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Autoridades marítimas alertam para o aumento do comportamento agressivo de grupos de orcas contra embarcações, segundo relatos.

Homem num barco observa duas orcas a nadar perto da costa ao pôr do sol.

O mar estava liso como vidro quando o primeiro estrondo ecoou através do casco de fibra de vidro.
No pequeno veleiro ao largo da costa de Espanha, toda a gente ficou imóvel. Outro abanão. Depois um terceiro, mais fundo, mais pesado, como se alguém tivesse atingido a quilha com uma marreta. Só que não era “alguém”. Era um grupo de orcas, a circular, a encostar, a testar.

A tripulação viu uma barbatana negra alta cortar a superfície a poucos metros, e depois desaparecer. As câmaras foram esquecidas. Ninguém estava a tirar selfies. O piloto automático apitava, impotente, enquanto o capitão desligava o motor e levantava as mãos, como se apelasse ao próprio mar.

Há um momento, dizem as testemunhas, em que deixamos de pensar nas orcas como “baleias assassinas” amigáveis dos documentários e começamos a vê-las como uma força.
Esse momento está a acontecer cada vez mais.

Quando o principal predador do oceano muda as regras

Em partes da Europa e do Atlântico Norte, as autoridades marítimas estão a emitir avisos invulgarmente diretos. Aos navegadores diz-se para abrandarem, desligarem motores, evitarem certas rotas e, se necessário, enviarem pedidos de socorro assim que as orcas surgirem sob a popa. Não são lendas dramáticas de vela contadas ao balcão. São relatórios de incidentes, registados por guardas costeiras, seguradoras e equipas científicas.

O padrão é perturbador: pequenos grupos de orcas a aproximarem-se, a focarem-se nos lemes, a circularem como se estivessem a seguir um guião. Embarcações que antes deslizavam em silêncio por passagens tradicionais agora avançam com um pouco mais de tensão no ar.
Quem já passou tempo no mar sente-o: algo nesta relação mudou.

Veja-se as águas entre Espanha e Portugal, em torno do Estreito de Gibraltar. Aí, desde 2020, os relatos de encontros próximos passaram de curiosidades raras a um ritmo constante. Veleiros perderam governo, pescadores viram orcas empurrarem contra os cascos e, em alguns casos dramáticos, embarcações chegaram mesmo a afundar após impactos repetidos no leme.

Skippers falam de um “gangue” de juvenis, liderado por alguns adultos reconhecíveis, que parece transmitir táticas. Um barco leva um toque, outro é deixado em paz, enquanto um terceiro é seguido durante milhas. As autoridades espanholas e portuguesas publicam agora mapas e alertas em tempo real, como avisos de tempestade - exceto que a “tempestade” é uma baleia altamente inteligente do tamanho de uma miniautocarro.
Já não é apenas uma história de fóruns de vela.

Os cientistas são cautelosos com a linguagem, mas a expressão que continua a surgir nos relatórios é “interação agressiva”. Essa formulação importa. Não assume malícia, mas admite que o comportamento parece ser mais do que curiosidade. As orcas sabem o que um leme faz. Aprendem depressa, copiam-se umas às outras e repetem comportamentos que lhes parecem satisfatórios ou úteis.

Alguns investigadores pensam que um único incidente traumático - uma orca ferida ou assediada - pode ter desencadeado uma espécie de resposta cultural num grupo. Outros apontam para uma experimentação lúdica que saiu do controlo, como um jogo perigoso passado entre gerações.

Sejamos honestos: ninguém compreende realmente o que se passa lá fora - ainda.

Manter-se em segurança quando aparecem barbatanas negras atrás de si

Para quem tem mesmo de atravessar estas águas, a teoria interessa menos do que a sobrevivência. Por isso as autoridades marítimas passaram de conselhos vagos para orientações muito específicas. Quando são avistadas orcas perto de uma embarcação, recomenda-se aos capitães que desliguem o motor, baixem as velas se as condições o permitirem e evitem mudanças bruscas de rumo. A ideia é simples: parecer aborrecido, não um desafio.

Algumas tripulações navegam agora com listas de verificação impressas, coladas junto ao leme. Outras ensaiam o que fazer se perderem o governo, com a mesma calma com que praticariam um exercício de homem-ao-mar. Parece extremo - até o barco começar a estremecer com a força de uma batida de cauda.
Nessa altura, a memória muscular vale mais do que a bravata.

Há também um novo tipo de humildade a infiltrar-se na cultura da vela. Muitos de nós crescemos com a imagem romântica de seres humanos a deslizar por uma natureza intocada, senhores dos seus pequenos mundos flutuantes. Confrontados com um grupo de orcas determinado, esse mito desfaz-se em segundos. Reações em pânico são comuns: passar música debaixo de água, atirar objetos, até tentar afugentar os animais com varas.

As autoridades e os biólogos lembram, com cuidado, que a hostilidade muitas vezes agrava a situação. O oceano não quer saber se tem uma agenda apertada ou um itinerário perfeito. Às vezes, o melhor é aceitar que é apenas um visitante, temporariamente à mercê de residentes locais com melhor sonar e dentes mais afiados.
Aqui, o respeito não é um slogan. É uma estratégia de sobrevivência.

Os responsáveis pela segurança marítima ao longo da costa ibérica repetem o mesmo mantra discreto nas sessões de briefing: “O objetivo não é ganhar. O objetivo é sair com toda a gente viva - incluindo as baleias.” Um capitão português descreveu um encontro assim: “Parámos tudo. O barco ficou silencioso. O grupo ficou dez minutos e depois foi-se embora. Parece que perderam o interesse quando deixámos de jogar o jogo deles.”

  • Mantenha-se atualizado com os mapas oficiais de interações com orcas antes da partida.
  • Prepare um protocolo claro a bordo: quem faz o quê se as orcas aparecerem.
  • Reduza o ruído e a velocidade; evite persegui-las, filmar demasiado perto ou guinar na direção delas.
  • Tenha o equipamento de comunicação de emergência pronto caso perca o governo.
  • Reporte cada interação depois, para que padrões possam ser acompanhados e partilhados.

O que estes encontros dizem sobre nós - e sobre o mar

Se recuarmos dos vídeos virais, há uma história mais profunda a desenrolar-se. Durante décadas celebrámos as orcas como ícones de inteligência selvagem, mas tratámos o mar como uma autoestrada azul previsível. Agora, essas duas ideias estão a colidir. Quando um predador de 6 toneladas começa a reescrever as regras de como atravessamos o seu território, a nossa tecnologia de repente parece pequena.

Alguns velejadores regressam destes encontros abalados. Outros descrevem uma estranha sensação de assombro, mesmo quando o barco fica danificado. Todos já passámos por esse momento em que a natureza deixa de ser um postal e passa a ser uma presença na sala. Estes grupos de orcas, com impactos direcionados e táticas partilhadas, estão a lembrar-nos que o oceano não é apenas um cenário. É um sistema vivo, com memória e reação.

Os próximos meses e anos trarão provavelmente mais orientações, talvez novos desenhos de casco, talvez rotas desviadas. Mas podem também trazer novas formas de respeito - menos sobre “domar” o mar e mais sobre negociar com ele. A pergunta que paira agora sobre cada mesa de cartas é simples e inquietante: se os animais que tanto admiramos começarem a reagir ativamente, estaremos prontos para ouvir - ou só responderemos quando o leme partir?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Os avisos oficiais estão a aumentar Estados costeiros em áreas de maior incidência publicam agora alertas e comportamentos recomendados durante encontros com orcas Ajuda a planear rotas mais seguras e a compreender os níveis atuais de risco
O comportamento parece direcionado Relatos mencionam de forma consistente ataques aos lemes e “táticas” repetidas partilhadas dentro dos grupos Dá contexto sobre por que razão os barcos perdem o governo e o que esperar num incidente
Uma resposta calma reduz o perigo Desligar motores, evitar agressividade e seguir protocolos está associado a interações mais curtas e menos danosas Oferece passos práticos que podem reduzir stress e potencial dano no mar

FAQ:

  • Porque é que as orcas estão de repente a atacar barcos? Os cientistas falam de um comportamento “cultural” aprendido em certos grupos, possivelmente desencadeado por um evento traumático ou por brincadeira que escalou, e depois copiado e refinado ao longo do tempo.
  • Estes encontros estão a acontecer em todo o mundo? Não. Os focos atuais são relatados sobretudo em partes do Atlântico Norte e em torno da Península Ibérica, com casos isolados noutros locais sob análise atenta.
  • As orcas conseguem mesmo afundar um veleiro moderno? Sim. Um pequeno número de barcos afundou após impactos repetidos no leme e na popa, normalmente após interações prolongadas e não apenas uma única investida.
  • O que deve fazer um skipper se aparecerem orcas perto do barco? As autoridades aconselham a abrandar ou parar, evitar manobras bruscas, manter o ruído baixo, contactar o tráfego próximo ou serviços de socorro se perder o governo, e registar o incidente.
  • Há alguém a tentar parar ou afugentar estas orcas? Nesta fase, a maioria dos esforços centra-se na monitorização, no desvio de tráfego e na formação das tripulações, em vez de dissuasão direta, para evitar ferir os animais ou amplificar o comportamento.

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