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A regra dos 19°C está desatualizada: nova temperatura recomendada por especialistas.

Pessoa ajusta termóstato para 21,5°C; outra relaxa no sofá com chá e bloco de notas na mesa.

Às 7h12, os azulejos da casa de banho pareciam gelo. A Léa entrou a arrastar os pés, enrolada no roupão, a verificar o número pequeno a brilhar no termóstato: 19 °C. “É o que dizem ser o ideal”, resmungou, com os dentes a bater ligeiramente enquanto ligava a chaleira. Minutos depois, o filho de 5 anos apareceu, já com as meias na mão, a queixar-se de que tinha frio. A recomendação oficial dizia que 19 °C era o limiar mágico, a escolha responsável. E, no entanto, a família inteira começava o dia tensa e enrijecida.

Lá fora, o mundo tinha mudado: preços da energia a disparar, ansiedade climática a zumbir em pano de fundo, e casas muito longe das paredes grossas de pedra dos nossos avós. Cá dentro, aqueles sagrados 19 °C pareciam, de repente, uma relíquia de outra era.

Por isso, os especialistas estão a reescrever discretamente o manual.

O mito dos 19 °C confronta-se com a vida real

Durante anos, os 19 °C foram apresentados como uma referência moral. Não apenas uma temperatura, quase um sinal de virtude. É ecológico, é sério, é controlado. Este número apareceu em campanhas públicas, nas faturas de energia, em folhetos do governo. Entrou nas conversas como uma evidência que não se devia questionar.

Só que os corpos não leem orientações. Reagem à humidade, à idade, à qualidade do sono, ao stress. Um adulto jovem num apartamento bem isolado não sente o mesmo que uma pessoa de 80 anos numa sala com correntes de ar. Um número para todos soa arrumadinho. A vida não é.

Veja-se o inverno de 2022 em França, quando o receio de cortes de eletricidade estava em todo o lado. A comunicação pública insistiu muito nos 19 °C, quase como um dever patriótico. Em Lyon, uma médica de família começou a notar algo nos seus registos: mais doentes a queixarem-se de sono fraco, dores articulares, constipações que não passavam. Muitos tinham baixado o termóstato, por vezes abaixo de 18 °C, convencidos de que tinham de “aguentar”.

Ela começou a aconselhar alguns a subir ligeiramente a temperatura nas divisões onde passavam mais tempo, sobretudo ao fim do dia. Uma mudança simples de 1 a 1,5 graus. Em poucas semanas, alguns relataram menos dores de cabeça e menos fadiga. Não foi cura milagrosa, nem comprimido mágico. Apenas corpos que deixaram de lutar contra a divisão onde viviam.

Nos bastidores, especialistas em conforto térmico já o diziam há anos. Os 19 °C nasceram num contexto de edifícios mais antigos, energia mais barata e uma mensagem política forte sobre poupança. Hoje, o isolamento melhorou em muitas casas, os estilos de vida sedentários são mais comuns e passamos horas sentados em frente a ecrãs, quase sem nos mexermos.

Quando se mexe pouco, a perceção de frio muda. Metabolismo, nível de atividade e roupa alteram a temperatura “certa”. É por isso que os especialistas falam menos num número mágico e mais numa faixa de conforto, ajustada a cada situação. A regra não desapareceu. Ficou menos rígida, mais matizada, mais humana.

A nova temperatura recomendada: uma faixa de conforto flexível

O que sugerem agora os especialistas? Uma banda flexível em vez de um alvo fixo. Para salas de estar e espaços onde está acordado e pouco ativo, muitos especialistas em conforto térmico e saúde pública convergem para 19–21 °C. Essa é a nova faixa realista. O termóstato passa a ser um regulador, não um veredito.

A ideia é simples: começar perto dos 19 °C e depois ajustar 0,5 a 1 grau com base em três critérios: idade, nível de atividade e isolamento da casa. Se for mais velho, muito sedentário, ou viver numa casa mal isolada com correntes de ar, 20–21 °C já não é um crime contra o planeta. Pode ser uma medida de saúde.

A mesma lógica aplica-se agora divisão a divisão. Os quartos mantêm-se mais frescos: cerca de 17–18 °C para adultos, ligeiramente mais quente para bebés e idosos. A casa de banho pode ir com segurança aos 21–22 °C na hora do duche, porque está nu e molhado - a combinação perfeita para ficar enregelado. Cozinhas, onde se mexe mais e se cozinha, podem ficar mais perto dos 18–19 °C.

Uma família em Nantes testou esta abordagem no último inverno. Mantiveram a sala a 20 °C de manhã e à noite, 19 °C durante o dia, 17,5 °C no resto da noite, com uma regulação separada para os quartos. A fatura não disparou. Porquê? Porque a poupança real veio de não aquecer divisões vazias e de não andar a subir e descer o termóstato de forma brusca, mais do que de se agarrar a um único número rígido.

O que os especialistas insistem agora é no equilíbrio entre conforto, saúde e sobriedade. Não precisa de escolher entre as suas articulações e o planeta. Uma temperatura ligeiramente mais alta mas estável consome muitas vezes menos do que grandes oscilações constantes que obrigam a caldeira a trabalhar mais. A verdade simples: ninguém vive realmente numa bolha permanente de 19 °C, o dia inteiro, em todas as divisões, em todos os meses de inverno.

Abre-se a porta para entregas. Cozinha-se. Faz-se exercício na sala. Recebem-se amigos. A temperatura mexe. Em vez de lutar contra essa realidade, os especialistas tentam canalizá-la. Uma faixa de conforto bem gerida é muitas vezes mais eficiente do que uma temperatura fixa “moral”. Menos culpa, mais observação. Menos slogan, mais rotina diária.

Como encontrar a sua temperatura “certa” em casa

Então, o que fazer, concretamente, quando está em frente ao termóstato? Primeiro passo: pare de saltar de 18 para 23 °C só porque sentiu um arrepio. Trabalhe em passos pequenos. Suba ou desça 0,5 a 1 grau e espere 30 a 45 minutos antes de avaliar o resultado. O corpo precisa de tempo para se adaptar.

Segundo passo: separe os espaços. Sala e escritório perto de 19–21 °C. Quarto mais perto de 17–18 °C. Casa de banho mais quente quando está a ser usada, mais fresca no resto do tempo. Um termóstato programável, mesmo básico, torna-se o melhor aliado para evitar ajustes constantes e “exageros” sempre que sente frio.

Há também o que os especialistas chamam “isolamento comportamental”. Pequenos hábitos que mudam tudo: fechar os estores à noite; correr as cortinas assim que escurece; colocar uma fita ou rolo corta-correntes por baixo daquela porta que sabe ser o ponto fraco. Nada disto é glamoroso. Tudo isto conta.

Já todos passámos por isso: aquele momento em que aumenta o aquecimento em vez de simplesmente calçar umas meias ou vestir uma camisola mais grossa. Às vezes precisa mesmo desse grau extra. Outras vezes, só precisa de se mexer um pouco, beber algo quente ou afastar-se da janela por onde entra ar frio. A nova recomendação tem menos a ver com números rígidos e mais com ouvir o corpo sem entrar em pânico ao primeiro arrepio.

Os próprios especialistas começaram a falar de forma diferente. Menos dogma, mais nuance.

“A regra dos 19 °C teve um impacto simbólico muito forte”, explica um consultor de eficiência energética com quem falei. “Mas, na prática, o que importa é uma faixa de conforto razoável. Para muitas famílias, 20 °C na divisão principal é um bom compromisso. O essencial é limitar espaços sobreaquecidos e divisões vazias mantidas quentes sem razão.”

Dentro desta ideia de faixa, surgem algumas referências simples:

  • 19–21 °C nas áreas de estar quando está acordado e sobretudo sentado
  • 17–18 °C nos quartos para adultos, um pouco mais para pessoas frágeis
  • 21–22 °C na casa de banho na hora do duche, e depois voltar a baixar
  • 18–19 °C na cozinha ou quando se mexe bastante
  • Um máximo de 2–3 °C de diferença entre divisões para evitar choques térmicos

É aqui que se escondem as poupanças: não em sofrer com uns 19 °C estritos, mas em recusar aquecer espaços que não usa e em estabilizar o seu ponto de conforto. Uma pequena faixa de conforto bem gerida vence uma regra heroica e irrealista em todos os invernos.

Uma nova forma de pensar o calor em casa

À medida que a regra dos 19 °C vai perdendo força, surge uma relação mais pessoal com o calor. As pessoas comparam menos com o termóstato do vizinho e mais com o seu próprio sono, o humor ao acordar, a forma como as costas se sentem depois de um dia à secretária. A pergunta passa de “Estou a ser responsável?” para “Estou a viver com dignidade sem desperdiçar energia?”.

Pode descobrir que o seu ponto ideal é 20 °C na sala, 18 °C no quarto, 21 °C na casa de banho durante 30 minutos de manhã. Outra pessoa, num apartamento melhor isolado, pode estar bem com 19 °C e meias de lã. Outra, mais velha e frágil, pode precisar de 21 °C para não ficar com as mãos dormentes. A regra não desapareceu - tornou-se plural.

Da próxima vez que olhar para o termóstato, talvez ainda pense nos famosos 19 °C. Talvez sorria, lembrando os cartazes antigos. Depois fará uma pergunta mais importante: qual é a faixa estreita de conforto que me permite respirar, dormir e viver, sem pôr o sistema de aquecimento a trabalhar no limite? É aí que a nova recomendação está, discretamente, no espaço entre as suas necessidades e a fatura de energia.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Nova faixa de conforto Os especialistas aconselham agora 19–21 °C nas zonas de estar, ajustado à idade, atividade e isolamento Dá um objetivo realista que equilibra conforto, saúde e consumo de energia
Estratégia divisão a divisão Quartos mais frescos (17–18 °C), casas de banho mais quentes na hora do duche, sala com temperatura estável Reduz a fatura sem sacrificar o conforto diário
Pequenas mudanças comportamentais Ajustes graduais no termóstato, fechar estores, limitar aquecimento de divisões vazias Ações simples que cortam consumo sem grandes investimentos

FAQ:

  • Os 19 °C continuam a ser a temperatura oficial recomendada? Muitas orientações públicas ainda referem 19 °C, mas os especialistas falam cada vez mais numa faixa de conforto entre 19 e 21 °C para áreas de estar, conforme a sua situação.
  • Que temperatura sugerem os médicos para idosos? Para pessoas mais velhas ou frágeis, recomenda-se muitas vezes 20–21 °C nas zonas de estar, com atenção a evitar correntes de ar e grandes diferenças de temperatura entre divisões.
  • Dormir a 16 °C é demasiado frio? Para a maioria dos adultos, 17–18 °C é o ponto ideal para dormir. 16 °C pode ser aceitável com roupa de cama e pijama quentes, mas pode ser frio demais para alguns, sobretudo crianças e idosos.
  • Menos 1 °C faz mesmo diferença na fatura? Sim. Em média, baixar o aquecimento 1 °C pode reduzir o consumo em cerca de 7%, sobretudo se a redução for estável e não for anulada por grandes oscilações frequentes.
  • Devo desligar o aquecimento quando saio durante o dia? Para ausências curtas, geralmente é melhor baixar a temperatura alguns graus do que desligar totalmente, para que o sistema não tenha de trabalhar demasiado para voltar a aquecer o espaço.

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