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Adeus ao cimento: cientistas criam materiais de construção apenas com terra, água e cartão reciclado.

Homens trabalham em projeto de construção com barro, usando cordas como reforço, ao ar livre.

On a todos já vivido aquele momento em que uma obra começa no fundo da rua e transforma, de repente, todo o bairro.

Camiões, pó, betoneiras, aquele cheiro pesado e cinzento que fica agarrado ao ar. À primeira vista, é “só” um novo edifício a nascer. Mas, em segundo plano, há outra história: a de um material - o cimento - que sufoca o planeta, lentamente.

Numa manhã de inverno em Delft, nos Países Baixos, a cena é totalmente diferente. Sem ruídos metálicos, sem camiões de betão. À volta de uma mesa, investigadores ainda meio a dormir mexem taças cheias… de terra castanha, água transparente e pedaços de cartão rasgado que ainda trazem a impressão da Amazon Prime. Um deles levanta um bloco já seco, dá-lhe um murro, e o som é limpo, como uma pancada numa tijoleira. Ninguém diz nada, mas todos sorriem.

O bloco não é de cimento. E é aqui que a história muda.

O dia em que o cartão usado substituiu o cimento

Num pequeno armazém de investigação, a ideia parece quase demasiado simples para ser verdade: pegar em solo local, misturá-lo com água e fibras de cartão reciclado, e depois deixar a natureza fazer o seu trabalho. Sem indústria pesada. Sem forno a 1.400 °C. Apenas tempo, ar e luz. O resultado são tijolos de terra-cartão que parecem quase pães rústicos, mas que aguentam uma carga surpreendente.

Os cientistas falam de “biocompósitos terrosos”. Os trabalhadores chamam-lhes simplesmente “tijolos de cartão”. Empilham-se, rebocam-se, furam-se como blocos clássicos. Quando se parte um, vêem-se claramente as fibras de papel entrançadas na terra, como um feltro castanho. Isto não é um gadget de sala de estar ecológica. É um material que pode, de facto, substituir o cimento em certas construções.

Os números não sorriem. O cimento é responsável por cerca de 8% das emissões globais de CO₂ - mais do que a aviação e o transporte marítimo juntos. Cada saco num estaleiro é uma pequena bomba de carbono. Ao lado disso, a receita terra-água-cartão parece cozinha de avó. Um estudo-piloto mostrou que estes tijolos “low-tech” podem reduzir até 80% a pegada de carbono de uma parede estrutural, consoante a proporção de terra local e a quantidade de fibras recicladas incorporadas.

Um exemplo concreto vem do sul de Espanha, numa zona rural onde as casas de betão estalam com o calor. Uma equipa de arquitetos e investigadores propôs construir uma pequena biblioteca comunitária apenas com solo recolhido no local e cartão recuperado em lojas vizinhas. Os habitantes passaram vários fins de semana a rasgar caixas de fruta, a humedecer a terra, a prensar tijolos em moldes de madeira.

A obra parecia um atelier de bairro. As crianças saltavam sobre as misturas para as compactar; os mais velhos contavam como antigamente se construía em terra crua. Um ano depois, o edifício está de pé, as paredes “respiram” e mantêm-se frescas, mesmo em pleno verão. O mais surpreendente é que a manutenção é quase nula: alguns retoques de reboco, uma verificação das juntas, mais nada. E cada tijolo já conta uma história de reciclagem local.

Porque é que isto aguenta, se estamos literalmente a falar de terra e de cartões velhos? A resposta joga-se à escala microscópica. As fibras de celulose do cartão funcionam como uma armadura orgânica. Entrelaçam-se nas partículas de terra, estabilizam fissuras, absorvem pequenas deformações. Onde um bloco de terra simples racha e se esfarela, a mistura terra-água-cartão comporta-se como uma espécie de “betão vegetal” a frio.

Os investigadores descobriram também que certos tipos de solo, ligeiramente argilosos, criam ligações muito fortes com estas fibras de papel. Não são necessários aditivos químicos complexos. Basta água para ativar este casamento estranho entre lama e cartão. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias no jardim. Mas a ideia de que uma encomenda entregue ontem pode amanhã acabar na parede de uma escola muda completamente a nossa visão do lixo.

Como se faz uma parede com terra e encomendas da Amazon

O método base conta-se quase como uma receita. Começa-se por recolher o solo local, à superfície, evitando zonas demasiado pedregosas. Esse solo é peneirado grosseiramente para retirar pedras e detritos maiores. Em paralelo, os cartões usados são cortados em tiras e depois em pedaços pequenos. São humedecidos até formarem uma pasta fibrosa, próxima de um papel-machê rústico.

Depois vem a mistura. Os investigadores testam diferentes proporções, mas uma relação comum ronda os 70% de terra, 25% de fibras de cartão e 5% de água, ajustada “a olho” e ao toque. A textura ideal forma uma bola na mão sem se desfazer nem colar demasiado. Esta pasta é então compactada em moldes de madeira, tijolo a tijolo, ou usada em camadas sucessivas, como uma taipa modernizada. A secagem ao ar pode levar de alguns dias a algumas semanas, dependendo do clima.

Num laboratório bem equipado, mede-se a resistência à compressão, a sensibilidade à água, a durabilidade em ciclos de gelo-degelo. Na vida real, os primeiros artesãos testam levantando paredes viradas a sul e observando o que acontece. Os erros mais frequentes? Água a mais, o que fragiliza o bloco. Um solo demasiado arenoso, que não liga. Ou falta de tempo de secagem, porque um dono de obra apressado quer avançar a qualquer custo.

Há também o receio, muito humano, de “viver entre paredes de cartão”. Os investigadores respondem com paciência, com estudos na mão, mostrando que estes tijolos são menos inflamáveis do que madeira exposta, que as fibras ficam encapsuladas na massa mineral, e que o desempenho térmico é mais suave e mais estável do que o de uma parede de betão cru. O desafio, no fundo, não é apenas técnico. É uma questão de confiança coletiva num material que não brilha, que não tem a aura “sólida” do cimento, mas que envelhece melhor com o clima.

“No dia em que deixarmos de acreditar que tudo o que é pesado, cinzento e industrial é necessariamente mais seguro, abriremos uma porta enorme para a arquitetura de baixo carbono”, confia uma engenheira de materiais envolvida nestes ensaios. “Os nossos tijolos de terra e cartão são modestos, mas já estão a mudar a conversa sobre o que pode ser um edifício.”

Para ajudar a orientar, alguns especialistas resumem a transição pós-cimento em três grandes gestos, fáceis de memorizar:

  • Substituir parte das estruturas portantes por materiais de base biológica ou terrosa, sempre que possível.
  • Usar resíduos locais, como o cartão, não como último recurso, mas como recurso de base.
  • Pensar os edifícios como reversíveis: desmontáveis, reparáveis, transformáveis sem demolir tudo.

Prática ou não, este tipo de lista dá uma referência simples para avaliar o próximo prédio que nascer à frente de sua casa.

E se as suas futuras paredes parecessem mais uma paisagem do que uma fábrica?

A questão que paira por trás destes tijolos de terra-cartão é menos “isto funciona?” e mais “até onde estamos dispostos a ir para mudar a forma como construímos?”. Tecnicamente, estes materiais já funcionam para casas, escolas e edifícios públicos de pequena e média escala. Politicamente e culturalmente, a ideia de dispensar parte do cimento mexe onde dói: em décadas de normas, hábitos e imagens mentais.

Crescemos com a promessa de que o betão era o símbolo máximo de solidez, modernidade e sucesso. Admitir que uma mistura de terra local e caixas de pizza recicladas pode fazer o mesmo trabalho - por vezes melhor - abala essa promessa. As cidades poderiam deixar de parecer florestas de betão e recuperar tons de solos, de cal, de argilas, mais próximos das paisagens à sua volta. Uma arquitetura que se integra mais do que se impõe.

A ciência, desta vez, não propõe uma solução high-tech fora de alcance. Põe de novo em cima da mesa gestos muito antigos - construir em terra - e liga-os a um problema muito atual: as nossas montanhas de resíduos de embalagens. Entre os dois, há um material discreto, leve em carbono, que não salvará o mundo sozinho, mas que abre uma brecha. Já dá para imaginar bairros onde cada caixa entregue não acaba num contentor, mas numa parede, num banco, numa divisória.

A obra ainda é jovem, as normas demoram, e a indústria do cimento não vai facilitar. Ainda assim, a cena já está montada: cientistas a amassar terra com as mãos, habitantes a levantar paredes com as suas encomendas antigas, arquitetos a desenhar edifícios olhando primeiro para o que têm debaixo dos pés. Da próxima vez que um camião de cimento passar debaixo da sua janela, a pergunta pode ficar a martelar: e se pudéssemos passar sem ele, pelo menos um pouco?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Cimento muito emissor de CO₂ Cerca de 8% das emissões mundiais vêm da sua produção Perceber porque procurar alternativas não é um capricho de especialista
Receita terra-água-cartão Solo local, fibras de cartão reciclado, secagem ao ar, sem cozedura Visualizar concretamente como nasce este novo material
Tijolos já testados no terreno Projetos-piloto para escolas, bibliotecas, casas rurais Ver que já não é apenas uma ideia de laboratório, mas uma opção real

FAQ:

  • Os tijolos de terra e cartão são mesmo suficientemente resistentes para uma casa? Sim. Para edifícios de pequena e média dimensão, bem projetados, os testes mostram resistências suficientes para paredes portantes, sobretudo quando a estrutura é bem pensada.
  • Estes materiais resistem à chuva e à humidade? As paredes são protegidas por rebocos adequados, beirais e uma boa conceção das fundações; a água não deve ficar estagnada ao pé das paredes.
  • Há risco de incêndio com o cartão dentro das paredes? Uma vez encapsuladas na terra, as fibras de cartão não se comportam como cartão exposto; os ensaios mostram uma reação ao fogo semelhante à de alguns materiais minerais leves.
  • Dá para construir por conta própria com este tipo de tijolos? É possível para pequenas estruturas, mas é prudente trabalhar com um profissional ou uma associação especializada, sobretudo para cumprir as regras locais.
  • Estes materiais vão substituir completamente o cimento? Provavelmente não em todo o lado nem para todos os usos, mas podem reduzir fortemente a dependência do cimento na construção de habitação e de edifícios modestos.

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