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Ao desviar rios para conquistar terra ao mar, a Holanda prova que vencer a natureza com engenharia traz custos ocultos e duradouros.

Engenheiro em colete e capacete analisa mapa e nível de água ao lado de canal em zona rural.

Numa manhã cinzenta de novembro perto de Arnhem, o céu quase se confunde com a água. Um ciclista pára num dique e olha para um rio que já não se comporta “como um rio”: curva onde foi mandado, incha em bacias recentes, e deixa vacas a pastar abaixo do nível do mar como se fosse normal.

Uma barcaça passa devagar. O cenário é calmo, mas assenta numa decisão antiga: redesenhar a natureza com diques, bombas e betão.

Os Países Baixos “ganharam” à água - e, com o clima a mudar, a conta aparece onde dói: na manutenção eterna e no risco concentrado.

Quando um país decide que a água deve obedecer

Há um facto simples por trás desta história: uma parte grande do país é, por natureza, mar, estuário ou pântano. Para viver ali, os neerlandeses empurraram a água para trás e organizaram-na: diques, canais, drenagem e bombagem contínua. Em muitos pólderes, o canal fica mais alto do que os campos - e tudo depende de bombas a funcionar 24/7.

Dois rios ilustram bem a lógica do século XX: o Maas (Mosa) e o Waal. Para proteger agricultura e cidades, muitos troços foram endireitados e estreitados, com diques mais altos e margens mais “limpas”. Resultado imediato: menos inundações frequentes e mais terreno utilizável. Resultado escondido: menos espaço para o rio “respirar”.

Em 1993 e 1995, chuvas intensas a montante empurraram volumes enormes para um sistema apertado. Um rio confinado comporta-se como uma mangueira estrangulada: o nível sobe mais depressa e o pico fica mais alto. Cerca de 250 mil pessoas foram evacuadas. A vitória parecia sólida - até deixar de parecer.

A matemática também mudou. Ar mais quente tende a transportar mais vapor de água (regra prática: ~7% por cada 1 °C), o que aumenta a probabilidade de episódios de precipitação muito intensa. Somando a isso marés, níveis do mar mais altos e caudais menos previsíveis, um sistema desenhado para “o normal” fica a viver no limite.

Quanto mais se controla e acelera a água, mais se concentram os danos quando algo falha. E falhar pode ser tão simples como um troço fraco de dique, uma eclusa avariada, falta de energia para bombas, ou uma combinação de chuva + maré cheia.

O preço escondido de remodelar um rio

Depois dos quase-desastres dos anos 1990, a resposta foi uma mudança de mentalidade: dar espaço ao rio. O programa “Room for the River” recuou diques, abriu canais secundários e criou zonas de extravasamento para distribuir o excesso de água em vez de o empurrar contra cidades. Perto de Nijmegen, é visível: onde havia casas e campos, o Waal ganhou margem para se alargar nos picos.

Na prática, isto significou aceitar perdas reais: agricultores compensados para mudar, terrenos que passam a inundar de forma controlada, e decisões políticas difíceis sobre quem cede e quem é protegido primeiro. “Solução técnica” aqui inclui negociação, indemnizações e tempo.

O que costuma ficar ainda mais invisível é o dano ecológico acumulado antes destas reformas. Confinar rios e drenar zonas húmidas corta habitats, reduz a autodepuração da água e altera sedimentos. Há também um efeito de longo prazo com custos duros:

  • Rios mais rectos e apertados aumentam a velocidade e o pico das cheias a jusante.
  • Drenar solos orgânicos (turfas) promove subsidência: o terreno desce ao longo de anos/decénios e pode libertar carbono, tornando a protecção ainda mais cara.
  • Zonas húmidas perdidas significam menos “esponja” natural em cheias e secas.

“Cada metro que se ganha ao rio é um metro que se tem de defender para sempre”, disse-me um gestor de água neerlandês, olhando para um mapa de diques e pólderes. “Essa é a parte que não gostávamos de dizer em voz alta durante muito tempo.”

