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A partir de 1 de março, todos os cães devem passar num teste obrigatório de obediência, sob pena de multa e proibição de ter animais - medida polémica que divide vizinhos, treinadores e amantes de animais.

Cão com coleira ao lado de cone laranja, enquanto pessoa segura cartão. Duas pessoas assistem ao fundo em parque.

O dia em que ter um cão deixou de ser casual

Na esquina de uma rua qualquer perto do jardim, o parque parece diferente. Em vez de conversa descontraída, há donos a treinar: voltas curtas, “junto”, “larga”, contagens de segundos para um “senta” que treme.

O regulamento (ou a sua versão mais falada) aponta para 1 de março: cães com mais de seis meses teriam de passar um teste de “obediência cívica” com avaliador credenciado. Em termos práticos, o que costuma ser pedido é simples no papel:

  • caminhar à trela sem puxar de forma contínua
  • responder ao chamamento em ambiente com distrações
  • “senta”/“deita e fica” por alguns segundos
  • tolerar um estranho calmo e ruídos comuns (trânsito, skate, obras)

O problema é o contexto. Um teste curto, num dia específico, mede muito do cão (e do dono) naquele momento: stress, sono, dor, ambiente. Um cão que “sabe” em casa pode falhar na rua por excesso de estímulos - e isso não significa automaticamente perigo.

A procura por simulações e aulas disparou. Quem tem um resgatado ou um cão reativo sente o peso de forma diferente: a ansiedade não é só “passar ou reprovar”, é o que vem depois. Em algumas versões do debate público, fala-se de repetição obrigatória, coimas e restrições temporárias a quem acumular reprovações. Esses detalhes costumam variar por município e por regulamentação concreta - e é aí que a incerteza assusta.

Os defensores resumem a ideia a “ruas mais seguras”: menos incidentes, menos conflitos em parques, mais responsabilidade. Os críticos apontam o outro lado: testes pontuais não preveem bem situações-limite (dor, susto, pressão), e as exigências tendem a penalizar quem tem menos tempo, dinheiro ou apoio - mesmo que seja cuidadoso.

Como as pessoas estão a preparar os cães - e a si próprias

Quem começou cedo está, na prática, a ganhar tempo. A fórmula mais realista não é “treino militar”; é consistência curta e específica:

  • 10–15 minutos por dia, divididos em 2–4 micro-sessões
  • treino em locais reais (rua, à porta do prédio, perto de cafés), não só “no quintal”
  • aumentar distrações por etapas: primeiro à distância, depois mais perto

Um detalhe que faz diferença: o teste costuma avaliar comportamento visível, não intenções. Por isso, treinar “calma” vale tanto como treinar comandos. Regras úteis (e pouco glamorosas):

  • Trela curta dá controlo: em muitos contextos, 1,2–1,5 m é mais estável do que extensíveis.
  • Equipamento ajuda: peitoral em “Y” ou arnês bem ajustado tende a reduzir puxões sem magoar; coleiras de estrangulamento e correções duras frequentemente aumentam stress e reatividade.
  • Recompensa “a decisão certa”: quando o cão olha para si em vez de fixar o estímulo, marque e premie rápido (um segundo conta).
  • Se houver sinais de desconforto (bocejos repetidos, lamber o nariz, corpo rígido, cauda baixa, olhar fixo), afaste-se e simplifique - insistir costuma piorar.

Para quem está a começar agora, a prioridade é escolher o que dá mais retorno. Numa aula cheia ao fim do dia, o plano raramente é “tudo”: é trela solta, uma saudação calma, e parar quando há progresso.

Todos conhecemos a versão real da rua: chuva, sacos, autocarro a chegar, e o cão a saltar. Ter um cão não é Instagram; é repetição e gestão do caos. É por isso que um teste de alto risco toca num nervo: avalia o cão e expõe, ao mesmo tempo, as rotinas (ou a falta delas) do dono.

“O meu terrier veio para mim de um quintal onde nunca tinha visto um passeio”, diz Marco, treinador voluntário. “Com esta nova regra, no papel ele era ‘inapto para a vida cívica’. Seis meses depois, consegue ignorar um jogo de futebol e um cachorro-quente que caiu ao chão. Ele não mudou por medo de coimas. Mudou porque alguém finalmente falou a língua dele.”

Há um meio-termo silencioso: pessoas a fazer o melhor possível com tempo e dinheiro limitados. Para elas, ajuda mais um plano simples do que pressão extra:

  • Escolha uma competência por semana (ex.: passar por cães a 5–10 m sem puxar) e repita em mini-blocos.
  • Treine perto do cenário do exame, mas comece “fácil”: distância, horários calmos, menos ruído.
  • Combine ensaios com um vizinho e um cão calmo para simular cruzamentos e cumprimentos.
  • Registe 30 segundos de vídeo por semana para ver progresso real (não só sensação).

Uma lei sobre cães que, na verdade, é sobre nós

Sem juridiquês, a regra mexe em pertença: quem pode ocupar espaço público - e sob que condições. Um cão que entra em pânico com motas ou salta para cumprimentar deixa de ser “um pouco demais”; passa a ser um problema administrativo.

À mesa do café, o debate divide-se. Há quem queira finalmente limites para donos que deixam tudo “ao acaso”. E há quem tema que pessoas idosas, famílias com menos recursos ou quem vive sozinho seja empurrado para desistir - não por falta de afeto, mas por falta de margem (dinheiro para aulas, horários para treinar, transporte para testes). Na prática, um processo destes também pode ter custos escondidos: deslocações, marcações com semanas de espera e aulas que, muitas vezes, ficam na ordem de dezenas de euros por sessão.

A pergunta difícil é o “dia depois”: o que acontece aos cães que não passam, ou a quem desiste por medo? Abrigos e associações receiam entregas em cima do prazo. Alguns veterinários e treinadores defendem alternativas mais úteis do que um “passa/não passa”: planos de aulas acompanhadas, reavaliações por etapas, e exceções claras para casos de saúde, idade ou histórico de trauma - quando isso estiver previsto.

No fim, 1 de março (ou o prazo que vier a contar) muda a forma como a cidade olha para trelas e encontros. Se virar um ponto de viragem ou apenas uma fonte de conflito vai depender menos do texto e mais da execução: critérios claros, avaliadores consistentes, caminhos de melhoria acessíveis e uma comunidade menos punitiva.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Novo teste de obediência cívica Previsto como obrigatório a partir de 1 de março para cães >6 meses, com avaliadores credenciados Ajuda a perceber se o seu cão pode ser afetado e o que costuma ser pedido
Consequências reais para os donos Possíveis coimas, repetição do teste e restrições após reprovações (dependendo do regulamento aplicável) Clarifica o que é risco real vs. rumor e onde pode variar
Formas de preparação Sessões curtas, treino em ambientes reais, progressão por etapas e apoio de vizinhos/treinador Dá um plano prático sem cair em pânico ou “dicas vagas”

FAQ:

  • Vão levar o meu cão se ele falhar o teste uma vez? Em muitas propostas, a primeira reprovação leva a nova marcação após um período de treino, não a remoção imediata. O que acontece “a seguir” depende do regulamento e do histórico do animal.
  • Como é, na prática, o teste de “obediência cívica”? Normalmente inclui andar à trela em espaço público, um chamamento simples, “senta”/“deita e fica” por alguns segundos, reação a ruído e contacto breve com um estranho calmo.
  • Donos mais velhos ou com deficiência ainda conseguem passar com os seus cães? Muitas avaliações podem (e devem) focar-se no comportamento do cão e na segurança, não em desempenho físico do humano. Vale a pena pedir previamente quais adaptações são aceites (ex.: forma de segurar a trela).
  • Algumas raças têm mais probabilidade de falhar? Estereótipos influenciam perceções, mas o resultado costuma depender mais de socialização, treino consistente, genética individual e gestão do ambiente do que da raça “em si”.
  • Com que antecedência devo começar a preparar o meu cachorro? Comece cedo com exposição calma e positiva. Após o plano de vacinação e autorização do veterinário para a rua, foque-se em habituar a sons, pessoas e superfícies - mais do que “martelar” comandos.

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