A porta do metro deslizou para fechar e, como se fosse a deixa, um suave brilho azul iluminou todos os rostos na carruagem.
Cabeças baixas. Polegares a deslizar. Ninguém realmente ali, toda a gente noutro sítio. Um adolescente via um vídeo em alto volume, uma mulher de fato fazia doomscroll por e-mails, um homem mais velho ampliava uma fotografia desfocada do seu cão. Quase se conseguia sentir a atenção da sala a escorrer por pequenos rectângulos de vidro.
Mesmo no meio deste transe digital silencioso, havia um tipo parado, mãos nos bolsos, a olhar à volta. Nem sinal de telemóvel. Lia os anúncios, espreitava o mapa, cruzava o olhar com alguém e sorria - estranho, mas real. Por um segundo, a cena pareceu… diferente. Menos como um enxame, mais como uma sala cheia de pessoas.
Agora imagine que a empresa de software mais poderosa do mundo diz que esse tipo é o futuro, e não a excepção. E que os smartphones são apenas uma fase.
Um mundo onde o ecrã desaparece
Quando Satya Nadella, CEO da Microsoft, dá a entender que o futuro é “pós-smartphone”, não está a brincar. No mundo dele, a placa de vidro na tua mão é apenas uma ponte, não o destino. A empresa que, em tempos, falhou a revolução móvel agora quer ajudar a enterrá-la. Não com outro telefone, mas com algo muito mais escorregadio: a computação ambiente.
Nesta visão, o computador desvanece-se para segundo plano. A tua sala, o teu carro, os teus óculos, os teus auriculares - tudo discretamente ligado, tudo discretamente a escutar. Tu falas, mexes-te, olhas para algo, e o sistema reage. Sem tocar em ícones. Sem saltar entre apps. Apenas uma camada de inteligência invisível a seguir-te, como um sistema operativo invisível para a tua vida inteira.
Para quem olha para o ecrã 200 vezes por dia, isto soa a ficção científica. Ou a armadilha.
A ideia não é pura fantasia. A Microsoft já tentou fugir aos rectângulos uma vez com o HoloLens, o seu dispositivo de realidade mista. Desajeitado, caro, usado sobretudo em fábricas - certo. Mas ensinou à empresa uma lição: as pessoas não querem realmente estar dentro de um dispositivo. Querem que a computação se sobreponha à realidade, não que a substitua. Menos “viver num ecrã” e mais “notas digitais a flutuar sobre a mesa da cozinha”.
Há outro sinal: padrões de utilização. Em vários mercados, as vendas de smartphones estagnaram. As pessoas ficam com os telemóveis mais tempo. As actualizações parecem aborrecidas. As margens encolhem; a vida não muda. Quando uma tecnologia deixa de entusiasmar compradores, costuma haver outra coisa à espreita por trás da cortina. A aposta em Redmond é que o próximo salto não é um telefone melhor - é não haver telefone óbvio nenhum.
É aqui que entra a IA. Sistemas como o Copilot da Microsoft, integrados no Windows, no Office e até no navegador Edge, estão a treinar para um papel maior. Hoje resumem e-mails e redigem documentos. Amanhã, poderão acompanhar-te através de dispositivos, superfícies e espaços. Um assistente, em todo o lado, sem precisares de te lembrar de que app faz o quê. Menos toques. Mais conversa. Mais contexto sobre ti do que qualquer telemóvel conseguiria guardar.
Então o que substitui o smartphone no bolso?
Se levarmos Nadella à letra, o verdadeiro “dispositivo” do futuro pode nem parecer um dispositivo. Pensa em coisas pequenas: uns auriculares com IA a sussurrar lembretes, um relógio que entende os teus níveis de stress, uma luz na secretária que brilha quando um amigo de quem gostas finalmente está livre para falar. Nenhuma destas coisas, isoladamente, bate um smartphone. Em conjunto, vão silenciosamente corroendo a necessidade de fixar os olhos num.
A jogada da Microsoft está na camada de software e cloud. A empresa não precisa que compres um “Microsoft Phone 2”. Quer ser o cérebro que liga o painel do teu carro, o PC do escritório, a TV de casa e qualquer novo gadget que aterre na tua mesa-de-cabeceira. Fazes uma pergunta na cozinha, obténs a resposta na TV, continuas a tarefa no portátil - e nunca chegas a “abrir uma app”. Essa continuidade é o verdadeiro produto.
Na vida do dia-a-dia, isso pode significar menos “momentos de telemóvel” conscientes e mais empurrões ambientais. O teu calendário aparece suavemente no espelho enquanto lavas os dentes. A tua lista de compras actualiza-se sozinha quando a câmara do frigorífico repara numa prateleira vazia. A ajuda para os trabalhos de casa do teu filho surge quando ele diz em voz alta “não percebo isto”. É estranho, sim. E também, de forma esquisita, conveniente.
Falemos do lado humano. Num nível básico, as pessoas estão cansadas. Os relatórios de tempo de ecrã são brutais. Pais confessam que fazem scroll ao lado do filho em vez de brincar. Casais partilham a cama com três entidades: dois humanos e um rectângulo luminoso entre eles. A fantasia de um mundo sem telemóveis toca directamente nessa vergonha silenciosa. Num bom dia, pensas: e se a tecnologia simplesmente… saísse da minha mão?
O senão é que os hábitos não desaparecem por magia. Um mundo para lá dos smartphones significa que a tua atenção continua a ser o produto - apenas a mover-se para outras superfícies. A tua smart TV vai tentar-te. O teu carro vai apitar-te. O teu wearable vai vibrar com notícias “urgentes”. A forma muda; o modelo de negócio sobrevive. Por isso, se quisermos a visão ao estilo Microsoft sem nos tornarmos em centros ambulantes de notificações, vamos precisar de novas regras, não apenas de novos gadgets.
Há também a confiança. Quando tudo está ligado, tudo pode ser rastreado. Localização, tom de voz, micro-pausas antes de responderes. Para a Microsoft, é um baú de tesouros de dados comportamentais. Para ti, é um diário escrito numa língua que não consegues ler. A mesma empresa que sonha com uma era pós-smartphone também gere a cloud onde a tua vida vai viver. A pergunta não é só “o meu telemóvel vai desaparecer?”. É “quem é que passa a ver o meu dia quando isso acontecer?”.
Como viver agora, sabendo que os telemóveis podem desvanecer-se
Um passo prático: trata o teu telemóvel actual como se já fizesse parte de um sistema maior e invisível. Limpa o ecrã principal. Mete as redes sociais numa pasta na segunda página. Mantém apenas o que realmente te ajuda a navegar o dia à tua frente. Calendário, mapas, câmara, talvez uma app de mensagens que uses mesmo - não seis. O objectivo é simples: fazer do telemóvel uma ferramenta, não um destino.
Também podes testar pequenos pedaços de vida ambiente com coisas que já tens. Usa comandos de voz para tarefas básicas, mesmo que te sintas parvo a falar com dispositivos. Define lembretes por voz enquanto cozinhas, em vez de desbloquear, desbloquear e perder-te no Instagram. Traz de volta relógios e despertadores reais, para que “que horas são?” deixe de ser um portal para um scroll infinito. Pequenos gestos assim ensinam o teu cérebro a perceber que nem toda a pergunta precisa de um ecrã.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Vais falhar, vais fazer scroll, vais maratonar. Está tudo bem. A ideia não é pureza. É reparar com que frequência o telemóvel é a resposta por defeito ao tédio, ao desconforto ou à solidão. Quando vês esse padrão, já estás a meio caminho de desenhar uma relação mais saudável com o que vier a substituir o telefone mais tarde.
Há uma competência mais suave a cultivar: aprender a dizer “não” à conveniência. Cada nova demo da Microsoft promete vida sem fricção - uma frase e a tua vida organiza-se. Parece magia. Também é discretamente perigoso. Cada vez que subcontratas uma decisão, perdes um pouco da tua própria agência.
Começa por áreas de baixo risco. Não deixes algoritmos preencherem as tuas noites com séries recomendadas; escolhe algo de propósito. Não deixes o teu calendário aceitar automaticamente todos os convites; deixa espaço em branco. Quando o telemóvel sugerir “respostas inteligentes” a um amigo em sofrimento, pára e escreve as tuas próprias palavras. Num plano humano, estas pequenas fricções são onde vive o significado.
Todos já tivemos aquele momento em que levantamos os olhos de um ecrã e percebemos que uma hora inteira desapareceu. Num mundo para lá dos smartphones, esse momento pode bater-te à frente de uma smart TV, ou dentro de um espaço de VR, ou a falar com um assistente invisível. Meio diferente, a mesma sensação oca. Por isso, praticar atenção - reparar no que estás a fazer, e porquê - não é um cliché de bem-estar. É treino de sobrevivência para tecnologia ambiente.
“A tecnologia mais disruptiva da próxima década não vai ser um dispositivo”, disse-me um estratega da Microsoft, baixinho, ao café. “Vai ser a sensação de que os computadores estão simplesmente… ali. O tempo todo. Em todo o lado. E vamos chamar a isso normal.”
Esse “normal” pode ir em dois sentidos para ti. Pode parecer calor - luzes a ajustar-se ao teu humor, rotas a evitar gatilhos de stress, ferramentas de trabalho que conhecem o teu estilo. Ou pode parecer nevoeiro - nunca bem offline, nunca totalmente sozinho, sempre meio a escutar uma máquina. A linha entre os dois é mais fina do que qualquer ecrã de smartphone.
- Vigia os teus rastos de dados: verifica que apps enviam informação para a cloud, não só no telemóvel mas também na tua TV, consola, carro.
- Ancorar rituais offline: refeições, passeios ou horas de deitar em que nenhum dispositivo - telemóvel, relógio, coluna - tem voto na matéria.
- Aprende os “interruptores de desligar”: onde silenciar microfones, desligar câmaras e cortar a internet ao teu hub doméstico.
- Ensina a história às crianças: explica não só como usar tecnologia, mas por que razão as empresas querem o tempo delas.
- Mantém um objecto “burro” por perto: um caderno de papel, um calendário físico, algo que ninguém possa notificar.
Para lá do vidro: que tipo de futuro estamos realmente a escolher?
Quando o dono do Windows diz que a janela na tua mão é temporária, ouves tanto arrependimento como ambição. A Microsoft perdeu o comboio dos smartphones uma vez; agora está a tentar pôr os carris para o que vem a seguir. Um mundo onde a computação se dissolve nas paredes, nos móveis, no ar. Um mundo em que perguntar “que telemóvel tens?” soa tão antiquado como perguntar “que leitor de CDs usas?”.
Para ti e para mim, a pergunta real não é técnica, é pessoal. O que acontece à atenção quando não há nada óbvio para pousar? Hoje, ainda conseguimos atirar o telemóvel para o sofá, sair pela porta e sentir o peso a sair do bolso. Num mundo ambiente ao estilo Microsoft, a ligação segue-te, silenciosa. Vais precisar de inventar novos gestos de desligamento - puxar a ficha ao router, desligar uma coluna inteligente, entrar deliberadamente em espaços não ligados.
Há também a reescrita social que acompanha qualquer grande mudança tecnológica. Quando chegaram os primeiros smartphones, ninguém tinha regras. Aprendemos - de forma atrapalhada - a não os tirar durante funerais, primeiros encontros, entrevistas de emprego. Um futuro sem telemóveis visíveis significa nova etiqueta. É rude falar com o teu assistente à frente de alguém? É sinistro se os teus óculos estiverem sempre a escutar? É aceitável a IA do teu chefe “juntar-se” ao teu passeio de domingo?
Estas perguntas ainda não têm respostas limpas. Ficam ali suspensas, como aquele tipo sozinho no metro sem ecrã, a fazer com que toda a gente se aperceba subitamente da própria postura. Estranho, vulnerável, um pouco livre. Talvez dizer adeus aos smartphones não seja sobre perder um dispositivo. Talvez seja sobre ganhar uma oportunidade de renegociar quanta vida estamos dispostos a subcontratar a empresas como a Microsoft - e quanta queremos manter teimosamente, gloriosamente, offline.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Fim anunciado dos smartphones | A Microsoft fala de um futuro “pós-smartphone” em que o telemóvel passa a ser secundário | Permite antecipar as próximas grandes mudanças tecnológicas |
| Ascensão da computação ambiente | Objectos, lugares e serviços ligados de forma contínua via IA e cloud | Ajuda a perceber como o quotidiano pode transformar-se |
| Escolhas pessoais a fazer | Novos hábitos, limites e regras a definir para manter controlo | Dá pistas concretas para não ser arrastado por estas evoluções |
FAQ:
- A Microsoft está mesmo a dizer que os smartphones vão desaparecer?
Não de um dia para o outro. A liderança da Microsoft sugere que os telemóveis vão perdendo lentamente o papel central, à medida que a computação se espalha por muitos dispositivos e espaços.- O que pode substituir o meu smartphone no dia-a-dia?
Uma combinação de wearables, dispositivos de casa inteligente, sistemas no automóvel e assistentes de IA que te acompanham através de tudo isso, em vez de um único ecrã dominante.- Um mundo sem telemóveis significa menos tempo de ecrã?
Não automaticamente. Os ecrãs podem encolher ou mudar de sítio, mas a tua atenção continua a poder ser capturada por TVs, óculos, painéis ou assistentes invisíveis.- Devo deixar de trocar de telemóvel a partir de agora?
Não é preciso medidas drásticas. Podes simplesmente tratar cada novo telemóvel como uma ferramenta prática e começar a experimentar hábitos digitais mais saudáveis.- Como posso proteger a minha privacidade neste futuro ambiente?
Limita permissões, aprende as definições dos dispositivos, cria momentos offline de propósito e escolhe serviços de empresas cujas políticas de dados realmente lês e aceitas.
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