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Cientistas alertam que o maior eclipse solar do século pode causar superstições em massa, mas governos descartam esses receios como ignorância.

Grupo de pessoas a observar um eclipse solar com óculos de proteção numa varanda, durante o dia.

As ruas de Surabaya ficaram estranhamente silenciosas muito antes do pôr do sol. Os vendedores do mercado tinham um olho nas mercadorias e o outro no céu, onde o sol ainda brilhava duro e branco por cima do emaranhado denso de cabos e antenas parabólicas. Num banco de plástico à porta de uma pequena loja de reparação de telemóveis, um adolescente fazia scroll em vídeos do TikTok de galos a cantar ao meio-dia e bebés a recusarem comer sob um céu escurecido. A mãe não parava de resmungar que as grávidas não deviam olhar para o eclipse, que as colheitas podiam falhar, que os animais podiam enlouquecer.
Depois, uma notificação iluminou-lhe o ecrã: “O eclipse solar total mais longo do século vai atravessar a Ásia, África e América do Sul - cientistas pedem calma, governos chamam ao medo ‘ignorância’.”
Ele inclinou a cabeça, a ouvir os murmúrios a juntarem-se como nuvens de tempestade.
Algo maior do que a sombra estava prestes a passar por cima.

Uma sombra rara e um pânico muito humano

Nos mapas dos astrónomos, o eclipse solar total que se aproxima é uma linha azul limpa a curvar-se por três continentes. No terreno, é inquietação em autocarros cheios, debates em talk-shows nocturnos, mensagens de voz no WhatsApp de avós ansiosos. Com um máximo de mais de seis minutos de escuridão ao meio-dia, este será o eclipse total mais longo do século XXI, e os cientistas já avisam: o céu não será a única coisa a mudar.
Esperam um pico de superstição, conteúdos de conspiração e rumores apocalípticos.
Os governos, pressionados por preocupações económicas e calendários políticos, na maioria dos casos descartam esses medos como “irracionais” e “uma distracção”.

No início deste ano, no norte do Paquistão, um eclipse parcial muito mais curto bastou para levar centenas de pessoas às mesquitas para orações especiais, enquanto outras ficaram em casa com as cortinas corridas. Locutores de rádio debateram se amamentar durante o eclipse podia “fazer mal ao bebé”. A agência espacial do país publicou infografias cuidadosas.
Agora multiplique-se isso por uma trajectória que vai do Pacífico ao Atlântico, cortando regiões já sensibilizadas por secas, eleições e desinformação online.
No interior do Brasil, pastores publicaram vídeos a ligar o eclipse a profecias bíblicas. Na Índia rural, conselhos de aldeia estão discretamente a planear “encerrar” templos durante várias horas para que multidões não se juntem em pânico.

Cientistas que estudam o comportamento humano durante eventos celestes dizem que o padrão é antigo. Quando algo espectacular acontece por cima das nossas cabeças, as pessoas procuram significado, não dados. Eclipses totais são raros, viscerais e curtos; comprimem o medo em minutos.
Um investigador de um observatório europeu comparou-os a um “susto cósmico” para sociedades já sob pressão. Quanto mais longa a escuridão, mais espaço há para rumor, ritual e bodes expiatórios.
Por isso, quando os governos desvalorizam tudo isto como mera ignorância, arriscam-se a ignorar uma regra básica da psicologia: sombras no céu tendem a despertar sombras no chão.

Como atravessar um dia de eclipse “amaldiçoado”

Os cientistas que parecem mais tranquilos em relação ao eclipse não falam como autores de manuais. Falam como pessoas que já viram multidões suspirar, chorar e calar-se sob aquele sol negro impossível. A primeira recomendação é, de forma quase desconcertante, simples: trate o dia como um evento, não como uma emergência.
Planeie onde vai estar, com quem vai estar e como vai observar. Compre óculos de eclipse adequados com antecedência e verifique se têm riscos ou se são falsificações.
Explique às crianças, com palavras concretas, o que vai acontecer: “A lua vai passar à frente do sol, fica escuro, os pássaros podem ficar confusos e depois volta ao normal.”

Muita ansiedade vem de não saber o que esperar no próprio corpo. Algumas pessoas ficam tontas com a descarga de adrenalina, outras emocionam-se, outras apenas se sentem… estranhas. Isso não significa que esteja a acontecer algo místico consigo. É o seu sistema nervoso a reagir a uma cena única na vida.
Todos já sentimos isso: aquele momento em que uma falha de energia mergulha a sala na escuridão e o coração dispara antes de o cérebro acompanhar. O eclipse pode provocar isso à escala do planeta.
Se vive com familiares mais velhos que trazem medos tradicionais, ouça primeiro e, depois, vá acrescentando com delicadeza o que sabemos sobre órbitas e sombras.

Os governos estão ocupados a falar como se tudo estivesse sob controlo, mas o verdadeiro trabalho de acalmar nervos acontece muitas vezes em cozinhas, conversas de grupo e recreios. É aqui que os pequenos gestos contam.
Partilhe uma explicação simples e não paternalista com vizinhos. Imprima ou reencaminhe gráficos de fontes credíveis, como agências espaciais, e não memes aleatórios.

“Chamar às pessoas ‘ignorantes’ nunca convenceu ninguém a mudar de ideias”, diz a Dra. Lina Ortega, psicóloga social que estuda a reacção do público a eventos cósmicos. “A curiosidade convence. O respeito convence. Um momento partilhado sob o céu convence.”

  • Pergunte à escola local o que estão a dizer às crianças sobre o eclipse.
  • Prepare uma mensagem curta para enviar a familiares preocupados na manhã do evento.
  • Tenha um plano alternativo para observar em segurança caso nuvens, multidões ou rumores de última hora mudem o seu horário.
  • Mantenha as conversas ancoradas no concreto: “Isto parece assustador, mas aqui está exactamente o que está a acontecer lá em cima.”
  • Lembre-se de que o medo se espalha mais depressa no silêncio do que quando as perguntas são bem-vindas.

Ciência, crença e a longa sombra deste século

O eclipse que se aproxima não é apenas uma oportunidade espectacular para fotografias no Instagram ou uma manchete curiosa sobre “medos antigos”. É um teste de esforço à forma como as nossas sociedades lidam com o mistério na era da informação instantânea. Entre profetas do YouTube, vídeos virais de animais a “perderem a cabeça” e políticos ansiosos por ridicularizar crenças “atrasadas”, o céu está a tornar-se um ecrã onde se disputam guerras culturais.
Sejamos honestos: quase ninguém lê os avisos longos e técnicos que as agências espaciais publicam diariamente nos seus sites. As pessoas lembram-se do que a avó disse, do que o pastor avisou, daquele TikTok inquietante.

Se os governos encolhem os ombros e chamam a tudo isto superstição, perdem a oportunidade de construir algo mais profundo: confiança. Confiança de que os cientistas não se estão a rir das pessoas, mas a caminhar com elas para dentro da sombra e de volta para fora. Confiança de que os líderes não vão usar o medo ou a vergonha como arma para ganhar pontos políticos rápidos.
O eclipse solar total mais longo do século durará apenas alguns minutos no seu pico; depois, a luz do dia volta, o trânsito retoma e os ciclos noticiosos seguem em frente.
Ainda assim, as histórias que contamos sobre este dia - amaldiçoado, abençoado ou simplesmente espantoso - vão permanecer muito mais tempo em famílias, salas de aula e timelines.

Talvez o veja de um terraço em Lagos, de uma varanda em Lima ou de um campo cheio em Java, a partilhar uns óculos frágeis de cartão com um desconhecido. Talvez se esconda atrás de uma cortina fechada, repetindo uma oração que os seus antepassados sabiam de cor. Talvez esteja preso no trabalho, saia por trinta segundos e apanhe apenas aquele vento estranhamente fresco.
Nenhuma notificação de app consegue captar o arrepio ténue que percorre uma multidão quando a luz do dia se esvai e os candeeiros da rua acendem ao meio-dia.
Quer nos apoiemos na ciência, na superstição ou numa mistura desconfortável de ambas, o eclipse fará a cada um de nós uma pergunta silenciosa: quando o mundo fica subitamente escuro a meio do dia, em quem confia para lhe dizer o que está realmente a acontecer?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Eclipse mais longo do século Totalidade com duração superior a seis minutos em vários continentes Ajuda a perceber porque é que este evento está a provocar reacções tão fortes
Superstição vs. ciência Cientistas antecipam um aumento de rumores enquanto responsáveis desvalorizam os medos Prepara-o para navegar mensagens contraditórias com mais clareza
Estratégias práticas para lidar Planeie a observação, fale abertamente, partilhe explicações simples, evite envergonhar Dá-lhe formas concretas de reduzir a ansiedade em si e nos outros

FAQ:

  • Pergunta 1 - Este eclipse é mesmo mais “perigoso” por ser o mais longo do século?
    Não. A duração não muda a física, apenas a experiência. Os seus olhos estão em risco se olhar fixamente para o sol sem protecção adequada, exactamente como em qualquer eclipse.
  • Pergunta 2 - Os animais ou os bebés podem ser prejudicados pelo eclipse em si?
    Não. Os animais podem comportar-se de forma estranha porque a luz muda de repente, e os bebés podem sentir a tensão dos adultos, mas a luz do eclipse não é tóxica nem prejudicial por si só.
  • Pergunta 3 - Preciso de rituais especiais, comida ou comportamentos para “proteger” a minha família?
    Do ponto de vista científico, não. Se certas práticas culturais o acalmam e não causam dano, são uma escolha pessoal, não uma exigência cósmica.
  • Pergunta 4 - Qual é a forma mais segura de ver o eclipse?
    Use óculos de eclipse certificados ou um método de observação indirecta, como um projector de orifício (pinhole). Óculos de sol, vidro fumado ou câmaras de telemóvel encostadas ao olho não são seguros.
  • Pergunta 5 - Porque é que os governos estão a chamar “ignorância” aos medos do público? Isso não se vira contra eles?
    Muitos responsáveis querem projectar confiança e evitar pânico, por isso descartam rumores de forma brusca. Esse tom pode ser contraproducente ao aprofundar a desconfiança - razão pela qual os cientistas pedem uma comunicação mais respeitosa e clara, em vez de troça.

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