porta sem levantar uma nuvem de pó? É este tipo de detalhe que separa uma peça de exposição de um companheiro de longo prazo.

Sejamos honestos: ninguém faz isto religiosamente todos os dias, mas pense com que frequência vai, de forma realista, limpar o vidro, varrer à volta da base ou transportar lenha do anexo. Um recuperador que perdoa alguma preguiça vale ouro.

“Um bom recuperador é como um bom par de botas”, disse-me um instalador. “Só percebe que escolheu mal depois de passar um inverno a sério com ele.”

Para tornar a escolha menos abstrata, aqui fica uma lista mental rápida que muitos proprietários experientes gostariam de ter tido no início:

  • Consigo carregar lenha sem me dobrar de forma estranha ou queimar o pulso no aro da porta?
  • Os controlos são fáceis de perceber com pouca luz, numa manhã fria?
  • O vidro mantém-se razoavelmente limpo se eu usar lenha bem seca?
  • Há espaço à volta do recuperador para secar luvas, guardar lenha e circular em segurança?
  • Este modelo continua a fazer sentido se as minhas necessidades de aquecimento mudarem ligeiramente daqui a cinco anos?

5. Viver com um recuperador: lenha, regras e as histórias que vai contar

Depois de instalado e aprovado, começa a relação a sério. Aprende a personalidade da sua câmara de combustão: como acende, como reage a diferentes toros, onde gosta de ter ar. O primeiro fogo perfeito - vidro limpo e um brilho laranja profundo - sabe a pequena vitória contra a estação.

Depois vem a parte menos glamorosa: empilhar lenha, verificar humidade (20% ou menos é o ideal), perceber que “lenha seca” pode ser uma mentira educada. As novas regras no Reino Unido sobre controlo de fumo e combustível “Ready to Burn” significam que não pode queimar qualquer coisa do jardim. A resinosas acendem rápido, mas desaparecem depressa. As folhosas duram mais, mas exigem paciência e bom armazenamento.

Todos conhecemos o momento em que chega a primeira geada e percebe que o lenheiro está meio vazio.

Um casal jovem numa aldeia do País de Gales contou-me que o recuperador reestruturou as noites deles, discretamente. Em vez de cada um fazer scroll em divisões diferentes, começaram a convergir para a sala “só para acender um fogo rápido”. Os fogos rápidos viraram conversas longas, leituras silenciosas, às vezes discussões, às vezes silêncio.

Passaram a comprar lenha em quantidade uma vez por ano, empilhando-a juntos num sábado chuvoso, discutindo alegremente qual era a forma “certa” de fazer uma pilha. O recuperador não lhes arranjou a vida. Mas deu-lhes um ritual. Esse ritual, repetido nos meses escuros, mudou o humor do inverno naquela casa.

Há ainda a camada legal e de segurança: regulamentos de construção, dimensões da base, distâncias a vigas, alarmes de monóxido de carbono. Nada disto é romântico. Tudo isto importa quando está a dormir no andar de cima com um fogo aceso no andar de baixo.

Pense na manutenção como parte da história, e não como um fardo. A limpeza anual da chaminé torna-se um pequeno marco sazonal, como guardar a roupa de verão. Uma verificação visual ocasional às vedações (cordão), à placa defletora e aos tijolos refratários evita que pequenos problemas cresçam. Fale com o instalador, guarde o contacto e não tenha vergonha de ligar se algo parecer estranho.

Não está apenas a comprar calor. Está a convidar uma chama controlada para dentro de casa - com todo o conforto e responsabilidade que isso traz. O recuperador certo é aquele com que se sente bem a viver na noite mais fria do ano, quando o vento uiva, as luzes tremeluzem, e aquele pequeno quadrado de fogo em movimento se torna a coisa mais tranquilizadora na divisão.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Ajustar a potência Escolher um recuperador em kW em função do volume real da divisão e do isolamento Evitar sobreaquecimento, desperdício de lenha e desconforto
Pensar em “sistema” Considerar em conjunto recuperador, conduta, tiragem e qualidade da lenha Reduzir fumo, avarias e custos de instalação escondidos
Projetar a vida real Imaginar o uso diário: manuseamento, armazenamento e manutenção Escolher um recuperador que se integra de facto no seu ritmo de vida

FAQ

  • De quantos kW preciso realmente para a minha sala?
    Como ponto de partida, conte com cerca de 1 kW por cada 10 m³ de volume e depois ajuste em função do isolamento e da temperatura que prefere. Uma sala média costuma ficar na faixa dos 4–6 kW.
  • Tenho mesmo de entubar a chaminé?
    Nem sempre por lei, mas em muitas casas antigas um tubo/liner melhora muito a tiragem, a segurança e a eficiência. Só uma inspeção profissional permite saber com certeza.
  • Um recuperador multi-combustível é melhor do que um só para lenha?
    Não necessariamente. Os modelos só a lenha costumam ser mais simples e muito eficientes com toros. O multi-combustível dá flexibilidade, mas pode implicar mais componentes e mais escolhas.
  • Posso instalar um recuperador a lenha eu próprio?
    Existem kits “faça você mesmo”, mas regras, seguro e segurança tornam a instalação profissional fortemente recomendada. Um instalador certificado também trata da inspeção/validação e da documentação.
  • Que tipo de lenha devo queimar para melhores resultados?
    Lenha de folhosas bem seca (como freixo, faia ou carvalho), com humidade abaixo de 20%. Lenha seca em estufa ou certificada “Ready to Burn” reduz fumo, fuligem e escurecimento do vidro.

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário