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A psicologia indica que dar sempre prioridade à felicidade das crianças pode, sem querer, tornar os adultos mais egoístas no futuro.

Três crianças à mesa com bolachas e chá. Uma criança segura um coração vermelho próximo de uma caneca com "partilha".

Saturday à tarde, fila da caixa do supermercado.
Uma criança pequena grita pelo rebuçado azul‑néon, arqueando as costas, com os punhos minúsculos cerrados. A mãe hesita um segundo, as faces a corar sob os olhares de estranhos, depois suspira e atira o rebuçado para o tapete da caixa. A criança passa da birra ao sol radiante em dois segundos, como uma pequena CEO que acabou de fechar uma negociação.

No caminho para casa, a mãe olha fixamente para o espelho retrovisor e pensa: “O que é que eu lhe estou a ensinar?”
Raramente fazemos essa pergunta no exacto momento em que trocamos valores de longo prazo por paz de curto prazo.

A psicologia está a começar a dar uma resposta muito desconfortável.

Quando a felicidade das crianças se torna a única bússola

Em muitas famílias de hoje, as crianças são o sol e todos os adultos orbitam à sua volta.
Organizamos os fins‑de‑semana em função do desporto deles, as férias em função das preferências deles, e as refeições em função do que não vai causar uma cena à mesa. Parece generoso, amoroso, até moderno.

No entanto, surge algo estranho quando essas crianças crescem e se tornam adolescentes e adultos. Têm mais dificuldade em lidar com a frustração. Esperam que os outros se ajustem a elas. Interpretam qualquer “não” como uma agressão.
A felicidade foi sempre a prioridade, mas ninguém lhes ensinou o que fazer quando a felicidade não lhes é servida numa bandeja.

Imagine o Leo, 9 anos, cujos pais dizem com orgulho: “Nós só queremos que ele seja feliz.” Se não gosta de futebol, desiste. Professora de piano “demasiado exigente”? Trocam de professora. Projecto escolar aborrecido? O pai acaba-o à meia‑noite. À superfície, o Leo é alegre e confiante.

Avançamos dez anos. Aos 19, o Leo despede-se do primeiro emprego ao fim de três dias porque “o chefe falou comigo de uma forma estranha”. Um trabalho de grupo na universidade? Desaparece quando fica difícil, a resmungar: “Eu não preciso deste stress.”
Ele não é um mau miúdo. Foi apenas treinado, durante anos, a acreditar que o desconforto significa que algo está errado e que alguém tem de o resolver por ele.

Os psicólogos chamam a este padrão “sobrevalorização da criança” ou “parentalidade centrada na criança”. Não é amar demais; é centrar tudo no conforto emocional.
Quando os pais se apressam a apagar qualquer frustração, as crianças nunca chegam a praticar três competências fundamentais: esperar, aceitar limites e reparar depois da desilusão.

Aos poucos, uma equação silenciosa instala-se na cabeça: “Se eu estiver infeliz, o ambiente tem de mudar por minha causa.”
Essa é a semente do egocentrismo adulto, plantada em nome do amor.

Como criar adultos bondosos sem esmagar a alegria deles

Uma mudança simples altera quase tudo: passar de “Quero que o meu filho esteja feliz agora” para “Quero que o meu filho cresça forte e bondoso.”
Isso não significa tornar-se frio ou duro. Significa sustentar duas ideias ao mesmo tempo: eu vejo os teus sentimentos e nem sempre te vou dar o que queres.

Um método prático segue este ritmo de três passos:
Nomear o sentimento. Manter o limite. Ficar perto.
“Eu sei que estás mesmo zangado por não comprarmos esse brinquedo. Eu percebo. Hoje não o vamos comprar. Vou ficar contigo enquanto estás chateado.”
Sem sermão. Sem vergonha. Apenas uma linha firme envolvida em presença.

