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Como deixar de dizer “sim” a tudo (sem culpa)

Mulher a fazer gesto de stop enquanto estuda num caderno, com chá e telemóvel ao lado.

It usually starts with something tiny. “Podes só entrar nesta chamada rápida?” “Podes cobrir o meu turno?” “Não te importas de fazer a ata, pois não?” A tua boca sorri e diz “Sim, claro, sem problema” enquanto uma parte pequena e cansada de ti se afunda em silêncio. Fechas o portátil tarde, outra vez. Dizes que estás “bem”, outra vez. O teu fim de semana transforma-se em recados para outras pessoas, outra vez. O ressentimento chega devagar, como água a infiltrar-se por baixo de uma porta. Quando dás por isso, a alcatifa já está encharcada.

Se és a pessoa fiável, a prestável, a que “simplesmente resolve”, provavelmente dizes sim automaticamente. Dizes sim no trabalho porque tens medo de parecer difícil. Dizes sim em casa porque foste educado/a para ser simpático/a. Dizes sim aos amigos porque não queres ficar de fora. Mas há aquele pensamento silencioso e culpado que mal admites, nem a ti próprio/a: “Quando é a minha vez?”

E aqui está a reviravolta de que ninguém te avisa: dizer sim constantemente não é bondade, é um apagamento lento de ti próprio/a. A boa notícia é que podes parar. A notícia estranha é que, nas primeiras vezes, provavelmente vais sentir-te péssimo/a quando tentares.

A noite em que a palavra “sim” finalmente quebrou

Há um momento de que as pessoas que agradam a toda a gente raramente falam em voz alta. O meu aconteceu numa quarta-feira, às 22h37, sentado/a à mesa da cozinha, curvado/a sobre um portátil que estava a ferver debaixo dos meus pulsos. Tinha prometido “dar uma vista de olhos rápida” na apresentação de um colega, apesar de ter acabado de fazer um dia de dez horas e de os meus olhos parecerem ter sido esfregados com lixa. Ouvia os vizinhos a rir através das paredes finas, o tilintar de copos, um pouco de música a escapar-se. E eu ali, a corrigir gralhas de outra pessoa de borla, a sentir-me estranhamente perto das lágrimas por causa de um slide com o título “Previsões do 4.º Trimestre”.

Quando chegou o e-mail a perguntar se eu também podia “redigir alguns pontos de conversa”, senti qualquer coisa dentro de mim passar de esticar para partir. Não de forma ruidosa. Sem colapso dramático. Apenas um “eu não consigo continuar a fazer isto” cansado e plano, que me caiu no peito como uma pedra. É isso que acontece com o excesso de compromissos: por fora pareces capaz e eficiente; por dentro sentes-te esvaziado/a e um pouco invisível.

Todos já tivemos aquele momento em que alguém manda mensagem: “Podes fazer-me um favor enorme?” e o teu corpo inteiro diz “não”, enquanto os teus polegares te traem com um “sim, claro!”. É esse o aperto que a culpa tem sobre nós. Faz-nos ignorar os nossos limites e depois castiga-nos por nos sentirmos zangados/as. Quando reparas nesse ciclo, já não o consegues deixar de ver - e é aí que a mudança começa, silenciosamente.

Porque é que “sim” parece mais seguro do que “não”

Se tens dificuldade em dizer não, normalmente há uma história por trás. Talvez tenhas crescido numa casa onde dizer não era rotulado de “egoísta” ou “ingrato/a”. Talvez sejas o/a filho/a mais velho/a que ajudava sempre, o/a amigo/a que resolvia tudo, o/a trabalhador/a que compensava as falhas dos outros. Algures pelo caminho, aprendeste que o teu valor vinha de seres útil. Dizer sim tornou-se a tua forma de garantires amor, estabilidade ou, pelo menos, de não levares uma reprimenda.

Em adulto/a, carregas esse treino para os escritórios, os grupos de chat e as relações amorosas. Aceitas trabalho extra para seres visto/a como “jogador/a de equipa”. Ofereces-te para favores porque tens medo de parecer frio/a. Esticas-te socialmente e depois mentes, dizendo que estás “ocupado/a”, quando acabas por desmarcar, porque admitir “estou exausto/a e preciso de ficar em casa sozinho/a” parece, de alguma forma, vergonhoso. O medo de sermos rejeitados/as ou mal interpretados/as vai, discretamente, comandando tudo.

Sejamos honestos: ninguém se consulta realmente antes de cada compromisso e pergunta: “Isto está alinhado com os meus valores mais profundos?” A maior parte de nós está a improvisar. Dizemos sim em piloto automático porque o pequeno desconforto do não parece mais aterrador do que a enorme exaustão do sim. É como escolher uma bolha familiar em vez do desconhecido de andar descalço/a.

O benefício escondido de dar demais

Há também uma pequena injeção de ego em dizer sempre sim. És a pessoa fiável, o/a salvador/a, aquela que “nunca deixa ninguém ficar mal”. As pessoas recorrem a ti primeiro. Elogiam-te por seres tão generoso/a, tão capaz. Esse elogio pode ser estranhamente viciante, sobretudo se não estás a receber validação noutras áreas da tua vida. Começas a pensar: “Quem sou eu, se não for a pessoa que ajuda?”

Aqui está a parte que dói: às vezes continuamos a dizer sim porque gostamos da identidade que isso nos dá, mesmo quando isso nos drena em silêncio. Parece nobre, até um pouco heróico, ultrapassar limites “pelos outros”. Mas, no fundo, sabes que há qualquer coisa errada. A verdadeira generosidade não te deixa secretamente ressentido/a e a fantasiar com mudar para uma cabana no meio do bosque onde ninguém te possa pedir nada, nunca mais.

Como a culpa te engana (e porque não é prova de que estás errado/a)

A primeira vez que dizes não a algo que normalmente aceitarias, o teu corpo pode reagir como se tivesses cometido um crime. Mãos suadas, coração acelerado, um calor estranho no peito. A culpa aparece como um segurança demasiado zeloso: “O que é que fizeste? Vão ficar chateados. Vão achar que és egoísta. Resolve isto. Diz sim outra vez. Vá.” Essa onda de desconforto muitas vezes basta para te fazer correr de volta aos velhos hábitos.

Aqui vai a verdade desconfortável: a culpa não é uma bússola moral fiável. É mais como um alarme de incêndio ligado às regras da tua infância. Dispara não quando estás a fazer algo errado, mas quando estás a fazer algo diferente. Podes sentir culpa por descansar, por pedires para ser pago/a de forma justa, por não responderes imediatamente a uma mensagem, por escolheres as tuas necessidades em vez da conveniência de alguém. Nada disso está, de facto, errado.

Reenquadrar a culpa como dores de crescimento

Quando começas a dizer não, a culpa não é sinal de que estás a ser horrível; é sinal de que estás a reprogramar padrões antigos. Imagina que passaste anos a andar curvado/a e, um dia, começas a tentar endireitar-te. Os músculos doem. Parece estranho. Tens vontade de voltar a encolher-te porque, ao menos, isso é familiar. Essa dor não significa que estar direito/a é mau; significa que o teu corpo se está a adaptar.

O mesmo acontece com os limites. Os primeiros meses a praticar o “não” vão parecer desconfortáveis, egoístas e dramáticos - mesmo quando estás a ser perfeitamente razoável. O teu trabalho não é eliminar a culpa instantaneamente. O teu trabalho é notá-la, respirar através dela e ainda assim honrar o não que querias dizer. Com o tempo, o alarme baixa. Começas a confiar mais em ti do que no ruído da tua cabeça.

Fortalecer o teu músculo do “não” em momentos de baixo risco

Deixar o hábito de dizer sim a tudo não começa pelas coisas maiores. Se tentares passar de “faço tudo por toda a gente” para “recuso todos os favores” de um dia para o outro, vais assustar-te a ti próprio/a e, provavelmente, a toda a gente à tua volta. O truque é praticar em momentos pequenos, aborrecidos e de baixo risco, onde o risco emocional é mínimo. É aí que fortaleces o músculo do “não” sem sentires que estás a rebentar com a tua vida.

Diz não quando a caixa do supermercado pergunta se queres um cartão de fidelização que nunca vais usar. Diz não quando um colega pergunta se podes “só um instantinho” ver uma coisa, quando estás claramente a fechar o portátil para ir embora. Diz não quando um amigo sugere um plano na única noite em que finalmente estás livre e preferias ficar em casa a comer torradas de pijama. Isto não são emergências morais. São repetições de treino.

Frases simples que te salvam a sanidade

Se a palavra “não” te parecer demasiado brusca, embrulha-a um pouco. Frases curtas e neutras são as tuas melhores amigas: “Esta semana não consigo.” “Isso não dá para mim.” “Neste momento estou no limite.” “Desta vez vou ter de passar.” Não deves explicações longas nem histórias elaboradas. Explicações longas convidam a negociações; frases curtas criam um limite nítido.

Nas primeiras vezes em que essas palavras te saírem da boca, podes pedir desculpa a mais ou apressar-te a preencher o silêncio. Tenta parar depois da frase e deixar a pausa ficar no ar. Respira devagar. Ouve o som da tua própria calma. A maioria das pessoas não vai reagir tão mal como temes. Muitas vão apenas dizer “Sem problema” e seguir em frente - o que é humilhante e libertador ao mesmo tempo.

Fazer as pazes com desiludir pessoas

A parte mais dolorosa de parar com o sim automático não é aprender o que dizer. É aceitar que algumas pessoas vão ficar desiludidas e deixar que isso seja o sentimento delas, não a tua emergência. Se sempre foste a pessoa que larga tudo, algumas pessoas construíram, silenciosamente, o seu conforto à volta disso. Quando mudas, o conforto delas é perturbado. Podem chamar-te “diferente”, “distante”, “egoísta”. Vais querer correr a corrigir isso. Não corras.

Desiludir os outros é inevitável se queres uma vida que realmente pareça tua. Vais faltar a alguns eventos. Vais recusar convites. Vais dizer não a “oportunidades” que, na verdade, são trabalho não pago disfarçado. Algumas pessoas vão respeitar a tua honestidade; outras vão amuar. A reação delas não significa automaticamente que fizeste algo errado. Às vezes, apenas revela quem só te valorizava quando davas demais.

Pensa nas pessoas que amas de verdade. Gostarias que elas dissessem sim a tudo até estarem em burnout, irritadiças e secretamente miseráveis? Provavelmente não. Estranho, então, que raramente nos ofereçamos a nós próprios a mesma compaixão. Um limite tranquilo e firme não é um ataque. É uma forma de dizer: “Quero continuar na tua vida a longo prazo, por isso não posso continuar a esgotar-me para conforto de curto prazo.”

Redesenhar o teu padrão: do “sim” automático para a escolha consciente

O oposto de dizer sim a tudo não é dizer não a tudo. É fazer uma pausa. É substituir o reflexo por um pequeno espaço para perguntar: “Eu quero mesmo, ou tenho mesmo capacidade, para fazer isto?” Esse espaço pode ser tão simples como uma frase pronta: “Deixa-me ver e eu digo-te”, ou “Preciso de olhar para a minha semana primeiro.” Ias ficar surpreendido/a com a quantidade de obrigações que evaporam quando não és pressionado/a a responder na hora.

Nessa pausa, observa o teu corpo. Os ombros ficam tensos? O estômago afunda? Sentes uma pequena onda de medo ou uma faísca de entusiasmo? A tua reação física costuma ser mais honesta do que a história na tua cabeça. Se tudo em ti se contrai, isso é informação. Nem sempre tens de obedecer, mas é sensato escutar.

Escolher os teus “sins” de propósito

Nem todo o sim é mau. Alguns sins dão-te vida. O café com um amigo que te deixa mais leve. O projeto que estica as tuas competências de um modo desafiante mas energizante. O fim de semana a ajudar a tua irmã a mudar de casa porque queres mesmo estar presente por ela, e não porque tens medo que ela fique zangada se não fores. Esses são os sins que fazem crescer a tua vida, em vez de a encolher.

Uma pergunta simples pode cortar muito ruído: “Se eu disser sim a isto, a que é que estou a dizer não?” Talvez estejas a dizer não ao sono, ao tempo com o teu companheiro/a, ao teu trabalho criativo, a uma noite em que o teu cérebro não esteja cheio das necessidades de outras pessoas. Quando vês claramente a troca, a escolha deixa de ser “Sou egoísta?” e passa a ser “O que é que eu valorizo hoje?” É um lugar muito mais sensato de onde decidir.

Viver com a versão de ti que às vezes diz não

Quando começas a mudar a forma como respondes a pedidos, as tuas relações externas mudam. A mudança mais surpreendente acontece por dentro. Começas a conhecer uma versão de ti que não está apenas a aguentar tudo o que lhe atiram. Alguém que faz uma pausa. Alguém que escolhe. No início, essa pessoa pode parecer-te estranha, até antipática. Podes dar por ti a pensar: “Quem é que tu pensas que és?” sempre que recusas alguma coisa.

Com o tempo, porém, cresce um respeito silencioso. Reparas que estás menos ressentido/a no trabalho, porque as tarefas no teu prato foram aquelas a que disseste sim de olhos abertos. Reparas que até gostas mais de ajudar os amigos, porque já não estás a funcionar a vapores. Apanhas vislumbres de tempo livre que não é imediatamente engolido por “podes só…?” Esse tempo livre pode não parecer glamoroso. Pode ser apenas tu, no sofá, a ouvir o tiquetaque suave do radiador e a tua própria respiração, a sentir… ausência de pressa.

Não tens de te tornar um/a guru dos limites de um dia para o outro. Vais escorregar. Vais dizer sim quando querias dizer não. Vais comprometer-te em excesso e depois ter de recuar de forma embaraçosa. Isso não significa que falhaste; significa que és humano/a. Estás a reescrever um guião que está a correr há anos, e guiões não mudam numa semana.

A verdadeira mudança é mais silenciosa do que qualquer grande declaração. É esse movimento lento e constante de “tenho de manter toda a gente feliz a qualquer custo” para “as minhas necessidades contam tanto como as de qualquer outra pessoa”. É o dia em que ouves a palavra “egoísta” na tua cabeça e não lhe obedeces imediatamente. É quando dizes, calmamente: “Não, não consigo ajudar com isso”, e depois fazes uma chávena de chá, ficas a olhar pela janela sem grande coisa para ver, e sentes uma estranha e frágil sensação de alívio a lavar-te. É nesse momento que sabes: finalmente estás a aprender a parar de dizer sim a tudo, sem pedir desculpa por existir.

Porque, no fim, o “sim” mais poderoso que alguma vez vais dizer é aquele que, em silêncio, devolves à tua própria vida.

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