Por detrás de portas fechadas, responsáveis indianos estão a reavaliar discretamente o roteiro do país para caças, pesando a promessa do Rafale face a uma oferta diferente vinda do Brasil e do seu campeão em ascensão, a Embraer.
Da euforia do “contrato do século” ao desconforto estratégico
Quando a Índia assinou o seu primeiro grande acordo para o Rafale com a França, Paris apresentou-o como um ponto de viragem. As imagens estavam por todo o lado: Narendra Modi e Emmanuel Macron a sorrir, bandeiras tricolores lado a lado, discursos sobre uma “âncora” estratégica no Indo-Pacífico. Por um momento, pareceu um alinhamento de longo prazo entre duas potências médias que gostam de se ver como vozes independentes num mundo EUA–China.
A realidade é mais fluida. A Força Aérea Indiana enfrenta um calendário apertado de modernização, com frotas MiG envelhecidas, uma fronteira contestada com a China e uma sombra permanente do Paquistão. Ao mesmo tempo, o orçamento de defesa indiano tem de se estender por terra, mar, ar e domínios emergentes como o ciberespaço e o espaço. Cada milhar de milhões de dólares conta.
O Rafale oferece desempenho, experiência de combate e um forte sinal político. Também traz um preço elevado e um pacote de transferência de tecnologia que alguns em Nova Deli avaliam discretamente como parcial. Em paralelo, outra proposta começou a atrair atenção: Brasil, Embraer e uma narrativa Sul–Sul construída em torno de desenvolvimento partilhado, e não apenas de vendas de exportação.
Para os planificadores indianos, a pergunta-chave está a mudar de “Qual é o melhor caça hoje?” para “Quem nos tratará como um igual no futuro?”
Esta mudança subtil perturba a narrativa confortável que Paris contou a si própria após os contratos do Rafale. Nos corredores do Ministério da Defesa da Índia, a conversa gira agora menos em torno de fotografias de cerimónias passadas e mais em torno de folhas de cálculo que comparam participação industrial, acesso a propriedade intelectual e o potencial de, um dia, desenhar aeronaves com marca indiana.
A proposta brasileira: parceria Sul–Sul e transferência mais profunda
O Brasil não chega à Índia como um desconhecido. A Embraer já forneceu plataformas que a Defence Research and Development Organisation (DRDO) usou como base para sistemas indígenas de alerta aéreo antecipado e controlo (AEW&C). Essas colaborações deixaram marca em relatórios de ensaio e nas memórias de engenheiros: sistemas que integraram com mais fluidez do que o esperado, campanhas de voo que geraram confiança em vez de frustração.
A mensagem atual da Embraer encaixa-se com precisão nas agendas “Make in India” e “Atmanirbhar Bharat” (Índia autossuficiente). Em vez de exibirem apenas produtos finais, os responsáveis brasileiros apostam no desenvolvimento conjunto, na produção modular e em percursos de formação partilhados para engenheiros e técnicos.
- Linhas de montagem locais com participação indiana efetiva
- Pacotes tecnológicos negociados projeto a projeto
- Espaço para aviónica e armamento indianos em variantes futuras
Esta abordagem ressoa nos círculos tecnocráticos de Nova Deli, que muitas vezes se sentem limitados ao lidar com fornecedores ocidentais tradicionais, presos a controlos de exportação rigorosos. O Brasil, como membro dos BRICS que teve de lutar por cada licença de exportação perante concorrentes dos EUA e da Europa, fala uma linguagem familiar a muitos responsáveis indianos.
A Índia não quer apenas “compensações”; quer um caminho que vá da produção sob licença até à autoridade de conceção original ao longo do tempo.
Em termos políticos, o eixo Índia–Brasil tem um peso simbólico que ultrapassa as aeronaves. Ambos estão no G20, ambos afirmam representar grandes parcelas do Sul Global e ambos criticam uma ordem global ainda inclinada para o Atlântico Norte. Quando Brasília fala de soberania tecnológica, diplomatas indianos ouvem os seus próprios argumentos refletidos.
Porque as escolhas de poder aéreo da Índia estão a mudar
A atual mistura de caças da Índia é confusa: uma combinação de Su-30MKI russos, MiG envelhecidos, Rafale franceses e caças ligeiros Tejas de fabrico nacional. Nova Deli procura várias coisas ao mesmo tempo: força numérica, alavancagem tecnológica e crescimento industrial. Nenhum fornecedor consegue oferecer as três de forma perfeita.
A França traz plataformas testadas em combate, armamento de topo e uma relação política de longa data. O Brasil traz flexibilidade, maior disponibilidade para partilhar produção e menos condicionantes políticas. Para os planificadores indianos, o cálculo passa agora a incluir variáveis mais “suaves”:
| Critério | Oferta francesa (quadro Rafale) | Ângulo brasileiro (Embraer) |
|---|---|---|
| Maturidade da plataforma | Elevada: uso em combate, rede de suporte estabelecida | Média: forte em transportes e vigilância, a crescer em caças |
| Transferência de tecnologia | Estruturada, mas delimitada em sistemas sensíveis | Negociável, com mais margem em processos industriais |
| Perceção política | Potência média do “Ocidente”, ligada ao historial da NATO | Par do Sul Global, parceiro BRICS |
| Papel industrial para a Índia | Montagem e componentes, com algum codesenvolvimento | Potencial de conceção partilhada e produção sob licença mais ampla |
A tabela esconde uma realidade mais profunda: a Índia quer alavancagem em todos os acordos. Usar o Brasil como alternativa credível permite a Nova Deli pressionar Paris por melhores condições, e vice-versa. A “opção Brasil” é, por isso, relevante mesmo que não se materialize, no curto prazo, um grande contrato de caças com a Embraer.
Como a França ainda pode manter-se no jogo
Paris não perdeu o mercado indiano. Os Rafale já voam a partir de bases indianas, e os pilotos apreciam o alcance e os sensores da aeronave no teatro de alta pressão junto à China. Mas os responsáveis franceses enfrentam agora um ambiente mais duro: têm de competir não só com os EUA e a Rússia, mas com novos atores do Sul que apresentam uma narrativa política diferente.
Para se manter relevante, a França precisa de passar de ver a Índia como um cliente premium para a tratar como um futuro coprodutor de sistemas de próxima geração. Isso exige três movimentos desconfortáveis para um exportador de armamento tradicional:
- Partilhar mais contributo de conceção com institutos indianos, e não apenas com contratantes privados
- Permitir uma produção sob licença mais ampla, que poderá mais tarde erodir a exclusividade francesa
- Construir carreiras técnicas longas para engenheiros indianos dentro de programas conjuntos
Se Paris continuar a reter tecnologia com demasiada rigidez, arrisca-se a tornar-se um fornecedor de transição em vez de um parceiro estratégico de longo prazo.
A cultura de defesa francesa, moldada por décadas de segredo rigoroso e controlos de exportação, não muda de um dia para o outro. Ainda assim, o ambiente estratégico empurra nesse sentido. A Índia já não é um comprador que assina cheques e fica fora da sala de projeto. Quer acesso a código, conhecimento de subsistemas e a opção de desenvolver as suas próprias variantes.
Alguns estrategas franceses argumentam, discretamente, que aceitar um futuro concorrente indiano pode ser melhor do que perder a Índia por completo para outros parceiros. Um sistema franco-indiano conjunto que mais tarde concorra globalmente ainda mantém Paris ligada a redes indianas, formação e atualizações. Fechar tudo a sete chaves arrisca empurrar Nova Deli para fornecedores mais dispostos a partilhar.
Porque isto importa muito para lá dos caças
À primeira vista, isto parece uma história técnica de aquisição. Na realidade, aponta para a forma como o poder se está a reorganizar no século XXI. Países como a Índia e o Brasil estão a remodelar os mercados de defesa ao exigirem voz, e não apenas escolha. Querem escrever as especificações, influenciar padrões e ganhar com exportações no futuro.
Para capitais ocidentais, esta mudança traz risco e oportunidade. Quem adaptar os seus modelos de cooperação em defesa pode cimentar laços industriais profundos com potências em ascensão. Quem se agarrar à lógica de exportação unidirecional pode ver os seus mercados tradicionais fragmentarem-se à medida que crescem novos ecossistemas Sul–Sul.
A próxima geração de aeronaves militares poderá transportar tecnologias ocidentais, mas cada vez mais trará também impressões digitais do Sul no desenho e no modelo de negócio.
O que o ângulo Índia–Brasil revela sobre alianças futuras
O flerte da Índia com o Brasil não significa uma rutura abrupta com a França. Os Rafale permanecerão em cores indianas durante décadas. Mas as conversas com a Embraer dizem-nos algo sobre como Nova Deli pensa as suas parcerias futuras.
Em vez de se prender a um único campo, a Índia testa diferentes formatos de cooperação: acordos ocidentais tradicionais, laços duradouros com a Rússia, ligações em rápido crescimento com Israel e, agora, conversas mais simétricas com o Brasil e outros fabricantes do Sul. Esse padrão complica a vida a fornecedores externos que esperam exclusividade, mas ajusta-se ao ADN estratégico da Índia: máxima autonomia, máximo de opções.
Para leitores que tentam compreender isto, duas ideias ajudam:
- Cada grande contrato de defesa é também uma declaração de identidade política.
- Cláusulas industriais muitas vezes moldam alianças mais do que discursos.
Quando um país constrói parte da sua frota de caças em parceria com outro Estado, constrói também redes entre engenheiros, oficiais e burocratas. Essas ligações humanas sobrevivem a mudanças de liderança e a crises de curto prazo. É por isso que a pergunta “Rafale ou um caminho Embraer?” importa mesmo para quem está longe dos círculos da defesa: sugere onde as elites indianas vão viajar, treinar e cooperar nos próximos vinte anos.
Para a França, a situação funciona como um teste de stress à sua ambição de ser uma potência de equilíbrio no Indo-Pacífico. Conseguirá ajustar o seu modelo industrial de defesa o suficiente para tratar a Índia como coarquitetora? Para o Brasil, a parceria emergente com a Índia pode tornar-se uma alavanca para elevar o seu setor aeroespacial a segmentos de maior valor, para além de jatos regionais e plataformas militares de nicho.
Para a própria Índia, a aposta vai muito para além de uma linha de caças. As escolhas que fizer agora afetarão a sua capacidade de desenhar aeronaves indígenas de sexta geração, sistemas de combate não tripulados e redes de defesa ligadas ao espaço. Se esses sistemas futuros se apoiarão numa herança francesa, numa cooperação brasileira ou numa mistura de ambas determinará quão independente o país se tornará, de facto, em termos militares.
Por detrás das manchetes, decorre uma experiência silenciosa: poderá o Sul Global escrever novas regras para a cooperação em defesa, assentes no desenvolvimento partilhado em vez de vendas unidirecionais? A conversa Índia–Brasil em torno da Embraer, no pano de fundo da história do Rafale, oferece um dos testes iniciais mais claros a essa questão.
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