O que começou como um levantamento de rotina em Lower Lough Erne transformou-se agora num alerta sério sobre um invasor agressivo de água doce e o seu potencial impacto em comunidades, vida selvagem e infraestruturas em toda a Irlanda do Norte.
Uma deteção inédita que altera o mapa
As autoridades confirmaram a primeira deteção de sempre de mexilhões quagga na Irlanda do Norte, depois de amostras recolhidas em Lower Lough Erne terem dado positivo através de análise de ADN. Estes pequenos bivalves, originários da Europa de Leste, podem não parecer dramáticos, mas a sua chegada poderá remodelar as vias navegáveis locais durante décadas.
Os mexilhões quagga já se estabeleceram em partes da Grã-Bretanha, da República da Irlanda e em toda a América do Norte. A sua entrada na Irlanda do Norte assinala uma nova e preocupante fase na propagação de uma espécie invasora conhecida por se reproduzir a uma velocidade impressionante. Uma única fêmea pode libertar até um milhão de ovos num ano, criando colónias densas em quase qualquer superfície dura submersa.
As autoridades veem agora Lower Lough Erne como a linha da frente numa batalha mais ampla para impedir que os mexilhões quagga se espalhem pelos lagos e rios da Irlanda do Norte.
O ministro da Agricultura e do Ambiente de Stormont, Andrew Muir, descreveu a descoberta como “mais uma pressão significativa sobre o nosso já atribulado sistema de água doce”, sublinhando que “uma maior vigilância e monitorização é crítica” se a região quiser evitar uma cascata de problemas ecológicos e económicos.
Porque é que os mexilhões quagga causam tanta preocupação
Os mexilhões quagga pertencem a um grupo de invasores de água doce que alteram silenciosa mas rapidamente os locais que colonizam. Fixam-se a rochas, cascos de embarcações, tubagens, pontões e até a outros mexilhões. Depois de instalados, formam tapetes espessos que afastam as espécies locais e alteram a química básica da água.
Como perturbam a vida de água doce
Estes mexilhões alimentam-se filtrando a água, retirando plâncton e pequenas partículas orgânicas. À primeira vista, água mais clara pode parecer uma vantagem. Na prática, isso frequentemente desencadeia uma reação em cadeia que prejudica toda a teia alimentar.
- Removem o plâncton de que peixes e invertebrados nativos dependem para se alimentarem.
- Deslocam nutrientes da água aberta para o fundo do lago, alterando onde as algas e as plantas conseguem crescer.
- Criam condições ideais para a proliferação de algumas algas nocivas.
- Sufocam fisicamente mexilhões nativos e outras espécies que vivem no fundo.
A Irlanda do Norte já viu uma versão desta história. Os mexilhões-zebra, parentes próximos dos mexilhões quagga, invadiram Lough Neagh há anos. A sua filtração ajudou a transformar as condições da água e contribuiu para florações de algas nocivas que chocaram os residentes locais e prejudicaram a reputação do lago como ativo natural e recreativo.
Os especialistas consideram os mexilhões quagga ainda mais adaptáveis do que os mexilhões-zebra. Conseguem sobreviver em águas mais frias e profundas e, muitas vezes, filtram a taxas mais elevadas, o que significa que a sua pegada ecológica pode estender-se por uma maior profundidade e área do lago.
Modelações iniciais de outras regiões sugerem que, quando os mexilhões quagga dominam, as comunidades nativas de água doce raramente regressam ao seu estado anterior.
De conchas escondidas a custos visíveis
O impacto não se fica pela ecologia. Os mexilhões invasores tendem a surgir também nas contas.
Ao fixarem-se a tubagens, estruturas de captação e sistemas de arrefecimento, os mexilhões quagga podem:
- Reduzir o caudal em tubagens de água potável e industriais.
- Aumentar os custos de manutenção e limpeza.
- Encurtar a vida útil das infraestruturas.
- Forçar melhorias nos sistemas de filtração e tratamento.
A pesca e o turismo também sentem a pressão quando os mexilhões invasores alteram a composição de espécies num lago ou quando conchas espessas se acumulam nas margens, cortando pés descalços e desencorajando banhistas. Para comunidades rurais que dependem da pesca à linha, da navegação e da hotelaria, estas mudanças podem traduzir-se em perda de rendimento e aumento das despesas de gestão.
Abrandar a propagação: o que as autoridades estão a fazer agora
Quando os mexilhões quagga se instalam num grande corpo de água aberto, a erradicação completa costuma estar fora de alcance com a tecnologia atual. Essa realidade molda a estratégia de resposta em Lower Lough Erne e além: conter, abrandar e monitorizar.
“Verificar, limpar, secar”: a defesa da linha da frente
A Northern Ireland Environment Agency está a apelar a todos os que usam águas locais para seguirem uma rotina rigorosa de “verificar, limpar, secar” para embarcações, atrelados, equipamento de pesca, pranchas de stand up paddle e qualquer material que se desloque entre locais.
| Passo | O que fazer | Porque é importante |
|---|---|---|
| Verificar | Inspecionar cascos, motores, cordas, redes e equipamento à procura de lama, plantas ou pequenas conchas. | Os mexilhões quagga e as suas larvas podem aderir a superfícies minúsculas. |
| Limpar | Lavar o material com água quente ou em estações de limpeza designadas, quando disponíveis. | Remove e elimina mexilhões e larvas aderidos. |
| Secar | Deixar o equipamento secar completamente antes de o usar noutro corpo de água. | As larvas precisam de humidade; secar reduz a sobrevivência entre deslocações. |
Isto pode parecer simples, mas a experiência no estrangeiro mostra como a prevenção eficaz pode tornar-se exigente. Nos Estados Unidos, onde os mexilhões quagga invadiram albufeiras-chave em estados como Nevada, Arizona e Utah, as autoridades passaram anos a inspecionar e descontaminar embarcações. Só o Utah reportou mais de 288.000 inspeções a barcos num único ano, com milhares de descontaminações completas realizadas para impedir que a espécie se espalhasse entre lagos.
Inspeções, campanhas públicas e adesão voluntária formam um escudo de três partes; se uma falhar, os mexilhões invasores podem passar despercebidos.
Vigilância e sistemas de alerta precoce
A par das verificações físicas, as agências dependem de monitorização biológica de rotina. Os cientistas recolhem amostras de água para testar vestígios de ADN de mexilhão quagga, mesmo quando não há conchas adultas visíveis. Este tipo de rastreio de “ADN ambiental” (eDNA) permite uma deteção mais precoce do que a amostragem tradicional com redes por si só.
É provável que as autoridades na Irlanda do Norte ampliem agora estes levantamentos a lagos vizinhos e sistemas fluviais ligados a Lower Lough Erne, procurando sinais de que a invasão já se propagou.
Como navegadores, pescadores e residentes podem reduzir o risco
A participação do público tem um papel importante no controlo de espécies invasoras. No caso dos mexilhões quagga, vários hábitos do dia a dia podem limitar a sua propagação.
- Evitar transportar isco vivo ou água de um lago ou rio para outro.
- Guardar canoas, caiaques e pranchas de paddle secas entre deslocações, sempre que possível.
- Reportar aglomerados suspeitos de conchas ou crescimentos densos em estruturas às agências ambientais locais.
- Apoiar marinas e clubes que invistam em estações de lavagem e campanhas de sensibilização.
Estas medidas podem parecer pequenas a nível individual. Em conjunto, formam a principal barreira entre um surto localizado e uma invasão em todo o sistema.
Lições de outras invasões
Regiões que já lidam com mexilhões quagga e zebra oferecem algumas orientações para a Irlanda do Norte. Lagos norte-americanos como os Grandes Lagos e o Lago Mead observaram mudanças nos ecossistemas, com água mais clara, mas declínio de peixes nativos em algumas zonas e depósitos espessos de conchas ao longo das margens.
As abordagens de gestão tendem a focar-se em:
- Regras rigorosas para a movimentação de embarcações, por vezes incluindo inspeções obrigatórias.
- Tratamentos químicos direcionados em sistemas pequenos e fechados, como canais ou marinas.
- Remoção física em áreas confinadas onde mergulhadores possam raspar estruturas.
- Financiamento de longo prazo para monitorização e educação, em vez de soluções de curto prazo.
Algumas equipas de investigação estão a testar controlos biológicos, como microrganismos ou revestimentos especializados que impedem a fixação dos mexilhões. A maioria destes métodos continua experimental, e os reguladores tratam-nos com cautela, porque novas intervenções podem trazer os seus próprios riscos ambientais.
Contexto mais amplo: porque é que as invasões de água doce continuam a aumentar
A chegada dos mexilhões quagga à Irlanda do Norte enquadra-se num padrão mais amplo. O comércio global, as viagens recreativas e as alterações climáticas criam mais vias e condições mais favoráveis para espécies invasoras. Os navios descarregam água de lastro, pescadores transportam equipamento molhado através de fronteiras e o aumento das temperaturas abre lagos que antes se mantinham frios demais para certos invasores.
Os ecossistemas de água doce, já sob stress devido à poluição, captação de água e excesso de nutrientes, muitas vezes têm menos resiliência quando uma nova espécie chega. Esta combinação de pressões significa que uma única introdução pode desencadear mudanças rápidas e, por vezes, irreversíveis.
O que isto significa para o planeamento futuro
Para os governos, os mexilhões quagga levantam questões práticas sobre como alocar recursos. Investir muito em prevenção agora pode poupar custos muito maiores mais tarde em limpeza de infraestruturas e restauração ecológica. Esse cálculo também envolve empresas de abastecimento de água, centrais elétricas e autarquias responsáveis pela manutenção de instalações ao longo de rios e lagos.
Para os cientistas, a invasão acrescenta urgência ao trabalho em modelos preditivos: que corpos de água enfrentam maior risco, que vias de introdução são mais relevantes e onde controlos mais rígidos compensariam. Para as comunidades, reforça a necessidade de pensar em como usam recursos naturais partilhados, desde hábitos de navegação até à gestão de resíduos que pode influenciar cargas de nutrientes e florações de algas.
Os mexilhões quagga podem ser pequenos, mas a sua aparição em Lower Lough Erne funciona como um estudo de caso em tempo real sobre a rapidez com que uma deteção isolada pode transformar-se num desafio à escala regional se a vigilância falhar, a monitorização enfraquecer ou se instalar a fadiga face a passos básicos de prevenção.
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