Outros esgotam-no em silêncio - e as suas palavras acabam muitas vezes por denunciá-los.
Nas conversas do dia a dia, frases subtis podem revelar uma mentalidade que coloca sempre uma pessoa em primeiro lugar. Quando começa a prestar atenção à linguagem de pessoas egocêntricas, os padrões surgem muito rapidamente.
Como a linguagem egoísta molda as conversas em silêncio
O egoísmo nem sempre chega com gritos ou arrogância evidente. Muitas vezes entra pela porta de tons suaves, meio sorrisos e comentários aparentemente inofensivos. Mas por detrás dessas palavras está uma pergunta constante: “O que é que isto faz por mim?”
As pessoas centradas em si próprias raramente reparam no rasto que deixam. As pessoas à sua volta reparam.
Os psicólogos descrevem isto como uma mistura de baixa empatia e elevado sentido de direito. A pessoa não quer necessariamente magoar ninguém. Simplesmente vê o seu próprio tempo, necessidades e emoções como mais válidos do que os de qualquer outra pessoa. Os seus padrões de fala refletem essa hierarquia.
Aqui estão 11 frases comuns que muitas vezes sinalizam uma mentalidade profundamente egoísta - e o que normalmente significam por baixo da superfície.
1. “Devíamos fazê-lo como eu”
No papel, isto soa a conselho. Na realidade, muitas vezes esconde uma necessidade de controlo. Quando alguém repete frases como “Devíamos fazê-lo como eu” ou “Faz simplesmente como eu faço”, não está apenas a partilhar experiência. Está a estabelecer-se como padrão.
Este tipo de frase aparece muitas vezes:
- quando faz uma escolha que a pessoa não teria feito
- quando tem sucesso sem seguir o método dela
- quando a pessoa se sente ignorada ou posta de lado
Com o tempo, estes comentários podem minar a sua confiança. Pode começar a duvidar do seu próprio julgamento e a procurar a aprovação dessa pessoa antes de tomar decisões. Isso serve muito bem uma pessoa egoísta.
2. “Isso não é problema meu”
Toda a gente tem limites. Ninguém consegue resolver todas as crises. Mas quando “Isso não é problema meu” se torna a resposta por defeito, normalmente sinaliza mais do que limites saudáveis.
Dita de forma brusca, esta frase afasta qualquer responsabilidade emocional. Diz: “A tua luta não tem valor para mim.” Mesmo uma pequena mudança de tom - “Eu não consigo resolver isto, mas percebo porque estás chateado/a” - mudaria toda a interação. Uma pessoa egoísta raramente faz esse esforço.
O desvalor repetido das preocupações dos outros revela muitas vezes uma recusa mais profunda em reconhecer a realidade de alguém para além da própria.
3. “Eu, a mim, meu, minha” - repetidamente
Ninguém consegue falar sem usar “eu” de vez em quando. A pista está na proporção. Em conversas egoístas, a relação entre “eu” e “tu/você” fica completamente desequilibrada.
Pode reparar que a pessoa:
- raramente faz perguntas de seguimento sobre a sua vida
- responde à sua história com uma história maior sobre si própria
- só mostra interesse quando o tema volta a girar em torno dela
A conversa transforma-se num espetáculo a solo, consigo como audiência. Sai a sentir-se estranhamente invisível, mesmo tendo estado presente o tempo todo.
4. “Porque é que eu haveria de fazer isso?”
À superfície, pode soar racional. As pessoas querem razões. Mas quando esta frase surge sempre que pede ajuda, expõe a regra subjacente: “Se não me beneficia, não me dou ao trabalho.”
Ouve-a quando pede pequenos favores: cobrir um turno, ajudar a mover uma caixa, ouvir uma preocupação. Em vez de considerar a sua necessidade, a pessoa procura rapidamente um ganho pessoal. Se a resposta for “nenhum”, a conversa termina.
5. “Deverias ter…”
Esta frase vive no passado, mas controla o presente. “Deverias ter-me ligado”, “Deverias ter-me ouvido”, “Deverias ter feito o que eu disse.” Trata-se menos de o/a ajudar a melhorar e mais de provar que a pessoa tinha razão.
A linguagem do “deverias ter” muitas vezes esconde uma fome de se sentir superior, em vez de um desejo de apoiar.
Com o tempo, isto cria uma dinâmica em que os seus erros se tornam alimento para o ego da outra pessoa. Ela fica com o papel do/a sábio/a; você com o papel de quem nunca chega bem ao nível esperado.
6. “Não preciso de ninguém”
Isto pode soar forte e independente. E por vezes é. Mas, dito repetidamente e com um tom desdenhoso, costuma apontar para outra coisa: uma recusa em depender dos outros, acompanhada de um desprezo silencioso por quem depende.
Pessoas que dizem isto com frequência podem, em segredo, depender dos outros em termos práticos, mas evitam reconhecê-lo. Admitir necessidade colocá-las-ia ao mesmo nível de toda a gente - e isso parece ameaçador.
7. “Não tenho tempo para isso”
Toda a gente enfrenta pressão de tempo. A diferença está na forma como se fala disso. Uma pessoa equilibrada pode dizer: “Hoje não consigo, podemos tratar disso amanhã?” Uma pessoa egoísta usa “Não tenho tempo para isso” como um escudo.
A mensagem não dita? O horário dela importa mais do que a sua crise. As prioridades dela ganham sempre. Usada com regularidade, esta frase reduz qualquer espaço onde as suas necessidades poderiam caber.
8. “Isso não foi assim que aconteceu”
Esta frase introduz muitas vezes uma memória muito seletiva. Pessoas centradas em si próprias têm uma forte necessidade de serem protagonistas da sua versão dos acontecimentos. Se a história real ameaça a imagem que têm de si, ajustam-na.
| Quando confrontada | Resposta egoísta típica |
|---|---|
| Você recorda um comentário magoante | “Estás a exagerar, eu nunca disse isso.” |
| Você aponta uma promessa quebrada | “Isso não foi o que combinámos.” |
| Você menciona um erro da pessoa | “Estás a lembrar-te mal.” |
Este padrão, muitas vezes ligado ao viés autoindulgente, vai corroendo lentamente a sua confiança na sua própria memória. Essa perda beneficia quem está a reescrever o guião.
9. “Estou só a ser honesto/a”
Esta frase costuma aparecer depois de uma crítica dura: um comentário sobre o seu corpo, o seu parceiro/a, a sua carreira, a sua forma de educar. A pessoa atira o golpe e depois embrulha-o em “Estou só a ser honesto/a.”
O objetivo é simples: manter o poder de dizer o que quiser, evitando responsabilidade pela dor causada. A verdadeira honestidade pode ser desconfortável, mas costuma vir com cuidado, sentido de oportunidade e respeito pela dignidade partilhada.
Quando a “honestidade” é sempre para bater em quem está por baixo, deixa de ser dizer a verdade e torna-se uma arma socialmente aceitável.
10. “E eu?”
Estas duas palavras conseguem bloquear a empatia em segundos. Você partilha uma perda, um diagnóstico, uma preocupação com dinheiro. Em vez de ficar com a sua história, a pessoa vira-se de imediato: “E eu?”
A atenção volta para o stress dela, a desilusão dela, o dia dela. Os seus sentimentos tornam-se um breve trampolim para a narrativa dela. Pode começar a autocensurar-se, sabendo que qualquer tentativa de se abrir será sequestrada.
11. “Eu mereço melhor do que isto”
Um amor-próprio saudável soa mais a: “Isto não está a funcionar para mim, podemos falar?” Uma versão profundamente egoísta diz: “Eu mereço melhor do que isto” perante quase qualquer inconveniente.
Restaurantes, relações, empregos, amizades - nada é suficientemente bom. Por trás disto, está muitas vezes uma crença rígida: “As minhas necessidades vêm primeiro, sempre.” Quem não satisfaz essas necessidades torna-se descartável.
Como responder quando estas frases aparecem
Nem toda a gente que usa estas frases é um vilão. Stress, cansaço ou insegurança podem fazer qualquer pessoa soar mais centrada em si própria durante um dia. O sinal de alerta surge quando estes padrões se repetem ao longo do tempo e moldam toda a relação.
Alguns passos práticos podem ajudar:
- Dê nome ao padrão para si: repare como se sente depois das conversas - com energia ou drenado/a, ouvido/a ou posto/a de lado.
- Defina limites gentis mas firmes: “Não consigo falar se continuares a desvalorizar o que estou a dizer.”
- Reduza o investimento emocional quando alguém nunca retribui, mesmo que se mantenha educado/a à superfície.
- Procure vozes equilibradas: passe mais tempo com pessoas que fazem perguntas, ouvem e se lembram de detalhes da sua vida.
Quando o foco em si próprio se torna um hábito - e como pode mudar
Muitas destas frases vêm de hábitos aprendidos e não de intenção maldosa. Pessoas criadas em ambientes caóticos ou negligentes por vezes crescem a acreditar que, se não se colocarem sempre em primeiro lugar, vão desaparecer.
Terapeutas trabalham frequentemente três áreas-chave com clientes muito egocêntricos:
- construir curiosidade genuína sobre o mundo interior das outras pessoas
- tolerar situações em que não são o foco principal
- desafiar a crença de que o seu tempo e os seus sentimentos têm sempre mais peso
Para quem reconhece algumas destas frases na própria boca, um exercício útil é simples mas desconfortável: passe uma conversa inteira a fazer perguntas, a resumir o que a outra pessoa diz e a resistir ao impulso de trazer tudo de volta para si. O desconforto que sente costuma mostrar quão forte o hábito se tornou.
Para quem está do outro lado, aprender a identificar estas 11 frases pode funcionar como um sistema de alerta precoce. Dá-lhe margem para decidir: quero investir aqui, ou preciso de recuar antes que esta dinâmica molde o meu próprio sentido de valor?
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