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Autoridades marítimas criticadas após aumento de ataques de orcas a barcos; ativistas culpam turistas e marinheiros pedem resposta letal.

Homem num veleiro observa uma orca na água, com mapa e rádio visíveis no convés.

O primeiro estalo soou como alguém a partir um cabo de vassoura no escuro. Depois, outro. No pequeno veleiro ao largo de Cádis, todas as cabeças se viraram para a popa ao mesmo tempo, olhos muito abertos, respirações suspensas. Sob a água cinzenta e revolta, uma forma preta e branca passou num relâmpago e, em seguida, investiu contra o leme com uma precisão aterradora. O skipper agarrou o volante, inutilmente, enquanto o barco voltou a tremer. Tinha lido as manchetes sobre orcas a atacar embarcações no Estreito de Gibraltar, como toda a gente. Histórias por que passamos a deslizar no telemóvel, abanamos a cabeça, e esquecemos antes do jantar. Até sentirmos esse embate na pele.
Ninguém a bordo falou durante alguns segundos. Todos tiveram o mesmo pensamento.
Quem é que manda realmente aqui fora?

Orcas versus barcos: quando uma história estranha se torna um padrão

Da primeira vez que alguém publicou um vídeo tremido, gravado com um smartphone, de orcas a empurrarem o leme de um iate em 2020, muita gente pensou que era um caso isolado e bizarro. Um encontro raro, do tipo que os marinheiros repetem durante anos à mesa de cervejas. Quatro anos depois, o ambiente é muito diferente. As denúncias de orcas a interagirem de forma agressiva com barcos ao largo de Espanha, Portugal e até França dispararam, e o tom nas cabines já não é de diversão. É de nervosismo.
Os skippers falam de “golpes coordenados”, não de toques brincalhões. Dizem que as baleias sabem exatamente onde acertar.

As autoridades marítimas espanholas e portuguesas registaram dezenas de incidentes no Estreito de Gibraltar e ao longo da costa atlântica ibérica, alguns terminando com iates avariados ou mesmo totalmente afundados. Pequenos veleiros com menos de 15 metros parecem ser os principais alvos, sobretudo os que têm lemes clássicos do tipo “pá” (spade rudders). Uma família francesa viu, impotente, um trio de orcas investir repetidamente contra a direção, rachá-la, e depois afastar-se calmamente, deixando-os à deriva e a pedir socorro.
O vídeo deles tornou-se viral num fim de semana. A hashtag #orcauprising surgiu logo a seguir.

Os cientistas, menos fãs de hashtags, falam de um “comportamento aprendido” que se está a espalhar dentro de uma subpopulação de orcas ibéricas já sob pressão. Estes animais vivem em algumas das águas mais movimentadas da Europa, espremidos entre petroleiros, frotas de pesca, ferries e um desfile interminável de barcos turísticos de observação de cetáceos. Ruído, declínio das populações de atum-rabilho e encontros repetidos e próximos com humanos criam um pano de fundo confuso. Não é difícil ligar os pontos. Um predador inteligente e stressado, uma multidão de visitantes barulhentos, e algumas colisões ou emalhamentos azarados. A certa altura, uma fêmea apelidada de “White Gladis” poderá ter associado barcos à dor. O resto do grupo parece estar a tomar nota.

Autoridades encurraladas entre ativistas, turistas e skippers furiosos

Perante o aumento de relatos, as autoridades marítimas emitiram orientações que soam quase impotentes: abrandar, evitar certas zonas, não interagir, não alimentar, não filmar. Barcos de patrulha às vezes acompanham regatas através de “pontos quentes” conhecidos, como a aproximação a Gibraltar, transmitindo avisos em várias línguas. No papel, há protocolos. Na água, muitos velejadores dizem que se sentem abandonados.
Veem boletins e comunicados. O que querem é que alguém impeça, à partida, que lhes destruam os lemes.

A indústria do turismo ouve uma história muito diferente. Para operadores de observação de cetáceos em Tarifa ou na Madeira, as orcas são a atração principal. No verão, visitantes pagam bem para as ver verem saltar e caçar. Grupos ambientalistas acusam turistas ocasionais de transformarem superpredadores em conteúdo para Instagram, aproximando barcos demais, encurralando mães e crias e ignorando orientações destinadas a dar espaço às orcas. Uma ONG espanhola publicou recentemente imagens de quatro barcos turísticos a “encaixotarem” um grupo, motores acelerados, passageiros a aplaudir.
Uma semana depois, ocorreu uma interação de orcas com um iate privado na mesma zona.

Do lado das cabines, a raiva está a crescer. Em fóruns de navegação e nos bares das marinas, alguns skippers pedem abertamente uma resposta letal, pelo menos contra os “animais problemáticos” conhecidos por liderarem os ataques. Comparam as orcas a cães perigosos que morderam vezes a mais. Esse discurso horroriza cientistas e ativistas, que argumentam que estas orcas ibéricas já estão ameaçadas e somam menos de 40 indivíduos. Matar nem que seja uma matriarca pode colapsar a frágil estrutura social do grupo. As autoridades ficam presas no meio, acusadas de não fazerem nada pelos marinheiros e de fazerem a coisa errada pelos ambientalistas.
Não há política fácil que agrade a toda a gente de ambos os lados do rasto.

Entre o medo e o fascínio: o que os humanos realmente fazem de errado lá fora

Na prática, cada interação começa muito antes de qualquer leme ser atingido. Muitas vezes começa com uma escolha casual: manter o rumo através de um corredor de alto risco conhecido porque é mais rápido, ou mais divertido, ou já está planeado. Muitos skippers continuam a atravessar pontos quentes de orcas nas horas de maior afluência, quando barcos turísticos e embarcações de pesca enchem a água. Alguns até abrandam ou fazem círculos quando avistam barbatanas, pensando “que oportunidade”.
Para orcas que tentam descansar ou caçar, essa “oportunidade” parece mais assédio.

Há culpa em muitos relatos na primeira pessoa. Marinheiros admitem que continuaram a filmar após o primeiro toque, só reagindo quando os golpes ficaram violentos. Tripulações de observação de cetáceos confessam em surdina que, quando um barco cheio de turistas pagou para ver orcas, voltar mais cedo é difícil de vender. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias - recusar o espetáculo, abdicar do dinheiro, aceitar o tédio. E, no entanto, é exatamente isto que uma convivência a longo prazo exigiria: falhar alguns encontros de propósito, recuar quando parece emocionante aproximar-se.
Todos já estivemos naquele momento em que a câmara já está na mão e o bom senso perde a batalha em silêncio.

“As pessoas querem um vilão arrumadinho”, diz a bióloga marinha Ana Rodrigues, que acompanha as orcas ibéricas há uma década. “Nuns dias são os turistas. Noutros, são os marinheiros. Às vezes são as autoridades. A verdade é que as orcas estão a responder a todo um sistema que construímos à volta delas.”

  • Evitar zonas de tráfego de pico durante as épocas em que as orcas são mais comuns, sobretudo estreitos e corredores de migração movimentados.
  • Reduzir a velocidade e manter distância quando qualquer cetáceo for avistado; recuar se os animais começarem a aproximar-se diretamente.
  • Seguir alertas locais e conselhos de rota das autoridades marítimas, mesmo quando parecem incómodos ou pouco diretos.
  • Resistir ao impulso de filmar ou de perseguir “melhores ângulos” durante encontros; privilegiar um rumo calmo e previsível.
  • Reportar cada interação com detalhe, para que cientistas e autoridades possam ajustar orientações e medidas de proteção.

Quem é dono do mar quando os instintos de sobrevivência colidem?

Os “ataques” de orcas impõem uma pergunta desconfortável a todos os que usam o mar, de turistas ocasionais a capitães experientes. Os barcos são convidados na casa das baleias, ou as baleias são obstáculos numa via marítima humana? A resposta muda consoante estamos agarrados a uma roda de leme danificada ou a ver imagens granuladas nas notícias a partir do sofá. O medo faz-nos redesenhar linhas morais muito depressa.
Mas as orcas ibéricas não leem as nossas linhas. Leem padrões. Ruído. Velocidade. Formas na água que um dia lhes causaram dor.

As autoridades marítimas estão sob pressão para agir depressa num mundo que se move mais devagar do que a indignação viral. Ativistas falam de respeito, marinheiros falam de segurança, e ambos dizem estar a defender a vida no mar. Algures por baixo das discussões, um grupo em declínio de predadores altamente sociais está a improvisar a sua própria resposta à era humana. Uma resposta que não planeámos - e que ainda não compreendemos totalmente.
Da próxima vez que uma barbatana preta surgir atrás de um casco de fibra de vidro, todos estes debates se condensam num único momento frágil. De ambos os lados, alguém está apenas a tentar sobreviver.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Incidentes em aumento Dezenas de interações orca–barco registadas desde 2020 em águas ibéricas Ajuda a avaliar o risco real se navegar ou viajar nestas regiões
Pressão humana Turismo, transporte marítimo e pesca intensificam o stress numa pequena população de orcas ameaçada Esclarece porque o comportamento pode estar a mudar, para além das manchetes e da culpa
Respostas práticas Escolhas de rota, regras de distância e reporte podem reduzir encontros perigosos Oferece formas concretas de agir de forma responsável sem abdicar do mar

FAQ:

  • As orcas estão mesmo a “atacar” barcos, ou é brincadeira? Os investigadores pensam que o comportamento começou como resposta a um evento traumático e depois se espalhou socialmente. Algumas interações parecem exploratórias ou lúdicas; outras parecem visar lemes. Para quem está a bordo, a distinção não altera os estragos.
  • Houve mortes humanas causadas por orcas nestes incidentes? Não foram reportadas mortes nos eventos recentes na Península Ibérica. A maior parte dos danos envolve lemes e cascos, e as lesões estão ligadas a quedas ou evacuações, não a ataques diretos a pessoas.
  • Porque é que as autoridades não deslocam simplesmente as orcas para longe de zonas movimentadas? Estes grupos estão ligados a áreas específicas de alimentação, sobretudo de atum-rabilho. Movê-los seria arriscado, caro e provavelmente ineficaz, pois poderiam regressar ou ter dificuldade em adaptar-se.
  • Uma resposta letal contra orcas “problemáticas” é legal? Em Espanha e Portugal, as orcas ibéricas estão protegidas. Matá-las violaria leis de conservação e acordos internacionais, e os cientistas avisam que isso pode desestabilizar uma população já frágil.
  • O que podem fazer os turistas comuns para não contribuir para o problema? Escolher operadores com regras rigorosas de vida selvagem, aceitar que as viagens possam ser encurtadas se os animais estiverem stressados, evitar barcos que se amontoam e recusar experiências de “perseguição” de perto. O seu dinheiro sinaliza que tipo de encontros é recompensado.

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