On a longtemps ri des « dentes de mármore » das estátuas romanas, pensando que tudo isso era fruto de idealização.
Depois, os arqueólogos começaram a abrir sepulturas, a analisar mandíbulas com 2.000 anos… e a imagem tornou-se desconfortável. Cáries raras. Pouca ou nenhuma doença das gengivas. Dentes direitos, sólidos, por vezes até melhor preservados do que os de adultos de hoje.
Num mundo sem escovas elétricas, sem pastas branqueadoras, sem consultas de ortodontia, os Romanos teriam, objetivamente, uma boca melhor do que a nossa. Esta descoberta não é apenas um pormenor curioso: conta-nos outra forma de comer, de viver, e também de envelhecer. Os investigadores começam a ligar pequenos gestos quotidianos da Antiguidade aos nossos problemas modernos de placa, açúcar e inflamação crónica.
E impõe-se uma pergunta, quase vergonhosa: como é que conseguimos regredir tanto?
O que os esqueletos romanos revelam discretamente sobre os nossos dentes
Num pequeno laboratório em York, sob luzes brancas e frias, uma fila de crânios romanos repousa numa prateleira metálica. Um arqueólogo inclina-se, puxa uma mandíbula um pouco para a frente, e quase nos esquecemos de que esta pessoa morreu antes de o Cristianismo chegar à Grã-Bretanha. Os molares parecem… bons. Superfícies lisas, quase sem pequenas cavidades. As gengivas já desapareceram, mas os alvéolos estão surpreendentemente limpos dos sinais clássicos de doença periodontal avançada.
Dentistas modernos que observam estes restos têm muitas vezes a mesma reação: um choque contido. Comparam-nos, quase instintivamente, às bocas que veem nas suas cadeiras todas as semanas. Gengivas a sangrar em jovens de 20 anos. Esmalte desgastado por bebidas açucaradas. Dentes apinhados, presos em mandíbulas modernas mais estreitas. De repente, o velho Romano não parece nada primitivo. Parece sortudo.
Um estudo de esqueletos da Roma antiga e de províncias próximas encontrou taxas de cáries muito mais baixas do que em populações urbanas modernas comparáveis. Em alguns cemitérios, menos de 10% dos dentes apresentavam deterioração grave. Hoje, em muitos países ocidentais, quase todos os adultos já tiveram pelo menos uma obturação. Estes números não são aleatórios: desenham uma mudança enorme na forma como os humanos atacam a própria boca - sobretudo através do que comemos e de quão frequentemente comemos.
Os arqueólogos conseguem agora “ler” os dentes quase como um diário. O desgaste microscópico revela a textura dos alimentos. Vestígios químicos indicam quanto cereal as pessoas comiam, quanta carne, e até, de forma aproximada, quanto açúcar se infiltrou no esmalte ao longo da vida. Nas bocas romanas, a história é consistente: comida mais dura e menos processada, menos “golpes” constantes de açúcar, e um ritmo alimentar que dava tempo à saliva para neutralizar os ácidos. A ironia dói um pouco. Inventámos escovas, colutórios e kits de branqueamento - e, ainda assim, sabotámos discretamente as nossas mandíbulas no supermercado.
O verdadeiro “segredo” romano: não magia, apenas hábitos
Os arqueólogos não acreditam que os Romanos acordassem todos os dias e seguissem uma rotina de cuidados orais em doze passos. A “vantagem” deles estava incorporada no estilo de vida. O açúcar refinado simplesmente não existia em escala relevante. O mel era precioso, não era espremido para dentro de bebidas e cereais. As refeições eram mais definidas: momentos claros de comer, seguidos de longos períodos em que nada doce roçava os dentes.
O pão era pesado, muitas vezes com grãos e impurezas, feito com cereais integrais que exigiam mastigação a sério. Esse trabalho mecânico ajudava a limpar naturalmente as superfícies e moldava mandíbulas mais fortes. A carne e os vegetais também exigiam esforço. O osso maxilar respondia, tornando-se mais largo e robusto, dando espaço para os dentes se alinharem sem arames ortodônticos. As bactérias, claro, existiam nas bocas romanas - mas o ambiente era menos favorável à acumulação constante de placa e a banhos contínuos de ácido.
Imagine um dia simples numa cidade romana. Pequeno-almoço: pão grosseiro, um pouco de queijo, talvez azeitonas. Depois trabalho, caminhar, conversar - sem snacks de máquinas automáticas, sem refrigerantes à secretária. O almoço era outra refeição sólida, consumida numa janela relativamente curta. Mais tarde, talvez vinho diluído em água, mais pão, talvez leguminosas ou peixe. E depois nada até de manhã. Compare isto com o padrão de petiscar, bebericar e “picotar” com que muitos de nós vivemos hoje. Os nossos dentes nunca descansam. É aí que começa, de facto, a parte do “melhores dentes do que nós”.
Então, o que é que os arqueólogos estão a dizer exatamente, entre gráficos dentários e relatórios de escavação? Não que os Romanos fossem magicamente mais saudáveis - mas que os hábitos modernos criam uma tempestade permanente na boca. Açúcar ou amido constantes, mesmo em snacks “saudáveis”, alimentam bactérias o dia inteiro. Elas libertam ácidos que amolecem o esmalte, repetidamente. A saliva tenta reparar, mas não tem tempo para fazer o seu trabalho por completo. Acrescente-se comida muito processada e mole, e a mandíbula deixa de fazer o “treino” que antes ajudava a formar arcadas mais largas. O resultado são dentes apinhados, vulneráveis, a combater um cerco interminável e invisível.
O que podemos realisticamente “roubar” aos Romanos
Se tirarmos togas e templos da equação, alguns hábitos romanos são estranhamente práticos para quem hoje já tem uma escova de dentes. O primeiro é comer em momentos distintos, não num fio lento e açucarado das 7h às 23h. Dê pausas reais à sua boca. Agrupe a comida em refeições e encurte os períodos de “petiscar”. A saliva é uma aliada subestimada; precisa de tempo, sem novo açúcar, para reparar pequenos ataques ácidos.
O segundo é a textura. Alimentos mais duros e fibrosos obrigam a mastigar, o que estimula o fluxo de saliva e dá menos hipótese à placa de ficar parada. Fruta inteira em vez de sumo. Frutos secos em vez de bolachas moles. Pão a sério com côdea em vez de fatias ultramacias que se colam a cada recanto. Não precisa de comer como um legionário em campanha - basta inclinar-se um pouco mais para alimentos que “fazem resistência” quando os morde.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Continuará a haver bolo em aniversários, um refrigerante num dia quente na plataforma de um comboio, ou um assalto à lata das bolachas às 23h. O objetivo não é fazer cosplay romano; é inclinar a balança o suficiente para que os seus dentes passem menos tempo do dia sob ataque químico. Um pouco mais de estrutura, um pouco mais de crocância, menos goles distraídos de café adoçado. Pequenas mudanças, multiplicadas ao longo dos anos, tornam-se quase arqueológicas à sua maneira.
Muitos dentistas admitem discretamente que o maior problema moderno não é a técnica de escovagem - é a cultura do “snack constante”. Vêem doentes que escovam duas vezes por dia, até usam fio dentário, mas passam horas a beber bebidas adoçadas ou a trincar qualquer coisa durante a tarde. A ciência é direta: cada ingestão de açúcar baixa o pH na boca, amolecendo o esmalte durante cerca de 20 a 30 minutos. Se empilhar esses “golpes” uns atrás dos outros, os dentes nunca recuperam como deve ser.
Há também a história da mandíbula, que raramente entra nos conselhos do dia a dia. Crianças que comem sobretudo alimentos moles e ultraprocessados podem acabar com mandíbulas mais estreitas e menos espaço para os dentes. Arqueólogos que comparam crânios romanos com crânios modernos notam arcadas mais largas e menos casos graves de apinhamento nos ossos antigos. Isso não significa que toda a gente consiga “mastigar para evitar” ortodontia, mas empurra a conversa. Texturas mais duras, desde cedo, parecem ajudar a natureza a fazer uma parte maior do trabalho de alinhamento.
“Quando olhamos para os dentes romanos, não vemos perfeição”, explica um osteoarqueólogo de uma escavação britânica. “Vemos desgaste, lascas, marcas de uma vida dura. O que não vemos, na mesma escala de hoje, é a destruição silenciosa e implacável que as dietas modernas causam.”
É aqui que o impacto emocional aparece sem avisar. A certo nível, sabemos que o nosso ambiente alimentar está montado contra nós. Todos já passámos por aquele momento em que o dentista pára, suspira, e aponta “só mais uma” cárie inicial no raio-x. Não parece uma falha de escovagem. Parece algo maior, mais difícil de evitar. Olhar para esqueletos romanos quase traz alívio: as nossas bocas não são fracas - estão sobrecarregadas.
