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A psicologia mostra que ser resiliente emocionalmente não significa ser neutro nas emoções.

Pessoa sentada à mesa com mão no peito, segurando uma chávena, com bloco de notas aberto e plantas ao fundo.

A reunião devia ser rotineira. Resultados trimestrais, alguns slides, acenos educados. Depois o diretor largou a bomba: cortes no orçamento, reorganizações de equipa, projetos congelados. Sentia-se o ar a mudar. Um colega ficou vermelho e começou a discutir. Outro ficou a olhar para a mesa, maxilar tenso. E depois havia a Maya, aquela a quem toda a gente chama “tão resiliente”. Fez duas perguntas claras, tirou notas, até mandou uma piada pequena. Mais tarde, no corredor, encontraste-a na casa de banho, olhos brilhantes, mãos a tremer ligeiramente enquanto deixava correr água fria sobre os pulsos. “Estou bem, a sério”, disse ela. Mas dava para perceber que não estava neutra.

É isso: a resiliência não tem o aspeto de uma pedra.

Resiliência não é uma linha plana emocional

Algures pelo caminho, “resiliente emocionalmente” misturou-se com “nunca se incomoda com nada”. Fala-se de resiliência como se significasse ser intocável. Sem lágrimas. Sem raiva. Sem mãos a tremer num lavatório. Só frieza, calma, sempre composta. Aquele tipo de pessoa a quem “as coisas não afetam”.

Os psicólogos veem algo muito diferente. A verdadeira resiliência não é a ausência de emoção; é a capacidade de atravessá-la. O impacto ainda cai. O murro ainda se sente. O que muda é o que acontece a seguir.

Pensa nos bombeiros. Estudos mostram que, muitas vezes, eles relatam stress elevado e reações emocionais fortes durante e após as intervenções: coração acelerado, imagens intrusivas, sono inquieto. Não são robôs de capacete. O que os torna resilientes é que, com treino e apoio, processam essas reações. Falam com colegas, fazem debriefing e regressam à vida quotidiana em vez de ficarem congelados no trauma.

O mesmo padrão aparece depois de despedimentos, separações ou doença grave. As pessoas que recuperam mais depressa não são as que “se mantêm positivas a qualquer custo”. São as que admitem: “Isto dói”, e ainda assim enviam aquele email, cozinham aquele jantar, saem pela porta fora.

A investigação em psicologia descreve a resiliência como um processo dinâmico: adaptação, não armadura. Os sistemas emocionais reagem primeiro. As hormonas disparam, os pensamentos aceleram, o estômago aperta. Não dá para desligar isso sem entorpecer tudo o resto, incluindo a alegria. O que as pessoas resilientes fazem é regular em vez de suprimir. Respirar, dar nome ao que se passa, escolher um próximo passo que não seja apenas um reflexo.

Ser neutro seria mais fácil de fingir, mas tem um preço: afastamento da tua própria vida.

Sentir por inteiro sem te afogares: a verdadeira competência

Um método concreto que os terapeutas muitas vezes ensinam é “nomear, localizar, permitir”. Parece quase demasiado simples. Primeiro, nomeias a emoção: raiva, tristeza, vergonha, medo. Depois, localizas no corpo: peito apertado, nó na garganta, punhos cerrados. Por fim, permites que ela esteja ali por um momento breve, como deixar uma onda subir sem lutar contra ela. Apenas 30 segundos de contacto honesto.

Essa pausa curta dá ao teu sistema nervoso uma oportunidade de reduzir a intensidade. Transforma um email zangado num rascunho. Um “despeço-me” em pânico em “preciso de um dia para pensar”.

Uma armadilha comum é tentar saltar diretamente da dor para a perspetiva. “Isto é difícil, mas ao menos…” Esse “mas ao menos” pode ser útil mais tarde. No início, muitas vezes silencia aquilo que precisa mesmo de ser sentido. Dizemos às crianças “Não chores, sê forte”, e depois crescemos a achar que força é nunca chorar. Não admira que tantos adultos se sintam impostores quando se desfazem a portas fechadas.

Há um caminho mais silencioso. Podes ser a pessoa que chora no carro e, ainda assim, lidera a reunião. Que sente inveja a ver redes sociais e, mesmo assim, dá os parabéns a um amigo. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas cada pequena tentativa faz crescer esse músculo interior que diz: “Eu aguento isto e isto não me vai partir.”

“A resiliência não é ficar firme contra a tempestade. É dobrar sem quebrar e depois criar novos ramos onde achavas que já tinhas acabado.”

