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A neurociência revela o traço de personalidade que prospera com críticas e explica porque algumas pessoas detestam ouvi-las.

Mulher em escritório, segurando papéis e usando smartphone, laptop e fones na mesa. Notas coloridas na parede ao fundo.

A sala ficou em silêncio um pouco depressa demais.
A Anna mal tinha terminado - “Posso dar-te algum feedback?” - e já havia ombros tensos, olhos no portátil, canetas a bater na mesa.

Do outro lado, o James inclinou-se para a frente, atento. A mesma frase. Reações internas muito diferentes.

O que acontece no cérebro quando alguém diz: “Deixa-me ser honesto contigo…”?

O traço de personalidade que não vacila quando o feedback chega

Um traço aparece repetidamente quando se estuda quem lida melhor com crítica: elevada abertura à experiência (curiosidade, flexibilidade mental, interesse em aprender).

Na prática, este traço tende a mudar a interpretação imediata:

  • “Estão a atacar-me”
  • vs. “Isto é informação sobre o trabalho”

Em estudos com neuroimagem, pessoas com mais abertura costumam mostrar mais atividade em redes ligadas a aprendizagem, exploração e controlo cognitivo, e menos “pico” em respostas de ameaça (a sensação de alarme, vergonha ou dor social).

Em contexto de trabalho (reuniões de desempenho, revisões de projetos, feedback do cliente), isto vê-se no comportamento: algumas pessoas saem a ruminar e a evitar; outras saem a testar hipóteses, a pedir exemplos e a ajustar o próximo passo.

Importa um detalhe: não é que “não sintam”. Muitas sentem o desconforto - só que a mente redireciona mais depressa para utilidade (“O que faço com isto?”).

O outro lado também é comum: baixa abertura e/ou elevado neuroticismo (maior sensibilidade a ameaça e incerteza) tornam a crítica mais parecida com perigo. A investigação sobre dor social sugere que rejeição e feedback duro podem ativar circuitos sobrepostos aos da dor física. Por isso, um “Este slide está confuso” pode mesmo cair como uma bofetada - primeiro reage o alarme emocional, só depois entra o raciocínio.

Regra útil: quando a crítica te apanha “a quente”, não assumes logo que és fraco ou dramático - muitas vezes é fisiologia + história pessoal a falar.

Porque é que alguns cérebros transformam a crítica em combustível - e outros em autodesconfiança

Uma estratégia simples (e treinável) aparece em quem lida melhor: separar feedback de identidade.

Em vez de “O que isto diz sobre mim?”, mudar para: “O que isto diz sobre a tarefa, o processo ou o resultado?”
É uma alteração pequena na frase - e grande no efeito, porque empurra o cérebro para reenquadrar e regular a emoção.

Podes praticar como micro-ritual de 10 segundos:
Pára. Respira uma vez. Pergunta: “Se isto fosse só sobre o trabalho, o que é que eu faria a seguir?”

Porque é difícil? Porque muitos de nós foram treinados a associar crítica a vergonha: escola, caneta vermelha, comparações, “podia ser melhor”, ou ambientes onde o erro era “prova” de falta de valor. O cérebro aprende um atalho: feedback = perigo. Em adulto, isso aparece como:

  • justificar demais antes de alguém falar
  • evitar avaliações/reuniões
  • pedir desculpa preventivamente
  • ruminar horas sobre uma frase

Aqui ajuda a ideia de mentalidade fixa vs. mentalidade de crescimento: quem está em modo “fixo” ouve crítica como veredicto (“não sou capaz”); quem está mais em modo “crescimento” ouve como dados (nem sempre justos, mas utilizáveis).

Dois cuidados práticos que costumam fazer diferença (e quase ninguém diz):

1) Estado físico influencia a defensividade. Cansaço, stress e fome aumentam reatividade. Se conseguires, marca conversas difíceis para momentos com mais energia (e não às 18h30 depois de um dia inteiro).
2) Nem todo o feedback é bom feedback. Crítica vaga (“está fraco”) dispara ameaça e dá pouca informação. Feedback específico reduz ruído e aumenta ação.

Uma rotina curta para lidar sem entrar em espiral:

  • Repara na primeira reação (vergonha, raiva, curiosidade, entorpecimento).
  • Dá-lhe um nome: “Isto é alarme, não é a realidade toda.”
  • Pede concretização: “Podes dar um exemplo?” / “Em que parte, exatamente?”
  • Anota uma frase (para tirar da cabeça e não virar ruminação).
  • Espera um dia antes de decidir se concordas, se ignoras, ou se respondes.

Viver com a crítica num mundo que nunca para de comentar

Hoje há avaliação em todo o lado: comentários, “gostos”, mensagens diretas, reviews, e feedback constante no trabalho. O cérebro humano não foi desenhado para este raio‑X social permanente - por isso é normal ficar tenso só de ouvir “Posso dizer uma coisa?”.

O objetivo realista não é “adorar crítica”. É conseguir usar o que é útil sem te queimares.

Duas regras de bolso ajudam:

  • Filtro da fonte: esta pessoa percebe do assunto, quer ajudar e consegue ser concreta? Se não, trata como opinião, não como diagnóstico.
  • Separar conteúdo de tom: às vezes o tom é mau, mas há 5–10% aproveitável; outras vezes é só agressão disfarçada de “honestidade”.

Nalguns dias, a resposta mais forte é: “Isto doeu. Vou pensar e depois digo-te.” E vais caminhar, tomar ar, dormir - porque o cérebro regula melhor com distância.
Noutros dias, a resposta saudável é interna: “Isto não é feedback, é maldade.” E fecha-se a porta.

Nem toda a crítica merece entrar no teu sistema nervoso.

A pergunta útil não é “sou aberto ou fechado?”. É: “Que história conto a mim próprio quando alguém aponta uma falha?”
“Estou a falhar outra vez” vs. “Isto é informação desconfortável que pode melhorar a próxima tentativa”.

O traço que prospera com crítica raramente é coragem heróica. É curiosidade praticada - imperfeita, mas consistente.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Abertura à experiência Ligada à curiosidade e ao pensamento flexível perante o feedback Ajuda a perceber porque algumas pessoas crescem com a crítica em vez de encolherem
Modo ameaça vs. modo aprendizagem O cérebro pode entrar em alarme (dor social/ameaça) ou em exploração (aprendizagem), dependendo de traços, energia e contexto Dá linguagem às tuas reações e um caminho para as reenquadrar lentamente
Rituais mentais simples Pausar, reenquadrar, pedir exemplos, anotar e esperar antes de reagir Passos concretos para lidar com a crítica sem te afogares nela

FAQ:

  • Odear críticas é sinal de fraqueza? Não. Muitas vezes reflete experiências passadas, traços como elevado neuroticismo e um cérebro habituado a tratar feedback como ameaça social, não como informação neutra.
  • Consigo aprender a tolerar melhor a crítica? Em muitos casos, sim. Pausas curtas, perguntas de clarificação e separar “o meu valor” desta ação específica treinam o cérebro a reagir com menos alarme.
  • Porque é que algumas pessoas parecem gostar de feedback duro? Muitas têm alta abertura e tendem a transformar crítica em tarefa: procuram padrões, pedem exemplos e testam ajustes, em vez de ficarem presas ao veredicto pessoal.
  • E se a crítica for injusta ou maldosa? Protege-te: avalia a fonte, guarda a parte concreta (se existir) e descarta o resto. Não tens de “crescer” a partir do mau comportamento de alguém.
  • Como posso dar críticas sem desencadear defensividade? Sê específico e breve. Foca-te em comportamentos e impacto (ex.: “na reunião X, quando aconteceu Y, o efeito foi Z”), propõe um próximo passo e confirma entendimento (“faz sentido?”).

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