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Canalizador explica por que nunca deve deitar água de cozer massa no lava-loiça.

Homem a cozinhar no fogão, mexendo uma panela com vapor, ao lado de ingredientes e plantas numa cozinha iluminada.

A panela está a deitar vapor, o temporizador apita, e fazes o que já fizeste uma centena de vezes.

Pegas na panela, inclinas-a sobre o lava-loiça e deixas uma torrente de água turva da massa desaparecer pelo ralo. O cheiro a alho e tomate está no ar, o telemóvel vibra na bancada, as crianças gritam ao fundo. Já estás a pensar no molho, não no escoamento.

Depois, numa terça-feira qualquer, umas semanas mais tarde, o lava-loiça começa a fazer glug-glug. A água sobe lentamente à volta de uma pilha de pratos, com pequenas bolhas cinzentas a vir à superfície como se fossem uma coisa viva. Espetas um garfo no ralo. Nada. O cheiro passa de jantar para húmido e vagamente a podre.

É nesse momento que muita gente finalmente chama o canalizador. E, quando o fazem, costumam ouvir a mesma frase - que, ao início, parece uma piada.

“Tem mesmo de deixar de deitar a água da massa por aqui.”

Porque é que os canalizadores odeiam secretamente a tua noite de massa

Pergunta a qualquer canalizador com experiência que hábito de cozinha os faz estremecer, e muitos apontam logo para esse escorredor inocente por cima do lava-loiça. Para ti, é só água esbranquiçada a ir embora. Para eles, é o início de um desastre em câmara lenta dentro dos canos.

Eles veem isso todas as semanas. Uma cozinha que, por fora, parece impecável, mas que, debaixo do lava-loiça, tem a canalização revestida por uma película pálida e pegajosa. Aquela água turva da massa que achaste inofensiva? Fica agarrada por dentro, camada após camada, como um verniz cola. Nada dramático numa só vez. Absolutamente devastador com o tempo.

A questão é que a água da massa não “desaparece”. Vai para um sítio muito específico - e tende a ficar lá.

Um canalizador de Londres com quem falei mostrou-me uma foto no telemóvel antes mesmo de acabar o chá. Um pedaço cortado de um cano antigo de cozinha, manchado de bege, meio entupido com algo que parecia suspeitamente papier-mâché. “Isto”, disse ele, “são anos de água de massa e de arroz.” Contou-me que cerca de um terço das chamadas domésticas que recebe envolvem lava-loiças de cozinha, e uma parte significativa dessas acontece em casas onde se cozinha massa várias vezes por semana.

As pessoas juram sempre que têm cuidado. Dizem que não deitam óleo no lava-loiça, que deixam correr água quente, que usam detergente da loiça. E, no entanto, o entupimento está lá, assentado como betão molhado logo depois do sifão. O dono da casa fica à porta, ligeiramente envergonhado, a olhar para o cano como se ele o tivesse traído pessoalmente. Numa rua tranquila, a cena repete-se apartamento após apartamento, casa após casa.

Tendemos a culpar “canos velhos” ou “má canalização”. A verdade costuma ser muito mais banal: hábitos repetidos. Pequenas decisões. Mil panelas de massa despejadas na mesma abertura estreita, até que tudo se soma numa manhã de sábado bem cara.

A ciência por trás disto é irritantemente simples. A massa liberta amido enquanto coze, deixando a água turva e sedosa. Esse amido não desaparece quando chega ao ralo. Arrefece, engrossa e fica ligeiramente pegajoso. Dentro de um cano, reveste as paredes como uma película. Depois, agarra tudo o resto que passa: gordura, resíduos de sabão, borras de café, partículas microscópicas de comida.

Ao longo de semanas e meses, essas camadas de “cola” transformam um tubo liso num túnel áspero e estreito. O escoamento abranda. O ar fica preso. Começas a ouvir aqueles barulhos estranhos de gorgolejo. Se deixares andar tempo suficiente, vira um entupimento total que nenhuma quantidade de água a ferver consegue desfazer.

