Saltar para o conteúdo

A demência não começa na velhice, mas sim na infância: como os primeiros anos de vida determinam, silenciosamente, o nosso futuro.

Idoso e criança jogam com peças coloridas numa mesa, focados na atividade dentro de uma sala decorada.

A mulher à frente do neurologista tem apenas 58 anos, mas é a filha quem faz a maior parte da conversa.
“Ele costumava reparar motores de olhos fechados”, diz ela, mostrando uma fotografia de um homem debaixo de um carro, a sorrir, coberto de óleo. Agora ele tem dificuldade em encontrar a palavra para “colher”. O exame no ecrã mostra as sombras familiares da demência. A família quer saber o que correu mal nos seus cinquenta anos. O médico, com cuidado, começa muito antes. Infeções na infância. Escolaridade. Poluição do ar na pequena cidade industrial. Traumatismos cranianos de jogos de futebol mais duros. A conversa recua décadas, para um tempo que ninguém pensou estar ligado.

A ideia desconfortável é esta: a velhice do seu cérebro começa a escrever-se muito antes do primeiro cabelo branco.

A demência começa muito antes do primeiro nome esquecido

Imaginamos a demência como algo que aparece do nada num corredor de um lar.
Um desenrolar lento que começa, de forma “arrumada”, na reforma. A investigação mais recente conta uma história diferente e mais inquietante. O cérebro que levamos para a velhice é o que fomos a construir - ou a negligenciar - desde a infância. Pequenas perdas, proteções silenciosas, forças invisíveis a empurrar e a puxar.

Quando surgem as primeiras falhas de memória a sério, um processo com décadas já esteve a trabalhar em segundo plano, como um programa a correr silenciosamente num computador sobrecarregado.

Um enorme estudo que acompanhou pessoas desde o nascimento no Reino Unido encontrou algo marcante. Crianças que cresceram em bairros mais pobres, com mais poluição e menos oportunidades de aprendizagem, apresentavam piores marcadores de saúde cerebral na meia-idade.
Não aos 80. Aos 45. Fluxo sanguíneo, volume cerebral, resultados em testes cognitivos - tudo a mostrar um atraso que remonta diretamente às condições da infância.

Outra linha de evidência vem de antigos registos escolares. Crianças com melhores competências de linguagem e matemática aos 11 anos têm, em média, menor probabilidade de desenvolver demência décadas mais tarde. Não porque fossem “mais inteligentes”, mas porque o cérebro construiu uma almofada cognitiva mais espessa.

Os cientistas chamam a essa almofada “reserva cognitiva”.
Imagine dois cérebros a entrar na velhice com o mesmo dano físico causado por placas ou pequenos AVC. Aquele que passou uma vida a ser desafiado, envolvido, nutrido e protegido consegue funcionar durante mais tempo, mesmo com cicatrizes internas. O outro mostra sintomas muito mais cedo.

Stress na infância, subnutrição, tédio, pancadas repetidas na cabeça no recreio - tudo isto vai retirando fatias minúsculas dessa reserva. Livros extra, brincadeira, ruas seguras, afeto estável, sono suficiente, boa alimentação, cuidados de saúde - tudo isto acrescenta camadas em silêncio. Não se nota no dia a dia. A fatura chega décadas depois.

O que faz hoje pelo cérebro de uma criança ecoa aos 70

Então, o que ajuda realmente um cérebro jovem a construir essa reserva escondida?
A resposta tem menos a ver com aplicações sofisticadas de “treino cerebral” e mais com a vida normal feita com qualidade. Uma criança que se mexe muito, dorme profundamente, come comida de verdade e se sente, em geral, segura já está a ganhar terreno. Uma criança cuja curiosidade é levada a sério - a quem se permite fazer perguntas “chatas”, desmontar coisas, receber explicações em vez de “porque eu mandei” - está a construir redes em que vai apoiar-se na velhice.

O mais poderoso não é uma grande intervenção. São mil pequenos empurrões, repetidos ao longo de anos, que dizem ao cérebro: mantém-te ativo, cresce, liga-te.

Veja-se a leitura, por exemplo. Não a pressão do “ler ao nível X na idade Y”, mas o ritmo simples de alguém ler para a criança e, mais tarde, ela ler sozinha. Um estudo finlandês de longo prazo concluiu que crianças que gostavam de ler e de puzzles cedo obtiveram melhores resultados em testes de raciocínio nos seus quarenta anos.
Não estamos a falar apenas de futuros professores universitários. Motoristas de autocarro, cabeleireiras, eletricistas - pessoas comuns cujas infâncias tiveram mais histórias e jogos que desafiavam um pouco o cérebro.

Num plano mais duro, crianças que sofreram concussões repetidas no desporto sem proteção adequada mostraram um risco mais elevado de declínio cognitivo mais tarde. Aqueles jogos de fim de semana, os momentos de “estás bem, levanta-te e segue”, deixam danos microscópicos que não recuperam totalmente. As pancadas acumulam-se.

Há também o ar que respiram. Crescer perto de vias rápidas, sob exposição constante a poluição por partículas finas, tem sido associado a volumes cerebrais menores e a maior risco de demência mais tarde.
Parece abstrato até lhe colocarmos rostos: a criança a fazer os trabalhos de casa junto a uma janela voltada para uma circular movimentada, o adolescente a correr ao longo de uma avenida congestionada porque é o único percurso “seguro”. Os cérebros vão lidando com inflamação, ano após ano.

Some-se a isso o stress de habitação instável, discussões constantes, ou nunca haver comida suficiente, e o cérebro entra em modo de sobrevivência. Em modo de sobrevivência, o investimento a longo prazo - criar ligações ricas, construir reserva - fica para segundo plano. Os efeitos são subtis aos 10. Rugem aos 70.

Não dá para reescrever a infância, mas dá para dobrar a curva

Se a sua própria infância esteve longe de ser ideal, a história não termina aí.
O cérebro continua a mudar, teimosamente, mesmo na meia-idade. O que começou como desvantagem pode ser parcialmente amortecido pelo que faz nos 30, 40 e 50 anos. Aprender uma nova língua, mudar de carreira, começar um hobby complexo como música ou marcenaria - tudo isto obriga o cérebro a criar nova cablagem.

Pense nisso como uma renovação tardia numa casa construída à pressa. Pode não mexer nos alicerces, mas ainda pode colocar vigas, abrir janelas, reforçar o telhado.

Para as crianças de quem gosta - filhos, sobrinhos, vizinhos, alunos - os hábitos mais protetores são enganadoramente simples. Movimento regular que acelere o coração. Rotinas sólidas de sono. Pequenos-almoços que se pareçam mais com aveia e fruta do que com açúcar e corantes. Conversas ao jantar que vão além de “Como correu o dia?” para “O que te surpreendeu hoje?” ou “O que achas que acontece se…?”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A vida real é caótica. Turnos, orçamentos apertados, stress. É por isso que até pequenos rituais repetidos contam. Uma caminhada e conversa de dez minutos depois da escola. Jogos de tabuleiro uma vez por semana. Desligar ecrãs meia hora antes de dormir em três noites de sete. Pequenos hábitos que continuam a sussurrar ao cérebro: cresce.

Um neurologista veterano em Londres pôs a questão assim:

“Continuamos a tratar a demência como um incêndio que começa aos 75, quando tantas das faíscas foram lançadas na escola primária.”

A conclusão não é afogar-se em culpa, mas agir onde realmente tem margem de manobra.

  • Para adultos: escolha uma atividade mental “difícil” em que se vai apoiar este ano - não scrolling, mas algo que, no início, o confunda.
  • Para crianças: proteja o sono e a brincadeira tão seriamente quanto os trabalhos de casa; um cérebro cansado aprende pior e envelhece mais depressa.
  • Para pais a envelhecer: incentive vida social e caminhadas em vez de mais uma tarde em frente à televisão.

Não podemos controlar os genes nem o ano em que nascemos. Podemos influenciar quão ocupados, nutridos e ligados os nossos neurónios se mantêm daqui para a frente.

Ponto-chave Detalhes Porque importa para os leitores
A aprendizagem na infância constrói “poupanças cerebrais” Linguagem rica, puzzles, música e experiências escolares variadas na infância aumentam a reserva cognitiva - a capacidade de reserva do cérebro para lidar com danos mais tarde. Se os seus filhos são pequenos agora, curiosidade e brincadeira do dia a dia são investimentos literais no risco de demência aos 70 e além.
Stress e pobreza deixam marcas cerebrais duradouras Crescer com stress crónico, insegurança ou fome coloca o cérebro em modo de sobrevivência, afinando ao longo de décadas áreas ligadas à memória e ao planeamento. Entender isto pode transformar vergonha em contexto e levar comunidades e famílias a lutar por apoio, em vez de culpar “más escolhas”.
Nunca é tarde para acrescentar novas ligações Aprender competências exigentes - línguas, instrumentos, artesanato complexo - na meia-idade pode engrossar redes cerebrais-chave e atrasar sintomas, mesmo com risco elevado. Leitores que temem que a infância lhes tenha sido desfavorável ainda podem “dobrar a sua curva”, começando por uma atividade desafiante e com significado.

As escolhas silenciosas que moldam as histórias de que nos lembramos

Numa viagem de autocarro tarde da noite, todos estão iluminados pelos ecrãs dos telemóveis.
Um homem pratica verbos em inglês em voz baixa, a partir de um caderno. Um adolescente vê um tutorial sobre como montar um PC para jogos. Uma avó percorre vídeos do neto a dar os primeiros passos. Cada um deles, sem pensar nisso, está a alimentar ou a faminto a sua memória futura. O cérebro não quer saber das nossas intenções. Segue apenas aquilo que repetimos.

Todos já tivemos aquele momento em que entramos numa divisão e não fazemos ideia porquê. Na maioria das vezes, é só cansaço ou distração. Para alguns, anos mais tarde, será o primeiro pequeno sinal de um declínio maior. Entre esses dois desfechos existe uma paisagem inteira de escolhas feitas em casas de infância, salas de aula, fábricas, escritórios, cozinhas.

A parte assustadora é quão cedo o jogo começa. A parte esperançosa é que ele não termina verdadeiramente até ao último dia em que aprende algo novo.

O seu destino não está escrito em pedra, apenas esboçado a lápis. A vida cedo empurra a linha, por vezes com força, mas cada nova competência, cada caminhada extra, cada adulto cuidadoso que olha uma criança nos olhos e responde às suas perguntas estranhas volta a pressionar essa linha.

Talvez a verdadeira pergunta não seja “Vou ter demência?”, mas “Como posso viver de forma a dar ao meu cérebro mais histórias, mais nomes, mais canções para segurar durante o máximo de tempo possível?”. É uma pergunta desconfortável. Também é, de forma estranha, capacitadora. E vale a pena ser partilhada à mesa, enquanto as pessoas que ama ainda conseguem contar, em detalhe, as suas memórias preferidas.

FAQ

  • A demência começa mesmo na infância? Não no sentido de uma criança ter demência, mas os processos que aumentam ou diminuem o risco começam muito cedo. Nutrição, qualidade da educação, stress, lesões na cabeça e poluição na infância moldam a resiliência do cérebro décadas mais tarde.
  • Se tive uma infância difícil, estou condenado(a) a desenvolver demência? Não. Maior risco não é destino. Adultos que continuam a aprender, a mexer-se, a socializar e a gerir a tensão arterial, a diabetes e o tabagismo podem atrasar ou até prevenir sintomas, mesmo que os primeiros anos tenham sido difíceis.
  • O que podem os pais fazer agora para proteger o cérebro futuro do filho? Priorizar sono, atividade física, conversa e brincadeira. Ler em conjunto, limitar o tempo de ecrã passivo constante, oferecer experiências variadas e tentar manter o stress em casa tão baixo e previsível quanto a vida real permita.
  • As apps de treino cerebral funcionam tão bem como se diz? A maioria melhora o desempenho nos jogos específicos que usa, mas tem efeitos modestos no raciocínio do dia a dia. Atividades complexas, com significado e sociais - como música, línguas ou voluntariado - parecem construir uma reserva cerebral mais ampla.
  • A demência é só genética? Genes como o APOE influenciam o risco, mas o estilo de vida e o ambiente explicam uma grande parte de quem desenvolve demência e quando. Duas pessoas com genes semelhantes podem envelhecer de forma muito diferente consoante a educação, hábitos de saúde e vida social.
  • Que idade é “tarde demais” para começar a proteger o cérebro? Não há um ponto de corte. Estudos mostram benefícios de mudar hábitos mesmo nos 60 e 70 anos. Deixar de fumar, tratar a perda auditiva, caminhar mais e aprender coisas novas ainda podem reduzir o risco ou abrandar o declínio.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário