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Centenária revela hábitos diários que a mantêm ativa: “Recuso-me a terminar num lar”

Idosa a atar os ténis na cozinha, ao lado de frutas e caderno.

O chaleiro desliga-se com um suspiro suave, e o cheiro a chá preto e a torradas enche uma cozinha quente, ligeiramente desarrumada. À mesa está Margaret, com 100 anos, costas direitas, o casaco de malha abotoado de lado de forma errada, olhos brilhantemente perspicazes. Dobra o jornal com um gesto praticado e, de seguida, consulta o pedómetro como um adolescente a verificar notificações. “Quatro mil já”, resmunga, meio orgulhosa, meio aborrecida. “Faço mais dois mil depois do almoço.”

A filha paira junto ao lava-loiça, sugerindo - outra vez - que talvez seja altura de pensar em ter ajuda em casa. A colher de Margaret pousa no pires com um pequeno tilintar decidido. “Não. Recuso-me a acabar num lar”, diz. “Se consigo lavar a minha própria chávena, lavo a minha própria chávena.”

A sala fica em silêncio. Sente-se o peso por trás daquela frase.

O ritmo diário teimoso que a mantém fora de um lar

Todas as manhãs, às 7:30, Margaret afasta as cortinas floridas e faz o mesmo que faz há décadas. Verifica o tempo, observa a rua e fala em voz alta com ninguém em particular. Depois veste-se por completo - sapatos, brincos, baton - antes do pequeno-almoço. Nada de andar de robe até ao meio-dia. Para ela, vestir-se como deve ser é uma linha na areia. “As pessoas que ficam de pijama o dia todo”, diz, “envelhecem de um dia para o outro.”

Este pequeno ritual marca o compasso do dia. Não é glamoroso. Não dá para o Instagram. E, no entanto, é a espinha dorsal silenciosa da sua independência.

Quando se passa um dia com Margaret, repara-se mais no ritmo do que nos marcos. Depois do pequeno-almoço, faz voltas no pequeno jardim, a bengala a bater nas pedras do caminho. Depois do almoço, fica ao lava-loiça a lavar a loiça, apesar de haver uma máquina de lavar impecável a zumbir debaixo da bancada. Mais tarde, faz palavras cruzadas a caneta, semicerrando os olhos para as pistas como se fossem velhos rivais.

Nenhum destes momentos parece “especial”. Ainda assim, em conjunto, formam uma rede protetora. Impedem que os músculos definhem, que a mente embacie, que os dias colapsem num borrão de ruído de televisão e sestas da tarde.

Investigadores que acompanham centenários falam de “carga diária” - as pequenas tarefas físicas e mentais que fazemos sem pensar. Estender a roupa, carregar as compras, contar o troco, discutir com o pivot do telejornal. Cada pequena exigência diz ao corpo: “Ainda somos precisos aqui.”

Margaret pode não citar estudos, mas vive essa lógica. Recusa delegar aquilo que ainda consegue fazer, mesmo que demore o dobro do tempo. É nessa fricção, nesse esforço ligeiro, que se esconde a sua resiliência. Não foi o conforto que a manteve. Foi o movimento.

As pequenas escolhas em que ela acredita (e as armadilhas que evita)

Se lhe perguntarem qual é o “segredo”, Margaret ri-se e aponta para os sapatos. Sapatos rasos, firmes, um pouco feios, de caminhada. Usa-os em casa, na rua, a subir e a descer escadas. “Se deixas de andar, começas a escorregar”, encolhe os ombros. Por isso, encaixa a caminhada no dia como quem lava os dentes. Uma volta ao jardim antes do pequeno-almoço. Uma ida à mercearia da esquina se o tempo ajudar. Marchar no mesmo sítio durante o telejornal da noite quando entram os anúncios.

Ela trata o movimento como tempero: espalhado em pequenas doses por tudo, e não servido como um prato pesado e exaustivo.

