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Cientistas comportamentais descobriram que pessoas que andam mais rápido que a média têm indicadores psicológicos semelhantes em vários estudos.

Homem a correr na rua com um café na mão. Pessoas e ciclista ao fundo, flores à esquerda.

Notamo-los nas estações de comboio e nos centros das cidades. Enquanto a maioria das pessoas vai à deriva, meio a olhar para o telemóvel, alguns cortam a multidão com uma espécie de determinação silenciosa. Mala junto ao corpo, olhar fixo em frente, passos um pouco mais incisivos do que os de toda a gente. Não estão exatamente a correr, mas é evidente que seguem noutro andamento.

Às vezes parecem impacientes. Às vezes parecem absolutamente calmos, como se os pés simplesmente se recusassem a ficar parados.

Os cientistas do comportamento também os têm observado.
E aquilo que descobriram é estranhamente revelador.

O que a tua velocidade a andar diz, em silêncio, sobre a tua mente

A pessoa média caminha a cerca de 1,2 a 1,4 metros por segundo. Aqueles caminhantes rápidos que todos notamos? Muitas vezes seguem bem acima disso - e fazem-no de forma consistente, não apenas quando estão atrasados.

O que fascina os psicólogos é que este ritmo não é aleatório. Em grandes estudos populacionais, as pessoas que andam mais depressa do que a média tendem a partilhar traços mentais semelhantes. Pontuam mais alto em conscienciosidade, dizem sentir mais controlo sobre a própria vida e estão mais orientadas para objetivos do que para sensações.

O corpo move-se depressa, mas a verdadeira história está em como a mente está “configurada” em torno do tempo, do propósito e do valor próprio.

Um projeto famoso da Universidade de Hertfordshire observou milhares de pessoas em ruas comerciais movimentadas. Os investigadores mediram quanto tempo os peões demoravam a percorrer uma distância fixa e depois cruzaram esses dados com questionários de personalidade.

Vez após vez, surgia o mesmo padrão. Os caminhantes mais rápidos tinham maior probabilidade de se descreverem como organizados e focados no futuro. Também eram mais propensos a dizer que detestam perder tempo e que se sentem fisicamente inquietos quando são obrigados a esperar.

Noutro estudo longitudinal da Duke University, a velocidade a andar na meia-idade chegou mesmo a prever resultados décadas mais tarde: quem andava mais depressa tendia a relatar melhor saúde, melhor desempenho cognitivo e um sentido de agência mais forte nos 60 e 70 anos. Um comportamento simples, discretamente ligado a uma rede de indicadores psicológicos.

Então, o que se passa por detrás deste passo acelerado? Os cientistas do comportamento apontam para um conjunto de “definições” mentais.

Quem anda depressa costuma ter um relógio interno mais apurado, uma perceção mais forte de que o tempo é limitado e a crença de que as suas ações mudam, de facto, os resultados. Os psicólogos chamam a isto um “locus de controlo interno elevado”. Vê-se na forma como planeiam o dia, como reagem a atrasos, como falam do futuro.

Os passos rápidos não são apenas sobre estar ocupado. São a expressão física de uma mente calibrada para avançar, decidir e não permanecer demasiado tempo na incerteza.

Dentro da mentalidade de quem anda depressa: hábitos que podes mesmo “emprestar”

Se alguma vez tentaste igualar o ritmo de alguém que anda depressa, sentes logo. A postura endireita, os braços balançam um pouco mais, a mente muda para outra “mudança”.

Os investigadores do comportamento dizem que, por detrás desta rapidez natural, costuma estar um conjunto de hábitos pequenos mas firmes. Quem anda depressa tem mais probabilidade de organizar o dia em blocos, definir micro-prazos e decidir com antecedência quanto tempo algo “merece” no seu tempo e no seu espaço mental.

Um truque simples que muitas vezes partilham: começam a mexer-se antes de se sentirem totalmente prontos. O e-mail não está perfeito? Enviam. O plano não está impecável? Comprometem-se. O mesmo impulso que impede os pés de arrastar impede as decisões de emperrar.

Claro que há um reverso. Quem anda devagar não é “preguiçoso” por defeito, e muitas pessoas genuinamente bondosas, criativas e até muito bem-sucedidas andam a passo calmo. O contexto importa: dor crónica, depressão, ansiedade, pouco sono, ou simplesmente viver numa cultura menos apressada - tudo isto pode abrandar a passada.

A armadilha surge quando a lentidão vira deriva. Quando os dias se estendem sem estrutura, quando atravessas a cidade como se não houvesse nenhum lugar que valha a pena alcançar. Todos já passámos por isso: aquele momento em que os pés seguem a multidão e o cérebro fica enevoado.

Em média, quem anda depressa tem menos probabilidade de viver nesse estado de piloto automático. A velocidade reflete o hábito de perguntar: “Para onde vou e porquê?” - mesmo nos movimentos pequenos e banais.

Os cientistas do comportamento que estudam a “atitude perante o tempo” concluem que estes peões enérgicos costumam carregar uma mistura emocional específica: ligeira impaciência, baixa tolerância à ambiguidade e um sentido silencioso de responsabilidade pela própria trajetória.

Um investigador resumiu isto de uma forma que me ficou:

“As pessoas que andam mais depressa não estão apenas a ir a algum sítio. Tendem a acreditar que estão a ir a algum sítio que importa.”

Isto não significa que tenhas de te transformar num robô de marcha acelerada.

Mas essa mentalidade cria um kit de ferramentas prático que muitos de nós secretamente queremos. Eis o que costuma estar dentro dessa caixa invisível:

  • Horas de início e fim claras para as tarefas
  • Prioridades simples, por escrito, para o dia
  • Pouco drama com decisões pequenas
  • Auto-verificações regulares: “Isto é o melhor uso dos meus próximos 30 minutos?”
  • Tendência para a ação em vez da ruminação

Andar como alguém rápido, pensar como alguém gentil

Experimenta este pequeno exercício amanhã: escolhe um percurso habitual - para o autocarro, para o escritório, para o supermercado - e faz esse caminho 20% mais depressa do que o costume. Não é para sprintar; é só para tirar a folga.

Repara no que acontece na tua cabeça. Muitas pessoas dizem que o pensamento fica mais linear. Ruminam menos. Sentem-se um pouco mais como alguém que tem para onde ir - mesmo que o destino não tenha mudado nada.

Eis a reviravolta da ciência do comportamento: muda o ritmo do corpo e a mente, muitas vezes, ajusta a história sobre quem tu és e o que estás aqui a fazer.

Há, no entanto, um erro comum. Assim que ouvem “quem anda depressa é mais determinado”, algumas pessoas vão com tudo: abrem caminho à força em multidões, cortam a passagem aos outros, metem música stressante e tratam cada passeio como uma corrida. Não é isso que os dados valorizam.

Os benefícios psicológicos aparecem numa rapidez constante, não na agressividade. É sobre intenção, não sobre ego.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Há manhãs pesadas, tardes lentas, semanas em que o corpo simplesmente se recusa a acelerar. O objetivo não é sentir culpa nesses dias, mas lembrar-te de que podes sempre puxar um pouco o ritmo para cima quando estiveres pronto.

Os cientistas do comportamento também avisam contra transformar a velocidade a andar num placar moral. O teu ritmo é um sinal, não um veredito.

Alguns dos caminhantes rápidos mais equilibrados são os que abrandam deliberadamente quando caminham com crianças, idosos ou com alguém que está a ter um dia difícil. Usam o passo acelerado como padrão para si próprios - não como norma para impor aos outros.

Um psicólogo com quem falei foi direto:

“O padrão mais saudável que vemos é o de pessoas que conseguem andar depressa quando precisam e abrandar quando alguém precisa delas.”

Essa velocidade flexível - nos passos e nas reações - é onde se esconde a verdadeira maturidade emocional.

Quando começas a reparar nas velocidades a andar, é difícil deixar de ver. As ruas tornam-se um mapa silencioso de como as pessoas lidam com o tempo, o stress e o propósito. O estudante apressado a serpentear entre turistas. A enfermeira a caminhar com passo firme para casa depois de um turno da noite. O reformado a andar devagar, mas com olhos que já viram décadas de prazos.

A ciência do comportamento não afirma que o teu ritmo define toda a tua personalidade. O que diz - de forma forte e repetida em vários estudos - é que as pessoas que andam mais depressa do que a média tendem a partilhar um padrão mental central: sentem-se responsáveis pelo seu tempo, acreditam que as suas escolhas importam e comportam-se como se a vida anda - por isso, mais vale andar com ela.

Não tens de te tornar noutra pessoa para “emprestar” um pouco dessa mentalidade. Da próxima vez que saíres pela porta de casa, escolhe um destino, levanta o queixo e corta alguns segundos ao teu ritmo habitual. Talvez notes os teus pensamentos a alinhar-se atrás das passadas. Ou percebas que o teu ritmo natural já é mais rápido do que alguma vez te deste crédito.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A velocidade a andar reflete a mentalidade Quem anda depressa costuma revelar maior conscienciosidade, consciência do tempo e controlo interno Ajuda-te a ler os teus hábitos e a ajustar a tua relação com o tempo
Pequeno comportamento, grandes sinais Estudos associam caminhada enérgica a melhor saúde, maior agência e melhores resultados a longo prazo Motiva pequenas mudanças diárias em vez de perseguir transformações gigantes
O ritmo pode ser treinado Andar deliberadamente um pouco mais depressa pode mudar o foco e o estilo de decisão Oferece uma ferramenta simples e de baixo esforço para te sentires mais orientado e com mais energia

FAQ:

  • Andar mais depressa é sempre sinal de confiança?
    Nem sempre. Algumas pessoas andam depressa porque estão ansiosas ou constantemente atrasadas. Em grandes amostras, no entanto, quem anda mais depressa tende a relatar mais controlo e propósito, não apenas stress.
  • Mudar a minha velocidade a andar pode mesmo mudar a minha mentalidade?
    Não te vais tornar noutra pessoa de um dia para o outro, mas há evidência forte para a “cognição incorporada”: a forma como te moves pode influenciar como pensas e sentes, sobretudo sobre tempo e direção.
  • E se problemas de saúde me impedirem de andar mais depressa?
    A investigação não exige velocidade a toda a gente. Se tens dor, incapacidade ou uma condição, a ideia útil tem a ver com intenção: trazer mais clareza e propósito aos teus movimentos, seja qual for o ritmo.
  • Andar devagar significa que não tenho motivação?
    Não automaticamente. Cultura, humor, ambiente e personalidade influenciam. A pergunta-chave é se a tua lentidão é escolhida e tranquila, ou sem rumo e desgastante.
  • Como posso experimentar um ritmo mais rápido em segurança?
    Escolhe percursos curtos e planos, usa calçado confortável e aumenta a velocidade ligeiramente - o suficiente para te sentires envolvido, não sem fôlego. Mantém-te atento aos outros à tua volta, sobretudo em zonas cheias, e trata isto como um exercício de foco mental, não como uma corrida.

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