A primeira vez que ouvi um chef praguejar contra uma air fryer, estávamos numa cozinha de restaurante às 22h30, a olhar para um prato de asas de frango estranhamente perfeitas. A pele estava estaladiça, daquela cor padrão de dourado de supermercado - a que se vê nos anúncios. O chef pegou numa, deu uma dentada e depois pousou-a como se tivesse sido enganado. “Sabe a cosplay de fast food”, resmungou. Sem fumo. Sem frigideira a chiar. Sem o cheiro de manteiga a alourar a entranhar-se na roupa. Só uma caixa silenciosa em cima da bancada, a piscar o temporizador digital, a cuspir mais um “fakeaway saudável”.
Lá fora, os clientes deliravam com “asas sem culpa” e perguntavam se podiam fazer o mesmo em casa com a sua máquina milagrosa nove‑em‑um.
Lá dentro, o chef olhava para a air fryer como se fosse um convidado que já tinha passado do tempo.
Havia ali qualquer coisa estranha - e não era só o sabor.
Quando cozinhar começa a soar a scrolling
Entre numa loja de utensílios de cozinha hoje e a parede das air fryers brilha como um corredor de tecnologia. Cubos pretos elegantes. Pegas cromadas. Nove‑em‑um, doze‑em‑um, desidratar, assar, grelhar, reaquecer, voltar a estalar. Prometem menos óleo, menos tempo, menos esforço. É o autoplay da Netflix aplicado ao jantar: carrega-se em start, vai-se embora, e a comida aparece.
Muitos cozinheiros caseiros adoram isso. Depois de um dia longo, um jantar plug-and-play parece salvação. Sem frigideiras gordurosas para esfregar, sem salpicos de óleo, sem o alarme de fumo a ameaçar gritar. Só o sopro suave do ar quente, como um secador de cabelo para batatas fritas congeladas.
É sedutor. E, se perguntarmos a muitos chefs, discretamente perigoso para a nossa alma culinária.
Pergunte a um chef o que acha das air fryers e quase dá para prever a expressão. Um meio-sorriso, depois uma pequena careta. Não estão zangados com a tecnologia. Usam fornos combinados, banhos sous-vide, indução topo de gama. Estão zangados com aquilo que a air fryer nos incentiva a fazer: transformar cozinhar em reaquecer em piloto automático.
Um chef em Londres disse-me que deixou de recomendar receitas porque as pessoas respondiam sempre: “Posso simplesmente meter na air fryer?” Ele falava de construir sabor, pincelar, deixar a carne repousar, controlar o calor com a mão por cima da frigideira. A resposta voltava sempre da mesma forma: “Mas quanto tempo a 180°C?”
Aos poucos, uma profissão feita de nuance e toque começa a ouvir a mesma pergunta: qual é a definição para comida-atáde que parece a verdadeira?
Do ponto de vista técnico, uma air fryer não é magia. É um forno de convecção pequeno que lança ar quente à volta da comida num espaço apertado. A cavidade reduzida significa dourar mais depressa e alcançar aquela crocância tão desejada. Óptima para nuggets congelados, pizza do dia anterior ou batatas assadas de ontem.
O problema é o que se perde. Fritar na frigideira ensina-nos o som: a mudança do chiar suave para o sibilar agressivo. Assar ensina paciência: aquele momento em que os legumes passam do doce ao amargo se os empurrarmos demais. Grelhar ensina fumo, carvão e a linha entre sabor e falhanço.
Quando uma máquina trata de tudo isso, ganha-se conveniência, sim, mas perde-se a educação sensorial que transforma “seguir instruções” em saber mesmo cozinhar.
A rebelião silenciosa: cozinhar como se não fosse uma corrida
Alguns chefs não estão a declarar guerra às air fryers. Estão apenas, em silêncio, a recusar que elas decidam a que sabe o jantar. Um pequeno bistrô em Paris baniu do menu qualquer linguagem ao estilo “air fryer” depois de clientes continuarem a pedir “mais estaladiço, como em casa”. A chef respondeu apostando ainda mais em técnicas à antiga.
Começou a assar frango na frigideira, em lume baixo e devagar, terminando com um golpe final de calor para estalar a pele. Selou legumes em ferro fundido até as bordas ficarem ligeiramente negras e depois desglasou com vinho. Os clientes passaram a perguntar: “Como é que conseguem este tipo de sabor?” A resposta não era um gadget. Era tempo, calor e atenção.
Esta é a dica discreta que muitos profissionais partilham: escolha um prato simples e aprenda-o à maneira tradicional, com falhas e tudo. Deixe a sua cozinha cheirar a algo que está mesmo a acontecer.
Há outro lado nesta história: a culpa que associamos a cozinhar. Muitas pessoas sentem-se secretamente fracassadas se não estiverem a assar tudo de raiz ou a comprar tudo orgânico e sazonal. Nessa insegurança entra a air fryer nove‑em‑um, a prometer redenção em 12 minutos.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que estamos exaustos, a fazer scrolling de receitas e a pensar: “Eu nunca vou conseguir fazer isto.” Depois aparece um vídeo: salmão congelado, air fryer, 10 minutos, feito. Sem marinada. Sem pensar. Só números num ecrã. Parece a única escolha realista.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, da forma como o Instagram diz que faz. E é precisamente por isso que a air fryer encaixa tão bem no fosso entre os nossos ideais e a nossa vida real.
Os chefs que criticam estes aparelhos não estão apenas a ser snobs. Estão preocupados por estarmos a terceirizar a parte de cozinhar que nos ensina quem somos ao fogão. Um chef de Nova Iorque explicou assim:
“Uma air fryer dá-te resultados sem relação. Tens estaladiço, tens cor, mas não tens a história de como aconteceu. Cozinhar é a história.”
Então, o que pode fazer um cozinheiro caseiro normal se continua a adorar aquela caixinha barulhenta em cima da bancada? Alguns chefs sugerem um reset simples - quase como estabelecer um limite na cozinha.
- Use a air fryer para reaquecer, não como padrão para tudo.
- Escolha duas noites por semana em que nenhum gadget é permitido: só frigideira, panela e forno.
- Pegue num prato que costuma “fazer na air fryer” e aprenda a fazê-lo no fogão.
- Repare nos sons e nos cheiros, não apenas no temporizador.
- Aceite que as primeiras tentativas podem ser uma confusão - e está tudo bem.
Isto não é sobre pureza. É sobre não deixar que um dispositivo nove‑em‑um se transforme numa resposta única para o sabor.
Estaladiço sem alma ou cozinha a sério: a linha é mais fina do que pensa
A pergunta mais profunda por detrás deste debate sobre a air fryer não é, na verdade, sobre a máquina. É sobre que tipo de relação queremos ter com a comida que comemos todos os dias. Queremos que o jantar seja algo que “otimizamos” como uma definição do telemóvel, ou algo em que participamos - devagar, desajeitadamente, com bocadinhos queimados e vitórias inesperadas?
Alguns chefs dizem que o aumento destes gadgets vistosos é apenas um sintoma de como vivemos agora: sempre a correr, sempre à procura de um truque. A comida vira conteúdo, as receitas viram tendências, e a air fryer é a ferramenta perfeita para ambos. Entrega aquele estaladiço uniforme e fotogénico que fica óptimo na câmara, mesmo quando o sabor parece estranhamente plano na boca.
Em casa, a escolha é menos dramática do que os especialistas fazem parecer. Não precisa de deitar a air fryer ao lixo para “salvar a cozinha a sério”. Talvez só precise de fazer perguntas diferentes antes de a usar. Estou a aprender alguma coisa ao carregar neste botão outra vez? Ainda me lembro do sabor deste prato feito numa frigideira ou num forno?
Algumas pessoas vão perceber que não querem saber: estaladiço mais conveniência é suficiente. Outras vão sentir uma comichão pequena, uma sensação de que as papilas gustativas querem mais história, mais risco, mais momentos de borda queimada. São essas as pessoas por quem os chefs torcem em silêncio. Não por ego, mas porque sabem quão viva pode parecer uma cozinha quando algo está verdadeiramente a ser cozinhado - e não apenas processado.
A air fryer não vai desaparecer. A corrida do nove‑em‑um, dez‑em‑um vai continuar, a acrescentar mais programas, mais predefinições, mais formas de prometer resultados perfeitamente controlados. A pergunta que fica no ar é simples e um pouco desconfortável: quando tudo na nossa cozinha se torna predefinido e programável, que parte do cozinhar ainda fica nas nossas mãos e nos nossos sentidos?
Talvez a resposta seja pessoal. Talvez seja um bife selado na frigideira em vez de tiras feitas na air fryer. Um tabuleiro de legumes assados lentamente em vez de estaladiço em 9 minutos. Ou apenas uma noite por semana em que cozinha algo que demora mais do que gostaria - e fá-lo na mesma.
Porque, por baixo de todos os argumentos e críticas, este é o ponto silencioso que muitos chefs tentam fazer: a alma da comida não vive num menu de gadgets; vive na forma confusa e humana como decidimos cozinhá-la.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A competência supera as predefinições | As air fryers estalam bem, mas não ensinam calor, tempo ou tempero | Incentiva a construir confiança real a cozinhar, não apenas dependência de gadgets |
| Use a ferramenta certa | Guarde a air fryer para reaquecer e para noites apressadas; cozinhe de forma tradicional quando puder | Abordagem equilibrada e realista, em vez de culpa do “tudo ou nada” |
| O sabor precisa de uma história | Métodos lentos e imperfeitos muitas vezes trazem um sabor mais profundo e memórias | Lembra porque a cozinha a sério ainda importa para lá da conveniência |
FAQ:
- Uma air fryer é assim tão diferente de um forno? Tecnicamente é um forno de convecção compacto, mas o espaço menor e a velocidade da ventoinha dão um dourado mais rápido e aquele estaladiço ao estilo fast food, o que pode mudar como e o que cozinha.
- Chefs profissionais usam air fryers? Alguns usam em casa para snacks rápidos ou para testar ideias, mas a maioria evita-as em cozinhas a sério porque prefere controlo directo sobre calor, textura e sabor.
- A comida de uma air fryer pode ser tão saborosa como a frita na frigideira? Pode ser saborosa, sobretudo em alimentos congelados ou panados, mas normalmente perde os sabores em camadas que vêm de alourar em gordura, desglasar e construir molhos numa frigideira a sério.
- As air fryers são realmente mais saudáveis? Muitas vezes usam menos óleo do que fritar por imersão e podem reduzir calorias, mas se continuar a comer regularmente alimentos processados e panados, o ganho “saudável” é limitado.
- Como evito que a air fryer mate o meu gosto por cozinhar? Use-a como plano B, não como chefe: reserve-a para reaquecer ou para noites apressadas e comprometa-se a cozinhar algumas refeições por semana com ferramentas básicas, para que as suas competências e sentidos continuem a crescer.
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