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Adeus fritadeira: o novo aparelho 9 em 1 adorado por influencers, mas criticado por muitos cozinheiros que o consideram um embuste para preguiçosos.

Pessoa a cozinhar legumes numa panela elétrica com vapor, numa cozinha moderna com utensílios ao fundo.

Num fim de tarde qualquer (normalmente quando o jantar “cai em cima”), é fácil olhar para um peito de frango meio descongelado, uma bancada cheia de tralha e pensar: “Era isto que nos faltava: o tal 9 em 1.”

Nas redes sociais, parece magia: um botão, vapor fotogénico e saem lasanha, iogurte e um frango assado - sem loiça, sem stress, sem falhas.

Na prática, muita gente gosta. E muita gente sente que comprou mais um trambolho com marketing por cima.

De herói da air fryer a “milagre” nove-em-um: como é que chegámos aqui?

O padrão repete-se: vídeos curtos, resultados perfeitos, promessa simples. A air fryer vendeu “estaladiço com menos óleo”. Agora a “panela elétrica multifunções” (o 9 em 1) vende “tudo num só aparelho”.

Em teoria, faz:

  • pressão
  • slow cook
  • saltear
  • vapor
  • “air fry”
  • assar
  • iogurte
  • arroz
  • desidratar

O gancho é óbvio: menos aparelhos, menos decisões, menos tempo.

O choque vem depois: caixa grande, manual grande, e uma realidade pouco mostrada em Reels - tempos que incluem aquecimento + criação de pressão, receitas que precisam de ajustes e uma curva de aprendizagem real.

Duas notas que quase nunca aparecem na publicidade e fazem diferença em casas portuguesas (T0/T1, cozinhas pequenas):

  • Pegada e vapor: muitos modelos libertam vapor forte pela válvula; convém espaço livre por cima e não encostar a armários altos.
  • Potência e tomada: é comum puxarem 1000–1500 W; evita extensões fracas e não partilhes a tomada com outros aparelhos “pesados” ao mesmo tempo.

Porque é que alguns cozinheiros juram por ele… e outros lhe chamam um esquema para preguiçosos

Quando funciona, funciona mesmo - sobretudo para quem repete 2–3 modos em vez de perseguir os nove.

Exemplo clássico: pressão + “air fry”/grill. Cozes coxas de frango até ficarem tenras e depois dás cor/crocante por cima no mesmo recipiente. Ou fazes arroz + legumes sem estar a vigiar o fogão.

O “segredo” dos utilizadores satisfeitos é pouco sexy, mas prático: escolher dois modos que resolvam jantares reais e tratar o resto como extra.

A frustração costuma vir de outra promessa: “refeições perfeitas com esforço zero”. Porque o trabalho não desaparece - muda de sítio:

  • tens de perceber tempos (e que “10 min sob pressão” pode virar 25–35 min no relógio, com aquecimento + descompressão)
  • tens de acertar texturas (massa e alguns legumes passam do ponto facilmente)
  • tens de lidar com limpeza (anel de vedação, tampa, válvula, cesto, grelha)

O rótulo “para preguiçosos” falha o alvo. Na maioria dos casos, não é preguiça: é cansaço + expectativas inflacionadas.

Como perceber se o nove-em-um vai ser o teu novo melhor amigo… ou só mais desarrumação

Antes de comprar, faz uma auditoria rápida à tua semana (5 minutos, sem fantasia): escreve o que realmente cozinhas de segunda a domingo.

Depois pergunta: onde é que um 9 em 1 entra mesmo?

  • Se quase nunca fazes leguminosas secas, guisados, caldos, carne para desfiar, refeições em lote, o modo de pressão pode não compensar.
  • Se o teu dia-a-dia é aquecer, tostar, fazer ovos, massas rápidas, um micro-ondas + forno + frigideira continuam imbatíveis em simplicidade.

Há também um lado emocional: estes aparelhos podem virar “teste de disciplina” (usar ou sentir culpa). Não tem de ser assim. Se ao fim de um mês não te facilita a vida, é só um desencaixe - não um defeito teu.

Para decidir com menos arrependimento, usa estas verificações simples:

  • Já cozinhas em casa pelo menos 3 noites por semana?
  • Fazes com frequência guisados/caldos/cereais/meal prep?
  • Tens espaço (bancada/arrumação) sem te irritar todos os dias?
  • Estás disposto a dominar 1–2 funções (e ignorar o resto)?
  • Aceitas que para ti pode ser um “3 em 1” e não um “9 em 1”?

Dois alertas práticos (pouca gente fala nisto, mas evita acidentes e chatices):

  • Segurança na pressão: não enchas acima do limite; em geral, até 2/3 (e 1/2 para alimentos que espumam, como leguminosas). Usa sempre líquido suficiente e nunca forces a tampa/ válvula. O vapor pode queimar.
  • Manutenção: o anel de vedação absorve cheiros e desgasta; se cozinhas peixe/curry, é normal ficar odor. Contar com substituição ocasional evita sabores “emprestados”.

Para lá do hype: o que esta luta diz realmente sobre a forma como cozinhamos agora

Esta discussão não é só sobre gadgets. É sobre tempo, cansaço e a vontade de comer “minimamente decente” sem transformar a cozinha num segundo trabalho.

Para alguns, o 9 em 1 é uma âncora: permite fazer refeições quentes com menos vigilância. Para outros, é mais uma promessa de “vida organizada” que falha quando a semana aperta.

A pergunta útil não é “isto é um embuste?”, mas:

Que tipo de ajuda te dá mais retorno - rapidez (air fryer), volume (pressão/slow cook), ou simplesmente menos decisões?

No meio do hype e da raiva, a maioria das cozinhas reais acaba por fazer o óbvio: escolher 1–2 ferramentas que encaixam no ritmo da casa e ignorar o resto sem culpa.

Pontos-chave para decidir melhor (sem drama):

  • Adequar a ferramenta aos hábitos: audita uma semana real antes de comprar.
  • Usar poucas funções: dominar 2–3 modos dá mais resultado do que tentar “usar tudo”.
  • Largar a culpa: se não te facilita em 30 dias, revende/doa e segue - sem moralismo.

FAQ:

  • Um nove-em-um é mesmo melhor do que uma air fryer? Depende do uso. A air fryer costuma ser mais simples e rápida para pequenas porções estaladiças. O nove-em-um ganha em pressão, guisados e refeições em lote - mas pode parecer mais lento no “tempo total” e menos prático para snacks.

  • Um nove-em-um substitui o meu forno? Em espaços pequenos pode substituir parcialmente (especialmente para porções pequenas). Para tabuleiros grandes, pão/pastelaria e refeições para muita gente, o forno continua mais confortável e consistente.

  • A comida fica realmente mais saudável? Pode ficar se te levar a cozinhar mais em casa com ingredientes simples. O aparelho não “saudabiliza” ultraprocessados: ingredientes, porções e frequência continuam a mandar.

  • A curva de aprendizagem é assim tão íngreme? O básico é fácil, mas acertar tempos e texturas exige teste. Conta com 2–3 tentativas até encontrares as tuas receitas “seguras”.

  • E se eu já tiver uma air fryer e uma panela de cozedura lenta? Se já cumprem, o ganho pode ser pequeno. Um nove-em-um faz mais sentido quando queres reduzir tralha, substituir vários aparelhos velhos, ou quando a pressão (feijão, estufados, carne tenra) vai ser usada de verdade.

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