A sala parecia quase a mesma. O mesmo sofá, o mesmo candeeiro, a mesma caneca na mesa de centro. E, no entanto, ela estava ali sentada a sentir como se o chão tivesse deslizado meio centímetro para a esquerda. A amiga com quem costumava desabafar já não parecia tão segura. As piadas de que antes se ria agora picavam um pouco. No papel, ela estava a “fazer o trabalho”: terapia, escrever num diário, dizer que não com mais frequência. Por dentro, sentia como se alguém tivesse pegado na vida dela, abanado com força e voltado a pousá-la ligeiramente torta.
Ela achava que crescer emocionalmente era suposto parecer um glow-up.
Em vez disso, parecia um terramoto em câmara lenta.
Quando “ficar melhor” parece pior ao início
Há um momento estranho no crescimento emocional em que a tua vida antiga já não assenta bem, e a nova ainda não existe. Estás no corredor entre duas divisões, com a mão no puxador, ainda sem estar pronto/a para entrar.
O teu sistema nervoso fica confuso. Os padrões que antes te mantinham seguro/a de repente parecem errados, mas largá-los dá medo. Por isso, podes acordar mais ansioso/a, chorar mais, ou responder mal a pessoas de quem gostas. Por fora, pode parecer que estás a desmoronar. Por dentro, algo mais profundo está finalmente a despertar.
Um psicólogo contou-me uma vez sobre uma paciente que começou a pôr limites à família depois de décadas a agradar a toda a gente. Antes da terapia, nunca dizia que não. Nunca expressava raiva. Engolia tudo e sorria.
Quando começou a crescer emocionalmente, sentiu mais conflito do que nunca. A mãe acusou-a de “estar a mudar” e de se tornar egoísta. Os irmãos afastaram-se. Chorava no carro depois dos jantares de família e perguntava-se se a terapia a estava a “partir”. E, no entanto, um ano depois, essa mesma mulher disse que conseguia respirar pela primeira vez na vida. A desestabilização não era sinal de que estava errada. Era sinal de que tudo o que era antigo estava a ser rearranjado.
A psicologia tem um nome para isto: desorganização antes da reorganização. Quando mudas as tuas crenças ou padrões de vinculação, o teu cérebro tem de renegociar tudo a partir do zero.
As respostas automáticas antigas perdem força, mas as novas ainda não estão ligadas. Por isso, o teu mundo interior pode parecer turvo e ruidoso. Questionas as tuas relações, o teu trabalho, os teus hábitos, até as histórias que contas a ti próprio/a sobre quem és. À distância, isto parece caos. Visto de perto, é o sistema nervoso a atualizar o software. Essa fase intermédia sabe estranhamente a perda de controlo, mesmo quando, na verdade, o estás a recuperar.
Como atravessar o terramoto emocional sem te anestesiares
Um dos movimentos mais eficazes durante o crescimento emocional é incrivelmente simples: nomeia o que está a acontecer no teu corpo, em voz alta ou no papel. “Sinto-me a tremer.” “Tenho o peito apertado.” “Tenho vontade de gritar.”
Este pequeno gesto chama-se rotulagem do afeto (affect labeling), e a investigação mostra que acalma a amígdala, o centro de alarme do cérebro. Quando o crescimento traz medos antigos à tona, o teu corpo lê isso como perigo. Pôr palavras nas sensações envia um sinal de segurança. Ainda não estás a resolver nada - estás apenas a ficar contigo. Isso é emocionalmente enorme. Tornas-te a pessoa que não te abandona quando as coisas ficam intensas.
Uma armadilha comum é achares que estás a “recuar” porque te sentes pior durante algum tempo. Então apressas-te a medicar a sensação com ocupação, scrolling, comer em excesso, pensar em excesso - qualquer coisa para não sentires a instabilidade.
Sejamos honestos: ninguém faz isto perfeitamente todos os dias. A versão mais verdadeira é: vais ter dias em que enfrentas os teus sentimentos com coragem, e dias em que a Netflix ganha. O erro não é a fuga. O erro é usar a instabilidade como prova de que estás quebrado/a, em vez de a veres como parte da renovação. Estás a arrancar tábuas antigas do chão emocional. Vai levantar-se pó.
“O crescimento emocional não é sobre ficar calmo. É sobre te tornares suficientemente real para aguentar a tua própria tempestade.”
- Pratica pequenos riscos
Começa com atos simples: dizer “preciso de um momento”, fazer uma pergunta para clarificar, admitir “isso magoou-me”. Estes micro-passos reeducam o teu sistema nervoso sem o sobrecarregar. - Mantém um ritual estável
Uma chávena de chá à mesma hora, uma caminhada curta, um alongamento simples. Quando o teu mundo interior parece instável, uma rotina externa ancora-te com suavidade. - Regista progresso em retrospetiva
Uma vez por semana, anota uma forma como reagiste de maneira diferente do que reagirias há seis meses. O crescimento esconde-se nos intervalos entre o teu eu antigo e o teu eu presente.
Deixar a mudança ser confusa sem te rotulares como um fracasso
Há um luto silencioso que vem com o crescimento emocional e de que não se fala o suficiente. Podes deixar de encaixar em certas amizades construídas à base de desabafos, não de vulnerabilidade. Podes perceber que o teu papel na família era “a pessoa que resolve” ou “a pessoa calada”, e já não queres esse emprego.
Esta mudança pode parecer desleal, mesmo quando é saudável. Podes ter saudades da facilidade de voltares à tua máscara antiga. Podes ter saudades da dormência que antes te protegia. No entanto, cada vez que te permites sentir o embaraço, a culpa, a ternura, algo sólido se forma por baixo. Começas a sentir o contorno de um eu que não é construído para agradar nem para representar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| O crescimento parece desestabilizador ao início | O teu cérebro e sistema nervoso precisam de tempo para se reorganizarem em torno de novos padrões | Reduz o medo de que “sentir-se pior” signifique falhar |
| Dar nome às sensações ajuda a regular | Frases simples como “sinto um aperto na garganta” acalmam a intensidade emocional | Dá uma ferramenta concreta para atravessar ondas emocionais |
| A confusão faz parte do processo | Conflito, luto e confusão tendem a aumentar mesmo antes de um alinhamento mais profundo | Normaliza o desconforto e incentiva a continuar |
FAQ:
- Pergunta 1 Porque é que o crescimento emocional é tão desconfortável ao início?
- Pergunta 2 Como sei se estou mesmo a crescer ou apenas preso/a na ansiedade?
- Pergunta 3 O que posso fazer quando as minhas relações ficam instáveis à medida que eu mudo?
- Pergunta 4 É normal ter saudades do meu antigo eu “anestesiado”?
- Pergunta 5 Quanto tempo costuma durar esta fase de desestabilização?
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