Uma faixa de prateleiras abertas mostra taças artesanais. Por baixo, um módulo com frente em vidro organiza os copos. Ao lado, uma despensa alta em madeira dá peso ao conjunto, mesmo entre gavetas pintadas. Parece “misturado”, mas não caótico: parece vivido - como uma cozinha que foi sendo afinada ao longo do tempo, e não montada inteira a partir de um catálogo.
Em vez de paredes inteiras de armários iguais, muitos designers estão a combinar arrumação aberta e fechada: prateleiras com módulos, vidro com portas opacas, despensas altas com aparadores soltos, calhas com ganchos onde faz sentido. O resultado tende a ser menos “showroom” e mais pessoal - e, muitas vezes, mais prático no dia a dia.
Porque é que os designers estão a acabar com os armários todos iguais
As cozinhas que funcionam melhor não são as que parecem cenários; são as que suportam rotinas reais. A mistura (aberto/fechado, novo/vintage, leve/pesado) cria contraste e “ritmo” visual - e ajuda a organizar por zonas: o que usa todos os dias fica acessível; o resto desaparece.
A marcenaria uniforme (mesma porta, mesma cor, tudo em linha) transmite ordem e pode agradar a quem pensa em revenda. O lado menos bom é que, muitas vezes, também apaga personalidade e obriga a compromissos: prateleiras onde precisava de gavetões, ou armários altos onde uma prateleira curta resolvia.
A lógica por trás da arrumação mista é simples: cada tipo de arrumação faz um trabalho específico melhor do que os outros.
- Gavetões: ideais para tachos, panelas, pequenos eletrodomésticos e caixas (vê tudo de uma vez; menos “pilhas”).
- Despensa alta: concentra secos, snacks, garrafas e até aspirador/limpeza (especialmente útil em apartamentos com pouca arrecadação).
- Prateleiras abertas: para o “uso diário” (pratos, tigelas, canecas), quando quer rapidez.
Há também um ganho em espaços pequenos (muito comuns em Portugal): quebrar a “grelha” de armários com uma peça alta diferente, vidro ou uma secção aberta evita que a cozinha pareça uma parede contínua e pesada. E atenção ao lado prático: prateleiras abertas perto do fogão acumulam mais gordura; com exaustor fraco, o efeito “bonito” degrada-se depressa.
Como misturar arrumação como um designer (sem perder a cabeça)
Antes de escolher materiais, mapeie hábitos:
- O que usa diariamente (café, pequeno-almoço, tupperwares)?
- O que é volumoso (robô de cozinha, airfryer, tabuleiros)?
- O que quer ver… e o que quer esconder?
Depois, trabalhe por camadas numa só parede/canto. Um esquema comum e seguro é: base “calma” (gavetões/armários) + uma intervenção acima (prateleira curta, vidro, calha). Noutro ponto, uma despensa alta tipo “móvel” pode fazer de âncora e interromper a monotonia sem obrigar a mudar tudo.
Regras simples evitam que a mistura vire confusão:
- Regra 70/30: cerca de 70% fechado e 30% aberto/vidro. Dá descanso visual e ainda mostra personalidade.
- Repita um elemento: a mesma madeira duas vezes, ou o mesmo puxador em peças diferentes. Isso “cola” o conjunto.
- Prateleiras abertas com medidas realistas: profundidade de ~20–25 cm costuma chegar para pratos e taças sem invadir a cabeça; deixe ~45–55 cm entre bancada e prateleira para trabalhar e limpar sem stress.
- Segurança/instalação: prateleiras “a sério” precisam de fixação adequada ao suporte (alvenaria vs pladur). Se vão levar loiça, planeie para peso - e evite soluções decorativas frágeis.
Um designer resumiu assim:
“A marcenaria uniforme é como usar um fato perfeitamente a condizer todos os dias. A arrumação mista é quando mantém o bom blazer, mas o combina com as suas calças de ganga favoritas, uma T-shirt já bem usada e uns sapatos com que realmente gosta de andar.”
Todos já tivemos aquele momento em que a cozinha perfeita da fotografia parece intimidante, como se uma caneca fora do sítio arruinasse tudo. A arrumação mista faz o contrário - desde que siga algumas orientações:
- Defina uma cor dominante e contraste com um ou dois destaques (madeira, vidro, pedra).
- Mantenha prateleiras abertas curtas e com função (não “de parede a parede” só para encher).
- Use vidro para itens que ficam minimamente apresentáveis mesmo num dia mau (copos, taças, pratos iguais).
- Inclua pelo menos uma peça alta (despensa/roupeiro de cozinha/aparador) para quebrar linhas horizontais longas.
- Repita acabamentos (madeira/metal) para manter coerência.
Para onde é que a tendência vai a seguir
A arrumação mista tende a durar mais do que “modas” puramente estéticas porque nasce de uso: há zonas que precisam de esconder o caos e zonas que ganham por estar à mão. Em muitas casas, isso traduz-se numa estação de café visível, prateleiras só para o serviço do dia a dia, e o resto fechado.
A ideia já está a migrar para outras divisões: salas com aparadores fechados + estantes leves; casas de banho com gavetas + nichos abertos; entradas com banco fechado para sapatos + cabides + um armário estreito. A vantagem é reutilizar a mesma lógica (zonas abertas para rotina, fechadas para volume), em vez de copiar um “look”.
Se está a planear remodelar, a pergunta útil é: onde precisa mesmo de ordem visual - e onde compensa ter acesso imediato? Esse equilíbrio costuma trazer uma casa mais fácil de manter, não apenas mais bonita.
| Ponto-chave | Detalhe | Benefício para o leitor |
|---|---|---|
| Misturar arrumação aberta e fechada | Usar aproximadamente 70% de armários fechados e 30% de módulos abertos ou com frente em vidro | Equilibra serenidade visual com acesso rápido e personalidade |
| Quebrar a grelha dos armários | Adicionar uma despensa alta, um aparador ou um módulo com profundidade/altura diferente para interromper sequências longas | Dá profundidade e evita “parede de armários” |
| Repetir materiais e acabamentos | Repetir um tom de madeira ou um metal pelo menos duas vezes na divisão | Mantém a mistura com intenção, não ao acaso |
FAQ:
- A arrumação mista não é só uma moda que vai datar a minha cozinha? Em muitos casos, envelhece bem porque é mais sobre função e zonamento do que sobre um “visual” específico. Portas simples, proporções equilibradas e materiais fáceis de manter ajudam a manter o conjunto atual por mais tempo.
- As prateleiras abertas vão fazer a minha cozinha parecer desarrumada? Podem, se forem longas demais ou se virarem “depósito”. Funcionam melhor quando são poucas, com itens em rotação (uso diário) e longe da zona do fogão/exaustor fraco, onde a gordura se nota.
- Posso misturar estilos de arrumação numa cozinha pequena? Sim. Normalmente resulta bem com uma despensa alta, uma faixa curta de prateleiras (ou vidro) e o resto em frentes calmas e repetidas.
- Preciso de marcenaria por medida para conseguir este aspecto? Não necessariamente. Muitas soluções combinam módulos standard com uma peça solta (aparador, armário despensa) e prateleiras bem fixas. O por medida ajuda quando há cantos difíceis, tetos irregulares ou necessidade de maximizar cada centímetro.
- Quantas cores ou materiais diferentes é “demais”? Como orientação prática: uma cor principal, um material de destaque (madeira/vidro/pedra) e um metal. Mais do que isso pode funcionar, mas exige muito controlo na repetição e nas proporções.
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