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A psicologia explica porque algumas pessoas falam sempre muito alto.

Dois jovens conversam numa cafeteria, com um gráfico de som flutuando entre eles, várias pessoas ao fundo.

No comboio da manhã ou num café cheio, às vezes basta uma pessoa para “furar” o ruído de fundo. Mesmo com auscultadores, apanhas cada detalhe de uma chamada duas filas à frente. No escritório, é a gargalhada que atravessa o open space. Ao jantar, é o amigo que abafa a música e a conversa da mesa.

É tentador concluir que é falta de respeito ou vontade de dominar. Às vezes é. Mas, muitas vezes, é automático - e o volume raramente aparece “do nada”.

Porque é que algumas pessoas parecem viver com o volume preso no “máximo”

Em locais com muito barulho, o cérebro ajusta o volume sem pedir autorização. É o efeito Lombard: quando o ambiente sobe, nós subimos também, para nos ouvirmos e sermos ouvidos. O problema é que algumas pessoas levam esse “modo ruidoso” para contextos onde já não faz falta.

Exemplo típico: alguém que cresceu numa casa barulhenta (várias pessoas a falar ao mesmo tempo, televisão ligada, refeições com debate). Para ser ouvido, aprendeu a projetar a voz. Esse padrão fica como “volume normal” - e num escritório silencioso passa a soar excessivo.

Um bom teste prático: conversa normal, a 1 metro, costuma ficar por volta de 60 dB. Quando alguém fala consistentemente acima disso (voz “de apresentação”), não é só escolha; muitas vezes é hábito + contexto + stress.

Por trás de um volume forte, há muitas vezes um estado interno forte: alerta, pressa, ansiedade, medo de ser interrompido, ou simplesmente uma referência interna mal calibrada.

O que a psicologia diz que está realmente por trás das vozes altas

A voz é uma ferramenta social aprendida. Se em criança só eras ouvido quando insistias, o cérebro pode ter gravado uma regra simples: “Se baixo o volume, desapareço.” E continua a aplicá-la mesmo quando já não há “ameaça”.

Há também fatores de perceção e corpo que contam (e que nem sempre são óbvios):

  • Auto-audição diferente: algumas pessoas ouvem-se a si próprias “mais baixo” (pela forma como o som chega pelo ar e pelos ossos), e compensam sem perceber.
  • Audição e saúde: perda auditiva ligeira, tampões de cera, rinite/constipações, zumbidos ou usar auscultadores muito alto podem levar a aumentar o volume por reflexo. Se o padrão é recente, vale a pena despistar.
  • Sistema nervoso em alta rotação: stress, falta de sono, cafeína e ambientes competitivos tornam a voz mais tensa e projetada.
  • Reforço social: em muitos grupos, quem fala mais alto recebe mais atenção e parece mais confiante. Mesmo sem intenção, o cérebro aprende que “funciona”.

O ponto-chave: nem sempre é arrogância; às vezes é automatismo com recompensa.

Como conviver com pessoas que falam alto (e com o teu próprio volume)

Se estás ao lado de alguém que fala alto, irritar-te é humano. O que costuma resultar melhor é apontar o impacto, sem acusação, e sugerir uma alternativa.

Uma fórmula simples: observação + efeito + pedido.
“Olha, aqui a acústica amplifica tudo e ouço cada palavra. Podemos baixar um pouco / mudar de lugar / falar mais perto?”

Se fores tu a pessoa do volume alto, o primeiro passo é consciência, não culpa. Repara quando dispara (open space, restaurantes, chamadas, reuniões de família) e com quem. Muitas vezes é mais “estado” do que “personalidade”.

Às vezes, uma voz alta é um sistema nervoso a dizer: “Não me ignores.” O objetivo não é silenciar, é ganhar controlo.

Dicas curtas que costumam funcionar:

  • Faz uma pausa de meio segundo antes de responder, especialmente quando estás entusiasmado.
  • Expira e fala durante a expiração: ajuda a reduzir tensão e projeção.
  • Pede feedback a alguém de confiança: “De 1 a 10, quão alto estou agora?” (e aceita o número sem discutir).
  • Treina “70% do volume” numa situação concreta por dia (por exemplo, uma chamada ou um café).
  • Se isto te traz problemas no trabalho/relacionamentos, um terapeuta da fala/voz pode ajudar a recalibrar respiração, projeção e perceção - é mais rápido do que “força de vontade” eterna.

Quando o volume se torna um espelho do nosso mundo interior

Quando começas a reparar, o volume diz muito sobre o contexto. O colega que quase grita para o headset pode estar em stress crónico. O amigo que enche todos os silêncios pode estar a fugir ao desconforto. O familiar que domina a mesa pode estar a repetir uma dinâmica antiga.

Ainda assim, nem toda a gente que fala alto está a “compensar” algo profundo. Há pessoas apenas expressivas, com boa projeção e pouca noção da acústica à volta.

Da próxima vez que alguém “sequestrar” a sala, podes manter a irritação (normal) e acrescentar uma pergunta útil: o que é que este volume está a tentar garantir - ser ouvido, ser aceite, sentir segurança? Essa leitura costuma ajudar a responder com mais eficácia (e menos desgaste), incluindo ajustar o teu próprio botão quando precisares.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O ambiente inicial molda o volume Casas barulhentas e conversas competitivas treinam projeção como “normal”. Ajuda-te a interpretar o hábito sem reduzir a pessoa a “má educação”.
Falhas de perceção são comuns Algumas pessoas percebem a própria voz mais baixa e compensam automaticamente; saúde auditiva também pesa. Explica porque “Fala mais baixo” muitas vezes não chega.
O volume pode ser reeducado com suavidade Pausas, respiração, feedback e treino em contextos específicos recalibram o “normal”. Dá ferramentas práticas sem transformar isto num drama.

FAQ:

  • Falar alto é sempre sinal de arrogância? Não. Pode ser hábito, ansiedade, diferenças de perceção/audição, contexto familiar ou stress. Arrogância aparece mais no desrespeito e na falta de escuta.
  • A terapia consegue mesmo mudar o quão alto alguém fala? Muitas vezes, sim. Terapia da fala/voz e psicoterapia (quando há ansiedade/hipervigilância) podem estabilizar respiração, tensão e auto-perceção.
  • E se a voz alta de um colega estraga a minha concentração no trabalho? Nomeia o impacto e propõe solução: “Quando as chamadas ficam altas no open space, perco o foco. Podemos usar a sala de chamadas, baixar o volume ou alternar lugares?”
  • Posso ser eu “o que fala alto” sem dar conta? Sim. Pede a 2–3 pessoas em quem confies exemplos concretos (onde/quando) e usa isso como dados, não como rótulo.
  • Falar baixo é sempre melhor? Não. Voz demasiado baixa também cria esforço e mal-entendidos. O objetivo é flexibilidade: ajustar ao espaço, distância e momento.

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