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As rotinas reforçam a resiliência emocional, mas alguns dizem que limitam a criatividade e a paixão.

Rapaz de cabelo encaracolado escrevendo num caderno sobre a secretária, com guitarra ao fundo e ténis na janela.

O alarme toca às 6h30 e, quase sem pensar, entras na tua pequena coreografia. A mesma caneca, o mesmo café, a mesma playlist, o mesmo percurso. Os teus pés mexem-se antes de o teu cérebro estar sequer totalmente acordado. Há conforto nisso, uma previsibilidade suave que parece plástico-bolha emocional. Sem grandes surpresas. E também sem grandes quedas.

Mas, algures a meio da tarde, há aquela picada silenciosa. Percebes que já não te lembras do que fizeste ontem, ou anteontem - não de forma vívida. A tua vida começa a parecer um GIF em loop em vez de um filme.

Estás mais calmo, sim. Mas ainda estás vivo como antes?

Essa pequena dúvida está cada vez mais difícil de ignorar.

Quando as rotinas te mantêm inteiro… e, lentamente, te vão “achatando”

Entra hoje em qualquer consultório de um terapeuta e é provável que ouças a mesma frase: “Vamos criar uma rotina.” A resiliência emocional tornou-se quase sinónimo de hábitos previsíveis. Acordar à mesma hora, comer a horas regulares, proteger o sono como se fosse um animal raro. A estrutura é vendida como o andaime secreto que mantém mentes instáveis de pé.

E há verdade nisso. A repetição reduz a fadiga de decisão, dá descanso ao sistema nervoso e corta o caos. O teu cérebro sabe o que vem a seguir, por isso pára de girar em pânico. Sentes-te mais estável. Menos frágil. Mais capaz de enfrentar más notícias sem te desmoronares.

Imagina uma jovem enfermeira chamada Lara, a fazer turnos da noite durante a pandemia. A certa altura, estava a chorar no carro entre turnos, convencida de que não aguentava mais uma noite. Um psicólogo sugeriu uma rotina brutalmente simples: a mesma hora para acordar depois do turno, uma caminhada de dez minutos antes do café, cinco minutos de escrita num diário antes de dormir. Só isso.

Ao fim de três semanas, a Lara não estava magicamente “feliz”, mas estava menos à beira do abismo. Continuava a ver luto, continuava a sentir medo, mas os seus pequenos rituais cosiam os dias, como uma rede de segurança solta, mas real. A caminhada tornou-se a pequena ponte entre o caos e o descanso. O diário tornou-se o lugar para esvaziar a cabeça antes de dormir. A rotina não consertou o mundo. Apenas impediu que o mundo a esmagasse.

Há uma razão para isto resultar. O nosso cérebro adora padrões. Cada acção repetida cria um atalho neural: menos energia gasta, menos micro-decisões, mais largura de banda mental para problemas reais. Isso é resiliência emocional, na sua forma simples e aborrecida.

O reverso é subtil. Quando tudo está formatado, o teu cérebro deixa de procurar novidade. Os dias confundem-se uns com os outros. A criatividade - que se alimenta de surpresa e incerteza - encolhe em silêncio. Aquilo que te mantém emocionalmente à tona pode, ao mesmo tempo, atenuar as cores da tua vida interior se se transformar num guião rígido em vez de uma moldura flexível.

Como criar “rotinas elásticas” que te acalmam sem te prenderem

Uma forma de sair desta armadilha é tratares a tua rotina como um standard de jazz, não como uma marcha rígida. Manténs a estrutura base, mas improvisas dentro dela. Começa por “âncoras”: momentos do dia que ficam quase fixos, como acordar, a primeira refeição e a desaceleração antes de dormir. À volta dessas âncoras, dá-te “wildcards”.

Por exemplo, das 7h às 7h30 é sempre o teu “bloco da manhã”. A âncora pode ser: levantar, beber água, dois minutos de alongamentos. O wildcard é o que vem a seguir: nuns dias é ler, noutros é desenhar, noutros é simplesmente ficar a olhar pela janela, deixando os pensamentos vaguear. A coluna mantém-se. A carne muda.

O maior erro? Transformar rotinas em testes de moralidade. Falhas o treino das 6h uma vez e aparece o juiz interior: preguiçoso, indisciplinado, falhanço. Daí é um passo curto para o pensamento tudo-ou-nada: ou és “uma pessoa de rotinas”, ou a tua vida é caos.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A vida traz crianças doentes, caldeiras avariadas, comboios atrasados. Se a tua rotina colapsa ao primeiro imprevisto, não era resiliência - era um castelo de cartas. Hábitos emocionalmente sustentáveis dobram. Aceitam humores humanos, cansaço e, de vez em quando, uma maratona nocturna de séries sem transformar isso numa crise moral.

A certa altura tens de perguntar: a tua rotina está ao teu serviço, ou estás tu ao serviço dela? Um artista com quem falei, um ilustrador de 42 anos chamado Dan, foi directo ao assunto:

“A minha rotina salvou a minha sanidade depois do burnout, mas um dia acordei e percebi que ela me tinha roubado silenciosamente a obsessão. Eu estava calmo, claro. Também estava a desenhar as mesmas coisas seguras, vezes sem conta.”

Há uma forma simples de evitar essa erosão criativa lenta:

  • Mantém um “espaço livre” no teu dia, sem actividade pré-decidida.
  • Roda pelo menos um hábito todos os meses, mesmo que seja algo pequeno.
  • Agenda tempo “sem objectivo”, em que a única regra é: nada tem de ser útil.
  • Revê as tuas rotinas a cada trimestre e pergunta: o que está morto, o que ainda está vivo?
  • Protege uma zona de brincadeira pura, desligada de trabalho ou desempenho.

As rotinas devem parecer um palco que te apoia, não uma cela com papel de parede bonito.

Viver no espaço entre estabilidade e faísca

Por baixo deste debate vive um medo mais profundo: ninguém quer uma vida estável mas entorpecida, nem uma vida selvagem mas sempre à beira do colapso. Procuramos essa faixa estreita no meio, onde os dias têm forma, mas ainda deixam espaço para a surpresa. Algumas pessoas encontram-na mantendo rotinas rígidas durante a semana e quebrando-as deliberadamente ao fim-de-semana. Outras fazem o contrário: usam rotinas apenas em épocas de muito stress e afrouxam assim que a tempestade passa.

Talvez notes que as tuas ideias mais criativas aparecem exactamente quando a tua rotina é “sólida mas não rígida”: quando dormes razoavelmente, comes a horas e o teu cérebro se sente seguro o suficiente para sair do caminho batido. A resiliência emocional não é inimiga da paixão. O inimigo é o tipo de piloto automático que nunca é questionado, que continua a funcionar muito depois de ter deixado de fazer sentido para quem tu és agora.
Uma rotina é só coreografia. A música, ainda és tu que a escolhes.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As rotinas acalmam o sistema nervoso Hábitos previsíveis reduzem a fadiga de decisão e dão descanso mental Ajuda-te a sentires-te mais estável e menos sobrecarregado no dia-a-dia
Estrutura a mais pode embotar a criatividade Repetição excessiva reduz a novidade e a curiosidade Avisa-te para não escorregares para uma vida “plana” ou em repetição
“Rotinas elásticas” equilibram ambos Âncoras + wildcards + revisões regulares dos hábitos Oferece uma forma realista de seres resiliente sem perderes paixão

FAQ:

  • As rotinas aumentam mesmo a resiliência emocional? Sim. Sono regular, refeições e pequenos rituais diários dizem ao teu cérebro “estás seguro”, o que baixa o stress e ajuda-te a lidar melhor com choques.
  • Uma rotina rígida pode matar a criatividade? Pode. Quando todos os dias são iguais, a mente deixa de procurar novas ligações e as ideias frescas vão secando com o tempo.
  • Qual é um exemplo de uma rotina equilibrada? Horas fixas para acordar e desacelerar à noite, mais um ou dois blocos flexíveis em que escolhes entre várias actividades conforme o teu humor.
  • Com que frequência devo mudar a minha rotina? Revê-a a cada poucos meses. Se um hábito te parece morto ou te gera ressentimento durante semanas, ajusta-o ou substitui-o por algo que combine com quem tu és agora.
  • E se eu odeio rotinas mas me sinto emocionalmente frágil? Começa pequeno: uma âncora (como uma hora regular para deitar) e um ritual reconfortante (uma caminhada, uma chávena de chá, uma chamada). Constrói a partir daí, não de um horário perfeito.

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