Saltar para o conteúdo

A ligação inquietante entre infidelidade e criminalidade

Homem usando telemóvel na mesa com envelope, chave, caneca e anel de ouro.

Numa noite de quinta-feira, num bar apinhado, vi uma vez um homem sobressaltar-se quando o telemóvel se iluminou. O nome da mulher apareceu no ecrã. Virou-o com o ecrã para baixo, riu alto demais de uma piada que não tinha ouvido e pediu mais uma rodada. Vinte minutos depois, saiu discretamente para a rua, com a mão de uma colega pousada nas suas costas.

Ninguém naquele bar viu um crime. Apenas um cliché do amor moderno.

E, no entanto, se falar com detetives, advogados de divórcio ou unidades de cibercrime, a linha entre trair e comportamento criminoso começa a esbater-se. Telemóveis escondidos, perfis falsos, extratos bancários adulterados, apartamentos secretos.

Uma pequena mentira, e depois outra.

Em pouco tempo, o mapa da traição começa a parecer, de forma inquietante, o esboço inicial de um auto policial.

A ladeira escorregadia: de mensagens secretas a atos ilegais

Quando os psicólogos falam de “infidelidade”, não estão a falar apenas de sexo. Estão a falar de segredo, de vidas duplas e de uma mentalidade que, em silêncio, diz: “As regras não se aplicam totalmente a mim.”

Essa mentalidade é a mesma que muitas vezes aparece na pequena criminalidade, na fraude e, por vezes, na violência. Resultados diferentes, o mesmo ponto de partida.

O que começa com uma conta de Tinder escondida ou um almoço “que não significou nada” pode evoluir para mensagens apagadas, levantamentos em dinheiro ou mentiras em formulários oficiais para esconder um/a amante. Passo a passo, o/a parceiro/a que trai torna-se alguém que ensaia a fraude todos os dias. O hábito endurece. O limiar para fazer o que é errado desce.

Veja-se o caso de um gestor intermédio em Chicago, anonimizado num estudo de criminologia de 2023. Começou com mensagens flirt com uma colega de trabalho e depois um caso curto. Quando a mulher desconfiou, abriu uma conta bancária secreta para pagar hotéis e presentes.

Para justificar essas despesas no trabalho, começou a falsificar relatórios de reembolsos. Pouco a pouco, a história da traição passou para a fraude corporativa. Quando a empresa deu por isso, tinham desaparecido mais de 40.000 dólares. O caso já tinha terminado.

O que ficou não foi o romance. Foi o rasto em papel. As mentiras que antes “protegiam o casamento” passaram, de repente, a parecer-se muito com apropriação indevida.

Os investigadores têm um termo para este cruzamento: traços antissociais. Nada de vilões de cinema - apenas um padrão de desrespeito pelas regras, impulsividade e baixa empatia pelas consequências. Vários estudos de grande dimensão mostram que pessoas com pontuações elevadas em traços como narcisismo ou maquiavelismo têm maior probabilidade de trair e maior probabilidade de se envolver em crime económico.

Estão treinadas a usar máscaras.

Quando se normaliza mentir à pessoa mais próxima da nossa vida, mentir num pedido de crédito ou numa declaração de impostos parece, estranhamente, menos dramático. O cérebro aprende que, desde que não se seja apanhado, a realidade pode ser “editada”.

Quando triângulos amorosos colidem com o sistema de justiça

Há também uma ligação mais sombria e direta: a infidelidade como gatilho para crime. Processos policiais em muitos países estão cheios de “crimes passionais” em que o incidente desencadeador é uma mensagem descoberta, uma partilha de localização que correu mal, uma fotografia no telemóvel de alguém.

Uma análise britânica de homicídios em contexto doméstico concluiu que uma parte significativa foi antecedida por suspeitas ou descobertas de traição. Ciúme, humilhação, medo de perder o controlo - tudo isso pode explodir em salas de estar e parques de estacionamento às duas da manhã.

Tendemos a imaginar estes episódios como explosões súbitas, mas muitas vezes assentam numa longa acumulação de gaslighting, stalking, espionagem digital e abuso emocional. O caso não é o início; é apenas a faísca que finalmente atinge os vapores.

Uma juíza de direito da família em Paris descreveu um padrão que vê quase todas as semanas. Um/a cônjuge descobre um caso, tenta aceder às contas financeiras partilhadas e percebe então que foram feitos empréstimos em seu nome. Um carro cuja existência desconhecia. Um segundo telemóvel. Subscrições, viagens, contas de hotel espalhadas ao longo de vários anos.

No papel, é fraude financeira. Na vida real, é como acordar dentro da vida de um/a desconhecido/a.

E depois vem a parte que a juíza vê e que os amigos raramente veem: os atos de retaliação. Denunciar o/a parceiro/a às finanças. Ameaças de “arruinar” carreiras. Acesso não autorizado ao e-mail e às redes sociais para recolher provas. Um drama privado transforma-se num campo de batalha legal.

A carga emocional da traição também alimenta crimes digitais. As unidades de cibercrime reportam um fluxo crescente de casos baseados em vingança e controlo: parceiros/as a instalar aplicações de espionagem em telemóveis, a seguir localizações sem consentimento, a invadir backups na cloud para copiar fotografias íntimas.

Visto de fora, é óbvio que isto não é “desespero romântico” - é vigilância e assédio ilegais.

A verdade nua e crua: muitas pessoas que nunca se imaginariam como “criminosas” atravessam discretamente linhas legais quando se sentem com direito, magoadas ou desesperadas o suficiente em torno de um caso.

O que observar antes de a linha ser ultrapassada

Então, o que é que pode fazer com esta ligação perturbadora, para além de abanar a cabeça perante estatísticas e histórias de terror? Comece pequeno e concreto. Repare em como você - ou o/a seu/sua parceiro/a - lida com a tentação e a transparência no dia a dia.

Esconde o ecrã assim que alguém entra na sala? As “mentiras piedosas” sobre onde esteve tornam-se rotina? Há zonas financeiras da relação que parecem interditas sem qualquer razão clara?

Um método prático que muitos terapeutas sugerem é um “check-in de micro-verdades”: uma vez por semana, pergunta a si próprio/a: “Onde é que esta semana distorci a realidade com o/a meu/minha parceiro/a?” Não confessa tudo em voz alta. Apenas observa o padrão. Essa auditoria pessoal silenciosa pode ser uma luz amarela intermitente muito antes de aparecerem as luzes azuis de um carro patrulha.

Se já está a lidar com infidelidade, o objetivo não é viver na suspeita de cada movimento. É impedir que a dor emocional o/a empurre para o seu próprio comportamento de risco. Vasculhar o telemóvel do/a parceiro/a, aceder ao e-mail privado dele/a ou gravar conversas às escondidas pode parecer justificável quando lhe mentiram.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias com respeito perfeito por limites.

Ainda assim, alguns destes gestos de “só me estou a proteger” violam leis de privacidade ou podem destruir processos de regulação parental mais tarde. Em caso de dúvida, fale com um/a advogado/a ou um/a terapeuta antes de fazer de detetive amador/a. Eles/as já viram o que acontece quando a recolha de provas se transforma em auto-sabotagem.

“A infidelidade não cria um criminoso do nada”, diz um/a psicólogo/a forense que entrevistei, “mas expõe a forma como alguém se relaciona com regras, poder e culpa. É disso que o sistema de justiça acaba por tratar.”

  • Esteja atento/a ao aumento do secretismo
    Se as palavras-passe mudam de um dia para o outro, documentos financeiros desaparecem ou o/a seu/sua parceiro/a reage de forma agressiva a perguntas simples, isso não é apenas “precisar de espaço”. Pode sinalizar transgressões mais profundas - emocionais ou legais.

  • Repare nas suas próprias fantasias de vingança
    Pensar “eu podia destruí-lo/a com o que sei” é humano. Agir com base nisso, publicando fotos privadas, hackeando contas ou mentindo às autoridades, pode colocá-lo/a rapidamente em território criminal.

  • Documente, não dramatize
    Se tem receio de que esteja a acontecer algo ilegal - abuso financeiro, stalking, rastreio por GPS - anote datas, horas e factos. Capturas de ecrã, extratos bancários e notas neutras ajudam muito mais em tribunal do que explosões emocionais ou acusações aos gritos.

Viver com a tensão: amor, mentiras e a lei

Depois de ver esta ligação entre infidelidade e criminalidade, é difícil não a voltar a ver. Começa a notar quantas histórias de traição incluem, discretamente, fraude, dívidas escondidas, controlo abusivo ou rastos digitais secretos. Percebe que o “drama privado” que romantizamos em canções e séries muitas vezes anda de mãos dadas com comportamentos que juízes, e não poetas, acabarão por dissecar.

Ainda assim, relações não são tribunais. São confusas, cheias de zonas cinzentas, meias-verdades e momentos de que não nos orgulhamos. A ideia não é rotular cada pessoa infiel como um futuro criminoso, nem viver em paranoia sobre o que os outros poderão esconder. A ideia é respeitar o quão poderosa pode ser aquela primeira passagem da linha.

Cada um de nós tem uma palavra a dizer sobre como reage à traição - a sua ou a de outra pessoa. Uns vão aprofundar o secretismo, virar-se para a manipulação ou recorrer a ferramentas ilegais de controlo. Outros vão parar, conversar, separar-se ou procurar ajuda.

As mesmas emoções cruas. Histórias muito diferentes mais tarde - num tribunal, no consultório de um terapeuta ou à mesa silenciosa de uma cozinha, onde duas pessoas decidem que tipo de seres humanos querem ser a seguir.

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
A infidelidade treina a fraude Mentiras e secretismo regulares em torno de casos baixam a barreira interna para outras formas de desonestidade, incluindo má conduta financeira e digital. Ajuda a identificar sinais precoces de que um problema pessoal pode derrapar para risco legal.
A traição pode desencadear atos criminosos Ciúme, retaliação e necessidade de controlo frequentemente impulsionam stalking, hacking, partilha vingativa de fotos ou abuso financeiro. Incentiva a gerir emoções intensas sem cair em ações que possam prejudicar o seu futuro.
Escolhas conscientes mudam a trajetória Procurar apoio profissional, documentar com calma e respeitar limites pode impedir que uma crise relacional se torne num caso criminal. Dá uma forma mais sólida de navegar a infidelidade, caso alguma vez lhe aconteça a si ou a alguém próximo.

FAQ:

  • Pergunta 1 A traição significa automaticamente que alguém é criminoso?
  • Resposta 1 Não. A maioria das pessoas que trai nunca comete um crime. A ligação tem a ver com padrões: os mesmos traços que permitem a infidelidade - secretismo, sentimento de direito, desrespeito por regras - aparecem com mais frequência em certos tipos de comportamento criminoso.
  • Pergunta 2 Ver o telemóvel do/a meu/minha parceiro/a pode ser ilegal?
  • Resposta 2 Dependendo do seu país ou estado, aceder a um dispositivo, conta ou mensagens sem consentimento pode violar leis de privacidade ou de hacking, sobretudo se copiar ou partilhar a informação.
  • Pergunta 3 A “traição financeira” está ligada à infidelidade?
  • Resposta 3 Muitas vezes, sim. Casos secretos são frequentemente financiados com contas bancárias ocultas, levantamentos em dinheiro ou relatórios de despesas falsificados, o que pode passar para fraude ou abuso financeiro em agregados familiares com finanças partilhadas.
  • Pergunta 4 O que devo fazer se suspeitar que o/a meu/minha parceiro/a me está a rastrear?
  • Resposta 4 Documente o que observar, fale com um/a profissional de confiança (advogado/a, serviço de apoio a vítimas de violência doméstica ou especialista em segurança digital) e evite confrontar a pessoa de forma que possa agravar o risco.
  • Pergunta 5 Como me posso proteger legalmente durante uma separação após infidelidade?
  • Resposta 5 Reúna e guarde documentos essenciais em segurança, evite bisbilhotice ilegal ou atos de vingança e procure cedo aconselhamento de um/a profissional de direito que compreenda tanto direito da família como prova digital.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário