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A perda de um animal de estimação pode causar sintomas semelhantes ao luto por uma pessoa.

Mulher sentada no chão, emocionada, com tigela e coleira de cão ao lado, em ambiente doméstico iluminado.

A veterinária mal tinha fechado a porta quando a mulher na sala de espera começou a chorar. Não eram lágrimas discretas do tipo “estou bem”. Eram daquelas que vêm de um sítio fundo, que te sacodem os ombros, que te deixam as mãos vazias porque já não há trela nem transportadora. As pessoas desviaram o olhar, embaraçadas, e depois voltaram aos telemóveis. A rececionista empurrou uma caixa de lenços, como se isso pudesse conter a maré que saía daquela pessoa pequena numa cadeira de plástico.

Todos já estivemos aí, naquele momento em que entras na cozinha e, automaticamente, olhas para a tigela de comida vazia.

O mundo continua. O trânsito lá fora, os emails a acumularem-se, as notificações a apitarem. E tu ficas ali, a fazer luto por um cão ou um gato como se tivesses perdido um familiar.

E aqui está a reviravolta: biologicamente falando, o teu cérebro acha que acabaste mesmo de perder.

Quando perder um animal de estimação parece perder uma pessoa

O primeiro choque atinge nos momentos de silêncio.
A tua mão vai para o sofá, à espera de pelo quente, e encontra apenas tecido frio. O som das chaves na porta costumava provocar uma corrida de patas; agora há só silêncio, pesado e espesso.

Há pessoas que ficam surpreendidas com a intensidade deste vazio. Dizem coisas como: “Não percebo porque estou tão devastado/a, era ‘só’ um animal.” Essa palavrinha pode cortar como uma faca.

O luto não quer saber dessa palavra.
O teu cérebro registou milhares de micro-rituais com este ser vivo: passeios de manhã, mimos à hora de dormir, o tilintar familiar da coleira. Quando essa banda sonora desaparece de um dia para o outro, o sistema nervoso reage como se um pilar da vida diária tivesse desaparecido.

Pergunta a alguém que já teve de levar uma coleira vazia para casa.
Vê o caso da Léa, 32 anos, que perdeu o seu gato de 14 anos. Achava que ia ficar triste uns dias e depois “passava”.

Em vez disso, não conseguiu dormir em condições durante semanas. Ouvia miados fantasma. Evitava o quarto onde antes estava a caixa de areia, porque parecia entrar num museu de uma vida que tinha acabado de terminar. No trabalho, ficava a olhar para o ecrã, esquecendo frases a meio de um email.

A investigação confirma o que a Léa sentiu. Estudos de imagiologia mostram que a vinculação a animais ativa as mesmas regiões do cérebro que a vinculação a humanos. As hormonas do stress disparam. O apetite muda. Os padrões de sono desmoronam-se. Algumas pessoas chegam a sentir dor física real no peito, a chamada sensação de “coração partido” descrita após lutos humanos.

Há uma lógica por trás desta tempestade.
Os nossos cérebros estão programados para criar vínculos, não para distinguir se a ligação é “humana” ou “animal”. Um animal de estimação partilha a nossa casa, as nossas rotinas, os nossos momentos mais crus: chorar às 2 da manhã, celebrar pequenas vitórias, comer sobras no sofá.

Essa presença constante constrói o que os psicólogos chamam uma “base segura”. Um ser que simplesmente está ali, sem julgamentos, dia após dia. Quando essa base colapsa, o sistema nervoso entra em modo de alarme.

Além disso, a sociedade muitas vezes minimiza a perda de um animal. Os amigos esperam que voltes rapidamente ao normal, o que cria uma divisão estranha: por dentro, sentes que estás num funeral; por fora, dizem-te para seres “racional”. Esse desajuste intensifica o luto, porque começas a duvidar dos teus próprios sentimentos em vez de os processares.

Como atravessar o luto por um animal sem o enterrar dentro de ti

O primeiro passo real é brutalmente simples: chamar-lhe luto.
Não “estou a ser parvo/a”, não “estou a exagerar”, mas um luto verdadeiro. Usa essa palavra em voz alta, mesmo que a voz trema.

Dá-lhe uma moldura. Algumas pessoas acendem uma vela ao lado de uma fotografia todas as noites durante uma semana. Outras escrevem uma carta de despedida, dizendo o que nunca chegaram a dizer na pressa da última ida ao veterinário.

Os rituais ajudam o cérebro a perceber o que acabou de acontecer. Marcam um antes e um depois.
Podes organizar uma pequena cerimónia em casa, só para ti ou com poucas pessoas próximas, para partilhar memórias. Ao início pode parecer estranho, como se estivesses a fazer de conta.

Depois ouves-te a dizer o nome dele/dela, e deixa de parecer estranho.

Uma armadilha comum é apressar-se a “substituir” o animal.
Os amigos sugerem, às vezes com boa intenção: “Devias adotar outro cão, ajuda.” A casa parece vazia, tens saudades dos sons, da presença, da desculpa para sair. A tentação é forte.

Mas adotar no meio de um luto ainda em carne viva pode criar confusão. O novo animal torna-se um quadro vivo de comparações, nunca ficando à altura daquele que perdeste. Ou podes ressentir-te por ele não se comportar “da maneira certa”.

No extremo oposto, algumas pessoas punem-se recusando qualquer ideia de ter outro animal, como se voltar a amar fosse trair quem partiu. Ambos os extremos congelam o processo de luto. Deixa primeiro a ferida respirar. Senta-te com o silêncio, com as rotinas alteradas, com as fotografias no telemóvel que ainda não consegues percorrer. O luto não é um projeto que possas acelerar.

“As pessoas diziam-me sempre: ‘Era só um gato.’ Mas ele era o único ser vivo que me via todos os dias, durante dez anos”, diz Marc, 45. “Perdê-lo foi como perder a testemunha da minha própria vida.”

  • Rituais simples que ajudam mesmo
    Cria um pequeno canto com uma foto, a coleira ou um brinquedo; fala com esse espaço quando chegas a casa, até deixar de ser preciso.
  • Palavras para responder com suavidade a quem não entende
    Podes dizer: “Para mim, ele/ela era família. Estou a passar por um luto real agora, só preciso de algum tempo.” Curto, claro, sem pedir desculpa.
  • Quando procurar apoio extra
    Se passarem semanas e não conseguires comer, dormir ou funcionar de todo, ou se a culpa e a raiva forem tudo o que sentes, um/a terapeuta ou um grupo de apoio para perda de animais pode ser uma tábua de salvação.
  • Pequenos gestos que aliviam a culpa
    Doa a comida ou brinquedos que sobraram a um abrigo, escreve três memórias favoritas, ou planta algo em homenagem. A ação dá chão às emoções.
  • Coisas que NÃO tens de fazer
    Não tens de “seguir em frente” depressa, não tens de deitar fora as coisas dele/dela imediatamente, e não tens de adotar de novo para provar que o/a amavas.

Quando o mundo segue, mas tu ainda falas com a tigela da comida

O luto por um animal vive nestes lugares estranhos, meio invisíveis. Na forma como ainda contornas o sítio onde estava a cama dele/dela. Na frase que quase publicas nas redes sociais e depois apagas, com medo de parecer “demasiado dramático/a”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, este luto perfeito e linear que os livros de autoajuda às vezes descrevem. O luto real é confuso. Nalgumas manhãs sentes-te quase normal e, de repente, ficas destruído/a por um anúncio na televisão com um cão parecido com o teu.

Para muitas pessoas, essa ligação a um animal guardava partes da sua história que mais ninguém via. O/a adolescente que cresceu com um cão leal durante o divórcio dos pais. O/a adulto/a solteiro/a cujo gato o/a cumprimentava depois de cada turno tardio. A pessoa mais velha que falava mais com o periquito do que com qualquer vizinho humano.

Partilhar essa história, em voz alta ou por escrito, já é uma forma de cura.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O luto por um animal é luto real As reações do cérebro e do corpo espelham as que se observam após perdas humanas Valida emoções intensas e remove a vergonha de “estar a exagerar”
Os rituais ajudam o cérebro a adaptar-se Cartas de despedida, velas, pequenas cerimónias, cantos de homenagem Oferece formas concretas de processar a perda em vez de ficar bloqueado/a
O tempo e o ritmo são pessoais Não há obrigação de adotar depressa, deitar objetos fora, ou “seguir em frente” rapidamente Dá permissão para fazer luto ao teu ritmo, sem pressão social

FAQ:

  • É normal chorar mais pelo meu animal do que chorei por alguns familiares?
    Sim. A intensidade emocional depende do vínculo, não do rótulo. Se o teu animal era o teu companheiro diário e alguns familiares eram distantes ou a relação era difícil, o teu luto pelo animal pode sentir-se mais forte e continuar a ser totalmente válido.
  • Quanto tempo costuma durar o luto por um animal?
    Não há um prazo padrão. A dor mais aguda costuma abrandar após algumas semanas ou meses, mas ondas de tristeza podem voltar em aniversários ou em situações específicas. O que importa é se consegues, lentamente, retomar a vida diária, mesmo com a tristeza presente.
  • Devo arranjar outro animal rapidamente para me sentir melhor?
    Só se te sentires genuinamente pronto/a e entusiasmado/a, não desesperado/a para preencher um vazio. Adotar demasiado cedo pode criar pressão sobre o novo animal e complicar o luto. Esperar até conseguires pensar no animal que perdeste com tristeza e também com ternura é muitas vezes um bom sinal.
  • Porque é que algumas pessoas não entendem a minha tristeza?
    Crenças culturais, experiências pessoais ou falta de ligação a animais podem levar outros a desvalorizar a perda. Isso não torna o teu luto menos real. Rodeia-te, pelo menos por algum tempo, de pessoas ou comunidades que entendem.
  • E se a decisão de eutanásia me estiver a assombrar?
    A culpa após a eutanásia é extremamente comum. Falar sobre o contexto médico com um/a veterinário/a ou terapeuta pode ajudar. Na maioria dos casos, essa decisão foi um ato de cuidado, tomado para terminar o sofrimento, mesmo que o teu coração agora o questione.

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