Saltar para o conteúdo

Andar depressa não significa ser mais saudável, mas sim mais ansioso e instável.

Mulher de olhos fechados caminha em parque durante o dia, usando t-shirt branca e jeans; pessoas flanam ao fundo.

Paris, 8:42 da manhã.
Estás no passeio, com o sono ainda a zunir-te na cabeça e o café a arrefecer-te na mão. E então sentes: uma rajada de pessoas a ultrapassar-te, mochilas a saltar, saltos a martelar o alcatrão, olhos fixos em frente como se houvesse um incêndio silencioso que só elas conseguem ver. Ziguezagueiam entre carrinhos de bebé e turistas, suspiros irritados, maxilares cerrados, telemóveis apertados como detonadores.

Uma mulher roça por ti, quase te derruba o copo. Atira um “desculpe”, já a dez metros de distância. O passo dela diz “super em forma”. Os ombros dizem outra coisa.

De repente perguntas-te: será que quem anda depressa é mesmo mais saudável… ou está apenas a fugir de qualquer coisa que só essa pessoa sente?

Quando a velocidade a andar parece um traço de personalidade

Passa cinco minutos a observar uma rua movimentada e começas a reconhecê-los. Os que andam depressa. Aqueles que se movem como se estivessem sempre atrasados, mesmo num domingo de manhã. Braços a cortar o ar, cabeça ligeiramente avançada, quase a inclinar-se para o dia como se ele pudesse fugir a correr.

Parecem eficazes, produtivos, no controlo. Mas há um ritmo nervoso na forma como os pés batem no chão, como se o corpo estivesse a tentar acompanhar uma mente já três conversas à frente. Quase se ouve o monólogo interior: “Não pares. Não abrandes. Continua.”

Uma vez acompanhei, em Londres, uma advogada de empresa durante o trajeto matinal para o trabalho. Dizia que andar depressa era o “cardio” dela. Por fora, parecia o cartaz do bem-estar: sapatilhas estilosas, smartwatch, sumo verde na mala.

Mas, enquanto andávamos, ela verificava as horas de dois em dois minutos. Os ombros estavam colados às orelhas. Desviava-se das pessoas com a mesma tensão de quem joga um videojogo. Num semáforo vermelho, mudava o peso de pé para pé, visivelmente irritada. “Odeio perder tempo”, murmurou, apesar de ainda estarmos adiantados. O corpo dela não estava a treinar. Estava a fugir.

Há por aí uma ideia de que andar depressa é sinónimo de ser mais saudável, mais forte, mais disciplinado. Parte disso vem de estudos reais: sim, alguma investigação associa um passo rápido a melhor saúde cardiovascular e a maior esperança de vida.

Mas isso é apenas um lado do quadro. A velocidade também pode ser o sintoma físico de um estado mental. Pessoas com ansiedade, stress elevado ou humor instável tendem a mover-se mais depressa, falar mais depressa, comer mais depressa, fazer scroll mais depressa. O corpo limita-se a espelhar a tempestade interior. Na rua, podemos estar a confundir stress com boa forma. E aplaudimos o comportamento que, em silêncio, está a esgotar as pessoas.

Como ouvir o teu ritmo a andar como um termómetro do humor

Há um gesto pequeno, quase ridículo, que pode mudar tudo: uma vez por dia, repara em como andas durante apenas 30 segundos. Sem mudares nada ao início. Só observar.

Tens os punhos cerrados? Estás inclinado para a frente, como se o teu corpo quisesse chegar antes de ti? A tua respiração é curta, mal passa pelas clavículas? Este mini check-in transforma o teu ritmo numa pista, não numa definição automática. A partir daí, podes experimentar: baixa os ombros, descrispa os dedos, deixa a cabeça assentar sobre o pescoço. Depois, sem forçar, tira 10% à tua velocidade e vê o que acontece por dentro.

Muita gente pensa que a solução é passar de repente para uma caminhada lenta, zen, como se a vida fosse um corredor de spa. Isso costuma sair ao contrário. O cérebro entra em pânico, a ansiedade grita mais alto e ficas pior.

Uma forma mais suave é brincar com “micro-abrandamentos”. Da porta do escritório até ao elevador. Da paragem do autocarro até ao prédio. Segmentos pequeninos em que aceitas andar um passo atrás do teu ritmo habitual. Se notares culpa ou impaciência a subir, isso é um sinal, não um fracasso. Significa que ligaste o teu valor à tua velocidade. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, religiosamente. Mas mesmo três vezes por semana pode começar a desfazer o nó entre andar depressa e sentir-se em segurança.

“Percebi que não era rápida por estar em forma”, disse-me uma leitora depois de um workshop sobre stress e movimento. “Era rápida porque tinha medo do que me apanharia se eu parasse.”

  • Sinal de que a tua velocidade é movida pelo stress: Ficas irritado quando alguém te abranda, mesmo que seja por poucos segundos.
  • Sinal de que a tua velocidade é um hábito: Consegues abrandar por um amigo ou por um cão sem ficares zangado ou em pânico.
  • Sinal de que a tua velocidade apoia a saúde: A respiração está estável, o maxilar relaxado e ainda consegues reparar no que te rodeia.
  • Alerta a vigiar: Chegas a todo o lado ligeiramente suado, com o coração aos pulos e a mente já ligada ao próximo passo.
  • Pequeno gesto de reinício: Antes de atravessares uma rua, faz uma pausa de uma expiração completa. Depois anda como se tivesses exatamente tempo suficiente.

Talvez o ritmo mais saudável seja aquele que tu escolhes de facto

Quando começas a ver a velocidade a andar como um espelho do humor, é difícil deixar de a ver. O colega que dispara pelo corredor mas fica à secretária durante o almoço. O pai ou a mãe que puxa a criança pelo passeio, não por crueldade, mas porque a cabeça já está na reunião de amanhã. O adolescente a andar de um lado para o outro com auscultadores, sem ir a lado nenhum, mas incapaz de ficar quieto.

A pergunta deixa de ser “Andar depressa faz bem?” e passa a ser “Quem é que está a decidir esta velocidade: tu, ou a tua ansiedade?” Quando abrandas só um bocadinho e sentes o cérebro a protestar, é aí que está a história verdadeira. É aí que o trabalho começa. E também onde aparece algo mais suave: o direito de chegar a horas sem ter de viver como se estivesses sempre atrasado.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A velocidade a andar é um sinal O passo rápido reflete muitas vezes tensão interior, não apenas nível de forma física Ajuda-te a reparar cedo em sinais de stress e ansiedade
Micro-abrandar chega Segmentos curtos, intencionais e mais lentos reeducam corpo e cérebro Oferece uma forma realista de te sentires mais calmo sem “mudar a tua vida toda”
Ritmo escolhido vence ritmo automático Conseguir acelerar ou abrandar de propósito mostra estabilidade emocional Devolve-te uma sensação de controlo sobre o teu dia e a tua energia

FAQ:

  • Pergunta 1 Andar depressa significa sempre que estou ansioso ou instável?
  • Pergunta 2 Posso ser naturalmente rápido a andar e mentalmente saudável?
  • Pergunta 3 Andar devagar é melhor para a minha saúde do que andar a bom ritmo?
  • Pergunta 4 Como posso perceber se a minha velocidade me está a ajudar ou a prejudicar?
  • Pergunta 5 Qual é uma coisa simples que posso experimentar na minha próxima caminhada?

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário