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A partir de 8 de fevereiro, as pensões aumentam, mas só para quem entregar o certificado em falta, levando muitos a queixarem-se: “sabem que não temos acesso à internet”.

Homem idoso sentado à mesa, entregando um documento a uma mulher de perfil em um escritório.

A notificação chegou numa quinta-feira, impressa em letras minúsculas num papel cinzento e fino. “A partir de 8 de fevereiro, a sua pensão poderá ser reavaliada. Por favor, carregue o certificado em falta através do seu espaço online.” Para uma pessoa de 72 anos que ainda paga as contas nos CTT, aquelas duas palavras - “espaço online” - soam a língua estrangeira.

Ela pousou a carta na mesa da cozinha, ao lado da caneca lascada e do telemóvel antigo de teclas. Nada de smartphone. Nada de computador. Nada de Wi‑Fi. Apenas uma televisão que, por vezes, perde o sinal quando o vento aumenta.

“Outra vez a internet”, resmungou. Depois, a vizinha passou por lá e disse aquilo que muitos estão a pensar: “Eles sabem que nós não temos acesso à internet.”

Há qualquer coisa nessa frase que fica no ar como uma acusação silenciosa.

A partir de 8 de fevereiro, um aumento no papel… mas não para todos

A partir de 8 de fevereiro, as pensões aumentam oficialmente. No telejornal da noite, o pivot sorri, aparecem gráficos e a palavra “revalorização” passa no rodapé. Os políticos falam em “proteger o poder de compra” e “apoiar os idosos face à inflação”.

Mas, por trás dessas palavras grandes, está uma linha pequena na carta: o aumento só se aplica se o seu processo estiver “completo”. A falta de um único certificado, de uma prova de vida ou de um comprovativo de residência pode bloquear o aumento como se fosse uma conta bancária trancada.

Para muitos reformados, o obstáculo não é o documento em si. É a forma de o enviar.

Veja-se o caso do Louis, 78 anos, viúvo, a viver numa vila onde o autocarro passa duas vezes por dia. Recebeu a mesma carta: aumento da pensão a partir de 8 de fevereiro, mas apenas depois de carregar um certificado de registo civil no portal da caixa de pensões.

Não tem endereço de email. O último computador foi um desktop em segunda mão que avariou por volta da altura em que os netos passaram do MSN para o Instagram. O balcão local da caixa de pensões fechou há três anos, substituído por um “balcão digital” regional. O balcão aberto mais próximo fica a 40 quilómetros.

O Louis foi à câmara municipal, onde a funcionária encolheu os ombros: “Agora é tudo online.” Saiu com o mesmo envelope na mão e a sensação de estar a ser apagado, discretamente.

Este é o lado escondido da “digitalização”. No papel, a reforma parece eficiente: menos filas, menos carimbos, tratamento mais rápido. Na vida real, cria um filtro silencioso que separa quem navega formulários, digitalizações e palavras-passe de quem se perde logo na página de login.

Para a administração, um PDF em falta é um pequeno detalhe técnico. Para uma pessoa de 75 anos sem impressora, é um muro.

Sejamos honestos: ninguém carrega documentos perfeitos, a tempo, todas as vezes. A diferença é que os mais novos corrigem os erros com três toques no smartphone. Os reformados sem internet só veem o comboio passar sem eles.

Como obter o aumento da pensão quando não se vive “online”

Há uma saída para esta armadilha digital, mas raramente aparece nas letras pequenas. O primeiro passo é brutalmente simples: não ignore nenhuma carta que mencione “atualização”, “certificado” ou “prova de vida”. Ponha esses envelopes de lado, num local visível, mesmo que não perceba logo o vocabulário.

Depois, antes do prazo de 8 de fevereiro, ligue do telefone fixo para o número da caixa de pensões indicado na carta. Peça uma alternativa em papel: envio do certificado por correio, entrega presencial, ou preenchimento num parceiro local como a câmara municipal, um centro social ou os CTT.

Parece antiquado. Na verdade, é um direito.

Muitos reformados caem na mesma armadilha previsível: esperam, na esperança de que um filho ou neto “trate da coisa da internet” na próxima visita. Só que a visita atrasa-se, o prazo do formulário expira e o aumento fica adiado “até a situação estar regularizada”.

Outro erro frequente é deitar fora cartas que parecem demasiado complicadas ou oficiais, por cansaço ou vergonha. Ninguém quer admitir: “Não percebo o que estão a pedir.” Mas o sistema conta silenciosamente com esse silêncio.

Se esse é o seu caso, não está sozinho. Uma frase honesta ao balcão - “Não tenho internet, pode ajudar-me a enviar isto?” - pode desbloquear semanas de pagamentos retidos.

Algumas caixas de pensões começam a ouvir a irritação que sobe das mesas de cozinha e das salas das coletividades. Assistentes sociais relatam o mesmo desabafo, repetidamente:

“Eles sabem que nós não temos acesso à internet. Estão a contar que desistamos. É assim que poupam dinheiro.”

Para evitar ser um dos perdedores silenciosos desta viragem digital, ajudam alguns reflexos práticos. Quase dá para os tratar como uma lista afixada no frigorífico:

  • Guarde todas as cartas da pensão durante pelo menos um ano, mesmo as confusas.
  • Assim que lhe pedirem um documento, escreva o prazo em letras grandes num calendário.
  • Pergunte na câmara municipal ou nos CTT da sua zona se existe “apoio digital para tarefas administrativas”. Em muitos locais, existe.
  • Crie uma pasta simples com os principais documentos: identificação, dados bancários, comprovativo de morada, último recibo/extrato da pensão.
  • Fale sobre o aumento de 8 de fevereiro com vizinhos ou família. Uma pessoa com internet pode ajudar vários reformados de uma só vez.

Um aumento que expõe uma fratura mais profunda

Este aumento das pensões, condicionado a mais um certificado em falta, revela mais do que um problema técnico. Mostra o fosso entre dois mundos que vivem lado a lado. De um lado, apps, espaços online, chatbots e alertas por email. Do outro, telefones fixos, contas em papel e o hábito de fazer fila num balcão e falar com uma pessoa de verdade.

A transição digital foi vendida como progresso. Para muitos reformados, parece mais uma expulsão lenta da vida pública. Todos os anos, mais um serviço passa a ser “apenas online” e, todos os anos, mais alguns milhares de pessoas saem discretamente do sistema porque um formulário não foi devolvido, uma palavra-passe foi esquecida, um código foi enviado por SMS para um telemóvel que não têm.

O aumento de 8 de fevereiro vai pôr mais alguns euros no bolso de quem conseguir passar pelo aro digital. Os outros vão apertar ainda mais o cinto, muitas vezes sem sequer saberem que supostamente iam receber mais.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Condição escondida O aumento da pensão a partir de 8 de fevereiro depende de um processo “completo” e de certificados em falta Perceber porque é que um aumento prometido pode não aparecer no extrato bancário
Opções fora da internet Formulários em papel, apoio por telefone e ajuda de câmaras municipais ou centros sociais ainda existem, mas são pouco divulgados Formas concretas de obter o aumento mesmo sem acesso à internet
Estratégia coletiva Vizinhos, família e serviços locais podem partilhar competências digitais para ajudar vários reformados Reduzir o stress e evitar perder dinheiro ao enfrentar o processo em conjunto

FAQ:

  • Pergunta 1 Quem é que, exatamente, verá a sua pensão aumentar a partir de 8 de fevereiro?
  • Resposta 1 Todos os reformados elegíveis cujas pensões estejam abrangidas pela revalorização prevista e cujos processos sejam considerados completos pela respetiva caixa de pensões. Quem tiver um certificado em falta ou um documento por atualizar pode ver o aumento bloqueado até a situação ser regularizada.

  • Pergunta 2 Que tipo de “certificado em falta” pode bloquear o aumento?

  • Resposta 2 Na maioria dos casos, é uma prova de vida, comprovativo de residência, dados bancários atualizados ou um documento de registo civil. A natureza exata é indicada na carta ou email da sua caixa de pensões, normalmente referida pelo nome do formulário ou documento.

  • Pergunta 3 O que posso fazer se não tiver internet em casa?

  • Resposta 3 Ligue para o número indicado na carta e peça para enviar o certificado por correio ou para tratar do assunto num balcão parceiro. Também pode ir à câmara municipal, aos serviços sociais ou a uma estação dos CTT para perguntar se prestam apoio em procedimentos administrativos online.

  • Pergunta 4 Um familiar ou vizinho pode carregar o certificado por mim?

  • Resposta 4 Sim, se confiar-lhe os seus documentos e dados pessoais. Essa pessoa pode criar ou usar o seu espaço online com a sua autorização, digitalizar ou fotografar o certificado e submetê-lo. É prudente guardar uma cópia em papel de tudo o que for enviado em seu nome.

  • Pergunta 5 E se eu falhei o prazo e não enviei o certificado a tempo?

  • Resposta 5 Normalmente, a sua pensão não é cancelada, mas o aumento pode ser adiado. Contacte a sua caixa de pensões o mais depressa possível, envie o documento pedido e pergunte a partir de que data a pensão será recalculada. Em alguns casos, pode obter um acerto retroativo, dependendo das regras aplicadas.

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