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Cada vez mais idosos optam por trabalhar após a reforma para conseguirem pagar as despesas, seguindo uma nova tendência de vida.

Idosa em café a colocar crachá no avental, mesa com documentos e carteira.

Um novo “estilo de vida” que ninguém verdadeiramente sonhou

A maioria dos seniores continua a desejar o mesmo depois dos 65: tempo, tranquilidade e autonomia. Mas, na rua, vê-se cada vez mais reformados de uniforme, em caixas de supermercado, receções, limpezas ou em plataformas de trabalho por tarefa. Muitos dizem “é para me manter ativo” - e às vezes é mesmo - mas, por trás, há quase sempre contas a fechar.

Em Portugal, basta um desequilíbrio pequeno para virar rotina: renda a subir, alimentação mais cara, energia imprevisível, medicamentos e consultas. O que “faltava pouco” aos 63 pode virar um problema sério aos 73, quando a margem para aguentar imprevistos é menor.

Um ponto que raramente é dito em voz alta: a escolha e a imposição misturam-se. Trabalhar pode dar estrutura e convívio, mas também pode ser a forma mais rápida (e menos digna) de tapar buracos mensais.

Também pesa o lado familiar: filhos que demoram mais a estabilizar, regressos a casa, ajuda a netos. E há o fator social: muita gente prefere chamar “rotina” ao que, na prática, é ansiedade financeira.

Em muitos casos, é possível acumular pensão com rendimento de trabalho, mas convém contar com a parte “invisível”: impostos, regras do tipo de reforma, e o impacto em apoios dependentes de rendimentos. Quando o orçamento está apertado, um erro aqui pode custar meses a recuperar.

Como os seniores estão a reinventar o trabalho só para conseguir continuar

Muitos reformados acabam num “patchwork”: vários trabalhos pequenos em vez de um emprego grande. A vantagem é a flexibilidade; a desvantagem é o desgaste acumulado e a tendência para aceitar “só mais um turno”.

Uma forma prática (e honesta) de escolher melhor é começar pelo corpo e pela logística:

  • O que ainda dá para fazer sem agravar dores (estar muito tempo em pé, cargas, escadas, condução longa)?
  • Quanto tempo de deslocação é aceitável (e quanto custa por mês)?
  • Que horários estragam sono e consultas (noites, turnos repartidos, fins de semana seguidos)?

Depois, procurar tarefas “mais leves e próximas”, mesmo que o ego puxe para o contrário: atendimento, apoio administrativo, telefonia, acompanhamento de pessoas, pequenas entregas sem pressão, cantinas escolares com horários previsíveis. Em geral, o que destrói a longo prazo não é “trabalhar”, é trabalhar com dor, pressa e turnos maus.

Dois cuidados que costumam fazer diferença:

1) Separar o dinheiro extra
Uma conta à parte ajuda a não “dissolver” o rendimento em despesas do dia-a-dia. Use como almofada para dentista, óculos/aparelhos auditivos, arranjos em casa ou meses piores (uma regra simples: guardar primeiro, gastar depois).

2) Evitar a armadilha de aceitar tudo
Culpa (“tenho de ajudar os meus filhos”), vergonha (“pelo menos é alguma coisa”) e medo de perder o lugar empurram para turnos noturnos, horas a mais e tarefas que já não são seguras. A partir de certa idade, proteger sono, articulações e coração não é luxo - é prevenção.

Antes de dizer “sim” a um trabalho, vale a pena fazer duas contas rápidas:

  • O líquido compensa? Entre transporte, alimentação fora, impostos e cansaço, há trabalhos que rendem pouco mais do que o custo de os fazer.
  • O contrato está claro? Horário, pausas, seguro de acidentes de trabalho, e se é contrato ou recibos. Em plataformas e “biscates”, muita gente só percebe os riscos quando já está presa.

“Eu não volto a trabalhar porque estou aborrecida”, diz Maria, 69 anos, que faz três manhãs por semana como assistente de cantina escolar. “Trabalho porque a minha renda aumentou 120 euros, a medicação do meu marido está mais cara e eu não quero ter de escolher entre aquecimento e fruta.”

  • Escolha trabalhos adequados à sua idade, não ao seu ego
    Prefira tarefas mais leves, menos horas e mais perto de casa - mesmo que a sua carreira anterior tenha sido exigente ou de “prestígio”.
  • Aponte para um verdadeiro dia de descanso
    Um dia inteiro sem turnos, sem cuidar de ninguém e sem “pendentes”. A recuperação precisa de espaço.
  • Proteja o seu “eu” do futuro
    Direcione o extra para custos previsíveis (dentista, audição, óculos, pequenas obras). Isso evita decisões em modo de pânico.
  • Mantenha ligações sociais
    Se o trabalho vira a única fonte de contacto humano, qualquer corte de horas vira solidão. Marque rotinas fora do trabalho.

Entre dignidade e cansaço: o que esta tendência diz sobre nós

A reforma já não é, para muitos, uma fronteira clara entre “vida produtiva” e “outro ritmo”. No mesmo local, vê-se um estudante e uma pessoa de 70 e tal anos a fazer o mesmo turno, com a mesma pressão por rapidez e simpatia.

Há seniores que gostam: o trabalho dá propósito, conversa e disciplina. Mas também há quem sinta uma frustração difícil de admitir - a sensação de que décadas de descontos não garantiram o básico. No meio do orgulho e do desgaste, aparece a pergunta que quase ninguém faz em voz alta: até quando aguento assim?

Isto não é só sobre escolhas individuais. É um retrato do custo de vida, do preço da habitação, do acesso a cuidados de saúde e do suporte familiar. Quando um avô volta a trabalhar “só mais uns meses” e isso dura anos, a sociedade inteira está a empurrar o problema para a resistência física de alguém.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Aumento do número de “cumulantes” Mais gente acumula pensão e trabalho para fechar o mês, muitas vezes em funções de baixo salário e alta exigência. Ajuda a ler a realidade à sua volta sem romantizar nem culpar quem está a tentar sobreviver.
Escolher trabalho sustentável Reduzir deslocações, evitar noites seguidas, limitar cargas e definir uma “linha vermelha” para a saúde. Aumenta as hipóteses de o trabalho não acelerar dores, quedas ou exaustão.
Mentalidade de almofada financeira Guardar o rendimento extra separadamente e antecipar despesas previsíveis da idade. Diminui stress e dá margem para recusar turnos abusivos.

FAQ:

  • Pergunta 1 - Porque é que mais reformados trabalham depois de terminarem oficialmente a sua carreira principal?
    Porque a pensão nem sempre acompanha rendas, alimentação, energia e saúde. E porque muitos querem (ou precisam de) manter rotina e contacto social.

  • Pergunta 2 - Esta tendência deve-se sobretudo à necessidade financeira ou a manter-se ativo e social?
    Costuma ser as duas coisas. O problema começa quando “manter-me ativo” vira desculpa para um orçamento que já não fecha.

  • Pergunta 3 - Que tipos de trabalhos são mais comuns entre estes “cumulantes”?
    Retalho e caixas, receção/portaria, cantinas, limpezas, apoio a pessoas, pequenas tarefas administrativas e trabalhos por turnos em serviços. Nas plataformas, há mais flexibilidade - e muitas vezes menos proteção.

  • Pergunta 4 - Como pode um sénior proteger a saúde se decidir aceitar um trabalho depois da reforma?
    Priorize horários que preservem sono, fuja de cargas repetidas e turnos noturnos frequentes, peça pausas reais, e fale com o médico se houver dor persistente ou cansaço extremo. Se o trabalho piora sintomas por semanas, raramente “passa sozinho”.

  • Pergunta 5 - O que podem as famílias fazer quando veem um pai ou avô a trabalhar demais para conseguir pagar as contas?
    Comecem por um orçamento simples (renda, saúde, alimentação), dividam tarefas (compras, burocracias, comparações de preços) e ajudem a validar direitos/apoios. Muitas vezes, reduzir 50–100 € em despesas fixas alivia mais do que adicionar turnos que rebentam com a saúde.

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