Há também a viagem escondida para lá da tua cozinha. Em muitas zonas, essa água da massa acaba por contribuir para os “fatbergs” nas redes de esgotos - enormes massas duras como pedra, formadas por óleos, toalhitas e, sim, amidos pegajosos que ligam tudo. Portanto, o problema não está só debaixo do teu lava-loiça. Está debaixo da tua rua.

O que fazer com a água da massa em vez disso (e como deixar de destruir os canos)

A solução mais fácil começa naquele exato momento em que estendes a mão para o escorredor. Em vez de ires diretamente para o lava-loiça, tenta escorrer a massa para uma taça grande resistente ao calor ou para uma panela, colocada dentro do lava-loiça ou sobre o fogão. Deixa a água ficar ali primeiro, longe do ralo. Quando arrefece, de repente tens opções - em vez de um gesto automático.

Podes reutilizar uma parte no molho, como os chefs fazem discretamente há anos. Uma ou duas conchas transformam um simples molho de tomate em algo brilhante e que “agarra” à massa, graças ao amido. Se gostas de plantas, muita gente jura que a água da massa arrefecida e sem sal é boa para regar o jardim ou vasos na varanda, por causa dos minerais residuais. Mesmo que a despejes na sanita depois de arrefecer, a tua água residual não está a enviar uma “bomba” concentrada de amido diretamente para os canos da cozinha.

Esta pequena mudança de coreografia - taça primeiro, lava-loiça depois - é o que separa um hábito “normal” de um pesadelo lento de canalização.

Numa noite cansativa a meio da semana, porém, as boas intenções muitas vezes perdem. Tens fome, a panela pesa, as crianças precisam de ajuda com os trabalhos de casa. Inclinas a panela sobre o lava-loiça porque é fácil e rápido. Isso é humano. Em termos puramente práticos, os canalizadores sugerem três medidas de contenção para aquelas noites em que simplesmente não te apetece pensar.

Primeiro: se deitares alguma água no lava-loiça, deixa correr água bem quente durante mais tempo do que parece razoável. Não cinco segundos - mais 30 a 60. Segundo: evita misturar água da massa com gordura e óleo no mesmo enxaguamento; essa combinação é supercola para canos. Terceiro: faz uma “lavagem” simples aos ralos uma vez por semana com uma chaleira cheia de água quente (não a ferver), só para deslocar acumulações iniciais.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ainda assim, fazê-lo de vez em quando pode dar mais alguns anos de vida aos teus canos.

Os canalizadores tendem a repetir a mesma frase, quase palavra por palavra, como um mantra aprendido no trabalho.

“As pessoas acham que os entupimentos são repentinos”, diz Mark, canalizador há 22 anos. “Não são. Constroem-se chávena a chávena, prato a prato, panela a panela. A água da massa é apenas uma dessas coisas que, em silêncio, ajuda a colar tudo.”

Há uma mudança de mentalidade mais ampla por trás disto, e vai além de uma panela de esparguete. Trata-se de encarar o lava-loiça menos como um buraco mágico onde as coisas desaparecem, e mais como a entrada para um sistema muito real que só aguenta um certo nível de abuso. Quando começas a ver os canos como objetos físicos e finitos, os teus hábitos de cozinha mudam quase por si.

  • Deixa a água da massa arrefecer numa taça ou panela extra, e não a deites diretamente no ralo.
  • Reutiliza um pouco no molho; descarta o resto por etapas, não tudo de uma vez.
  • Mantém gorduras, óleos e água rica em amido separados sempre que possível.
  • Faz uma “lavagem” semanal ao lava-loiça com água quente durante a lavagem da loiça.
  • Ao primeiro sinal de gorgolejo ou escoamento lento, age cedo - não meses depois.

O poder silencioso das pequenas escolhas na cozinha

Depois de veres um canalizador cortar um cano e despejar um tampão espesso de lodo bege, é difícil esquecer. Da próxima vez que estiveres ao fogão, a enrolar esparguete num garfo, essa imagem tende a voltar. Não de forma dramática, de vida ou morte. Apenas como um lembrete silencioso de que aquilo que fazemos naqueles cinco minutos apressados depois de cozinhar não desaparece sem consequências.

Estamos todos ocupados. Atalhamos, enxaguamos tudo para “fora”, dizemos a nós próprios que o sistema aguenta. Mas o sistema - seja o sifão da tua cozinha ou o coletor antigo debaixo da tua estrada - já trabalha em esforço porque milhões de pequenas decisões privadas se encontram ali. Uma noite de massa numa família não é uma crise. Uma cidade inteira de noites de massa, todas a despejar a mesma água rica em amido na mesma rede, é.

Num plano mais pessoal, há também o pavor simples daquela chamada. O lava-loiça entupido num feriado. A taxa de urgência. O cheiro que fica mesmo depois do cano estar “arranjado”. Ao mudares um único movimento - panela para taça, não panela para ralo - evitas uma cadeia inteira de pequenos desastres. É um gesto mínimo de controlo numa casa onde tanta coisa parece avariar sozinha.

Todos já passámos por aquele momento em que o lava-loiça não esvazia, o pânico sobe e de repente te sentes muito pequeno diante de uma poça rasa de água suja. Talvez seja por isso que esta história mexe com tanta gente online: a massa é comida de conforto, mas os seus “restos” sabotam discretamente o próprio sítio onde cozinhas. Partilhar a dica com alguém não é só falar de canalização. É falar de como hábitos invisíveis moldam os espaços onde vivemos - até aos canos que nunca vemos.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A água da massa é muito rica em amido A água turva reveste as paredes dos canos e agarra gorduras e partículas de comida Ajuda a explicar porque hábitos “inocentes” causam entupimentos caros
Mudança simples de rotina Escorrer para uma taça primeiro, reutilizar um pouco, arrefecer e descartar por etapas Oferece uma solução fácil e realista sem ferramentas ou produtos especiais
Impacto a longo prazo Noites repetidas de massa contribuem para entupimentos domésticos e problemas mais amplos nos esgotos Incentiva hábitos de cozinha mais conscientes e sustentáveis

FAQ:

  • A água da massa é mesmo assim tão má para o meu lava-loiça? Sim, por causa do elevado teor de amido. Por si só pode não entupir um cano de um dia para o outro, mas despejos repetidos criam uma película pegajosa que prende gordura e comida, transformando-se num entupimento com o tempo.
  • Posso deitar a água da massa no lava-loiça se deixar correr água quente? A água quente ajuda um pouco, mas não remove o amido - apenas o empurra mais para a frente. A opção mais segura é recolhê-la numa taça, reutilizar o que quiseres e, depois, arrefecer e descartar em quantidades menores.
  • É ok deitar a água da massa na sanita? Em quantidades moderadas e depois de arrefecer, a água da massa é menos arriscada numa sanita do que num lava-loiça de cozinha, porque os diâmetros das tubagens e o volume da descarga costumam ser maiores. Ainda assim, não deve ser combinada com gorduras ou sólidos.
  • Posso usar água da massa com sal para as plantas? Não. A água salgada pode danificar a maioria das plantas e o solo com o tempo. Usa apenas água da massa sem sal e completamente arrefecida no jardim e, mesmo assim, não todos os dias.
  • Como posso perceber se os meus canos estão a começar a entupir por causa do amido? Sinais iniciais incluem escoamento lento depois de lavar a loiça, ruídos de gorgolejo no ralo e cheiros desagradáveis ocasionais. Nessa fase, mudar hábitos e fazer lavagens com água quente pode ajudar antes de precisares de um canalizador.

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