A conversa de grupo da família voltou ao caos. O teu primo de 19 anos acabou de largar um meme tão absurdo que te saiu um fungar de riso, a tua irmã respondeu com uma sequência de emojis de caveira e, depois… o teu pai mete-se com: “Pois, no meu tempo, não havia destas parvoíces.”
A conversa morre ali.
Quase consegues sentir a Geração Z a inclinar a cabeça em conjunto, como cachorrinhos confusos. Os emojis param. As bolhinhas de “a escrever…” desaparecem. Alguém reage discretamente com um único 👍 e segue com a vida.
Todos já estivemos aí: aquele momento em que uma frase cai com um estrondo tão grande que dá para ouvir o rangido do fosso geracional.
As palavras viajam no tempo. Algumas simplesmente não sobrevivem à viagem.
1. “No meu tempo…”
Isto é o tiro de partida do desabafo geracional. Assim que ouves “No meu tempo…”, já sabes o que aí vem: uma história sobre andar dez quilómetros até à escola, sobre telefones com fio, sobre música a sério que tinha “alma”.
Para alguém com menos de 30, pode soar mais a julgamento do que a memória. A mensagem escondida parece ser: “A tua vida é mais fácil e, por isso, menos válida.” Isso magoa.
Os mais novos não odeiam histórias de gente mais velha. O que odeiam é que lhes digam que os problemas deles não contam.
Imagina uma pessoa de 23 anos a queixar-se de burnout por conciliar dois trabalhos e um “side hustle”. O avô interrompe ao almoço de domingo: “No meu tempo, não nos queixávamos do trabalho. Fazia-se e pronto.”
Conversa terminada.
Em vez de despertar curiosidade sobre como era mesmo a vida nos anos 60 ou 70, a frase fecha a porta com estrondo. A pessoa mais nova ouve “és fraco”, não “deixa-me partilhar algo que vivi”. Então pega no telemóvel por baixo da mesa e, emocionalmente, sai da conversa.
O que torna esta frase tão desafinada é tratar o tempo como uma competição: quem teve mais dificuldades, quem trabalhou mais, quem merece mais respeito.
Eras diferentes tiveram pressões diferentes: preço da habitação, redes sociais, segurança no emprego, consciência sobre saúde mental. Compará-las como se fosse um jogo não faz sentido.
Uma versão mais suave seria algo como: “Quando eu tinha a tua idade, a minha experiência foi muito diferente - posso contar-te?” Mesma memória, menos sermão. Essa pequena mudança pode transformar um revirar de olhos numa conversa a sério.
2. “Os miúdos de hoje em dia…”
No momento em que alguém diz “Os miúdos de hoje em dia…”, todos os jovens na sala desligam mentalmente. Pinta uma geração inteira com um pincel preguiçoso: mimados, viciados no telemóvel, frágeis, o que for.
Soa a alguém à porta de uma festa, de braços cruzados, a criticar a música. Não te sentes convidado. Sentes-te julgado.
Os jovens sabem que os adultos também faziam coisas “parvas” - simplesmente não havia TikTok para gravar.
Uma estudante universitária contou-me sobre o gerente num café. Sempre que a equipa pedia flexibilidade de horários por causa dos exames, ele suspirava alto: “Os miúdos de hoje em dia não sabem o que é trabalho a sério.”
Ela trabalhava 30 horas por semana enquanto estudava a tempo inteiro. Outra barista mandava dinheiro para casa, para ajudar a família. No papel, pareciam preguiçosos para ele. Na realidade, estavam no limite.
Aquela frase dava-lhe cobertura para ignorar nuances. Não precisava de perguntar o que se passava. Tinha uma explicação pronta: “os miúdos de hoje em dia”.
Este tipo de linguagem soa desligada da realidade porque se recusa a olhar de perto. Encolhe milhões de vidas diferentes num estereótipo.
Psicólogos falam de “homogeneidade do exogrupo” - a ideia de que as pessoas fora do nosso grupo parecem todas iguais. “Os miúdos de hoje em dia” é esse viés com um microfone.
Larga a frase e aparece outra coisa: histórias específicas, pressões reais, uma resiliência surpreendente. As generalizações parecem seguras. A ligação vive nos detalhes.
3. “Larga o telemóvel e vai lá para fora”
À superfície, isto parece inofensivo, até saudável. Ar fresco, menos ecrãs - quem é que não gosta?
Para um jovem de 17 anos cuja vida social, trabalhos de casa, hobbies e, por vezes, rendimento passam pelo telemóvel, pode soar a: “Para de existir no mundo em que tu realmente vives.”
O subtexto chega como: “A tua forma de estar ligado não é real.” Isso não é só irritante. É apagar.
Vê o Sam, 16 anos, que passa horas no Discord e no TikTok. Para o avô, parece um miúdo a desperdiçar a juventude.
O que o avô não vê é que o Sam está a aprender arte digital no telemóvel, a fazer cursos online gratuitos e a falar à noite com amigos que o ajudam a gerir a ansiedade. Quando ouve “Larga o telemóvel e vai lá para fora”, o que ele ouve é: Para de fazer as coisas que te fazem sentir menos sozinho.
O conselho pode ser bem-intencionado, mas choca com a realidade como um modem de ligação telefónica a tentar carregar a Netflix.
O choque aqui é sobre o que significa “vida real”. Para gerações mais velhas, a realidade acontecia cara a cara, em espaços físicos. Para as mais novas, a linha entre online e offline é, no mínimo, difusa.
E sejamos honestos: ninguém se desliga do telemóvel o dia inteiro, em nenhuma idade.
Uma abordagem mais assente na realidade é curiosa em vez de descartável: “O que é que estás a fazer aí?” ou “Mostra-me esse vídeo de que te estás sempre a rir.” Essa pergunta pequena diz: O teu mundo importa o suficiente para eu entrar nele.
4. “Tens é de ser mais rijo/a”
Esta frase costuma aparecer quando os jovens falam de saúde mental, stress no trabalho ou burnout. Cai como uma chapada. Não porque resiliência seja má, mas porque ignora tudo o que a pessoa já está a aguentar.
Dizer a alguém para “ser mais rijo/a” é como dizer a uma pessoa a afogar-se para nadar melhor enquanto tu ainda estás no barco. Protege quem fala de sentir desconforto.
Para muitos com menos de 30, pedir ajuda já é assustador. Ouvir isto faz parecer inútil.
Uma colaboradora júnior de 26 anos confidenciou ao chefe, mais velho, que tinha ataques de pânico quando fazia apresentações. Não estava a pedir para mudarem o trabalho. Só precisava de espaço para dizer: “Isto é difícil para mim.”
Ele recostou-se, meio a sorrir, e disse: “Tens é de ser mais rija. No meu tempo, não se falava dessas coisas.”
O que ele quis dizer como incentivo soou a desvalorização. Em vez de se sentir mais corajosa, sentiu-se mais pequena. Deixou de falar do assunto. Ele achou que o problema tinha desaparecido. Não desapareceu.
A frase bate tão mal porque o mundo finalmente começou a dar nome a coisas que antes eram engolidas: ansiedade, depressão, PHDA, burnout. Os jovens não são mais frágeis - são mais vocais.
As gerações mais velhas muitas vezes sobreviveram ficando em silêncio. As mais novas estão a tentar sobreviver falando. São duas estratégias de sobrevivência opostas a colidir numa única frase.
Uma pequena mudança - “Isso parece difícil. Queres conselhos ou só alguém para ouvir?” - pode transformar um reflexo antigo num novo tipo de apoio.
5. “Respeita os mais velhos”
Esta é complicada, porque respeito importa para toda a gente. O problema não é a ideia; é a forma como a frase é lançada como um trunfo para acabar qualquer desacordo.
Para muitos jovens, “Respeita os mais velhos” passou a significar: “Não me questiones, mesmo quando eu estiver errado.” Não convida ao respeito. Exige obediência.
E isso encaixa mal num mundo em que as hierarquias estão a ser renegociadas em tempo real.
Imagina um jantar de família em que um jovem de 21 anos contesta a piada de um tio mais velho que passa a linha e entra no racismo casual. As vozes sobem. O ambiente fica tenso.
Em vez de ouvir, alguém na mesa dispara: “Respeita os mais velhos!” Conversa terminada, lição perdida. A mensagem é clara: a idade vence a ética.
O familiar mais novo afasta-se a pensar: “Então tenho de estar calado só porque nasci mais tarde?” Isso não é respeito. É silenciamento.
Para gerações criadas com redes sociais e ativismo, o respeito deixou de ser automático e passou a ser conquistado. Títulos, idade ou estatuto dão-te entrada, não um passe livre.
Quando “Respeita os mais velhos” é usado para calar perguntas, soa datado, até manipulador. Quando os mais velhos dizem “o respeito é mútuo”, tudo muda.
O respeito partilhado transforma a idade num recurso em vez de um escudo. É aí que a sabedoria pode circular livremente entre gerações.
6. “Isso não é um trabalho a sério”
Nada mata uma conversa com alguém na casa dos 20 mais depressa do que ouvir o seu trabalho ser descartado como falso. Gestor de redes sociais, streamer, YouTuber, designer UX, influencer, trabalhador de “gig economy” - estes papéis podem soar imaginários para quem passou 40 anos numa empresa.
Ainda assim, as contas estão a ser pagas. As competências são complexas. O cansaço é real.
Desvalorizar um trabalho “não tradicional” não soa só desfasado. Pode ferir mesmo o sentido de identidade de alguém.
Uma criadora de 29 anos contou-me que o avô, engenheiro reformado, perguntou o que ela fazia. Quando explicou que fazia vídeos curtos para marcas no TikTok, ele riu-se às gargalhadas.
“Isso não é um trabalho a sério. Quando é que começas a levar a vida a sério?”
O que ele não viu foram os contratos, as métricas, os calendários de conteúdos e as mudanças constantes do algoritmo. Ele viu alguém a falar para um ecrã. Ela viu uma carreira construída do zero, sem mapa. Esse fosso não é inofensivo. Pode separar pessoas.
O trabalho mudou. Estabilidade é rara, freelancing é normal, remoto está por todo o lado, e as carreiras são portefólios, não escadas.
A linguagem antiga sobre “empregos como deve ser” soa a tentar explicar o Spotify com lógica de cassetes.
A verdade simples é: dinheiro ganho com trabalho honesto é real, venha de uma fábrica ou de um ficheiro no Figma.
Trocar “trabalho a sério” por “Conta-me como é um dia teu” abre uma janela para um mundo que, de fora, parece confuso, mas por dentro é muito real.
7. “Sempre se fez assim”
Esta frase é como o papel de parede de certos locais de trabalho, famílias e instituições. Sinaliza conforto, tradição e rotina. Para ouvidos jovens, pode soar a ameaça.
Quando alguém de 24 anos sugere um processo novo e leva com “Sempre se fez assim”, não ouve só resistência. Ouve: “As tuas ideias são perigosas.”
Nada diz “não estou a ouvir” tão bem como defender um sistema só por ser antigo.
Uma colaboradora júnior numa associação propôs passar de fichas de inscrição em papel para um sistema online. Pouparia horas, reduziria erros e chegaria a mais pessoas.
O gestor, já perto dos 60 e muitos, franziu o sobrolho e respondeu: “Sempre se fez assim. Os nossos apoiantes gostam de papel.” Sem teste, sem piloto, sem curiosidade. Só uma parede.
Meses depois, outra organização lançou uma campanha digital bem feita e duplicou donativos. A associação acabou por seguir. A jovem colaboradora tinha razão desde o início, mas a frase já tinha feito estragos. Ela deixou de sugerir coisas.
O que irrita aqui é a crença não dita de que idade é igual a correção. Transforma a experiência numa gaiola em vez de um guia.
Tradição não é o problema. Piloto automático é. Uma tradição viva respira, dobra e atualiza-se sem perder o essencial.
Trocar “Sempre se fez assim” por “É por isto que fazemos assim - queres ver se há uma versão melhor?” permite manter o que funciona e acolher o que vem a seguir.
Construir pontes no fosso linguístico, uma frase constrangedora de cada vez
Quando começas a reparar nestas frases, ouves-las em todo o lado - nas cozinhas do escritório, nos almoços de domingo, em grupos de WhatsApp que, por algum motivo, incluem quatro gerações.
Normalmente não são ditas para magoar. São hábitos. Vêm do medo da mudança, do orgulho de ter sobrevivido a tempos mais duros, ou simplesmente de ainda não haver palavras melhores.
Os mais novos ouvem-nas e sentem-se empurrados para a margem da conversa. Os mais velhos dizem-nas e sentem-se ignorados quando a sala fica em silêncio.
A ironia é que ambos os lados querem quase o mesmo: sentir respeito, ser levados a sério, ver a sua realidade reconhecida. A discordância é menos sobre valores e mais sobre vocabulário.
Se tens mais de 65, trocar apenas uma destas frases por uma pergunta - “Conta-me mais”, “Como é que isso funciona?” - pode mudar o ambiente inteiro.
Se tens menos de 30, dizer com cuidado como estas frases te soam pode transformar uma discussão numa gargalhada partilhada sobre como a linguagem às vezes é desajeitada.
A gíria geracional vai continuar a mudar. Chegarão frases novas, outras morrerão, e algumas virarão memes. É assim que a linguagem sobrevive.
O verdadeiro truque não é soar jovem. É manter a curiosidade.
A conversa não acaba só porque as palavras são velhas. Acaba quando deixamos de tentar atualizá-las em conjunto.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A linguagem pode envelhecer mal | Certas frases feitas soam a julgamento ou desvalorização para ouvidos mais jovens | Ajuda a identificar expressões que, sem querer, cortam a ligação |
| Curiosidade vence comparação | Trocar sermões por perguntas abre espaço para histórias reais | Dá alternativas práticas para manter as conversas a fluir |
| O respeito é agora mútuo | As gerações mais novas associam respeito a escuta, não apenas à idade | Mostra como adaptar sem perder dignidade nem experiência |
FAQ:
- Pergunta 1 Os jovens estão simplesmente a ser sensíveis demais em relação a estas frases?
- Pergunta 2 Como é que alguém com mais de 65 pode perguntar sobre a vida moderna sem soar desfasado?
- Pergunta 3 O que devo dizer em vez de “No meu tempo”?
- Pergunta 4 É errado querer respeito por parte das gerações mais novas?
- Pergunta 5 Pessoas mais velhas e mais novas conseguem mesmo gostar de conversar, ou vai ser sempre estranho?
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário