Em sua última entrevista televisiva, gravada meses antes da sua morte aos 91 anos, o ícone francês do ecrã falou com calma sobre recolhimento, raiva e responsabilidade, revelando como um símbolo sexual global se transformou numa voz frontal e teimosa pelos animais - e numa forma mais silenciosa de liberdade.
A sua última aparição no ecrã, após onze anos de silêncio
Brigitte Bardot morreu neste domingo, 28 de dezembro, aos 91 anos, na sua casa acima de Saint‑Tropez. A sua morte encerra um capítulo que moldou o cinema europeu, a cultura pop e a ideia moderna de celebridade. No entanto, o tom da sua última entrevista, concedida em maio de 2025, não foi nostálgico. Soou mais como um derradeiro apelo à ação.
Depois de mais de uma década longe das câmaras, permitiu que uma equipa de televisão entrasse em La Garrigue, a propriedade isolada onde se escondera dos media. Frente ao jornalista Steven Bellery, cumprimentou os espectadores como se falasse com velhos amigos, estendendo a mão uma última vez para lá dos seus portões.
A sua última entrevista não revisitou memórias glamorosas. Serviu de plataforma para exigir um ato político concreto: a abolição da caça com matilha em França.
Bardot disse que regressou ao ar por um único motivo: dar “o melhor de si” a uma causa que considerava assunto inacabado. Sublinhou que se mantivera invisível durante onze anos, por escolha própria, e que esta exceção assinalava a urgência da sua mensagem.
Uma lenda do cinema que escolheu “ir à guerra” pelos animais
Durante meio século, o nome de Bardot esteve ligado tanto a campanhas de bem‑estar animal como a clássicos do cinema. De boicotes às peles a campanhas contra a caça às focas, transformou a sua fama numa ferramenta muito afiada - por vezes brutal. Na sua última entrevista, esse corte manteve‑se intacto.
Uma última batalha: acabar com a caça com matilha
Aos 91 anos, ainda falava em “ir à guerra”. O alvo era a caça com matilha, uma prática tradicional mas profundamente divisiva, em que grupos de cães perseguem veados, javalis ou raposas durante horas antes da morte. Bardot chamou-lhe um “horror”, e não um passatempo antiquado.
Pressionou o governo francês a agir após aquilo que descreveu como cinquenta anos de pedidos sem resposta. Para ela, isto era mais do que uma reforma entre tantas. Era a vitória que queria ver garantida antes de morrer.
“Depois de cinquenta anos a pedir, quero pelo menos esta vitória”, insistiu: uma proibição permanente da caça com matilha em França.
O seu apelo visou diretamente o Presidente Emmanuel Macron. Bardot falou em nome de “um batalhão de pessoas desiludidas” que esperava medidas mais fortes para a proteção animal. Sugeriu que uma proibição daria a Macron uma saída digna - um gesto que sobreviveria à política partidária e fixaria o seu legado de outra forma.
Porque é que a sua posição sobre a caça importava para lá de França
As palavras de Bardot caíram a meio de um conflito europeu em curso sobre tradições rurais. A caça com matilha, a tauromaquia e métodos de criação intensiva têm gerado debates ferozes em todo o continente. A sua intervenção deu novo impulso mediático a uma conversa que muitas vezes fica confinada a círculos ativistas.
- Grupos de defesa dos direitos dos animais usaram a entrevista para renovar petições e cartas abertas ao governo.
- Associações pró‑caça acusaram-na de caricaturar a vida rural e de ignorar argumentos de conservação.
- Públicos urbanos, menos ligados a estes costumes, alinharam em grande parte com o enquadramento moral que ela fez do tema.
Concordando-se ou não com ela, o facto de uma lenda de 91 anos sair de um quase total isolamento para esta exigência única sublinhou a seriedade com que encarava o assunto. Não pediu homenagens nem especiais retrospetivos. Pediu uma proibição.
Uma vida despida de glamour, reconstruída em torno dos animais
Longe de Paris, Bardot adotara há muito uma existência pouco parecida com o mito forjado nos anos 1960. La Garrigue, o seu refúgio na encosta, funcionava mais como uma pequena quinta do que como a vivenda de uma estrela de cinema.
Descreveu uma rotina feita de alimentar, limpar e cuidar de uma mistura de animais: ovelhas, cabras, porcos, uma égua, um pequeno burro, um pónei, uma matilha variável de cães e um exército de gatos. Gostava de se apresentar, meio a brincar, como “agricultora”, e não como atriz.
O seu quotidiano girava em torno de pelo e cascos, não de passadeiras vermelhas - uma inversão deliberada da imagem que outrora a tornou o rosto do cinema francês.
Recusou fotógrafos, declinou quase todos os pedidos dos media e evitou cerimónias públicas. A sua última aparição na televisão pareceu, por isso, uma pequena brecha num muro de privacidade cuidadosamente construído. Mesmo admitindo que regressar à TV lhe parecia “extraordinário”, enquadrou-o como uma troca: alguns minutos de visibilidade em troca de atenção renovada às suas campanhas.
Escolher a paz em vez da passadeira vermelha
Nessa conversa final, Bardot falou de forma direta sobre a sua necessidade de sossego. Queria paz, silêncio, árvores e vento, e não a vigilância constante de câmaras e smartphones. Disse que já não aceitava depender de pessoas que queriam mais uma fotografia do que uma conversa.
Essa escolha ecoava uma relação longa e turbulenta com a fama. Bardot descrevera muitas vezes a celebridade como uma prisão, uma gaiola brilhante que a recompensava e esmagava em igual medida. O retiro entre animais deu-lhe outra estrutura: tarefas simples, responsabilidades claras, companheiros leais.
| Antes | Agora |
|---|---|
| Sets de filmagem, sessões fotográficas, estreias | Alimentar animais, limpar estábulos, idas ao veterinário |
| Imagem pública moldada por estúdios e revistas | Invisibilidade escolhida por trás dos portões de La Garrigue |
| Aplauso do público e atenção da imprensa | Rotinas tranquilas, natureza e contacto humano limitado |
Esta mudança radical, de ícone global para cuidadora quase anónima, moldou a ternura que muitos ativistas sentiam por ela. Viram alguém que trocou os sinais exteriores do sucesso por botas enlameadas, fardos de feno e uma causa que não dava retorno de bilheteira.
Uma herança que mistura cinema, polémica e ativismo
Bardot deixa um catálogo de filmes que mudou a forma como as mulheres apareciam no ecrã, de E Deus Criou a Mulher a O Desprezo. Ao mesmo tempo, os seus últimos anos também trouxeram polémicas, sobretudo em torno de algumas declarações e escritos políticos. O seu trabalho pelos animais, por vezes, ofuscou essas tensões; outras vezes, colidiu com elas.
O seu legado recusa a simplicidade: adorada pelos seus filmes, criticada por algumas opiniões, mas amplamente respeitada pela sua defesa incansável dos animais.
O que permanece inegável é a consistência do seu foco no sofrimento animal. Através da Fundação Brigitte Bardot, criada em 1986, financiou abrigos, campanhas de esterilização, ações judiciais e esforços de lobbying. O seu nome abria portas, angariava donativos e obrigava programas de debate televisivo a dedicar tempo a temas que normalmente ficam no fundo das agendas políticas.
Como a sua última mensagem remodela o debate sobre os animais
A entrevista final ganha agora um novo peso. Defensores de legislação mais forte para os animais podem apontá-la como um testamento moral, uma espécie de último capítulo numa longa campanha. A sua exigência de acabar com a caça com matilha pode alimentar nova pressão sobre legisladores, que têm de equilibrar tradições rurais, gestão da biodiversidade e opinião pública.
Para ativistas mais jovens, o seu percurso oferece um esboço duro de como a celebridade pode servir uma causa sem exposição pessoal constante. Bardot mostrou que figuras públicas podem recuar, manter uma linha dura num tema e, ainda assim, moldar debates através de intervenções pontuais.
O que a sua história diz sobre fama, afastamento e compromisso
A vida tardia de Bardot convida a uma reflexão mais ampla sobre como figuras públicas envelhecem num ambiente mediático que raramente lhes permite desaparecer com graça. Ela não virou para marcas de estilo de vida, programas de streaming ou digressões nostálgicas cuidadosamente curadas. Escolheu um caminho estreito, quase austero: uma casa, uma causa central, um último apelo público.
Esse caminho tem riscos e vantagens. Ao afastar-se, perdeu o microfone constante que a publicidade permanente teria oferecido. Mas ganhou também credibilidade junto de públicos desconfiados de celebridades que transformam cada causa numa oportunidade de marca. Quando Bardot falou, após onze anos de silêncio, os espectadores sentiram que queria dizer cada palavra - e que já não tinha nada para vender.
A sua devoção aos animais oferece igualmente um modelo concreto para pessoas comuns. Nem todos podem fazer pressão sobre presidentes ou dirigir fundações, mas pequenos gestos - adotar um animal abandonado, apoiar abrigos locais, reduzir o consumo de carne, prestar atenção às condições em que os animais vivem - prolongam a mesma lógica no dia a dia. O seu retiro, com ar de quinta, mostra como uma pessoa pode, lentamente, alinhar rotina pessoal, convicções morais e as últimas batalhas que escolhe travar.
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