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A psicologia explica porque algumas pessoas sentem alívio ao serem mal compreendidas.

Pessoa a ler livro numa cafeteria ensolarada, com café e telemóvel na mesa.

Todos à mesa ainda estavam a falar sobre o que tinhas acabado de dizer, mas estavam a falar disso de forma errada.
Tinham torcido o teu argumento, interpretado mal o teu tom, construído um debate inteiro sobre uma versão de ti que não existia.

Sentiste aquele impulso familiar de urgência: entrar na conversa, defender-te, esclarecer cada palavra.
Em vez disso, deste um gole à tua bebida, deixaste o ruído desfocar-se um pouco, e reparaste em algo estranho.

Os teus ombros desceram.
A tua respiração abrandou.
Uma pequena parte de ti, secreta, sentiu-se… aliviada.

Porquê?

O conforto silencioso de não seres totalmente visto

Há um tipo especial de paz em seres ligeiramente mal interpretado pelos outros.
Quando as pessoas te entendem mal, deixam de olhar para a versão crua e exposta de quem tu és.

Olham para a versão delas.
A projeção delas.
O atalho mental delas.

Os psicólogos falam muito do “eu social” e do “eu privado”.
Quando a distância entre esses dois “eus” parece demasiado pequena, a vida pode parecer como estar sob um holofote que nunca se apaga.
Ser mal interpretado volta a alargar essa distância.

Podes recuar para dentro de ti por um instante.
E isso pode parecer surpreendentemente seguro.

Pensa na Maya, 29 anos, que trabalha numa equipa de tecnologia de ritmo acelerado.
No trabalho, é vista como perspicaz, fria, sempre “ligada”.
Por dentro, é sensível e ansiosa, sempre com medo de desiludir alguém.

Um dia, numa reunião, fez uma piada que caiu mal.
O chefe achou que ela estava a ser sarcástica e disse: “Ok, duro mas justo.”
Toda a gente se riu.

No caminho para casa, a Maya percebeu que não tinha querido ser dura.
E, no entanto, em vez de entrar em espiral, notou uma leveza.
“Se acham que sou mais forte do que sou”, disse a uma amiga, “talvez eu não tenha de lhes mostrar o quanto me assusto.”

O mal-entendido deu-lhe um pequeno escudo emocional.
Não é ideal a longo prazo, mas é uma minúscula folga para respirar.

A psicologia oferece algumas explicações para este alívio.
Uma chama-se “auto-ocultação” - o instinto de esconder partes de nós que parecem vergonhosas, confusas, ou simplesmente demasiado complexas.

Quando alguém te entende mal, isso confirma que o teu mundo interior continua a ser teu.
Não te compreendem por completo, o que significa que também não te conseguem julgar por completo.

Há também a “descarga cognitiva”.
Assim que alguém fica preso à história errada sobre ti, o teu cérebro percebe silenciosamente: “Posso parar de tentar controlar a perceção deles.”
A pressão de desempenhar baixa.

A verdade é que ser perfeitamente compreendido o tempo todo seria emocionalmente exaustivo.
Uma pequena distorção, às vezes, é estranhamente protetora.

O que fazer com essa estranha sensação de alívio

Quando reparares nesse alívio depois de seres mal interpretado, não te apresses a esmagá-lo com culpa.
Começa por observá-lo como um cientista a ver um animal pequeno e tímido.

Faz-te uma pergunta gentil: que parte de mim está contente por eles não terem visto o quadro completo?
É o meu medo de conflito?
O meu medo de ser julgado?
Ou apenas cansaço social, depois de um dia longo a explicar-me a toda a gente?

Esta pequena pausa é poderosa.
Transforma o teu alívio em informação - não num defeito secreto que tens de corrigir já.

Uma armadilha comum é usar o mal-entendido como esconderijo permanente.
Pensas: “Bem, não me perceberam, mas ao menos estou seguro”, e depois nunca corriges a história.

Com o tempo, isso cria uma vida em que as pessoas gostam de uma versão de ti que não é bem real.
E isso pode ser silenciosamente solitário.

A outra armadilha é o oposto: a sobre-explicação compulsiva.
Entras logo para ajustar cada interpretação errada, cada comentário deslocado, cada sobrancelha levantada.
Isso também é exaustivo.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
A maioria de nós oscila desajeitadamente entre um silêncio constrangedor e monólogos nervosos, a tentar desesperadamente acertar no equilíbrio.

Às vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer numa conversa é deixar viver um pequeno mal-entendido, sem o deixares definir-te.

  • Repara no sentimento
    É alívio, raiva, vergonha, ou uma mistura? Dar-lhe um nome reduz o poder que ele tem.
  • Escolhe as tuas batalhas
    Pergunta: “Este mal-entendido afeta a minha segurança, os meus valores, ou algo crucial?” Se não, talvez possas deixar passar.
  • Corrige com cuidado
    Se decidires falar, mantém simples: “Não foi bem isso que eu quis dizer.” Não é preciso um ensaio longo.
  • Protege a tua vida interior
    Tens permissão para guardar alguns pensamentos só para ti. Nem tudo precisa de esclarecimento público.
  • Observa os teus padrões
    Se sentes sempre alívio quando as pessoas te percebem mal, talvez exista um medo mais profundo de intimidade que valha a pena explorar.

Viver com o facto de que ninguém te vai compreender totalmente

Há uma liberdade estranha em aceitar que a compreensão total é um mito.
Nem o teu parceiro, nem o teu amigo mais próximo, nem o teu terapeuta alguma vez terão um mapa 100% preciso do teu mundo interior.

Parte de crescer emocionalmente é aprender a viver com esta distância.
Não como uma tragédia, mas como uma condição de ser humano.
Nuns dias vais lutar para a reduzir - explicando, clarificando, contando a tua história com mais coragem do que antes.

Noutros dias vais deixar as pessoas pensarem o que pensam e recuar para a tua verdade silenciosa.
As duas respostas são válidas.

Talvez até comeces a ver esses momentos de “Eles não me percebem mesmo” não apenas como dolorosos, mas como um lembrete suave da tua própria complexidade.
Da vida privada e intrincada que carregas e que ninguém consegue ver por completo.

Se alguma coisa nisto te soa familiar, não estás estragado nem a fingir.
Estás apenas a navegar o espaço confuso entre quem tu és e quem os outros pensam que tu és, como toda a gente - só que agora estás a prestar mais atenção.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O alívio é um sinal Essa sensação leve depois de seres mal interpretado aponta para partes de ti que se sentem sobre-expostas ou cansadas Ajuda-te a identificar onde precisas de mais limites ou descanso
O mal-entendido pode ser protetor As pessoas verem uma versão simplificada de ti pode reduzir a pressão social e o medo de julgamento Normaliza os teus sentimentos mistos e reduz a vergonha
Podes responder de forma intencional Escolher quando clarificar e quando deixar passar devolve-te uma sensação de controlo Apoia conversas mais calmas e relações mais saudáveis

FAQ:

  • Pergunta 1: Sentir alívio quando as pessoas me entendem mal é sinal de que sou falso?
  • Resposta 1
    Sentir alívio não significa que sejas falso.
    Normalmente significa que estás cansado de “atuar” ou com medo de ser julgado, o que é profundamente humano.
    Ser falso implica enganar de propósito; este alívio tem mais a ver com proteger o teu mundo interior.

  • Pergunta 2: Devo corrigir sempre as pessoas quando elas me entendem mal?

  • Resposta 2
    Nem sempre.
    Pergunta a ti mesmo: este mal-entendido magoa-me, magoa outra pessoa, ou afeta algo de que eu realmente gosto?
    Se sim, esclarece com calma.
    Se não, tens o direito de deixar passar e poupar energia.

  • Pergunta 3: Porque é que me sinto magoado e aliviado ao mesmo tempo?

  • Resposta 3
    Porque duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
    Ser mal interpretado dói, especialmente se valorizas a ligação.
    Ao mesmo tempo, não seres totalmente visto pode parecer mais seguro do que estares totalmente exposto - por isso o teu sistema nervoso relaxa um pouco.

  • Pergunta 4: Como posso deixar de me explicar em excesso o tempo todo?

  • Resposta 4
    Pratica esclarecimentos curtos, como: “Não foi exatamente isso que eu quis dizer”, e depois pára.
    Aguenta o silêncio em vez de o preencher.
    Com o tempo, o teu cérebro aprende que não tens de “ganhar” ligação através de explicações intermináveis.

  • Pergunta 5: É aceitável manter algumas partes de mim completamente privadas?

  • Resposta 5
    Sim.
    Privacidade não é desonestidade.
    Tens direito a um espaço interior pessoal que não é totalmente partilhado com ninguém, mesmo com pessoas que amas.
    A chave é não prometer uma abertura para a qual ainda não estás preparado.

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