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Como é que a Decathlon conseguiu pôr tanta tecnologia num smartwatch de 75€? Testei o Fit 100.

Mãos seguram um smartwatch com ecrã de círculo colorido, ao lado de um smartphone e uma toalha numa mesa de madeira.

O que a Decathlon está realmente a vender com o Fit 100

O Fit 100 é o smartwatch “de entrada” desenvolvido pela Decathlon, por 69,99 €. Fica abaixo dos modelos GPS mais avançados da marca (co-desenvolvidos com a Coros) e aponta a quem quer métricas de saúde, passos, treinos e notificações sem entrar no preço de um Apple Watch.

No essencial, a proposta é esta: ecrã AMOLED grande + GPS + sensores de saúde + autonomia “de semana”, aceitando limites típicos de um produto económico (software fechado e alguma variabilidade na precisão).

Especificações-chave (o que importa no dia a dia)

  • Ecrã AMOLED de 1,97" (390 × 450)
  • Peso: 90 g com bracelete
  • Autonomia: até 7 dias (uso normal) / ~8 h com GPS
  • Sensores: GPS multi-GNSS, FC ótica, SpO2, acelerómetro, bússola, sono e stress
  • Resistência à água: 5 ATM
  • Desporto: 14 modos no relógio, ~50 via app
  • Compatibilidade: Android 8.0+ e iOS 12.0+
  • Conectividade: Bluetooth
  • Tamanhos: S e M

Um design familiar que não finge o contrário

O Fit 100 segue a fórmula “retangular com coroa” que muita gente já reconhece. A caixa é de plástico com acabamento a imitar alumínio: não tem a sensação de metal e, se procurar, nota-se a linha de junção entre peças - nada de inesperado neste preço.

A bracelete em TPU cumpre, mas é simples. O ponto positivo é ter pinos de libertação rápida, o que facilita trocar por uma alternativa (por conforto, alergias, ou só estética) sem ferramentas.

Com 90 g, é mais pesado do que muitas smartbands e alguns relógios de fitness, mas continua confortável; dormir com ele é viável para quem quer registar o sono.

A certificação 5 ATM é adequada para chuva, treinos, piscina e natação. Regra prática: 5 ATM não significa “tudo vale” - duches quentes, sauna e vapor podem degradar vedações, e não é equipamento para mergulho.

Um ecrã AMOLED que faz os relógios baratos parecerem datados

O AMOLED de 1,97" é o grande trunfo: cores vivas, pretos profundos e boa legibilidade com muitos campos no ecrã. A resolução chega e sobra para texto e ícones nítidos, sem “serrilhado” óbvio.

Ao ar livre, o brilho aguenta bem e, em corrida com sol, dá para ler sem estar sempre a forçar o gesto de rodar o pulso (não é dos mais brilhantes do mercado, mas não fica a pedir desculpa).

Há modo always-on (ecrã sempre ligado). O custo é previsível: a autonomia cai aproximadamente para metade. Se a prioridade é “carregar pouco”, é uma opção para deixar desligada.

Software simples que evita deliberadamente a complexidade

A navegação mistura toque e coroa: deslizes para notificações e atalhos, laterais para widgets (passos, FC, meteorologia) e coroa para apps/voltar ao mostrador. É rápido e fácil de aprender.

O sistema é proprietário (não é Wear OS). A vantagem é a consistência e leveza; a desvantagem é estrutural: não há apps de terceiros. Ou seja, este relógio vive do que a Decathlon decidiu pôr cá dentro - e do ritmo de atualizações que vierem depois.

Na prática, é um relógio para treino + métricas de saúde + notificações. Se procura “mini-telemóvel no pulso”, não é esta a proposta.

Decathlon Hub: a app que o mantém coeso

A app Decathlon Hub é onde tudo ganha contexto: configura perfis, escolhe ecrãs de dados e vê histórico. O visual é limpo e direto, embora menos polido do que plataformas como Garmin Connect ou Apple Health.

O essencial está presente:

  • Sincronização automática de treinos para o Strava
  • Até ~50 perfis desportivos configuráveis
  • Ecrãs de dados por desporto
  • Tendências básicas de sono e stress

Nota prática: a sincronização pode demorar em treinos mais longos. O lado positivo é que iniciar atividade no relógio costuma ser rápido - e isso é o que mais interessa antes de começar a mexer.

Monitorização desportiva: lista forte de funções, precisão irregular

Vem com 14 modos no relógio (corrida, ciclismo, caminhada, força, natação em piscina e águas abertas, remo, passadeira, trilhos, etc.). Na app, dá para “multiplicar” perfis até ~50, mas muitos diferem mais no rótulo do que nas métricas.

Durante o treino, pode ver tempo, distância, ritmo/velocidade, frequência cardíaca, calorias e outros campos - e personalizar o que aparece. Para corrida, isto ajuda a pôr “ritmo” e “voltas” em destaque; no ginásio, a dar prioridade à duração e FC.

O GPS multi-GNSS costuma fixar rápido (bom para quem treina em pausas curtas). O problema é a consistência: houve um caso muito divulgado em corrida medida de 20 km em que o relógio registou ~17,8 km (erro ~11%), aparentemente por falha do GPS e estimativa via movimento/passos. Isso é mais “bug” do que comportamento normal, mas é um alerta para um produto ainda jovem.

Regra prática: em relógios de entrada, 1–3% de variação em percursos comuns é algo que aparece com frequência (num 10 km, pode ser 100–300 m). Para provas oficiais, a distância “certa” é a medida do percurso, não o seu relógio - e convém validar o Fit 100 em 2–3 percursos conhecidos antes de confiar em ritmos e parciais.

Como a Decathlon testa realmente um smartwatch de 70 €

A Decathlon descreve uma abordagem em duas frentes:

  • Laboratório: durabilidade e envelhecimento (impermeabilização, ciclos de botões, UV, temperaturas extremas, tração da bracelete).
  • Campo: uso real com equipas internas e testadores externos (GPS, frequência cardíaca, natação).

Isto ajuda a filtrar falhas óbvias de hardware, mas não elimina casos-limite de firmware (como um GPS que falha em condições específicas). Para o utilizador, a parte prática é simples: manter o relógio atualizado e, se notar desvios grandes, testar novamente antes de usar os dados para decisões de treino.

Frequência cardíaca, sono e stress: suficiente para a maioria

A frequência cardíaca ótica em uso contínuo funciona de forma convincente em repouso e esforços estáveis (caminhada, corrida fácil, ciclismo leve). Em intervalos e mudanças bruscas de ritmo, é comum aparecer atraso nos picos e alguma “suavização” - típico de sensores no pulso neste segmento.

Dica rápida que melhora leituras: usar o relógio um pouco acima do osso do pulso e bem ajustado (sem cortar a circulação). Frio, tatuagens e muito movimento do braço podem piorar a estabilidade.

A SpO2 é útil como indicador de bem-estar e tendência, mas não deve ser tratada como medição clínica (nem para autochecks médicos). Se der valores estranhos, o mais sensato é repetir em repouso e não tirar conclusões com base numa leitura isolada.

O sono é automático e acerta, em geral, nas horas de deitar/levantar. As fases (leve/profundo/REM) são estimativas: boas para comparação ao longo do tempo, fracas para certezas noite a noite.

O stress deriva da variabilidade da frequência cardíaca e aparece como uma curva diária, com sugestões de respiração quando sobe. Serve mais como “alarme para abrandar” do que como diagnóstico.

Funções “smart”: só o essencial passou no corte

Aqui o Fit 100 é conservador: notificações (chamadas, SMS, apps) e chamadas por Bluetooth com o telemóvel por perto. Para chamadas rápidas, a qualidade costuma ser suficiente.

O que não existe ajuda a explicar o preço:

  • Sem NFC (sem pagamentos no pulso)
  • Sem música offline e sem apps de streaming
  • Sem assistente de voz
  • Sem loja de apps (plataforma fechada)

Na prática, comporta-se mais como um relógio de fitness com ecrã excelente e “smart básico” do que como um smartwatch completo.

Autonomia que compete com dispositivos muito mais caros

A promessa de “até 7 dias” faz sentido com uso normal (monitorização contínua, notificações e alguns treinos por semana) e sem always-on. Na prática, 6–7 dias são realistas nesse cenário.

Com always-on, cai para ~3–4 dias. Em GPS contínuo, ~8 horas: chega para a maioria das corridas longas e até uma maratona, mas não é feito para eventos de ultra-distância ou fins de semana inteiros em trilho.

O carregamento é por cabo magnético proprietário e demora cerca de 2 horas. Não é rápido, mas também não é algo que vá fazer todos os dias.

Onde o Fit 100 se encaixa na estratégia de longo prazo da Decathlon

A Decathlon tende a usar a numeração como “escada”: 100 (entrada), 500 (intermédio), 900 (avançado). O Fit 100 parece ser o primeiro degrau de uma linha, não um produto isolado.

Isto importa porque define expectativas: este modelo não tenta “ter tudo”. É plausível que uma versão 500 venha a apostar em GPS mais robusto e que uma 900 aproxime a experiência dos relógios orientados a endurance (onde a fiabilidade dos dados pesa mais do que o brilho do ecrã).

Como saber se o Fit 100 chega para si

Faz sentido se quer: mexer mais, contar passos, registar corridas ocasionais, acompanhar sono/stress e reduzir o tempo no telemóvel - com um ecrã muito agradável e sem gastar muito.

Também serve para quem está a começar nos 5 km/10 km e quer motivação visual (volume semanal, evolução do ritmo em treinos semelhantes, tendência da FC em esforços fáceis). Aqui, “bom o suficiente” costuma mesmo ser bom.

Já para quem segue planos estruturados por ritmo e zonas, faz séries e precisa de parciais fiáveis, as oscilações de GPS e a resposta do sensor no pulso podem atrapalhar. Nesses casos, um relógio com plataforma mais madura (e, idealmente, suporte a cinta peitoral) tende a ser investimento mais seguro.

Alguns termos e compromissos que vale a pena perceber

Multi-GNSS significa que o relógio pode usar vários sistemas de satélites (incluindo Galileo, relevante na Europa), o que ajuda na cobertura e na rapidez de fixação, sobretudo em cidade e zonas com árvores.

GPS de frequência única quer dizer que só usa uma banda. Em ambientes difíceis (ruas estreitas, prédios altos, trilhos sinuosos), isso pode aumentar desvios por reflexos de sinal. Modelos de gama superior com dupla frequência tendem a desenhar rotas mais “limpas”, mas também custam bastante mais.

Quanto à frequência cardíaca ótica, vale lembrar o compromisso: é prática e cómoda, mas sensível a ajuste, pele, movimento e intensidade. Se treina por zonas com rigor (ex.: sessões-chave ou trabalho polarizado), uma cinta peitoral continua a ser a forma mais consistente de medir picos e transições rápidas.

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