  • Custo económico: diques, bombas, eclusas e dragagens precisam de manutenção permanente (e de redundância energética).
  • Custo ecológico: menos zonas húmidas e margens naturais, pior qualidade da água e menos resiliência.
  • Custo social: deslocações, mudanças de uso do solo e conflitos entre segurança e propriedade.
  • Custo psicológico: viver “protegido” mas dependente de alertas, previsões e infra-estruturas que não podem falhar.
  • Custo político: decidir onde investir, quem paga e que riscos são aceitáveis.

O que a experiência neerlandesa significa para o resto de nós

Visto de perto, o caso neerlandês é um aviso útil: é possível segurar a água durante muito tempo - mas isso cria dependência de um sistema que tem de funcionar sempre.

Para Portugal, a lição aplica-se em rios e zonas baixas onde o risco é recorrente (por exemplo, vales fluviais urbanizados e áreas lagunares/estuários). Três ideias práticas ajudam a traduzir isto para decisões locais:

1) Diques e muros protegem, mas também transferem risco. Ao acelerar e “apertar” o escoamento, o problema pode aparecer mais abaixo ou mais depressa.

2) Há obras que reduzem o pico sem “lutar” contra o rio: recuo de diques, bacias de retenção, reabilitação de leitos de cheia e margens com vegetação. Funcionam melhor quando são planeadas à escala da bacia, não apenas de um município.

3) O ponto fraco costuma ser a operação, não o projecto. Bombas, comportas e drenagens exigem energia, peças, equipas e planos para falhas (incluindo cheias simultâneas com cortes de electricidade).

A pergunta útil, então, não é “dá para vencer a água?” É: por quanto tempo, com que custos, e com que plano quando o dia mau chegar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Custos de longo prazo da “vitória” Defesas e rios “domados” exigem manutenção contínua e aumentam a dependência de energia e gestão. Ajuda a avaliar projectos para além da obra: operação, falhas e orçamento futuro.
Lição do “Dar Espaço ao Rio” Reduz picos de cheia ao criar espaço e rotas de extravasamento; implica compensações e escolhas difíceis. Mostra alternativas ao “mais betão” quando o risco aumenta.
Relevância global Clima mais extremo e nível do mar mais alto aumentam a pressão sobre sistemas rígidos. Útil para repensar construção em zonas inundáveis e opções de adaptação em Portugal.

FAQ:

  • Pergunta 1 Porque é que os Países Baixos desviaram rios e conquistaram terra em primeiro lugar?
    Porque muitas áreas eram mar, estuário ou pântano. Primeiro foi sobrevivência (habitação e agricultura); depois, crescimento económico e espaço para cidades e infra-estruturas.
  • Pergunta 2 O “Dar Espaço ao Rio” reduziu realmente o risco de cheia?
    Em muitos locais, sim: ao alargar corredores fluviais e criar zonas de extravasamento, os picos de nível de água tendem a baixar. Não elimina o risco - torna-o mais gerível quando há caudais extremos.
  • Pergunta 3 Que tipo de danos ambientais resultaram do desvio de rios?
    Perda de planícies de inundação e zonas húmidas, menor diversidade de habitats, água a correr mais depressa com menos sedimentos úteis, e subsidência em solos drenados (com emissões associadas).
  • Pergunta 4 Outros países podem copiar o modelo neerlandês para combater cheias e a subida do nível do mar?
    Podem aprender com o planeamento, monitorização e gestão integrada. Copiar o modelo antigo de “confinar e acelerar” tende a repetir problemas; hoje, a combinação de engenharia com espaço para a natureza costuma ser mais robusta.
  • Pergunta 5 Isto significa que devemos deixar de construir diques e muralhas costeiras?
    Não. Em muitos sítios são indispensáveis. A diferença é tratá-los como parte de um conjunto: limitar construção em zonas inundáveis, criar áreas de expansão da cheia, e preparar operação e emergência para quando as defesas forem testadas.

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