A armadilha em que muitos pais amorosos caem é confundir dor com dano. Uma criança frustrada não está estragada. Uma criança desiludida não está traumatizada. Está a aprender a forma do mundo.
Quando intervimos a cada pontada de desconforto, enviamos silenciosamente a mensagem: “Tu não consegues lidar com coisas difíceis.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Há noites em que dizemos que sim ao tablet, ao açúcar, ao episódio extra, só para sobreviver à hora de dormir. Isso não estraga uma criança. O que a molda é a tendência ao longo de meses e anos. A mensagem geral é “A vida vai dobrar-se à tua volta” ou “Tu consegues adaptar-te, e eu estou aqui enquanto o fazes”?

Às vezes, a frase mais amorosa que um pai ou uma mãe pode dizer é: “Eu ouço-te, e a resposta continua a ser não.”

  • Manter pequenos limites diários
    Sem terceira sobremesa, sem mudar planos à última hora porque estão “aborrecidos”. Microfrustrações constroem macro‑resiliência.
  • Falar em voz alta sobre as necessidades dos outros
    “Eu também gostava de brincar mais, mas também preciso de cozinhar, porque toda a gente tem fome.” Isso, discretamente, tira a criança do centro do universo.
  • Celebrar o esforço, não apenas os sorrisos
    Ficaste desiludido e mesmo assim acabaste os trabalhos de casa” ensina que sentir-se mal e fazer a coisa certa podem coexistir.

Que tipo de adultos estamos realmente a formar?

A dada altura, crianças criadas com almofadas emocionais constantes encontram um mundo que não quer saber como elas se sentem em relação a prazos, trânsito ou limites dos outros. Esse choque pode parecer ansiedade, raiva ou afastamento total.
Todos já vimos isso: aquele momento em que um colega mais novo espera que a equipa inteira se ajuste porque hoje “não está com disposição”.

Isto não é um insulto geracional. É um espelho da parentalidade. Quisemos evitar os estilos rígidos e distantes do passado e fomos para o extremo oposto: criança como rei, pai e mãe como atendimento ao cliente.
Agora estamos a descobrir o custo silencioso de pôr sempre a felicidade de curto prazo das crianças acima de tudo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A felicidade não é o único objectivo Focar-se apenas no conforto impede as crianças de aprender frustração e limites Ajuda os pais a reenquadrar “momentos de infelicidade” como oportunidades de crescimento
Os limites podem ser calorosos Respostas ao estilo “Eu vejo os teus sentimentos, e a resposta continua a ser não” Oferece um guião para ser firme sem se sentir cruel ou culpado
Pequenas dificuldades constroem grandes competências “Nãos” do dia‑a‑dia, tarefas e tempos de espera treinam a resiliência Mostra como rotinas comuns podem desenvolver empatia e maturidade futuras

FAQ:

  • Pergunta 1: Querer que o meu filho seja feliz faz de mim um “mau” pai ou mãe nesta lógica?
  • Resposta 1: De todo. O problema não é querer felicidade; é persegui-la a qualquer preço, sobretudo ao preço dos limites, da responsabilidade e do respeito pelos outros.
  • Pergunta 2: Posso “desfazer” padrões se o meu filho já for adolescente?
  • Resposta 2: Sim. Comece com limites pequenos e consistentes e conversas honestas: “Nós costumávamos fazer assim, e eu percebo que isso não te estava a ajudar. Vamos mudar algumas coisas.”
  • Pergunta 3: Como é que lido com a culpa quando o meu filho está a chorar porque eu disse que não?
  • Resposta 3: Repare na culpa, respire e lembre-se: “O meu trabalho não é apagar todas as lágrimas. O meu trabalho é continuar a amar enquanto o meu filho aprende a lidar com elas.”
  • Pergunta 4: Mais limites não vão deixar o meu filho infeliz ou distante de mim?
  • Resposta 4: Não quando os limites são acompanhados de calor. Muitas crianças sentem-se mais seguras e mais próximas de adultos que são previsíveis e não cedem a cada protesto.
  • Pergunta 5: Qual é um hábito simples para começar esta semana?
  • Resposta 5: Escolha um momento diário para tolerar um pouco de frustração: esperar cinco minutos, acabar uma tarefa antes de brincar, ou cumprir um plano mesmo que se queixem, e narre isso com calma.

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