Em Toulouse, a Airbus garantiu um novo acordo de grande dimensão com a Delta Air Lines, definindo o tom para um ano ambicioso na aviação de longo curso, na renovação de frotas e na concorrência transatlântica.
A grande aposta da Delta no crescimento do longo curso
A Delta Air Lines fez uma encomenda firme de 31 aviões widebody de nova geração à Airbus: 16 A330-900neo e 15 A350-900. A preços de catálogo, a encomenda atingiria cerca de 8,2 mil milhões de euros. Após os descontos habituais do setor, analistas estimam o valor real em pouco mais de 4 mil milhões de euros.
A nova encomenda da Delta reforça o domínio da Airbus na frota de longo curso da companhia aérea com maior receita do mundo, ao mesmo tempo que garante milhares de milhões de euros de receitas futuras.
A decisão encaixa-se na estratégia atual da Delta: reforçar as rotas internacionais, elevar a qualidade de cabine e extrair mais eficiência de cada voo de longa distância. Quando estes aviões entrarem ao serviço, a frota de longo curso da Delta incluirá 55 A330neo e 79 A350, dando à companhia uma das maiores frotas Airbus de corredor duplo do planeta.
De avião agrícola a peso pesado global
O perfil da Delta ajuda a explicar por que razão este negócio é tão importante para a Airbus. Fundada em 1924 na Luisiana como operadora de pulverização agrícola, a Delta só mudou para voos de passageiros em 1929. A mudança para Atlanta em 1941 transformou o que então era uma transportadora regional no futuro pilar de um dos hubs mais movimentados do mundo.
O verdadeiro salto aconteceu em 2008 com a aquisição da Northwest Airlines. Essa fusão consolidou posições fortes nos EUA, Europa, Ásia e América Latina, dando à Delta uma rede verdadeiramente global.
Quase duas décadas depois, os números sublinham a escala:
- Receita de 2025 de 63,4 mil milhões de dólares (cerca de 58 mil milhões de euros), a mais elevada nos rankings globais de companhias aéreas
- Uma frota principal perto de 1.000 aeronaves, além de mais de 300 jatos regionais
- 343 destinos em 66 países
- Crescimento em cabines premium, carga aérea e serviços de manutenção
Para a Airbus, ter um cliente deste calibre a reforçar a sua aposta no longo curso é um sinal comercial forte, tanto para investidores como para companhias rivais que ainda ponderam os seus planos de frota.
Uma parceria estrutural Airbus–Delta
A Delta já opera mais de 500 aeronaves Airbus, desde o pequeno A220 até ao A350-900 de longo alcance. Poucas companhias conseguem alinhar um portefólio Airbus tão contínuo nas operações de curto, médio e longo curso.
Mais de 200 aeronaves Airbus permanecem na carteira de encomendas da Delta, incluindo o maior A350-1000 para as rotas mais movimentadas, confirmando uma parceria industrial profunda e de longo prazo.
A estandardização está no centro desta relação. Quanto mais a Delta reduzir a diversidade de tipos de aeronaves e de cockpits, mais poupa em formação de pilotos, peças sobresselentes e infraestrutura de manutenção. Para a Airbus, essas escolhas traduzem-se em receitas recorrentes de serviços de apoio, atualizações e peças ao longo de várias décadas.
Porque o A330neo se adequa à rede da Delta
O A330-900neo, equipado com motores Rolls-Royce Trent 7000, pode cobrir até cerca de 15.000 km sem escalas. Esse alcance é ideal para a maioria dos voos transatlânticos e para uma boa parte dos serviços intercontinentais.
Comparado com widebodies mais antigos, o A330neo promete cerca de 25% menos consumo de combustível, emissões de CO₂ e custos operacionais. Para uma transportadora como a Delta, isso abre três opções-chave:
- Melhorar margens em rotas existentes
- Lançar ligações ponto-a-ponto mais “finas”, que não justificam uma aeronave maior
- Aposentar jatos envelhecidos mais cedo sem sacrificar capacidade
Muitos responsáveis pelo planeamento de frotas veem o A330neo como um avião de longo curso “canivete suíço”: versátil, de dimensão moderada, capaz de servir rotas com forte componente de negócios e também destinos de lazer, sem o risco de operar “gigantes” a meia lotação.
O A350 como espinha dorsal das rotas ultra-longas
O A350-900 joga numa liga superior em termos de alcance, até cerca de 18.000 km. Consegue ligar continentes sem escalas, mesmo em segmentos ultra-longos, mantendo um consumo de combustível relativamente baixo.
A sua estrutura utiliza uma elevada proporção de materiais compósitos, combinada com uma asa aerodinamicamente eficiente e motores de nova geração. Mais uma vez, a Airbus destaca um ganho de cerca de 25% em combustível, emissões e custos operacionais face aos tipos que substitui, como Boeing 777 mais antigos ou A340.
Para a Delta, o A350 forma a espinha dorsal dos serviços de referência: capitais europeias-chave, grandes portas de entrada asiáticas e cidades sul-americanas de elevada procura, onde a fiabilidade de horário e a qualidade de cabine têm forte peso comercial.
Conforto como arma comercial
Tanto o A330neo como o A350 incluem o design de cabine “Airspace” da Airbus. Embora o termo soe a marketing, as características são concretas: cabines mais silenciosas, compartimentos superiores maiores, corredores largos e iluminação LED cuidadosamente ajustada para reduzir o jet lag.
Num voo de 10 horas, pequenos ganhos de design - menos ruído, melhor circulação de ar, melhor iluminação - podem fazer a diferença entre “nunca mais” e “na próxima reservo esta companhia”.
A Delta tem vindo a reposicionar-se como transportadora premium no mercado doméstico dos EUA e nas rotas de longo curso, com melhorias em suites de classe executiva, premium economy e conectividade a bordo de alta velocidade. Widebodies Airbus modernos ajudam a sustentar essa narrativa, sobretudo face a rivais norte-americanos que ainda operam cabines mais antigas em algumas rotas internacionais.
Trajetória ambiental e prontidão para SAF
Ambas as famílias de aeronaves encomendadas pela Delta já podem operar com misturas de até 50% de SAF (combustível de aviação sustentável). A Airbus definiu publicamente como objetivo a compatibilidade com 100% de SAF em toda a sua frota até 2030.
Para as companhias aéreas, o SAF traz duas vantagens principais. Pode ser utilizado nos motores existentes com alterações limitadas e oferece um caminho para reduzir emissões ao longo do ciclo de vida antes de tecnologias disruptivas - como aeronaves a hidrogénio ou propulsão elétrica em grande escala - se tornarem viáveis.
| Aspeto | Hoje | Rumo a 2030 |
|---|---|---|
| Mistura de SAF permitida (A330neo/A350) | Até 50% | Objetivo: 100% |
| Poupança típica de combustível/emissões vs jatos antigos | Cerca de 25% | Maior à medida que a quota de SAF cresce |
| Disrupção tecnológica necessária | Alterações limitadas de infraestrutura | Evolução gradual de motores e certificação |
A Delta tem os seus próprios objetivos de carbono e enfrenta um escrutínio crescente de investidores e reguladores. Encomendar aeronaves eficientes e compatíveis com SAF não resolve todos os problemas, mas envia um sinal claro de que a companhia se está a preparar para regras climáticas mais apertadas e possíveis taxas sobre emissões.
A Airbus entra em 2026 com ímpeto
Este negócio com a Delta assenta numa base já sólida. Em 2025, a Airbus manteve a posição de líder global em entregas à frente da Boeing, entregando 793 aeronaves comerciais, cerca de 4% mais do que em 2024.
O fabricante excedeu ligeiramente o objetivo inicial de 790 entregas, apesar das tensões persistentes na cadeia de fornecimento. Alguns fornecedores, incluindo a Spirit AeroSystems, enfrentaram atrasos. A Airbus adquiriu recentemente parte das atividades da Spirit, com o objetivo de estabilizar o seu pipeline industrial.
A Airbus detém agora uma carteira de encomendas recorde de 8.754 aeronaves, avaliada em cerca de 570 mil milhões de euros, suficiente para manter as linhas de montagem ocupadas durante muitos anos.
Só em 2025, a Airbus registou 889 encomendas líquidas após cancelamentos, sendo 705 dessas para as famílias de corredor único A220 e A320. Jatos de longo curso como o A330neo e o A350 representam menos unidades, mas trazem preços mais elevados e maior visibilidade na produção de widebodies.
Para além dos aviões comerciais, a Airbus Helicopters detém cerca de 51% do mercado global de helicópteros civis, com 536 encomendas líquidas em 2025. As atividades de defesa e espaço também apresentaram um crescimento robusto, com a receita a subir 17% no primeiro semestre de 2025. Essa diversificação dá à Airbus maior resiliência quando o ciclo das companhias aéreas arrefece.
O que isto significa para viajantes e aeroportos
Para os passageiros, encomendas como a da Delta traduzem-se frequentemente em cabines mais silenciosas, melhor qualidade do ar e sistemas de entretenimento mais modernos. Nas rotas transatlânticas entre os EUA e a Europa, muitos viajantes notarão gradualmente a passagem de tipos de aeronaves mais antigos para A330neo e A350.
Os aeroportos também sentem o impacto. Widebodies bimotores mais eficientes reduzem a pegada de ruído e as emissões por passageiro, um argumento-chave para aeroportos sob pressão das comunidades locais. Alguns podem até usar aeronaves novas, de longo alcance e dimensão intermédia para atrair voos diretos para cidades que antes dependiam de hubs de ligação.
Termos-chave: carteira de encomendas, SAF e preço de catálogo
Três noções surgem frequentemente nestas histórias e podem causar confusão:
- Carteira de encomendas (backlog): o número total de aeronaves ainda por entregar ao abrigo de contratos existentes. Uma carteira elevada significa receitas futuras sólidas, mas também cria pressão para aumentar a produção.
- SAF (combustível de aviação sustentável): combustível de jato produzido a partir de fontes não fósseis, como óleos residuais, resíduos agrícolas ou carbono capturado. Procura reduzir emissões ao longo do ciclo de vida sem alterar fundamentalmente os motores das aeronaves.
- Preço de catálogo: o preço oficial de tabela de uma aeronave, raramente pago por inteiro por grandes companhias. Encomendas em volume e relações de longa data conduzem normalmente a descontos de 40–60%.
Quando analistas dizem que a encomenda da Delta “vale mais de 4 mil milhões de euros”, estão essencialmente a aplicar um desconto realista aos valores de catálogo da Airbus. Para os investidores, isto oferece uma visão mais realista do verdadeiro peso económico de negócios deste tipo.
Se as tendências atuais continuarem, 2026 poderá trazer mais anúncios desta natureza. As companhias aéreas correm para renovar frotas envelhecidas, cumprir compromissos climáticos e reconquistar passageiros nas rotas de longo curso. Para a Airbus, começar o ano com a principal companhia aérea do mundo em receita a assinar um cheque de grande dimensão estabelece um tom confiante para as batalhas que se avizinham.
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