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Chefs criticam a air fryer, dizendo que este aparelho versátil transforma pratos em fast food sem alma e prejudica a verdadeira cozinha.

Pessoa a preparar prato com frango e alecrim ao lado de uma fritadeira com batatas fritas na bancada da cozinha.

A primeira coisa que se nota é o ruído.
Um coro de ventoinhas minúsculas e beeps, cestos luminosos a deslizar para dentro e para fora como gavetas de escritório, nuggets de frango congelados a transformarem-se em “jantar” em 12 minutos certinhos.

Num mundo em que todas as bancadas de cozinha parecem agora um showroom de gadgets com ficha, uma máquina nove-em-um tomou conta de tudo em silêncio. Batatas fritas, asas, salmão “grelhado”, pão de banana, iogurte, maçãs desidratadas - tudo prometido ao toque de um botão, com menos óleo, menos tempo, menos… esforço.

Mas entre numa cozinha de restaurante a sério e ouvirá um som muito diferente: facas nas tábuas, frigideiras a bater no fogão, cozinheiros a falar de crosta, fumo e paciência.
Os chefs começam a dizer em voz alta o que muitos pensam em privado: esta ferramenta brilhante e chamativa pode estar a matar a alma da cozinha caseira.

E estão prontos para se despedir do culto da air fryer.

Quando a cozinha a sério encontra o atalho nove‑em‑um

Basta estar numa grande superfície num sábado para ver a conversão a acontecer em tempo real.
Um casal olha para uma máquina preta e volumosa que promete tudo estaladiço, nove modos, zero chatices e fritos “saudáveis”. A caixa está coberta de fotografias que parecem comida de diner americano passada por um filtro de bem‑estar.

Não estão a pensar em técnica ou ingredientes.
Estão a pensar: isto vai salvar os nossos dias de semana, a nossa dieta, a nossa sanidade.

Essa é a fantasia por trás da nova geração de híbridos air fryer–multicooker.
Não apenas uma fritadeira, mas um grelhador, um forno, um desidratador, um vaporizador, um aquecedor, um gratinador - uma resposta para todas as perguntas cansadas das 18h.
O problema começa quando essa resposta substitui, discretamente, as próprias perguntas.

Pergunte a chefs no ativo o que acham realmente e a temperatura da sala muda.
Alguns encolhem os ombros e dizem que serve para aquecer batatas. Outros fazem uma careta, como se tivesse sugerido pôr um ribeye no micro‑ondas.

Uma chef de um bistrô em Londres disse-me que já reconhece “frango de air fryer” no Instagram pela textura da pele.
Dourada, sim. Uniformemente tostada, sim. Mas de alguma forma… sem vida.
“A carne parece cozida a vapor”, disse ela. “Sem selagem dura, sem anel de fumo, sem história.”

Os dados confirmam a febre. O interesse de pesquisa por air fryers multifunções disparou nos últimos três anos, com alguns retalhistas a reportarem crescimentos de três dígitos.
As vendas são agora tão fortes que as marcas as promovem abertamente como substitutas do forno.
Quando um gadget lateral começa a tentar despedir o seu fogão, percebe-se porque é que os profissionais ficam nervosos.

A queixa principal não é sobre a tecnologia em si. A maioria das cozinhas de restaurante vive de equipamento de alta tecnologia: fornos combinados, banhos sous-vide, placas de indução capazes de derreter aço.
O problema é aquilo de que os cozinheiros caseiros se estão a desfazer em silêncio.

Selar a sério precisa de contacto direto, calor alto e julgamento sobre quando virar.
Assar a sério brinca com pontos quentes do forno, rega, repouso, ouvir o chiar a abrandar.
Essas pequenas decisões constroem sabor e competência.

Ao transformar tudo num fluxo controlado de ar quente, o nove‑em‑um alisa essa variação toda.
A comida fica suficientemente boa, claro - mas com o mesmo estaladiço seco e aerado, em repetição.
Não há o choque de um pimento com bolhas, os pedacinhos pegados na frigideira, a borda “queimada mas certa” de uma salsicha na grelha.
Há previsibilidade disfarçada de “perfeição”.

Como voltar a cozinhar como um chef (sem deitar o gadget fora)

Uma rebelião discreta que os chefs sugerem é quase dececionantemente simples: escolher uma técnica e viver nela a sério.
Em vez de carregar no botão “assar a ar”, pegue numa frigideira básica e aprenda como é, de facto, um lume médio‑alto.

Cozinhe os mesmos legumes de três maneiras numa semana: uma vez no forno num tabuleiro, uma vez com bolhas numa frigideira de ferro fundido, uma vez em lume brando e lento com muito azeite.
Repare como o cheiro muda de agudo e verde para doce e caramelizado.

Faça o mesmo com frango.
Sele coxas com a pele virada para baixo numa frigideira até parecerem querer agarrar, e depois se soltarem. Termine no forno, regando por cima com a gordura.
A primeira vez vai ser desajeitada.
À terceira, começará a sentir algo que o nove‑em‑um não consegue mostrar num visor: o tempo nas suas mãos, não no temporizador.

A maior armadilha, dizem os chefs, não é ter uma air fryer. É deixá-la tornar-se a opção por defeito.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que estamos cansados, a deslizar no telemóvel, e a ideia de lavar uma frigideira parece um ataque pessoal.

Aí o nove‑em‑um parece um herói. Atira-se para lá comida congelada, toca-se em “crocante” e vai-se à vida.
Fazer isso uma ou duas vezes por semana, sem drama. Fazer isso todas as noites, e os músculos da cozinha atrofiam em silêncio.

Sejamos honestos: ninguém cozinha de raiz todos os dias.
Mas há uma zona intermédia onde ainda dá para trazer técnica real para a mesa.
Use o gadget pelo que ele é - um mini‑forno eficiente - e deixe as coisas emocionalmente importantes noutro sítio: o molho de domingo ao lume, um tabuleiro grande de legumes assados, um pedaço de peixe que você acompanha enquanto cozinha.

Um chef francês com quem falei disse-o de forma dolorosamente direta:

“Uma air fryer não estraga a comida. Estraga a relação entre si e a comida. Deixa de verificar, de tocar, de ouvir. Começa a subcontratar o seu paladar a programas predefinidos.”

Ele não estava a dizer para deitarem as máquinas fora.
Estava a dizer para recuperarem as partes da cozinha que nenhum aparelho consegue automatizar.

Na prática, isso é assim:

  • Manter um dia por semana “sem gadgets” - cozinhar só no fogão ou no forno, nem que sejam apenas ovos e torradas.
  • Reservar o nove‑em‑um para reaquecer ou para comida congelada, não para todos os ingredientes frescos que compra.
  • Escolher uma competência para dominar por mês - assar legumes, molhos de frigideira, trabalho de faca - e repetir até deixar de precisar de receita.
  • Usar o gadget como complemento, não como muleta: dar crocância a batatas assadas do dia anterior, terminar asas já seladas.
  • Quando o usar, temperar e marinar como um chef faria, para o sabor não depender só da crocância.

Quando começa a prestar atenção, nota como a sua própria comida pode saber de forma tão diferente usando o mesmo punhado de ingredientes baratos.

Talvez a verdadeira “melhoria” nunca tenha estado na bancada

A verdade silenciosa por baixo deste debate sobre a air fryer não é realmente sobre máquinas.
É sobre quanto de nós estamos dispostos a entregar à conveniência.

Os chefs parecem dramáticos quando dizem que esta caixa nove‑em‑um “arruína a cozinha a sério”, mas o que estão a apontar é subtil.
Quando cada refeição se torna um ciclo rápido de cesto para dentro, cesto para fora, estaladiço, repetir, o jantar vira algo que consumimos - não algo em que participamos.

Não precisa de ser um purista que mói a própria farinha para sentir a diferença.
Só precisa de uma noite em que pica uma cebola à mão, fica junto a uma panela e sente o ponto em que a aspereza crua se torna doce.
Um momento em que vira um bife não quando um ecrã manda, mas quando os seus olhos e ouvidos concordam que a crosta está pronta.

Essa é a parte da cozinha que o nove‑em‑um não consegue imitar.
O calor, o risco, as decisões pequenas que correm mal e depois correm bem.

Talvez o verdadeiro “adeus, air fryer” não seja deitá-la fora.
Talvez seja colocá-la de volta no seu lugar - como ferramenta, não como estilo de vida - e deixar a cozinha a sério, com toda a sua confusão e magia, voltar silenciosamente ao centro da cozinha.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As air fryers achatam a técnica O ar quente substitui a selagem, o assar e o contacto com a frigideira, levando a texturas uniformes Ajuda a perceber porque é que a comida sabe “ok” mas esquecível - e como mudar isso
Use o gadget com intenção Reserve-o para reaquecer, comida congelada ou finalizar, não como padrão para todas as refeições Permite manter a conveniência sem perder competências reais de cozinha
Reconstruir os “músculos” da cozinha Pratique uma técnica clássica de cada vez, como selar na frigideira ou assar no forno Dá confiança e sabor que não se conseguem com programas predefinidos

FAQ:

  • Pergunta 1 Os chefs são mesmo contra as air fryers, ou isto é só snobismo?
  • Pergunta 2 Ainda posso cozinhar “a sério” se usar um gadget nove‑em‑um algumas vezes por semana?
  • Pergunta 3 Porque é que a comida feita na air fryer às vezes sabe seca ou “sem alma”?
  • Pergunta 4 Qual é uma mudança simples que faz a maior diferença na minha cozinha em casa?
  • Pergunta 5 Devo livrar-me da minha air fryer se quiser aprender a cozinhar a sério?

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