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A partir de 8 de fevereiro, as pensões aumentam, mas só para quem entregar um certificado em falta, deixando muitos a dizer: “Sabem que não temos acesso à internet.”

Idoso segura um documento e olha para um monitor com o texto "Encontrar o botón certo" numa sala com mesas e cadeiras.

A notícia caiu a meio de uma manhã cinzenta e banal, daquelas em que a rádio é só ruído de fundo ao lado da chávena de café. “A partir de 8 de fevereiro, as pensões vão aumentar…”, disse a voz e, por um segundo, quase se ouviu um suspiro coletivo de alívio em salas de estar por todo o país. Depois veio a segunda parte da frase, dita um pouco mais depressa: “para os reformados que submetam online o certificado em falta”.

É aí que a história muda.

Por vilas pequenas e prédios antigos, muita gente ficou a olhar para a televisão ou para o folheto da caixa de pensões e pensou o mesmo: “Online? Com o quê? Um smartphone de 2014 e sem Wi‑Fi?”

Uma frase, uma condição, e de repente um aumento prometido parece um teste que ninguém pediu para fazer.
E o relógio está a contar até 8 de fevereiro.

“A partir de 8 de fevereiro, a sua pensão vai subir”… se conseguir encontrar o botão certo

Para muitos reformados, o anúncio soou ao mesmo tempo a boa notícia e a piada de mau gosto. Sim, as pensões sobem, mas apenas se for enviado um certificado em falta - muitas vezes através de um portal online onde muitos nunca sequer iniciaram sessão uma única vez.

O aumento não é automático; é condicionado.

Esse pormenor transforma o que devia ser um simples acerto numa pequena pista de obstáculos administrativos. E desta vez o obstáculo tem nome: a internet. Quem está ligado e se sente à vontade com ecrãs clica e segue. Quem não está sente que o sistema lhes está, em silêncio, a dizer: “Se não consegue tratar disto, azar.”

Veja-se Maria, 76 anos, que vive numa aldeia onde o autocarro passa duas vezes por dia e o computador público mais próximo fica numa biblioteca a sete quilómetros. Recebeu uma carta a pedir um “certificado de vida” atualizado e um documento ligado aos impostos para confirmar a sua situação. “Eles sabem que nós não temos acesso à internet”, disse, dobrando a carta na dobra, como um bilhete de lotaria sem prémio.

O filho vive a 300 quilómetros. O velho telemóvel de tampa não descarrega documentos e os CTT mais próximos reduziram o horário. A carta dá um prazo e um link de um site, não um número de telefone que atenda antes de a pessoa desistir.

A Maria não se recusa. Está apenas presa entre dois mundos: o mundo do papel em que cresceu e o digital que agora controla a sua carteira.

Nos bastidores, a lógica é fria e simples. As caixas de pensões querem documentos atualizados para confirmar quem ainda está vivo, quem foi para o estrangeiro, quem tem novos rendimentos, quem tem direito a quê. Ficheiros digitais são mais rápidos, mais baratos e mais fáceis de verificar do que pilhas de papel em arquivos poeirentos.

Por isso, o aumento de 8 de fevereiro fica ligado à “regularização” dos processos. Certificados em falta, declarações em falta, assinaturas em falta. Parece burocrático, mas cai diretamente nos frigoríficos e nas farmácias das pessoas.

E quando o acesso a esse aumento depende de uma boa ligação à internet e de alguns cliques, a divisão deixa de ser abstrata. Passa a medir-se em euros ao fim do mês… e também em ansiedade.

Como submeter o certificado em falta quando não é “gente da internet”

Há um caminho pequeno e muito prático por este labirinto, e muitas vezes começa com uma única folha de papel. Antes de tocar num computador, reúna tudo o que a carta menciona: cartão de identificação, último recibo/extrato de pensão, nota/aviso fiscal e a própria carta. Espalhe tudo em cima da mesa como cartas de um baralho.

Próximo passo: encontre um intermediário humano.

Um familiar, um adolescente vizinho, um voluntário de uma associação de seniores, alguém da junta/câmara. A maioria das caixas de pensões já permite que uma terceira pessoa ajude a carregar documentos, desde que tenha os dados certos: o seu número de pensionista, a data de nascimento e, por vezes, um código de utilização única enviado numa carta. Não é perfeito, mas transforma uma parede digital numa tarefa partilhada à volta de um ecrã.

A maior armadilha é o silêncio. Muitos reformados veem a carta, não percebem os passos digitais, têm vergonha de “chatear os outros” e deixam, em silêncio, o prazo passar. Todos já conhecemos esse momento em que um formulário parece um julgamento às nossas capacidades, em vez de um simples ato administrativo.

A segunda armadilha é esperar por “uma carta mais simples” que nunca chega.

Sejamos honestos: ninguém liga todos os dias para a linha da caixa de pensões até conseguir falar. A fila é longa, a música é péssima e o menu de voz parece interminável. Ainda assim, uma pergunta clara feita uma vez pode poupar meses de dinheiro perdido. Perguntar “Posso enviar isto por correio ou entregar presencialmente?” é muitas vezes a frase-chave.

“Porque é que assumem que toda a gente tem impressora, scanner e internet por fibra?” pergunta Jean, 81, que ainda guarda todos os documentos em pastas de cartão etiquetadas. “Trabalhei 45 anos. Agora o meu aumento depende de uma palavra-passe que já esqueci.”

  • Verifique métodos alternativos de entrega
    Procure na carta ou no site da pensão uma linha que mencione correio, atendimento presencial ou cópias certificadas. Muitos sistemas ainda aceitam papel, mas não o destacam.
  • Use pontos locais de ajuda
    Câmaras/juntas, centros sociais, bibliotecas e alguns postos dos CTT já têm “balcões de apoio digital” onde alguém entra consigo no portal e carrega o famoso certificado.
  • Fotografe em vez de digitalizar
    Uma fotografia nítida tirada com um smartphone é muitas vezes aceite em vez de um scanner. Quem o ajudar consegue fazê-lo em segundos e enviar diretamente no portal.
  • Mantenha uma “pasta da pensão” em casa
    Um envelope simples com o seu número de pensionista, o último extrato, a nota fiscal e cópias de certificados evita remexer em gavetas sempre que pedem algo.
  • Escreva todas as palavras-passe e códigos em papel
    A memória digital falha; a memória em papel não. Um pequeno caderno com códigos da pensão e das finanças pode evitar muito stress mais tarde.

Para lá do aumento: uma questão de dignidade na era digital

Este aumento de 8 de fevereiro, ligado a um certificado em falta, é sobre dinheiro no papel. Mas por trás dos números está uma pergunta mais funda e silenciosa: para quem é, afinal, feito o sistema? Para o reformado com tablet, Wi‑Fi estável e um neto entendido em tecnologia, ou para a viúva que vive sozinha com um telefone fixo e uma televisão ainda com traseira volumosa?

A regra é a mesma para todos, mas o terreno de jogo não é.

Uns vão clicar, carregar e receber o aumento. Outros vão ficar de fora - não por falta de direito, mas porque a ponte para esse direito é exclusivamente digital. É uma falha que não se vê numa folha de cálculo; vê-se nas listas de compras, nas consultas do dentista adiadas e nas noites passadas a preocupar-se em vez de descansar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Verifique as suas cartas Procure qualquer menção a um certificado em falta ou a um portal online antes de 8 de fevereiro Evite perder o aumento da pensão por causa de um envelope esquecido
Use intermediários humanos Família, vizinhos, câmara/junta, associações ou funcionários da biblioteca podem carregar documentos consigo Transforme uma tarefa digital stressante num momento partilhado e gerível
Peça opções não digitais Ligue para a caixa de pensões ou vá presencialmente pedir alternativas por correio ou atendimento Aceda aos mesmos direitos mesmo sem internet ou equipamentos avançados

FAQ:

  • Pergunta 1 Quem, exatamente, verá a pensão aumentar a partir de 8 de fevereiro?
  • Resposta 1 Os reformados com o processo atualizado e que tenham apresentado todos os certificados solicitados (como prova de vida, declarações fiscais ou documentos de residência) beneficiarão do ajustamento. Quem tiver documentos em falta pode ver o aumento atrasado ou bloqueado até o processo ficar “regularizado”.
  • Pergunta 2 O que é este “certificado em falta” de que falam tanto?
  • Resposta 2 Pode variar consoante a sua situação: para uns é um certificado de vida; para outros, uma nota/aviso fiscal, prova de residência no estrangeiro ou alteração do estado civil. O nome exato vem indicado na carta ou notificação da sua caixa de pensões.
  • Pergunta 3 Preciso obrigatoriamente de internet para enviar o certificado?
  • Resposta 3 Não, nem sempre. Muitas caixas de pensões ainda aceitam documentos por correio ou em atendimento presencial, mesmo que priorizem primeiro o envio online. Pode ter de ligar ou deslocar-se a um balcão local para obter a morada correta ou o formulário certo.
  • Pergunta 4 O que acontece se eu falhar o prazo de 8 de fevereiro?
  • Resposta 4 Regra geral, a pensão não é cancelada, mas o aumento pode ser adiado ou congelado. Quando o documento em falta for recebido e processado, o aumento pode ser aplicado mais tarde - por vezes com retroativos - dependendo das regras do fundo.
  • Pergunta 5 Não tenho família por perto. Quem me pode ajudar nisto?
  • Resposta 5 Pode recorrer a serviços sociais locais, câmaras/juntas, associações de seniores, balcões de apoio digital em bibliotecas ou assistentes sociais. Muitas comunidades têm equipas dedicadas ou voluntários para ajudar pessoas mais velhas com tarefas administrativas online, gratuitamente ou por um valor simbólico.

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