- Limite snacks açucarados ou ricos em amido a momentos claros e curtos do dia.
- Prefira alimentos integrais e fibrosos, que obriguem a mastigar e aumentem a saliva.
- Deixe, quando possível, pelo menos duas a três horas entre snacks doces.
- Água simples como bebida de eleição entre refeições continua a ser a heroína silenciosa.
Porque é que este mistério antigo nos toca tão de perto
Há algo discretamente humilhante na ideia de que um estivador romano, que nunca viu uma broca dentária, pode ter chegado aos 50 anos com dentes mais fortes e mais intactos do que muitos trabalhadores de escritório hoje. Isso obriga a uma pergunta desconfortável sobre o que chamamos “progresso”. Em muitos aspetos, vencemos a guerra contra a dor de dentes - com anestésicos e obturações. Mas também criámos um ambiente em que essas ferramentas são necessárias em massa.
Os arqueólogos não falam de culpa. Falam de escolhas, ambientes, compromissos. O Império Romano expandiu-se em parte à base de cereais, azeite e vinho. O nosso mundo expande-se à base de xarope de frutose, snacks ultraprocessados e bebidas desenhadas para serem sorvidas sem parar. Um conjunto de hábitos deixou marcas de desgaste suave em molares antigos; o outro grava cicatrizes brilhantes e artificiais de compósito em dentes de adolescentes. Aqueles esqueletos são mais do que curiosidades: são um espelho, segurado a dois milénios de distância.
Talvez seja por isso que estas conclusões se espalham tão depressa online. As pessoas partilham fotos de mandíbulas romanas não apenas por fascínio, mas por uma ansiedade silenciosa e comum em relação à própria boca. No fundo, suspeitamos que nenhuma app, nenhuma escova “inteligente”, nenhum colutório da moda consegue proteger-nos totalmente se o básico estiver errado. E, ainda assim, há um conforto estranho aqui. Os Romanos não tinham autodisciplina perfeita nem higiene perfeita. Simplesmente viviam de uma forma que tornava dentes saudáveis mais prováveis do que improváveis.
Não podemos viajar no tempo para um mundo sem supermercados nem equipas de marketing a atacar os nossos desejos. Mas podemos pedir emprestadas algumas regras aos ossos debaixo dos nossos pés: refeições distintas, mastigação a sério, pausas reais do açúcar. Da próxima vez que olhar para um busto de mármore polido e invejar o sorriso perfeito, lembre-se de que há um crânio real por trás desse ideal. Mais limpo, menos deteriorado, estranhamente moderno. Talvez valha a pena falar disso na sua próxima consulta.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Menos açúcar, menos vezes | Os Romanos não tinham açúcar refinado e comiam em refeições distintas | Ajuda a reduzir o risco de cáries apesar de uma higiene por vezes imperfeita |
| Comida mais dura e menos processada | Pão integral, legumes fibrosos, carnes para mastigar, poucos alimentos ultramoles | Favorece a saliva, limpa mecanicamente os dentes e apoia mandíbulas mais largas |
| Menos petiscar constante | Longos períodos sem comer entre refeições, sem bebidas açucaradas contínuas | Dá tempo ao pH oral para subir, protegendo o esmalte a longo prazo |
FAQ:
- Os Romanos da Antiguidade tinham mesmo melhores dentes do que nós? Em média, os dentes mostravam menos cáries e doença gengival menos grave do que em muitas populações urbanas modernas, sobretudo devido à dieta e aos padrões alimentares.
- O que havia de diferente na dieta romana para os dentes? Consumiam muito menos açúcar, mais alimentos grosseiros e fibrosos, e tinham horários de refeição mais definidos em vez de petiscar e beber bebidas doces constantemente.
- Os Romanos escovavam os dentes? Não usavam escovas e pastas modernas, mas alguns recorriam a pós dentífricos, panos e paus de mastigar; a principal proteção vinha, ainda assim, do que comiam e de como comiam.
- Mudar a dieta pode mesmo fazer diferença se eu já escovo e uso fio dentário? Sim. A escovagem ajuda, mas o açúcar frequente e os alimentos moles e pegajosos podem manter os dentes num estado ácido durante horas, promovendo a deterioração ao longo do tempo.
- Tenho de comer como um Romano para ter dentes mais saudáveis? Não. Adotar alguns princípios - menos “golpes” de açúcar, mais mastigação, pausas reais entre snacks - já aproxima a sua boca das condições que os protegiam.
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