É implacável com os ecrãs - sim, mesmo aos 100. A televisão desliga-se durante as refeições. O tablet só sai para fotografias da família e videochamadas. “Se está ligado o dia todo, desapareço lá dentro”, diz. Esse é o medo dela: não a morte, mas desaparecer antes de morrer.

Também come como quem viveu o racionamento. Pratos simples, porções pequenas, “comida a sério”, como lhe chama: papas de aveia, legumes, peixe à sexta-feira, bolo ao domingo. Não segue nenhuma dieta com nome. Evita, isso sim, comer por tédio. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Mas, sempre que se apanha a ir ao armário sem fome a sério, pára, bebe água, telefona antes a uma amiga.

“As pessoas acham que viver muito tem a ver com médicos”, diz Margaret. “Os médicos remendam-nos. O que nos mantém é o que fazemos nos dias aborrecidos, quando ninguém está a ver.”

Num bloco ao lado da cama, escreveu três regras e emoldurou-as a caneta azul:

  • Levantar, lavar-se e vestir-se antes do pequeno-almoço
  • Andar todos os dias para algum sítio com um objetivo
  • Falar com pelo menos uma pessoa que não esteja a ser paga para lá estar

Lê-as todas as manhãs como um contrato privado. No papel parecem quase infantis. Mas apontam a três armadilhas enormes que empurram, em silêncio, muitas pessoas idosas para os lares: ficar na cama, não se mexer e viver numa solidão quieta e esmagadora.

“Estou a viver, não a esperar”: o que os hábitos dela dizem ao resto de nós

Se se estiver com Margaret tempo suficiente, percebe-se que ela não anda à procura de imortalidade. Conhece amigos que comiam saladas, faziam yoga e mesmo assim morreram demasiado cedo. O que ela procura é autonomia. A sensação de que, enquanto cá está, a vida ainda lhe pertence. Escolher a própria roupa, decidir quando beber chá, escolher se quer companhia ou uma tarde tranquila com o rádio.

Os hábitos diários dela têm menos a ver com acrescentar anos e mais com proteger esse pequeno círculo luminoso de controlo. A recusa em “acabar num lar” não é rejeição de cuidadores; é recusa em derivar, em entregar o volante antes de ser absolutamente necessário.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O ritmo vence a intensidade Hábitos pequenos e repetíveis (andar, vestir-se, tarefas) contam mais do que grandes esforços ocasionais Mostra que uma mudança sustentável é possível em qualquer idade, começando por ações mínimas
Proteja a sua independência Faça por si o que conseguir, mesmo que seja mais lento ou menos “eficiente” Incentiva a manter competências e força, em vez de delegar tudo
Ligação como medicamento Conversas diárias e pequenas interações evitam o “desaparecer” emocional Recorda que laços sociais devem ser prioridade tão séria como a dieta ou o exercício

FAQ:

  • O que é que ela faz, na prática, todos os dias? Segue uma rotina simples: veste-se totalmente antes do pequeno-almoço, caminha em pequenas doses, faz as suas próprias tarefas leves, come refeições caseiras regulares e fala com pelo menos uma pessoa por dia.
  • Segue alguma dieta específica? Não há dieta “de marca”. Come porções moderadas, muitos legumes, proteínas básicas e deixa os doces para mimos ocasionais, não para petiscar constantemente.
  • Como é que se mantém mentalmente lúcida? Palavras cruzadas a caneta, ler as notícias, gerir os próprios compromissos e tomar pequenas decisões em vez de deixar a família decidir tudo.
  • Qual é a opinião dela sobre exercício com a idade que tem? Ela não “treina”. Simplesmente anda muitas vezes, evita estar sentada demasiado tempo e mantém as tarefas diárias ligeiramente desafiantes para o corpo.
  • Pessoas mais novas também podem usar estes hábitos? Sim. Começar já com rotinas pequenas - andar mais, cozinhar de forma simples, telefonar a pessoas - constrói a base em que ela ainda vive aos 100 anos.

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