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9 hábitos antigos que pessoas nos 60 e 70 anos mantêm e porque são mais felizes do que jovens obcecados por tecnologia.

Senhor idoso escreve numa mesa de cozinha ao lado de uma rádio vintage, uma chávena e um telemóvel.

Um grupo de amigos de cabelos prateados passa de mão em mão um álbum de fotografias gasto, a rir tanto que a barista continua a olhar para eles e a sorrir. Não há telemóveis em cima da mesa, ninguém a ouvir pela metade enquanto faz scroll. Só histórias, rostos e aquele tipo de riso que nos deixa com os olhos húmidos. Na mesa ao lado, alguém na casa dos vinte atualiza o Instagram pela quinta vez em três minutos, ombros tensos, olhar vidrado. O contraste é quase brutal.

Fala-se muito de como os “nativos digitais” têm tudo. Mais rápido, mais esperto, sempre ligado. E, no entanto, quem parece respirar com mais facilidade é muitas vezes quem cresceu a escrever cartas, não e-mails. Continuam a fazer coisas que, vistas de fora, parecem antiquadas - até teimosas. E, de alguma forma, dormem melhor.

Rituais à antiga que protegem discretamente a saúde mental

Passe tempo com pessoas nos 60 e 70 anos e vai notar um padrão: os seus dias são pontuados por rituais que parecem lentos, até ineficientes. Café de manhã à mesma hora. Um passeio sem auscultadores. Um telefonema ao domingo que dura uma hora e vai do estado do tempo aos mexericos antigos. Estes hábitos não viram tendência no TikTok. Não são “hacks”.

E, no entanto, formam uma espécie de andaime invisível. O dia tem uma coluna vertebral. Há âncoras com que se pode contar quando o resto da vida parece estar a andar depressa demais. Para uma geração que não foi criada com notificações push, estes ritmos à antiga são a sua versão de um antivírus mental. Silencioso, pouco sexy e surpreendentemente eficaz.

Pergunte à Margaret, 72 anos, como são as suas manhãs e ela encolhe os ombros como se fosse a história mais aborrecida do mundo. Acorda por volta das 7:30, abre as cortinas, dá de comer ao gato e depois senta-se à mesa da cozinha com um jornal de papel e uma faca de manteiga mais velha do que os netos. Demora quarenta minutos a passar pelas manchetes e pelas palavras cruzadas. O telemóvel fica na sala. “Se for urgente, ligam”, diz ela.

A neta, 23 anos, percorre três apps de notícias, um podcast e o Twitter antes de acabar de lavar os dentes. Às 8 da manhã, o cérebro já está a zumbir com ansiedade climática, raiva política e uma ligeira sensação de falhanço pessoal. Mesmo mundo, mesma hora do dia. Temperatura emocional completamente diferente.

Os psicólogos falam de “carga cognitiva”, mas as gerações mais velhas aprenderam isto pelo corpo. Ruído a mais e fica-se sobressaltado. Interrupções a mais e deixa-se de terminar pensamentos. Esses hábitos “lentos” - ler um jornal físico, cozinhar de raiz, cuidar de um jardim - limitam quantos estímulos atingem o cérebro ao mesmo tempo.

Os mais novos, obcecados por tecnologia, tiraram esses travões. Tudo, sempre, num ecrã que nunca se cala. O cérebro não foi feito para isso. Os métodos antigos criam intervalos naturais: esperar que a chaleira ferva, caminhar sem um podcast, falar com o vizinho em vez de atualizar o feed. Esses intervalos funcionam como pequenas válvulas de pressão. A felicidade, no mundo deles, tem menos a ver com perseguir boas vibrações e mais com evitar a sobrecarga constante.

Os 9 hábitos à antiga a que se agarram (e o que sabem que nós esquecemos)

Um hábito que se recusa a morrer: telefonemas a sério, à moda antiga, e visitas presenciais. Pessoas nos 60 e 70 anos ainda pegam no telefone fixo, ligam a um amigo “só para ouvir a tua voz”, ou aparecem com uma tarte e novidades. Para os mais novos, habituados a mandar mensagem primeiro, pedir uma janela de tempo, enviar um convite de calendário para tomar café como se fosse uma reunião, isto pode soar intrusivo.

Mas a voz e a presença fazem algo que uma mensagem não consegue. Ouvimos a hesitação antes de “está tudo bem”. Vemos o cansaço por trás de “está tudo ok”. A solidão raramente sobrevive a uma conversa longa à volta de um chá. As redes sociais dão-nos contacto; nem sempre nos dão ligação. Essa nuance é óbvia para quem passou os vinte anos a bater à porta dos vizinhos em vez de ver quem viu a story.

Veja como os vizinhos mais velhos se comportam durante uma crise. Um corte de luz, neve forte, uma onda de calor. Pessoas nos 60 e 70 anos começam a telefonar pela lista de contactos que têm colada no frigorífico. Sabem quem vive sozinho, quem tem problemas de mobilidade, quem pode precisar de leite ou pilhas. Ninguém publica “pensamentos e orações”; vestem um casaco e vão.

Num bairro social em Londres, em 2022, quando chegou a onda de calor, um antigo motorista de autocarro reformado organizou uma escala no corredor. Três moradores mais velhos iam ver cada apartamento do seu piso de manhã e ao fim do dia. Sem grupo de WhatsApp, sem folha de cálculo. Só hábito. “É o que se faz”, disse. “Cuidamos dos nossos.” Para os inquilinos mais novos, habituados a mandar DM’s em vez de tocar às campainhas, pareceu quase radical.

Há uma razão para estes hábitos analógicos fazerem as pessoas sentir-se mais seguras e, sim, mais felizes. Criam aquilo a que os investigadores chamam “redes sociais densas” - não seguidores online, mas pessoas que aparecem de facto. As gerações mais velhas construíram amizades com tempo partilhado, não com conteúdo partilhado. Os rituais - noites de bingo, café depois da missa, ensaios de coro, jogo da malha, voluntariado - são pontos de contacto repetidos.

A tecnologia pode ligar-nos a milhares, mas também torna as relações opcionais. Podemos silenciar, ignorar, passar à frente. Os hábitos à antiga removem parte desse atrito. Quando o clube de bridge é todas as quintas às 7, vai-se - mesmo cansado. E muitas vezes é nesse dia que se volta para casa mais leve. A felicidade apoia-se muito nesses pequenos momentos regulares em que alguém sabe o nosso nome e repara quando não estamos.

Outro hábito que não largam: escrever coisas em papel. Listas de compras no verso de envelopes. Aniversários num diário de cantos dobrados. Receitas num caderno manchado que vive ao lado do fogão. Parece pitoresco num mundo de lembretes e apps. Mas escrever à mão obriga a parar um segundo e pensar. O cérebro codifica a informação de outra forma.

Na prática, significa que não ficam à mercê de uma bateria descarregada ou de uma app que falhou. Num nível mais profundo, esses cadernos e listas tornam-se pequenos arquivos de uma vida. As notas na margem. O número do canalizador de 1999. O nome do cão do vizinho de há três casas. A memória não é terceirizada; tem uma casa física.

Aqui é onde os leitores mais novos tropeçam muitas vezes: transformam estes hábitos numa competição de perfeição. Bullet journals com códigos de cores. Manhãs “sem telemóvel” que duram dois dias antes de colapsarem. Rotinas de mindfulness em dez passos importadas do Instagram. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

As pessoas mais velhas raramente enquadram os seus hábitos dessa forma. São apenas “a maneira como faço as coisas”. Um passeio depois do jantar. Televisão a uma hora fixa, não autoplay infinito. Dinheiro num envelope para as compras, para o mês não lhes fugir das mãos. Não estão à procura de otimização. Estão à procura de algo que saiba bem e seja repetível, mesmo numa semana difícil.

Ouça como falam sobre tempo. Dizem “passo por aí mais tarde” em vez de “vamos marcar para daqui a três quintas-feiras”. Deixam espaços no dia, pequenas bolsas de tempo sem dono onde alguma coisa - ou nada - pode acontecer. Essa abertura é rara entre adultos mais jovens com agendas triplicadas entre biscates, treinos e planos sociais que parecem mais oportunidades de criação de conteúdo do que descanso.

Nós construímos calendários como Tetris; eles construíram dias como jardins. Um pouco de estrutura, um pouco de selvagem. Um pouco de poda. Muita paciência. E essa paciência faz algo suave ao sistema nervoso que os alertas push nunca farão.

Como disse o Jean, de 68 anos, durante uma chávena de chá demorada:

“A vossa geração está sempre ‘disponível’, mas ninguém tem tempo. Nós éramos mais difíceis de contactar, talvez, mas quando estávamos, estávamos mesmo.”

Na prática, a felicidade deles costuma resumir-se a três escolhas silenciosas que se repetem toda a semana:

  • Protegem certas alturas do dia dos ecrãs: pequeno-almoço, sesta, hora de dormir.
  • Tratam pequenas tarefas - lavar a loiça, descascar batatas, estender a roupa - como parte da vida, não como tarefas a terceirizar para uma app.
  • Continuam a aparecer presencialmente: funerais, casamentos, cafés da manhã, coro, clubes locais.

Estes hábitos não viram tendência. Não ficam bem em fotografia. E, no entanto, dão aos dias uma textura que os píxeis não conseguem imitar. Num ecrã, tudo é plano. Numa vida construída assim, alguns momentos são lindamente, gloriosamente tridimensionais.

O que a vida “ultrapassada” deles pode ensinar ao resto de nós

Há uma coisa curiosa que acontece quando nos sentamos com alguém nos 70 anos e essa pessoa explica como lida com o stress. Raramente usa a linguagem dos livros de autoajuda. Nada de “burnout”, nada de “detox de dopamina”, nada de “minimalismo digital”. Dizem: “Quando a minha cabeça fica demasiado barulhenta, vou regar as plantas”, ou “vou a pé às compras em vez de ir de autocarro, limpa as teias de aranha.” Simples, físico, repetível.

É aqui que a suposta “lacuna tecnológica” deles se transforma num superpoder discreto. Quando viveu a maior parte da vida offline, o primeiro instinto num momento difícil não é pegar no telemóvel. É mexer-se. Ou apanhar ar. Ou procurar outro ser humano. Só esse reflexo já muda o desfecho de um mau dia.

Um hábito destaca-se em quase todas as entrevistas com pessoas mais velhas e mais felizes: mantêm uma relação estável, quase teimosa, com o tédio. Lembram-se de longas tardes de infância sem nada para fazer. Salas de espera sem televisão. Viagens de comboio só com uma janela e um livro de bolso. Por isso, quando o presente abranda, não entram em pânico. Acomodam-se.

Num banco de jardim, um mecânico reformado de 74 anos resumiu bem: “Se não se passa nada, isso não é um problema para resolver.” Compare isso com o instinto de preencher cada silêncio com TikTok, cada fila com doomscrolling. As gerações mais novas fogem do tédio como de um vírus. O efeito secundário é nunca dar à mente a hipótese de vaguear para algum sítio novo.

Num metro cheio, dá para ver os dois mundos a colidir. Adolescentes de cabeça baixa no telemóvel, auscultadores, a saltar por três apps ao mesmo tempo. Mais à frente na carruagem, um pensionista olha pela janela, mãos pousadas num saco de compras, só a pensar. Numa plataforma cheia, todos já vivemos aquele momento em que pegamos no telemóvel só para evitar estar a sós com os nossos pensamentos durante trinta segundos.

Os mais velhos não cresceram com essa escotilha de fuga. Construíram músculos mentais para ficar com um sentimento até ele amolecer um pouco. Só esse hábito funciona como um amortecedor emocional. As más notícias caem sempre com força. Telemóveis do tamanho de tijolos não mudam isso. O que muda é a capacidade de estar com a notícia, depois ligar a um amigo, depois ir dar um passeio, em vez de desaparecer para um feed que entorpece e amplifica ao mesmo tempo.

Pergunte por que é que são mais felizes e não vão falar de algoritmos. Vão apontar para as rotinas: ir a pé aos correios em vez de clicar em “enviar”, fazer um bolo de memória em vez de procurar uma receita, escrever um cartão de melhoras em vez de mandar um emoji rápido. Mantiveram pequenos atritos de propósito, sem lhes chamar isso.

Esses atritos abrandam a vida o suficiente para ela poder ser sentida. A versão adulta obcecada por tecnologia pode parecer avanço rápido com o som desligado: movimento constante, memórias finas. Os adultos mais velhos, agarrados aos seus hábitos à antiga, acabaram por “hackear” acidentalmente algo que os mais novos agora tentam desesperadamente reconstruir com apps e painéis de controlo. Uma vida que não é otimizada, mas vivida por dentro.

Por isso, da próxima vez que se apanhar a rir do diário de papel da sua mãe ou da insistência do seu avô no dinheiro vivo e no telefone fixo, pare antes de revirar os olhos. Por baixo dessas escolhas “ultrapassadas” há uma lógica mais profunda: não terceirize tudo o que o torna humano. Alguma lentidão é inegociável. Alguns rituais não servem a eficiência, servem a manutenção da alma.

Os hábitos deles não o vão transformar noutra pessoa de um dia para o outro. Não são curas milagrosas. São mais como pequenas portas teimosas por onde pode escolher passar todos os dias: ligar em vez de mandar mensagem, escrever em vez de tocar no ecrã, caminhar em vez de fazer scroll. Do outro lado dessas portas, a vida costuma parecer um pouco menos frenética. E essa pequena mudança, ao longo dos anos, é como uma geração criada sem smartphones acaba silenciosamente por se sentir mais rica do que as que nunca levantam os olhos do seu.

Ponto-chave Detalhes Porque é importante para os leitores
Ligue e visite em vez de só mandar mensagens Reserve um momento por semana para telefonar a um familiar ou amigo mais velho e falar mesmo durante 20–30 minutos. Sem multitarefa, sem scroll durante a chamada. Se viverem perto, substitua uma dessas chamadas por mês por uma visita curta, nem que seja só para uma chávena de chá. Ouvir uma voz real e ver expressões reais cria uma proximidade emocional a que as DM’s nunca chegam. É das formas mais rápidas de se sentir menos sozinho e de criar o tipo de rede de apoio em que os mais velhos confiam.
Use papel para o que importa Tenha um caderno pequeno ou um calendário de parede para datas-chave, listas de tarefas e pensamentos mais longos. Escreva as listas de compras à mão e guarde as receitas de que gosta num lugar físico, em vez de espalhadas por apps. Escrever à mão abranda a mente o suficiente para reduzir a confusão mental. Lembra-se mais, sente-se menos disperso, e não fica perdido quando o telemóvel morre ou se esquece de uma palavra-passe.
Crie âncoras diárias simples Copie uma ou duas âncoras “à antiga” para o seu dia: pequeno-almoço sem dispositivos, um passeio de 15 minutos depois do jantar, ler um livro físico antes de dormir em vez de fazer scroll. Repita-as a horas mais ou menos fixas. Estas âncoras funcionam como guardas emocionais, dando ao dia um ritmo previsível. Essa regularidade está fortemente ligada a melhor sono, humor mais calmo e a felicidade mais silenciosa e estável que muitas pessoas mais velhas descrevem.

FAQ

  • As pessoas mais velhas são mesmo mais felizes, ou é só nostalgia? Vários estudos de grande dimensão mostram que a satisfação com a vida tende a subir novamente depois da meia-idade, mesmo tendo em conta problemas de saúde. Não é só nostalgia; hábitos como laços sociais fortes, rotinas previsíveis e menor uso de tecnologia contribuem para um humor diário mais calmo.
  • Tenho de abdicar do meu smartphone para beneficiar destes hábitos? Não. A ideia não é viver como se fosse 1975, mas aproveitar o que ainda funciona. Manter o telemóvel e acrescentar um ou dois rituais analógicos - listas escritas à mão, chamadas regulares, refeições sem dispositivos - já pode mudar o quão frenético ou equilibrado se sente.
  • Qual é uma pequena mudança que posso experimentar esta semana? Escolha um momento diário e torne-o livre de ecrãs: o pequeno-almoço, o trajeto, ou os 30 minutos antes de dormir. Use esse tempo para uma atividade “à antiga” como caminhar, ler ou ligar a alguém. Repare como se sente ao fim da semana.
  • Como me ligo mais a familiares mais velhos que não gostam de tecnologia? Adapte-se ao estilo deles: ligue em vez de mandar mensagem, envie uma nota curta escrita à mão, ou proponha um ritual presencial regular como almoço ao domingo ou um passeio semanal. Pergunte-lhes sobre as rotinas; a maioria partilha com gosto histórias e pequenos truques recolhidos ao longo de décadas.

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