Cats raramente gritam quando algo está errado. Em vez disso, enviam pequenos sinais precisos que muitos donos não notam. Aprender a ler esses sinais pode ser a diferença entre um problema menor e uma corrida a meio da noite para o veterinário de urgência.
Porque é que os gatos escondem os seus problemas
Na natureza, um animal doente ou fraco é um alvo fácil. Os gatos mantiveram esse instinto, mesmo num sofá aquecido. Tendem a disfarçar a dor e o desconforto, razão pela qual os sinais exteriores muitas vezes só aparecem tarde.
Os gatos raramente “exageram” a dor. Quando vê alterações claras, podem já estar a aguentar há dias.
Isto não significa que tenha de entrar em pânico com cada miado estranho. Significa, sim, que certas mudanças merecem toda a sua atenção, sobretudo quando acontecem várias ao mesmo tempo. Eis sete sinais‑chave de que o seu gato pode estar a pedir ajuda em silêncio - e o que pode fazer em cada caso.
1. Mudança súbita no apetite
Gatos adultos saudáveis são estranhamente consistentes com a comida. Quando deixam de comer, ou atacam a tigela como se nunca tivessem visto alimento, algo no corpo ou no estado emocional mudou.
Padrões de alerta à volta da comida
- Recusar comida por mais de 24 horas
- Comer e depois afastar-se após algumas dentadas
- Parecer com fome, mas ter dificuldade a mastigar ou deixar cair a comida
- Beber muito mais ou muito menos do que o habitual
A falta de apetite pode sinalizar doença renal, dor dentária, náuseas, stress ou infeções. Um apetite súbito e voraz, especialmente com perda de peso, pode estar ligado a problemas da tiroide ou diabetes.
Qualquer gato que recuse comida durante um dia inteiro, ou um gato sénior cujo padrão de alimentação mude rapidamente, deve ser visto por um veterinário.
2. Alterações nos hábitos de eliminação
A caixa de areia é um monitor de saúde surpreendentemente preciso. Quando um gato muda onde, com que frequência, ou como urina e defeca, deve prestar atenção.
O que a caixa de areia lhe está a dizer
| Sinal | Possível significado |
|---|---|
| Esforço na caixa com pouca produção | Obstipação ou obstrução urinária (urgente em machos) |
| Micções frequentes, em pequenas poças | Irritação da bexiga ou infeção |
| Sangue na urina ou nas fezes | Infeção, cálculos, inflamação ou lesão |
| Fazer fora da caixa | Dor, stress, artrose, caixa suja ou difícil de alcançar |
Nos gatos machos, qualquer sinal de esforço sem sair urina pode ser uma emergência. Uma uretra obstruída pode tornar-se fatal em poucas horas.
3. Vocalização invulgar ou silêncio repentino
Alguns gatos são muito “faladores”, outros quase não fazem um som. O importante é a mudança. Um gato calado que de repente começa a uivar à noite, ou um “falador” que fica silencioso, pode estar a sinalizar sofrimento.
Quando os miados trazem um aviso
- Queixumes baixos e prolongados ao mover-se ou ao ser pegado ao colo
- Uivos altos e inquietos, especialmente à noite em gatos mais velhos
- Aumento de miados junto à caixa de areia
- Novo sibilar ou rosnar quando é tocado
Estes sons podem estar ligados a dor, desorientação, declínio cognitivo em gatos idosos, ou ansiedade. Um gato normalmente amigável que começa a rosnar quando é acariciado pode estar a proteger uma zona dolorosa.
Pense em mudanças vocais súbitas e sem explicação como o seu gato a levantar a mão e a dizer: “Algo não está bem.”
4. Afastamento, esconder-se ou excesso de apego
É fácil rotular mudanças de comportamento como “humor”, mas muitas vezes são sinais precoces. Um gato que de repente se esconde debaixo da cama durante horas, ou que se agarra a si como Velcro, pode estar doente ou a sentir-se inseguro.
Sinais de alerta no comportamento social
- Passar a maior parte do dia em novos esconderijos escuros
- Um gato normalmente independente recusar-se a sair do seu lado
- Perder interesse em brincar, em se lamber, ou em observar pássaros à janela
- Rosnar a outros animais quando se aproximam
Esconder-se pode indicar dor, febre ou medo. Um apego invulgar pode surgir por ansiedade, confusão em gatos mais velhos, ou mudanças súbitas em casa, como um bebé novo, barulho de obras ou uma mudança de casa.
5. Alterações na higiene e no pelo
Os gatos são famosos por serem limpos. Quando os hábitos de higiene mudam, há quase sempre uma razão.
Quando o pelo conta uma história
- Pelo oleoso, baço ou empastado
- Caspa ao longo do dorso ou perto da cauda
- Falhas de pelo, pelos quebrados ou vermelhidão
- Lamber em excesso uma zona específica
Os gatos podem deixar de se limpar porque se sentem doentes, deprimidos, ou porque a artrose torna doloroso dobrar-se. O excesso de lambedura pode ser sinal de alergias, doença de pele ou stress.
Um pelo subitamente desgrenhado num gato adulto é um dos sinais mais claros - e muitas vezes ignorados - de desconforto.
6. Postura e movimentos estranhos
A linguagem corporal pode revelar dor muito antes de um gato “se queixar”. Muitos donos só reparam quando a claudicação é óbvia, mas os sinais iniciais são mais subtis.
Linguagem corporal que indica dor
- Movimentos rígidos e cuidadosos ao saltar para cima ou para baixo
- Relutância em usar escadas ou prateleiras altas de que antes gostava
- Dormir em locais “novos” mais baixos ou de acesso fácil
- Postura encolhida, com as patas bem recolhidas debaixo do corpo
- Cabeça baixa, olhos semicerrados, orelhas ligeiramente para trás
Isto pode apontar para artrose, lesões, dor abdominal ou doença interna. Um gato que fica durante muito tempo na posição “pãozinho”, com aspeto abatido e afastado, pode estar com náuseas ou com dores.
7. Alterações faciais e sinais nos olhos
A cara muda muitas vezes quando um gato está doente, mas as alterações são tão ligeiras que é fácil não as notar.
O que observar na face
- Olhos ligeiramente semicerrados ou um olho mais fechado do que o outro
- Pestanejar constantemente ou esfregar a pata num olho
- Pupilas mais dilatadas do que o habitual com luz normal
- Lábios retraídos, mostrando os dentes com mais frequência
- Bigodes puxados para trás contra as bochechas
Problemas oculares podem ser emergências, especialmente turvação súbita, vermelhidão, ou um gato a manter um olho fechado. Pupilas constantemente dilatadas em divisões bem iluminadas podem estar associadas a dor, hipertensão ou problemas de visão.
Os gatos têm uma “cara de dor”: olhos semicerrados, focinho tenso, orelhas ligeiramente viradas. Quando aprende a reconhecê-la, não consegue deixar de a ver.
Como reagir quando o seu gato mostra estes sinais
Nem todo o comportamento estranho significa doença. Ainda assim, certas combinações exigem ação rápida. Confie no seu instinto: conhece o “normal” do seu gato melhor do que ninguém.
Quando ligar ao veterinário imediatamente
- Recusa em comer ou beber durante 24 horas
- Vómitos repetidos, especialmente com apatia
- Esforço para urinar com pouca ou nenhuma produção
- Colapso súbito, desorientação ou incapacidade de se manter em pé
- Sangue na urina, nas fezes ou no vómito
- Dificuldade respiratória grave (respiração de boca aberta, gengivas azuladas)
Para sinais mais leves - menos vontade de brincar, ligeira mudança de apetite, esconder-se ocasionalmente - faça um registo escrito. Padrões ao longo de vários dias revelam muitas vezes mais do que uma noite estranha isolada.
Criar uma linha de base: o “normal” do seu gato
Cada gato é diferente. Um pode ser um palhaço obcecado por comida; outro, um observador digno. Para compreender os seus sinais de pedido de ajuda, precisa de conhecer o ritmo diário habitual.
Comportamentalistas veterinários sugerem acompanhar brevemente, uma ou duas vezes por ano:
- Ingestão média diária de comida e água
- Número típico de visitas à caixa de areia
- Locais habituais para dormir e poleiros preferidos
- Nível normal de brincadeira e interação
Esse retrato torna muito mais fácil detetar declínios subtis, especialmente em gatos de meia‑idade e seniores, em que as mudanças aparecem devagar.
Riscos escondidos: stress e dor por trás do comportamento “maroto”
Muitos comportamentos rotulados como “vingança” ou “ser difícil” são, na verdade, pedidos precoces de ajuda. Um gato que começa a arranhar mais os móveis, a urinar em superfícies macias, ou a atacar de repente outro gato, pode estar a viver com medo ou desconforto.
O stress, por si só, pode causar doença física, especialmente na bexiga e no intestino. A dor pode transformar um toque que antes era agradável em algo que o seu gato passa a temer - o que muitas vezes parece “mau feitio”. Tratar a causa subjacente pode acalmar o comportamento de forma muito mais eficaz do que castigos.
Cenários práticos: ler sinais na vida real
Imagine uma gata de interior de oito anos que começa a dormir no chão em vez de no seu habitual topo da estante, se lambe menos, e hesita antes de saltar. Não há uma claudicação dramática. Este padrão aponta muitas vezes para artrose inicial. Analgesia e pequenas mudanças em casa - degraus para o sofá, poleiros mais baixos - podem transformar o conforto dela.
Ou um gato macho jovem que, de repente, vai à caixa de areia de poucos em poucos minutos, produzindo apenas pequenas gotas de urina e lambendo os genitais. Pode ainda comer e ronronar. Esta situação pode evoluir para uma obstrução completa e precisa de cuidados veterinários urgentes no próprio dia.
Termos úteis que os donos costumam ouvir no veterinário
Quando chega à clínica depois de detetar estes sinais, pode ouvir termos como:
- Agudo: um problema que começou de repente.
- Crónico: um problema de longa duração, como doença renal ou artrose.
- Letargia: mais do que preguiça - uma falta notória de energia habitual.
- Anorexia: termo médico para não comer, não uma perturbação alimentar.
Pedir ao seu veterinário para traduzir qualquer palavra desconhecida pode ajudá-lo a perceber para o que os sinais do seu gato estão a apontar e que tipo de cuidados serão necessários a seguir.
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