  • Pausa antes de reagir – Uma respiração fundo, conta até cinco, desvia o olhar do ecrã. Este pequeno intervalo muda resultados.
  • Usa palavras simples – “Estou triste”, “Estou magoado/a”, “Estou sobrecarregado/a”. Rótulos sofisticados são menos úteis do que os honestos.
  • Muda do porquê para o como – Menos “Porque é que isto me está a acontecer?” e mais “Como é que posso cuidar de mim na próxima hora?”
  • Apoia-te numa pessoa segura – Não no mundo inteiro. Só naquele amigo, irmão/irmã ou colega que realmente ouve.
  • Volta ao corpo – Caminha, alonga, bebe água, sai lá para fora. O sistema nervoso acalma mais depressa do que a mente.

Viver com emoções sem te perderes

A resiliência emocional começa a ter outro aspeto quando deixas de tentar ganhar um concurso invisível de “ser sempre cool”. Reparas que as pessoas mais assentes que conheces não escondem a sua humanidade. Dizem “Hoje estou cansado/a” ou “Isso mexeu mesmo comigo” sem fazerem um drama nem uma tournée de desculpas. Sentem, partilham o suficiente, seguem em frente.

A verdadeira pergunta passa a ser menos “Como é que sinto menos?” e mais “Como é que me mantenho ligado/a a mim enquanto sinto isto?”

Há espaço, nessa pergunta, para todas as peças confusas: as mensagens de que te arrependes, as noites em claro, os dias em que te orgulhaste de não teres explodido. Há também espaço para um crescimento nada glamoroso. Virar o telemóvel com o ecrã para baixo quando chegam más notícias. Escolher afastar-te de uma discussão que, tecnicamente, podias ganhar. Dizer “Preciso de cinco minutos” em vez de “Tu fazes sempre isto”.

Não tens de te transformar noutra pessoa para seres resiliente. Apenas aprendes a carregar as tuas emoções de forma um pouco diferente, como reorganizar o peso numa mochila para conseguires caminhar mais longe.

Nuns dias vais sentir-te como aquele bombeiro a chegar a casa ao amanhecer. Noutros, vais sentir-te como a Maya naquela casa de banho, água fria nos pulsos, a tentar lembrar-se de como respirar. Ambos fazem parte da mesma história. A resiliência raramente é espetacular por dentro. É mais silenciosa, quase aborrecida. Levantas-te, respondes à mensagem, pedes desculpa quando reagiste mal, voltas a rir mais cedo do que esperavas.

A linha entre “demais” e “entorpecido/a” é fina, e vais atravessá-la às vezes. Tens permissão para ajustar. Tens permissão para decidir que força, para ti, inclui lágrimas, dúvidas e longas pausas em frente ao espelho antes de voltares a entrar na sala.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A resiliência sente e depois responde As emoções são reconhecidas, não apagadas, antes de agir Reduz a autocrítica e a pressão de ser “inquebrável”
Regular supera suprimir Técnicas como “nomear, localizar, permitir” acalmam o sistema nervoso Oferece ferramentas práticas para manter a funcionalidade sob stress
A força pode parecer suave Chorar, pedir tempo ou estabelecer limites também pode ser resiliente Alarga a definição do que pode ser ser forte

FAQ:

  • A neutralidade emocional não é útil em trabalhos de alta pressão? Pequenos períodos de distanciamento podem ajudar a focar, mas a neutralidade a longo prazo costuma transformar-se em entorpecimento, o que aumenta o burnout e a distância em relação aos outros.
  • Como sei se sou resiliente ou se estou apenas a reprimir? Se as emoções voltam mais fortes, ou aparecem como exaustão, irritabilidade ou dor física, provavelmente estás a reprimir em vez de processar.
  • Sensibilidade a mais pode bloquear a resiliência? A alta sensibilidade pode ser avassaladora, mas com competências de regulação e bom apoio, pessoas sensíveis muitas vezes desenvolvem uma resiliência muito forte ao longo do tempo.
  • As pessoas resilientes choram menos? Não necessariamente. Muitas pessoas resilientes choram facilmente; a diferença é que não ficam presas à história de que chorar significa que são fracas ou “avariadas”.
  • Qual é uma coisa pequena que posso começar hoje? Uma vez por dia, quando sentires um pico de emoção, pára 30 segundos, dá-lhe um nome em silêncio, repara onde se sente no teu corpo e, depois, escolhe deliberadamente a tua próxima ação.

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