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Aprendi aos 60: a pouco conhecida diferença entre ovos brancos e castanhos.

Mãos a quebrar um ovo num recipiente de vidro, com ovos e utensílios de cozinha ao fundo.

A mulher à minha frente no supermercado ficou a olhar para a prateleira dos ovos como se fosse um teste moral. Caixa branca numa mão, caixa castanha na outra. Virou-se para mim, com uns 70 e tal, lenço florido, e sussurrou:

“Seja honesto. Os castanhos são melhores, não são?”

Eu tinha 60. Tinha criado filhos, cozinhado milhares de pequenos-almoços, passado uma vida a partir ovos para frigideiras… e mesmo assim não tinha a certeza absoluta.

Às vezes escolhia pelo preço. Às vezes pela cor que “parecia” mais saudável. E, de repente, pensei: como é que podemos passar décadas a comer uma coisa, a discutir isto ao brunch, e não saber a verdade básica?

Nessa noite, fui investigar. Agricultores, tabelas nutricionais, hábitos antigos da cozinha da minha avó. O que descobri sobre ovos brancos e ovos castanhos era simples, um bocadinho engraçado… e discretamente revelador.

O que ninguém te diz sobre ovos brancos vs castanhos

A maioria das pessoas acha que os ovos castanhos são mais ricos, mais rústicos, mais “a sério”. Os ovos brancos, com a casca limpa e brilhante, parecem industriais. Essa ideia não vem da ciência. Vem de histórias que nos contaram nas cozinhas e em anúncios na televisão.

A verdadeira diferença começa na galinha, não na caixa.

Os agricultores dizem-te algo que parece uma piada: galinhas de penas brancas com lóbulos das orelhas brancos costumam pôr ovos brancos. Galinhas ruivas ou castanhas, com lóbulos mais escuros, tendem a pôr ovos castanhos. É só isto. A cor da casca é, na maior parte dos casos, genética. Não é um superpoder secreto, nem uma bomba escondida de nutrientes. É só biologia da ave, como a cor dos olhos nos humanos.

Então porque é que os ovos castanhos muitas vezes custam mais? É aqui que o mito ganhou força. As raças que põem ovos castanhos costumam ser aves maiores. Aves maiores comem mais ração. Mais ração significa custos mais altos. Custos mais altos acabam no preço. As pessoas viram a diferença de preço, associaram-na a “qualidade”, e o rumor instalou-se nos nossos cestos de compras durante décadas.

A verdade dentro da casca

Do ponto de vista nutricional, ovos brancos e castanhos são quase gémeos. A mesma proteína. Vitaminas semelhantes. Mais ou menos a mesma gordura. Não ganhas uma dose mágica de saúde só porque a casca é mais escura.

O que realmente altera o perfil nutricional é a alimentação e as condições de vida da galinha, não a cor da casca.

Se uma galinha anda no exterior, come insetos, verduras e ração de melhor qualidade, o ovo pode ter uma gema mais amarela e um perfil de ácidos gordos ligeiramente diferente. Isso pode acontecer com uma galinha que põe ovos castanhos ou com uma que põe ovos brancos. O rótulo que interessa é “criado em pasto” (pasture-raised) ou “enriquecido com ómega-3”, não “castanho” ou “branco”.

Confundimos correlação com causa: muitas marcas premium, de criação ao ar livre, por acaso vendem ovos castanhos. E por isso as pessoas ligam “castanho” a “saudável”.

Em testes cegos de sabor, a maioria das pessoas não consegue identificar de forma consistente a cor da casca. Quando chefs dizem que preferem “aqueles ovos castanhos lindos”, normalmente estão a falar da frescura, da origem, da raça, da forma como as galinhas são criadas. A cor da casca é só um atalho visual fácil. A tua omelete não quer saber como era a casca há cinco minutos.

Como escolher, de facto, melhores ovos

Se queres ovos melhores, começa por ler as letras pequenas, não pela cor. Olha para três coisas: método de criação (sem gaiolas, ao ar livre, criado em pasto), qualidade da alimentação e data de frescura. São estes fatores que mudam a qualidade do que chega ao teu prato.

A cor tem mais a ver com o teu olhar do que com a tua saúde.

Da próxima vez que estiveres na loja, pega em duas caixas: uma de ovos brancos e outra de ovos castanhos. Esquece os rótulos da frente por um segundo. Vira-as. Compara as datas de “vender até” ou “consumir de preferência antes de”. Vê se alguma menciona ómega-3, alimentação biológica ou galinhas criadas em pasto. De repente, a pergunta “brancos ou castanhos?” parece um bocado pequena.

A história verdadeira está escrita em letras minúsculas no verso da caixa.

Também temos de falar de preço. Muita gente sente-se discretamente julgada pelas compras. Ovos castanhos muitas vezes parecem “virtuosos”. Ovos brancos podem parecer baratos, quase culpados. No entanto, se os ovos brancos forem mais frescos e vierem de condições decentes, podem ser melhores do que uma caixa castanha qualquer. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, a comparar cada etiqueta como um revisor de bilhetes. Mas fazê-lo uma ou duas vezes muda para sempre a forma como olhas para aquela prateleira.

O lado emocional de uma simples caixa

Há uma razão para os ovos castanhos terem essa aura de “pureza”. Durante anos, o marketing mostrou-nos cenas de quinta, palha, luz do sol e… sempre, uma taça de ovos castanhos. Aos ovos brancos coube o papel de “opção económica”, empilhados às centenas.

Então o nosso cérebro arquivou em silêncio: castanho = natural, branco = fábrica.

Numa visita de domingo, perguntei uma vez à minha mãe porque tinha mudado para ovos castanhos aos 50. Encolheu os ombros e disse: “Parecem mais saudáveis, não parecem?” Isto vindo de uma mulher que cresceu numa quinta com galinhas que punham ovos brancos. A memória dela da realidade tinha sido reescrita por narrativas de supermercado.

Todos fazemos isto. “Lembramo-nos” de coisas que, na verdade, só nos foram mostradas mil vezes em anúncios.

Quando liguei a um pequeno agricultor no interior, ele riu-se enquanto eu explicava a minha descoberta tardia. Depois disse algo que não esqueci:

“As pessoas perguntam sempre quais ovos são ‘bons’. Eu digo-lhes: o ovo bom é o que vem de uma galinha que viveu uma vida decente.”

Ficou comigo. Porque muda a conversa da cor para a ética e a qualidade. E é aí que começa a ficar interessante - para o nosso prato e para a nossa consciência.

Como testar ovos em casa como um profissional

Se queres mesmo sentir controlo, aprende um gesto simples: o teste da água. Enche uma taça com água fria. Coloca um ovo com cuidado. Se afundar e ficar deitado, está muito fresco. Se ficar de pé numa ponta, é mais velho mas geralmente ainda seguro para comer. Se flutuar, está na hora de dizer adeus.

Isto funciona com ovos brancos, castanhos, pintalgados. A cor não muda a física.

Parte os ovos para um copo ou taça pequena antes de os juntares a uma receita. Vais detetar cheiros estranhos, manchas de sangue ou pedaços de casca antes de estragarem a massa ou os ovos mexidos. Acrescenta dez segundos e pode salvar um bolo inteiro.

É o tipo de hábito silencioso, pouco glamoroso, que os cozinheiros a sério têm - e que as redes sociais raramente mostram.

Para guardar, mantém os ovos na caixa, com a ponta mais larga para cima, na zona principal do frigorífico. Não na porta, onde as variações de temperatura são maiores. Essa casca protetora, seja branca ou castanha, não é um escudo de super-herói.

Todos já vivemos aquele momento em que cheiras um ovo e hesitas, a torcer para que o nariz esteja certo. Um frigorífico demasiado quente e semanas a abanar numa prateleira da porta não ajudam.

Erros que todos cometemos (e como relaxar em relação a eles)

Um erro comum é confiar na cor da gema como medidor de saúde. Uma gema laranja escura muitas vezes vem da alimentação da galinha, especialmente de plantas ricas em carotenoides. Pode ser sinal de dieta variada, mas não significa que o ovo seja automaticamente “superior” em tudo. Gema pálida não quer dizer “má”.

Cor da casca mais cor da gema fazem uma combinação emocional poderosa… e o nosso cérebro cai nela todas as vezes.

Outra armadilha frequente: achar que caro significa sempre mais ético. Algumas marcas “premium” polêm sobretudo a imagem. A caixa é rústica, o preço alto, os ovos castanhos… mas as galinhas podem não viver muito diferente das opções mais baratas. Ler a categoria do método de criação pode ser mais revelador do que o preço.

Não há vergonha em comprar o que podes pagar. A culpa à volta das escolhas alimentares pesa mais do que qualquer omelete.

Um agricultor com quem falei resumiu assim:

“Se as pessoas se preocupassem metade com a forma como a galinha vive, do que se preocupam com a cor do ovo, teríamos um sistema alimentar diferente.”

Por isso, quando estiveres em frente àquele muro de caixas, guarda uma pequena nota mental:

  • Cor da casca = genética, não nutrição mágica
  • Primeiro verifica o método de criação, a alimentação e a frescura
  • Usa o teste da água em casa para avaliar a idade, não o palpite

O que muda depois de saberes a diferença

Quando percebes mesmo que um ovo castanho e um ovo branco são quase iguais por dentro, algo subtil muda. Deixas de sentir, em surdina, que estão a julgar o que levas no cesto. Começas a fazer outras perguntas: De onde veio? Quão fresco é? Como foi tratado o animal?

A cor volta a ser só cor.

Agora, às vezes compro os ovos brancos mais baratos para uma quiche grande de festa, quando sei que tudo vai acabar misturado com natas e queijo. Para um ovo estrelado simples em cima de uma torrada, posso pagar mais por ovos de galinhas criadas em pasto, sejam eles brancos ou castanhos. A escolha torna-se deliberada, não supersticiosa.

É estranhamente libertador desmontar um pequeno mito que te acompanha pela vida fora.

E não fica pelos ovos. Quando vês como uma narrativa inteira pode ser construída sobre algo tão fino como uma casca, começas a notar isso noutros produtos. O pão mais escuro que não é realmente integral. O rótulo “artesanal” colado a um pão de fábrica. A embalagem verde que sussurra “eco” sem prova sólida.

Achamos que escolhemos com lógica. Muitas vezes, escolhemos com histórias antigas.

Há uma alegria silenciosa em desaprendê-las aos 60. Não porque passes a ser um especialista. Mas porque te dás permissão para dizer: “Eu não sabia. Agora sei.”

E da próxima vez que alguém sussurrar no supermercado a perguntar se os ovos castanhos são melhores, talvez sorrias e respondas com um pouco mais de verdade do que a pessoa esperava.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Cor da casca Ligada à genética da galinha, não à qualidade nutricional Evita pagar mais só pela cor
Condições de criação O método de criação e a alimentação influenciam mais o ovo Ajuda a escolher ovos mais éticos e saborosos
Teste de frescura Teste da água e leitura das datas na caixa Permite reduzir desperdício e más surpresas

FAQ

  • Os ovos castanhos são mais saudáveis do que os brancos? Não. Têm quase o mesmo perfil nutricional. Diferenças de saúde vêm da alimentação e das condições de vida da galinha, não da cor da casca.
  • Porque é que os ovos castanhos costumam ser mais caros? As raças que põem ovos castanhos são frequentemente maiores e comem mais ração, o que aumenta os custos de produção e, por consequência, o preço.
  • Os ovos castanhos sabem melhor? A maioria dos testes de sabor mostra que as pessoas não conseguem distinguir de forma fiável. O sabor é mais influenciado pela frescura e pela alimentação da galinha.
  • Que ovos devo comprar por motivos de saúde? Procura rótulos como “criado em pasto”, “enriquecido com ómega-3” e verifica a data de frescura. Dá prioridade ao método de criação em vez da cor da casca.
  • Como posso saber se um ovo ainda está bom? Usa o teste da água: ovos frescos afundam e ficam deitados, os mais velhos ficam de pé e os que flutuam devem ser descartados.

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