Em todo o planeta, milhares de milhões de telemóveis e computadores antigos ficam por usar, cada um contendo pequenas quantidades de metal precioso. Investigadores chineses afirmam agora ter encontrado uma forma de recuperar esse ouro escondido de modo barato e limpo, podendo transformar o lixo eletrónico num recurso de 70 mil milhões de euros por ano.
Um filão escondido dentro de telemóveis “mortos”
O seu smartphone antigo parece não valer nada quando o ecrã parte ou a bateria deixa de funcionar. Lá dentro, porém, os seus circuitos têm um brilho microscópico de ouro. Não por decoração, mas por fiabilidade.
Os fabricantes usam ouro em contactos, chips e conectores porque conduz bem a eletricidade e resiste à corrosão. Bastam apenas alguns mícrons em cada componente - demasiado pouco para fazer diferença num único dispositivo.
A escala muda tudo. O lixo eletrónico global está a aumentar cerca de 2,6 milhões de toneladas por ano e deverá atingir aproximadamente 82 milhões de toneladas anuais até 2030, segundo relatórios apoiados pela ONU. Uma parte significativa dessa massa vem das placas de circuito impresso (PCBs) em telemóveis, portáteis, servidores e eletrónica industrial.
O ouro dentro de um único aparelho é quase irrelevante. Multiplique-o por dezenas de milhões de toneladas de lixo eletrónico e chega a dezenas de milhares de milhões de euros.
Estudos sugerem que as PCBs representam cerca de 5% do total de lixo eletrónico em peso. Isso daria cerca de 4,1 milhões de toneladas de placas por ano até 2030. Dados da indústria indicam que uma tonelada de placas contém, em média, cerca de 140 gramas de ouro. Só isto já aponta para uma vasta “mina urbana” que a humanidade mal conseguiu aproveitar.
Porque é que a recuperação tradicional de ouro do lixo eletrónico é tão problemática
Até agora, explorar este recurso tem tido um custo elevado. Os métodos convencionais dividem-se em duas grandes categorias:
- Fundição a alta temperatura em grandes fornos
- Lixiviação química com reagentes agressivos, como cianeto ou ácidos fortes
Ambas as abordagens exigem muita energia, infraestruturas especializadas e controlos rigorosos de poluição. Nos piores casos, recicladores informais em países mais pobres queimam cabos e placas de circuito ao ar livre ou usam banhos de ácido rudimentares, libertando fumos tóxicos e contaminando solos e águas.
A lixiviação à base de cianeto continua a ser altamente eficaz do ponto de vista puramente químico. Dissolve o ouro de forma eficiente, tornando-a atrativa tanto para a mineração como para a reciclagem. Mas o cianeto é extremamente tóxico. Qualquer fuga, má gestão ou descarga não controlada pode pôr em risco trabalhadores e comunidades próximas durante anos.
O resultado: enormes quantidades de lixo eletrónico continuam a ser armazenadas, exportadas, enterradas em aterro ou tratadas por operadores de pequena escala com proteção mínima, enquanto grande parte do ouro contido simplesmente se perde.
A química do “efeito dominó” de uma equipa chinesa
Uma forma diferente de fazer o ouro dissolver
Investigadores do Guangzhou Institute of Energy Conversion, da Academia Chinesa de Ciências, e da South China University of Technology propuseram uma via mais limpa. O seu processo usa uma solução aquosa à base de peroximonossulfato de potássio e cloreto de potássio.
No papel, esses compostos parecem banais. A parte engenhosa está na forma como se comportam quando entram em contacto com ouro ou paládio numa placa de circuito.
Em vez de adicionar um catalisador externo, o próprio metal torna-se o catalisador, desencadeando uma reação em cadeia que o remove da placa.
Quando a solução encontra ouro ou paládio, a superfície do metal ajuda a gerar oxidantes altamente reativos, incluindo oxigénio singlete e ácido hipocloroso. Estas espécies atacam átomos metálicos à superfície, destacam-nos um a um e ligam-nos a iões cloreto. O ouro dissolve-se então no líquido sob a forma de um complexo.
A equipa relata que o processo recupera 98,2% do ouro de processadores e placas usados em cerca de 20 minutos à temperatura ambiente. Para o paládio, outro metal valioso na eletrónica, a taxa de recuperação atinge 93,4%.
De placas sucata a lingotes: a economia
Para perceber o potencial, os investigadores testaram o processo em 10 quilogramas de placas de circuito descartadas. Desse lote, obtiveram cerca de 1,4 gramas de ouro. Pode parecer pouco, mas em volumes industriais os números crescem rapidamente.
Segundo os seus cálculos, tratar essa quantidade custa cerca de 65 €, o que equivale a aproximadamente 1.350 € por onça troy de ouro recuperado. No início de janeiro, o preço do ouro estava acima de 3.800 € por onça.
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Ouro por tonelada de placas de circuito | ≈ 140 g |
| Taxa de recuperação de ouro (novo processo) | 98,2% |
| Ouro global recuperável estimado | ≈ 564 toneladas/ano |
| Valor a 3.840,41 € por onça | ≈ 69,6 mil milhões €/ano |
A nível global, 4,1 milhões de toneladas de placas, a 140 gramas de ouro por tonelada, produzem um potencial teórico de 574 toneladas de ouro por ano. Com uma taxa de recuperação de 98,2%, isso traduz-se em cerca de 564 toneladas efetivamente capturadas.
Uma tonelada de ouro equivale a 32.150,7 onças troy. Multiplique 564 toneladas por esse valor e depois por um preço do ouro acima de 3.800 € por onça, e obtém quase 70 mil milhões de euros anuais.
Menor consumo de energia, menos resíduos tóxicos
Para além dos números brutos, o processo pretende reduzir a pegada ambiental da recuperação de ouro. A equipa de investigação estima que o consumo de energia diminui cerca de 62% face aos métodos convencionais de extração usados para materiais semelhantes.
A despesa com reagentes químicos, sobretudo em comparação com sistemas à base de cianeto, desce mais de 90%. Como o método funciona à temperatura ambiente e em condições relativamente moderadas, elimina a necessidade de fornos gigantes ou linhas de ácido altamente corrosivas.
Menos energia, menos cianeto, menos lamas tóxicas: a receita aponta para unidades de reciclagem mais locais e compactas, em vez de grandes fundições.
Após a lixiviação, o ouro dissolvido é recuperado através de etapas de redução e purificação eletroquímica, resultando num metal de elevada pureza. Os investigadores sublinham também que a solução pode ser regenerada ou gerida com controlo mais apertado do que muitos processos antigos, que frequentemente produzem grandes volumes de lamas contaminadas.
Da bancada de laboratório à escala industrial
Porque é que isto pode mesmo sair do laboratório
Muitas ideias de “química verde” funcionam muito bem num artigo científico, mas falham ao escalar. A equipa chinesa insiste que a sua abordagem evita várias armadilhas típicas.
- Sem pressões ou temperaturas extremas
- Sem dependência de catalisadores raros ou extremamente caros
- Requisitos de equipamento relativamente simples
Na prática, uma linha de tratamento compacta poderia, em teoria, ficar perto de centros de recolha de lixo eletrónico, polos industriais de reciclagem ou mesmo grandes oficinas de reparação de eletrónica. As placas chegariam já separadas dos dispositivos, passariam por uma etapa de trituração, depois por tanques de lixiviação e, por fim, por unidades de recuperação de metais.
Este desenho descentralizado contrasta com o modelo atual, que envia lixo eletrónico através de fronteiras para um pequeno número de grandes fundições. Rotas de transporte mais curtas também reduzem emissões e diminuem a tentação de encaminhar sucata para locais informais com fraca regulação.
Uma nova cadeia de valor industrial em torno de eletrónica “morta”
Se a economia se confirmar à escala, esta química pode reformular a forma como empresas e governos encaram os equipamentos no fim de vida. Telemóveis e PCs antigos deixariam de ser um problema de eliminação e passariam a ser vistos como minério secundário.
As marcas poderão criar programas de recolha com incentivos em dinheiro ligados ao valor dos materiais. Os municípios poderão repensar o lixo eletrónico como uma fonte de receita em vez de um centro de custos. Recicladores especializados já não dependeriam de margens minúsculas ou de atalhos arriscados para justificar a recuperação de ouro e paládio.
O que “mineração urbana” realmente significa
Esta história encaixa numa mudança maior para a “mineração urbana”: a ideia de tratar as cidades como reservatórios de metais presos em edifícios, veículos e eletrónica. O ouro é apenas um exemplo - embora muito lucrativo.
Ao contrário da mineração tradicional, extrair metais do lixo eletrónico utiliza, em geral, material que já provocou o seu principal impacto ambiental durante o fabrico. Reutilizar esse ouro pode reduzir a necessidade de nova extração a partir de minério, que tende a envolver minas a céu aberto, grandes barragens de rejeitados e longas cadeias de abastecimento.
Recuperar metais preciosos do lixo eletrónico não apaga os danos da mineração passada, mas pode abrandar a procura por novas escavações e reduzir a pressão sobre ecossistemas sensíveis.
Ao mesmo tempo, a mineração urbana não é uma solução milagrosa. Alguém continua a ter de recolher, separar e processar com segurança milhões de toneladas de sucata complexa. A eliminação segura de dados, o manuseamento de baterias e a rastreabilidade dos fluxos de materiais exigem regulação e fiscalização adequadas.
O que isto pode significar para consumidores e políticas públicas
Para as pessoas, a mensagem é simples: aquela gaveta cheia de gadgets antigos não é apenas tralha - é material por aproveitar. Se este tipo de reciclagem se generalizar, programas de retoma poderão começar a oferecer melhores valores, mesmo para dispositivos avariados. Manter eletrónica fora dos caixotes do lixo indiferenciado tornar-se-á ainda mais importante.
Para decisores políticos, os números levantam questões. Um recurso no valor de cerca de 70 mil milhões de euros por ano, atualmente subaproveitado e ligado a um problema de poluição, encaixa bem nos objetivos de economia circular. Isso pode levar a regras mais exigentes sobre responsabilidade do produtor, taxas mínimas de reciclagem e restrições à exportação de lixo eletrónico para países com controlos mais fracos.
Conceitos-chave por detrás da química
Dois termos técnicos estão no centro do processo chinês e frequentemente causam confusão.
- Autocatálise: uma reação em que um dos produtos ou componentes atua como o seu próprio catalisador. Aqui, a superfície de ouro ou paládio ajuda a gerar os oxidantes que, depois, o dissolvem.
- Lixiviação: um processo em que um solvente líquido extrai componentes específicos de um sólido. Na mineração e na reciclagem, a lixiviação dissolve seletivamente metais valiosos para que possam ser recuperados da solução.
Compreender estes princípios é importante para engenheiros e investidores que tentam avaliar se um sistema destes pode escalar para lá de demonstrações laboratoriais. A lixiviação autocatalítica pode, em teoria, autoajustar a sua velocidade com base na quantidade de metal ainda exposta, o que pode ajudar a controlar a eficiência e a segurança em diferentes tipos de sucata.
Os próximos anos mostrarão se esta química se torna um pilar da reciclagem industrial de lixo eletrónico ou se fica como curiosidade académica. O que já é claro é que a “mina” existe: milhares de milhões de minúsculas partículas de ouro, escondidas em telemóveis e computadores antigos, finalmente ao alcance de um processo que poderá torná-las recuperáveis de forma limpa e lucrativa.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário