Difícil de enganar o espelho: a cara pode estar ótima, mas o cabelo denuncia outra história. Na raiz, uma faixa cinzento‑aço. Nos comprimentos, um balayage antigo que ficou alaranjado e “cansado”.
No salão, entre secadores e conversa baixa, a pergunta sai meio a sério, meio a medo: “Dá para isto… desaparecer?” A colorista calça as luvas e responde com uma palavra pouco óbvia: “melting”.
Quarenta minutos depois, o grisalho ainda existe - só que já não comanda o olhar. A raiz passa a tons suaves, esfumados, e “derrete” para um caramelo ou bege discreto. Sem linha dura. Sem aquele efeito de “retoque” marcado. Uma camuflagem que parece natural, como se o cabelo tivesse crescido assim.
O que o “melting” realmente é - e porque é que o cabelo grisalho de repente parece diferente
O “melting” parece trend, mas é sobretudo técnica: criar transições tão suaves entre tons que o olho não encontra uma fronteira clara entre raiz grisalha e cabelo pintado. O objetivo não é apagar o branco - é torná‑lo menos óbvio e mais integrado.
Em vez de “fitas” claras típicas do balayage, trabalha-se em véus finos e sobreposições de cor: normalmente um tom ligeiramente mais profundo junto ao couro cabeludo e tons um pouco mais claros do meio para as pontas. A palavra‑chave é difusão.
Porque é que isto ajuda no grisalho?
- O contraste é o que denuncia. Uma raiz branca ao lado de uma cor sólida (ou madeixas muito marcadas) cria uma linha de crescimento evidente.
- O melting usa 2 a 4 tons próximos (na mesma família), para que a transição pareça sombra/luz - não “antes e depois”.
- Muitas vezes deixa-se parte do grisalho intacto em zonas estratégicas (têmporas e linha frontal, por exemplo), para o crescimento novo se misturar em vez de “bater” numa parede de tinta.
Na prática, muda também a sensação de manutenção. Cobertura total costuma significar: raízes novas = urgência. Melting tende a significar: raízes novas = continuidade. Para quem já não quer viver no ciclo do retoque, essa diferença pesa.
O balayage continua ótimo quando há pouco branco. Mas com mais grisalho, aquelas peças claras podem aumentar o contraste na raiz e tornar o crescimento mais visível. O melting faz o contrário: trabalha com o crescimento, não contra ele.
Como o melting é feito na prática: da cadeira do salão ao espelho da casa de banho
Uma boa sessão começa na conversa: onde o grisalho está mais concentrado, quão rápido cresce (muita gente nota 1 cm por mês), como usa o cabelo (risca ao meio, ao lado, apanhado), e o que existe “por baixo” (tinta de caixa, madeixas antigas, alisamentos). Detalhe importante: a madeixa rebelde na têmpora não é “azar” - é o mapa do trabalho.
Na parte técnica, é comum:
- Sombra na raiz (root shadow): 1 a 2 tons mais escuros do que a base natural, para desfocar o branco sem criar um bloco. Se ficar escuro demais, o contraste volta - é um erro frequente.
- Esfumado para os comprimentos: pinceladas curtas e bem “batidas” para evitar marcas. Aqui, menos saturação e mais transição costuma dar um resultado mais caro.
- Gloss/tonalizante nas pontas: em muitos casos usa-se um produto translúcido para brilho e correção de subtons (amarelo/laranja), sem pesar o fio. Em cabelo poroso, isto faz diferença porque a cor “agarra” de forma desigual.
Notas práticas que evitam surpresas: - Se tem histórico de alergias a coloração, vale pedir orientação sobre teste de sensibilidade antes (e nunca ignorar ardor intenso durante a aplicação). - Se o cabelo está fragilizado, a/o profissional pode preferir mais tonalização e menos descoloração - o melt pode ser construído em etapas.
Em casa, a manutenção é metade do resultado. O melting é mais indulgente do que retocar raiz, mas não é “zero cuidados”:
- Champô suave (muita gente prefere fórmulas sem sulfatos) ajuda a segurar o tom e o brilho.
- Champô roxo/azul 1x por semana (ou até 2x/mês, se for realista) pode controlar o amarelado em melts frios - especialmente em bases escuras a embranquecer.
- Calor em excesso desbota e revela subtons: tente manter ferramentas entre 160–180 ºC, use protetor térmico e, quando der, alterne com secagem ao ar.
- Água dura, piscina e praia aceleram o “alaranjar”: enxaguar com água doce e usar máscara nutritiva pode prolongar o tom.
“O cabelo branco não é o vilão. O problema é a linha dura onde a cor antiga encontra o crescimento. O melting apaga essa linha.”
Na agenda, isto costuma traduzir-se em menos correria: muitas pessoas saem de retoques a cada 3–4 semanas para refrescos a cada 8–12 semanas, às vezes com um gloss rápido a meio se o tom aquecer.
- Para quem o melting resulta melhor: quem tem entre 20% e 70% de grisalho e quer evitar linhas de crescimento marcadas.
- Funciona em: morenas, louros escuros, cabelo com madeixas e, em alguns casos, ruivos (desde que o tom seja bem pensado).
- Evite se: quer 100% de cobertura opaca ou adora madeixas muito contrastadas e “aos blocos”.
Custos, tempo e o que ninguém lhe diz sobre a fase “do meio”
| Ponto-chave | Detalhes | Porque é que importa para quem lê |
|---|---|---|
| Intervalo de preço da sessão | Em Lisboa/Porto, um melting completo muitas vezes fica entre 120 € e 280 € (varia com comprimento, densidade, correções e número de tons). | Ajuda a comparar com o custo e desgaste de retoques frequentes de raiz ao longo de vários meses. |
| Tempo na cadeira | Conte com 2 a 3 horas na primeira vez (consulta, aplicação, pose, enxaguamento, gloss e brushing). | Evita marcar “a correr”: é uma técnica de detalhe, e pressa aumenta o risco de marcas. |
| Ritmo de manutenção | Em geral, 8–12 semanas. Um gloss/tonalizante pode ser útil a meio se o cabelo oxidar (ficar quente/baço). | Define expectativas: menos visitas, mas com manutenção inteligente para manter o efeito esfumado. |
A fase mais delicada costuma ser a transição - sobretudo se vem de anos de tinta de caixa ou cores muito escuras. Na primeira sessão, o objetivo pode ser “arrumar o terreno” (reduzir manchas, equilibrar subtons, criar base), não entregar logo o resultado final de fotografia.
Algumas/os coloristas preferem uma abordagem gradual: clarear onde faz sentido, deixar outras zonas “respirar” e ir ajustando o tom em camadas. Isso pode gerar um ou dois meses em que o cabelo parece mais “em transformação” do que “perfeito” - e isso é normal. A luz da casa de banho é implacável; a luz natural costuma ser mais generosa. O melting joga a favor da vida real, não só do espelho.
FAQ
O melting esconde completamente o cabelo grisalho?
Não por completo. Foi feito para desfocar e misturar o branco, não para o apagar. De perto, pode continuar a ver fios prateados - só que parecem intencionais.O melting é melhor para cabelo grisalho do que balayage?
Em muitos casos com bastante grisalho, sim. O balayage pode criar contraste que denuncia a raiz nova; o melting aposta em transições mais suaves para não “marcar” o crescimento.Quanto tempo costuma durar uma cor em melting?
Normalmente 8 a 12 semanas com bom aspeto. Se o seu cabelo tende a aquecer, um gloss a meio pode ajudar sem voltar ao ciclo do retoque de raiz.Posso fazer melting se usei tinta de caixa durante anos?
Pode, mas pode exigir mais do que uma marcação. A tinta antiga costuma criar manchas e faixas; o caminho mais seguro é construir o resultado em etapas.O melting estraga mais o cabelo do que a coloração clássica?
Não necessariamente. Muitas vezes usa mais tonalização/gloss e menos “pintura sólida” da raiz às pontas. O risco aumenta quando é preciso corrigir cores antigas ou clarear muito - aí, o estado do fio manda.O melting é adequado para cabelo muito escuro a ficar grisalho?
Pode ser, com expectativas realistas. Em bases muito escuras, costuma funcionar melhor com castanhos fumados e profundidade na raiz, para o branco se misturar em vez de saltar.Como explico melting ao meu cabeleireiro/à minha cabeleireira?
Mostre fotos onde a raiz está esfumada e diga: “sombra suave na raiz”, “sem linha marcada”, “mistura de tons próximos”. E seja clara sobre a sua frequência ideal de manutenção (8–12 semanas, por exemplo).
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