Saltar para o conteúdo

Após os 60 anos, segundo neurologistas: não são as palavras cruzadas nem apps de treino cerebral, mas este estímulo cognitivo que preserva a função executiva.

Homem sentado à mesa escreve no diário. Mesa com fruta, plantas e calendário na parede.

A máquina de café zumbia num canto do centro comunitário, enquanto uma dúzia de pessoas na casa dos sessenta e setenta anos tentava seguir os passos de uma nova dança. Um advogado reformado falhou o tempo, riu-se alto e depois voltou a apanhá-lo, ajudado pela mulher ao lado. Ninguém estava a ver o telemóvel. Ninguém estava a preencher pequenas caixas brancas numa grelha de palavras cruzadas.

No fundo da sala, um neurologista observava em silêncio, a tirar notas, mais interessado nos olhares rápidos, nas microdecisões, nas pequenas hesitações do que no trabalho de pés em si. Isto não era sobre condição física. Era um laboratório ao vivo da função executiva: planear, mudar, inibir, manter o fio ao que vem a seguir.

Quando a música parou, todos pareciam corados e estranhamente concentrados. Algo invisível tinha sido exercitado.

Porque é que os neurologistas se estão a afastar discretamente dos “jogos para o cérebro”

As palavras cruzadas e as apps de treino cerebral parecem reconfortantes. Senta-se, toca no ecrã, resolve. Sente-se esperto. E, no entanto, cada vez mais neurologistas começam a dizer: não é aí que está o essencial.

A função executiva não precisa apenas de esforço mental. Alimenta-se de situações em que é preciso escolher, adaptar-se, responder a outros seres humanos, lidar com o inesperado. Um crucigrama perfeito no sofá raramente faz isso. Uma atividade confusa, não ensaiada, no mundo real, muitas vezes faz.

O cérebro depois dos 60 continua a ser extraordinariamente plástico, mas precisa do tipo certo de “ruído” para se manter afiado. Não apenas de perguntas mais difíceis num ecrã.

Repare nas pessoas que envelhecem com uma agilidade mental impressionante. A pessoa de 72 anos que dirige um coro local, a acompanhar quem canta o quê, a ajustar ensaios em tempo real. A pessoa de 68 anos que organiza um grupo semanal de caminhadas, a verificar o tempo, a alterar percursos, a gerir atrasos.

Não passam as noites sozinhas com Sudoku. Estão em situações em que têm de sequenciar tarefas, gerir emoções, tomar decisões rápidas e mudar planos. Isso é território da função executiva.

Grandes estudos populacionais confirmam este padrão: quem se envolve em atividades complexas, sociais e do mundo real apresenta um declínio cognitivo mais lento do que quem depende apenas de “exercícios mentais” solitários. A diferença não é subtil.

Os neurologistas descrevem a função executiva como o “maestro” do cérebro. Não toca as notas; diz a cada secção quando e como tocar. Puzzles simples melhoram certas capacidades, como vocabulário ou reconhecimento de padrões. Mas raramente desafiam o maestro.

Tarefas em tempo real com consequências, mesmo pequenas, obrigam o cérebro a priorizar, inibir impulsos e mudar de estratégia. É isso que faz disparar os lobos frontais. E são essas as regiões mais vulneráveis depois dos 60.

Por isso, quando os especialistas dizem “não são as palavras cruzadas, não são as apps de treino cerebral”, não querem dizer para as deitar fora. Querem dizer: não as confunda com o treino principal. São, no máximo, aquecimentos. O treino a sério acontece onde a vida parece ligeiramente imprevisível.

O estímulo cognitivo que os neurologistas querem mesmo que procure

A atividade que aparece repetidamente na investigação neurológica não é uma app com marca. É algo como isto: tarefas complexas, sociais e orientadas para objetivos no mundo real. Ensinar uma nova competência, liderar um projeto, aprender uma dança, fazer voluntariado num ambiente movimentado, juntar-se a um coro ou a um grupo de debate.

O que importa é a mistura: precisa de planeamento, resolução de problemas, microdecisões constantes, presença física e outras pessoas a reagirem em tempo real. Um grupo de teatro semanal faz isso. Cozinhar um almoço de domingo completo para seis pessoas, enquanto conversa, controla timings e improvisa, também.

Pense: situações em que não dá para parar, pensar cinco minutos e desfazer a jogada. Em que o cérebro tem de conduzir o momento.

Na prática, os neurologistas muitas vezes incentivam os doentes a compromissos sociais estruturados. Não apenas “mantenha-se ativo” como mantra vago, mas “junte-se a um grupo onde os outros contam consigo”. Esse pequeno sentido de responsabilidade muda a forma como o cérebro se envolve.

Imagine ajudar a gerir uma horta comunitária. Decide o que plantar, lembra-se de calendários, coordena-se com outras pessoas, adapta-se quando o tempo estraga o plano. O telemóvel não faz isso por si. E os seus lobos frontais adoram.

Numa escala mais pequena, até um grupo regular de cartas em que as regras mudam, os pontos são registados e as estratégias evoluem vai estimular mais função executiva do que a mais bonita app de puzzles de palavras.

Um neurologista com quem falei descreveu uma doente que fazia palavras cruzadas todos os dias há 30 anos. O vocabulário dela era deslumbrante, o conhecimento de cultura geral impressionante. E, no entanto, quando o marido adoeceu, organizar consultas, horários de medicação e papelada tornou-se esmagador.

O cérebro dela tinha sido treinado para recuperar palavras, não para gerir exigências concorrentes sob pressão de tempo. Por isso, começaram por pequenos passos: ela passou a coorganizar um clube semanal de cinema na residência para idosos. Reservar a sala, enviar lembretes, escolher filmes, gerir discordâncias.

Seis meses depois, ela não sabia dizer se o clube tinha aumentado o “poder cerebral”. O neurologista sabia. As pontuações nos testes de planeamento, alternância de tarefas e memória de trabalho tinham melhorado. E a vida dela também parecia maior.

“Se quer proteger a função executiva depois dos 60, procure atividades que o deixem ligeiramente desconfortável - no bom sentido”, diz um neurologista de uma clínica de memória. “Se consegue fazê-lo meio a dormir, não está a treinar os lobos frontais.”

  • Escolha uma atividade semanal em que os outros dependam um pouco de si: um coro, um turno de voluntariado, uma aula de línguas em que tenha de falar em voz alta.
  • Misture pelo menos dois ingredientes: um objetivo a atingir, pessoas com quem interagir e pequenas decisões a tomar sob ligeira pressão de tempo.
  • Rode a atividade a cada 6–12 meses. O cérebro prospera quando tem de aprender novas regras, não quando vive em piloto automático.

Como integrar o treino da função executiva no dia a dia

Os neurologistas que acompanham doentes aos 60, 70, 80 não sonham com rotinas perfeitamente otimizadas. Pensam em hábitos que realmente se mantêm. Doses curtas e realistas de “fricção cerebral” dentro da vida quotidiana.

Por exemplo, cozinhar uma refeição em conjunto com um neto e deixá-lo escolher a receita, enquanto você controla o tempo e ele trata dos ingredientes. Ou juntar-se a um grupo local de caminhadas em que, de vez em quando, lidera o percurso e se adapta quando um caminho está fechado. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas uma vez por semana? Isso é viável.

A chave não é o heroísmo. É um envolvimento regular e ligeiramente exigente.

Num dia cansativo, uma palavra cruzada no sofá é ótima. Acalma, distrai, dá um pequeno pico de dopamina quando acerta numa pista. Os neurologistas não querem tirar isso.

Só não querem que seja a sua única dieta cognitiva. Num dia melhor, troque o puzzle por um ensaio, uma aula, uma sessão de planeamento de uma viagem em família. A logística de reservar comboios, equilibrar orçamentos, escolher atividades com outras pessoas vai trabalhar discretamente o seu sistema executivo.

Todos já tivemos aquele momento em que um pequeno desafio social nos deixa, estranhamente, mais energizados depois. É o seu cérebro a esticar.

Quando começa a ver a vida por esta lente, os “treinos” aparecem em todo o lado:
– Negociar regras com os netos para um novo jogo de tabuleiro.
– Entrar num coro local onde as músicas mudam e há atuações marcadas.
– Fazer voluntariado num banco alimentar com rotação de tarefas.

Ponto-chave Detalhes Porque é que importa para os leitores
Dê prioridade a atividades sociais complexas em vez de puzzles a solo Escolha coisas como coros, grupos de teatro, projetos comunitários ou aulas de línguas em que tenha de coordenar, decidir e responder aos outros. Estes contextos exigem os mesmos sistemas cerebrais de que precisa para gerir saúde, dinheiro e o quotidiano à medida que envelhece.
Crie pequenas responsabilidades regulares Assuma funções como gerir inscrições, administrar um grupo de WhatsApp ou marcar reuniões de um clube ou equipa de voluntariado. Ter pessoas a contar consigo mantém-no envolvido, focado e menos tentado a cair em rotinas passivas.
Rode desafios a cada poucos meses Mantenha uma atividade exigente tempo suficiente para se sentir competente e depois acrescente ou mude para algo com novas regras e competências. A novidade obriga o cérebro a atualizar estratégias, em vez de repetir os mesmos padrões mentais em piloto automático.

Não precisa de drama nem de desportos radicais. Precisa de uma imprevisibilidade suave e de consequências reais, mesmo que a consequência seja simplesmente: “Será que toda a gente vai gostar desta noite que ajudei a organizar?”

É aí que os lobos frontais se inclinam para a frente.

Depois dos 60, a pergunta muda discretamente de “Quão inteligente sou?” para “Quão flexível é o meu pensamento quando a vida acelera?” A função executiva é essa flexibilidade.

O futuro provavelmente trará apps mais brilhantes e puzzles mais inteligentes a prometer reforços cerebrais. Os neurologistas continuarão a fazer uma pergunta diferente: está a escolher, adaptar-se, negociar, planear e, por vezes, a falhar com outros seres humanos na mesma sala?

O estímulo que preserva a função executiva não está escondido num ecrã de subscrição. Está no espaço de ensaio onde se esqueceu das falas e teve de improvisar. Está na reunião ruidosa do comité onde encontrou um compromisso. Está na viagem que decidiu organizar mesmo sentindo um pouco de medo de estragar tudo.

O cérebro envelhecido não quer corrimões de segurança por todo o lado. Quer caos suficiente para se manter vivo ao momento.

FAQ

  • As palavras cruzadas e o Sudoku são inúteis depois dos 60?
    De maneira nenhuma. Podem apoiar o vocabulário, o reconhecimento de padrões e uma sensação de competência. O que os neurologistas estão a observar é que estes jogos não treinam a função executiva tão fortemente como tarefas do mundo real, sociais e com pressão de tempo. Pense nos puzzles como um suplemento agradável, não como o seu treino cognitivo principal.
  • Qual é uma atividade semanal simples que realmente treina a função executiva?
    Juntar-se a um pequeno grupo onde, ocasionalmente, tenha de organizar alguma coisa é ideal: um clube de caminhadas em que planeia um percurso por mês, ou um clube de leitura em que gere o calendário de leituras. A mistura de planeamento, coordenação e uma leve pressão social dá ao cérebro um treino a sério.
  • É tarde demais para começar aos 70 ou 80?
    A investigação sobre neuroplasticidade mostra que o cérebro se pode adaptar em qualquer idade, sobretudo quando a aprendizagem envolve novidade e emoção. Começar uma atividade nova e ligeiramente desafiante aos 75 ainda pode melhorar a atenção, o planeamento e o humor, mesmo que os ganhos pareçam subtis no dia a dia.
  • E se eu for introvertido ou não gostar de grupos?
    Não precisa de multidões. Interações pequenas e estruturadas funcionam bem: uma aula semanal de dança a dois, uma troca linguística em duo, ou co-gerir um pequeno grupo de discussão online com chamadas em tempo real. O elemento crucial é a interação e alguma responsabilidade partilhada, não ser a pessoa mais faladora da sala.
  • Quanto tempo por semana é realisticamente útil?
    Muitos neurologistas sugerem apontar para uma a duas sessões por semana de atividade genuinamente envolvente e ligeiramente exigente. Isso pode significar um ensaio de duas horas e uma reunião de planeamento de uma hora, ou uma aula mais preparação. A consistência ao longo de meses importa mais do que sessões longas e exaustivas.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário