Domingo ao almoço, quatro gerações à volta da mesa, e a conversa tropeça nos próprios fios. A avó recosta-se, dobra o guardanapo e diz, a rir: «Bem, no meu tempo, a gente safava-se por si.»
Os jovens de vinte e tal anos, do outro lado da mesa, trocam olhares. Um desbloqueia o telemóvel em silêncio. Outro, de repente, fica muito empenhado em encher o jarro de água.
Nada explode. Ninguém sai a bater com a porta.
Mas sente-se o ar a mudar, como uma ligeira quebra no sinal do Wi‑Fi.
Aquele microespaço na linguagem?
É aí que as gerações, em silêncio, deixam de se ouvir.
1. «No meu tempo…»
Quase se ouve o revirar mental de olhos no instante em que isto cai. «No meu tempo…» costuma chegar mesmo antes de uma tirada nostálgica sobre casas mais baratas, crianças com respeito, ou a glória dos telefones de disco.
Para muitos mais velhos, é uma forma de se ancorarem, de dizerem: «Já vi muita coisa, e este é o meu ponto de referência.» Isso é perfeitamente humano. Mas, para alguém com menos de 30 anos, a viver num mundo de ansiedade climática, trabalho instável e redes sociais esmagadoras, pode soar a desvalorização de tudo o que está a enfrentar agora.
O passado começa a parecer uma arma, e não uma história.
Imagine isto: uma pessoa de 23 anos diz ao avô que está exausta de conciliar dois part‑times e mesmo assim não consegue pagar renda. Ele sorri e dispara: «No meu tempo, comprei casa aos 25.»
De repente, a conversa deixa de ser sobre a realidade do neto. Passa a ser sobre a dele. Os números não batem certo: salários diferentes, mercados de habitação diferentes, custos de vida diferentes. Mas esses pormenores raramente são ditos em voz alta.
Então o jovem cala-se. Acena, muda de assunto e, mais tarde, manda mensagem a um amigo: «Ele acha mesmo que é o mesmo mundo.»
O que magoa não é a nostalgia; é o julgamento implícito. «No meu tempo» vem muitas vezes acompanhado de «e nós aguentámos bem, por isso porque é que tu não consegues?»
Essa frase comprime mudanças económicas, sociais e culturais complexas numa comparação arrumadinha que não se sustenta. Os salários não acompanharam as rendas. A dívida do ensino superior disparou. A saúde mental é discutida, não enterrada.
Um ajuste simples como «Quando eu tinha a tua idade era diferente - queres ouvir como era?» abre uma porta em vez de a fechar. A mesma memória, um impacto totalmente diferente.
2. «Os miúdos de hoje não têm ética de trabalho»
Isto cai como uma bofetada, mesmo quando é dito a brincar. «Os miúdos de hoje não têm ética de trabalho» pega em milhões de jovens com biscates, estágios não pagos, trabalho por plataformas, e burnout… e achata-os em «preguiçosos».
Os mais velhos dizem-no muitas vezes depois de verem um jovem pôr limites: recusar horas extra não pagas, pedir dias por saúde mental, ou mudar de emprego em vez de «aguentar». Isso é lido como fraqueza, em vez de uma estratégia de sobrevivência numa economia mais frágil.
A frase parece simples, mas leva uma mala inteira de desprezo.
Um ex‑gestor de 68 anos conta-me sobre um jovem de 26 que se despediu depois de lhe exigirem responder a e‑mails à meia-noite. «No meu tempo, ficávamos até o trabalho estar feito», diz. «Estes miúdos querem tudo dado.»
Quando lhe pergunto como foi o primeiro emprego dele, admite que tinha contrato estável, um cônjuge em casa e uma prestação da casa que custava menos do que algumas pessoas pagam por mês em empréstimos do curso. Nada disso se parece com o mercado atual de contratos de curto prazo e reformas a desaparecer.
Ele encolhe os ombros. «Mesmo assim. A gente seguia em frente.»
A história dele é real. A do jovem de 26 também.
Sejamos honestos: ninguém gosta de ser chamado preguiçoso por alguém que não percebe a sua realidade.
O choque aqui não é sobre esforço; é sobre contexto. As gerações mais velhas associam muitas vezes «ética de trabalho» a longas horas, sacrifício e lealdade a um só empregador. Os mais novos associam-na frequentemente a resultados, criatividade e não perder a sanidade por um salário.
Uma pequena mudança - trocar «não têm ética de trabalho» por «têm uma ideia diferente de trabalho» - muda tudo. Convida a falar sobre como o trabalho se transformou, em vez de declarar uma geração inteira defeituosa.
3. «Tens é de ser mais duro»
Esta frase aparece muitas vezes quando os jovens falam de ansiedade, depressão, ou simplesmente de se sentirem completamente esmagados. O familiar mais velho acha que está a oferecer treino de resistência para a vida. O que chega do outro lado é: «Os teus sentimentos não contam.»
Para quem cresceu numa época em que ir à terapia era vergonhoso e chorar no trabalho podia acabar com a carreira, a abertura emocional pode ser desconfortável. Manter a postura era sobrevivência. Por isso, «ser mais duro» não é crueldade na cabeça deles. É conselho.
Para alguém de 19 anos numa lista de espera de seis meses para apoio em saúde mental, soa a apagamento.
Uma estudante universitária explica à avó de 70 anos que tem tido dificuldade em sair da cama e está a chumbar a cadeiras por causa da depressão. A avó mexe o chá e diz: «No meu tempo não havia tempo para depressões. A gente seguia em frente. Vocês, os novos, são tão moles.»
A rapariga sorri por educação e, mais tarde, chora na casa de banho. Não se sente vista; sente-se defeituosa. O que a avó não diz é que perdeu um irmão, nunca processou isso e ainda hoje acorda algumas noites a engasgar.
Duas gerações diferentes. A mesma dor.
Só línguas totalmente diferentes para a descrever.
O vocabulário da saúde mental explodiu na última década, e isso pode soar alienígena a quem cresceu com o «mantém a calma e segue» entranhado nos ossos. Às vezes ouvem palavras como «burnout» ou «ataque de pânico» como desculpas, em vez de descrições de sofrimento real.
Trocar «tens é de ser mais duro» por «eu não tinha palavras para isto quando era jovem, mas estou a ouvir» pode suavizar tudo. Não exige que os mais velhos se tornem terapeutas. Pede apenas que deixem de traduzir cada lágrima como fraqueza.
Uma frase curta pode fechar um coração - ou mantê-lo aberto.
4. «Isso não é um trabalho a sério»
Isto bate especialmente forte num mundo em que os empregos não se parecem nada com os de há 40 anos. «Isso não é um trabalho a sério» costuma ser atirado a criadores de conteúdo, gamers, influencers, freelancers, ou a quem trabalha remotamente em algo que não envolve um uniforme visível.
Para muitos mais velhos, um «trabalho a sério» significa um escritório, uma fábrica, ou um sítio físico onde se entra às 9 e se sai às 17, com um ordenado palpável todos os meses. Estabilidade que se toca. Um trabalho que os vizinhos reconhecem.
A economia digital rasgou esse guião.
Uma pessoa de 29 anos ganha mais a editar vídeos para o TikTok do que o pai alguma vez ganhou como mecânico. Tem clientes em três países, paga impostos, poupa para a reforma. Num churrasco de família, alguém pergunta o que ela faz. Ela explica, e o tio resmunga: «Então passas o dia a brincar no telemóvel? Isso não é um trabalho a sério.»
Risos à volta da mesa. Ela força um sorriso. Por dentro, algo afunda.
Ela conhece os números na app do banco, mas não interessa. Não é sobre dinheiro. É sobre respeito.
Deixa de falar de trabalho em encontros de família. O mundo dela encolhe um pouco na presença deles.
O fosso aqui é de visibilidade. As gerações mais velhas confiam no que veem: edifícios, uniformes, produtos físicos. Os mais novos operam numa economia “na nuvem”, feita de dados, design e atenção digital.
Chamar «irreal» ao trabalho deles não faz essa economia desaparecer; só afasta as pessoas que a estão a navegar. Uma troca simples como «Não percebo totalmente o que fazes - podes mostrar-me?» transforma desdém em curiosidade.
Essa pergunta diz: a tua realidade é estranha para mim, mas não é inválida.
5. «Antigamente não havia estes rótulos todos»
Esta frase aparece normalmente quando a conversa vai para identidade de género, sexualidade ou neurodiversidade. O tom é muitas vezes meio divertido, meio exasperado: «Não‑binário, pansexual, TDAH, autista… antigamente não havia estes rótulos todos.»
Para muitos mais velhos, a vida vinha com guião: rapaz/rapariga, hetero/gay, normal/«miúdo problemático». Havia pouco espaço público para nuance. Quem não encaixava muitas vezes calava-se ou forçava-se para dentro de caixas. Por isso, ouvir um jovem falar à vontade sobre pronomes ou diagnósticos pode parecer… demais.
Para o jovem, esses rótulos são oxigénio.
Imagine uma jovem de 21 anos a explicar à tia de 67 que é bissexual e usa pronomes ela/elu. A tia responde: «No meu tempo a gente seguia em frente, não precisava destes rótulos todos.»
O que ela talvez queira realmente dizer é: «Nós não tínhamos permissão para dizer isto em voz alta.» Mas não é isso que a sobrinha ouve. O que ouve é: «A tua identidade é uma moda.»
A conversa podia ter sido uma ponte. Torna-se uma parede.
Ninguém planeou que fosse assim.
A verdade simples: a linguagem vem sempre atrás da realidade. Pessoas existiram fora das categorias antigas muito antes de inventarmos palavras como «não‑binário» ou «neurodivergente».
Para quem passou a vida a sentir-se «errado» ou «avariado», encontrar finalmente uma palavra que encaixa pode mudar tudo. Os rótulos, quando escolhidos pela própria pessoa, têm menos a ver com tendência e mais a ver com finalmente ter um espelho que a reflete com precisão.
Trocar «antigamente não havia estes rótulos todos» por «quando eu era jovem não havia palavras para isto; ainda bem que agora há» muda completamente o guião emocional.
6. «Outra vez nesse telemóvel?»
Isto pode ser a banda sonora dos encontros familiares modernos. Uma pessoa mais velha levanta os olhos do jornal ou da televisão, vê um neto no telemóvel e suspira: «Outra vez nesse telemóvel?»
Para eles, os telemóveis são ferramentas: pega-se para telefonar e depois pousa-se. Para os mais novos, o telemóvel é a praça da cidade, o escritório, a biblioteca, o cinema e a terapia de grupo - tudo num só. Criticar «esse telemóvel» soa muitas vezes a criticar a vida social inteira da pessoa.
O comentário raramente reduz o tempo de ecrã. Só acrescenta uma pitada de culpa.
Num café, um homem de 70 anos encontra-se com o neto de 19. O rapaz verifica uma notificação do chefe no WhatsApp. «Consegues estar online às 18?» diz a mensagem.
Ele responde depressa «sim», levanta os olhos e ouve: «Outra vez nesse telemóvel. Quando eu tinha a tua idade, falávamos com as pessoas.» O neto pestaneja. Ele está a falar. Está literalmente ali. Mas o subtexto é claro: o teu mundo é menos real do que o meu.
Então guarda o telemóvel no bolso. E guarda também uma parte da sua realidade para manter a paz.
Esta frase esconde uma preocupação real: os mais velhos temem muitas vezes que os ecrãs estejam a roubar profundidade, presença e contacto visual. Os mais novos temem que, sem ecrãs, percam oportunidades, relações e informação. Ambos têm razão à sua maneira.
Uma alternativa mais suave pode ser: «Gostava de ter dez minutos sem telemóvel contigo - só nós - pode ser?» Isso centra a ligação, não a culpa.
Perguntar o que a pessoa está a fazer no telemóvel - estudar, relaxar, trabalhar - também pode transformar irritação em compreensão.
7. «Achas que tens a vida difícil?»
Poucas frases desligam a vulnerabilidade mais depressa do que esta. Um jovem abre-se sobre stress ou dificuldades e um familiar mais velho responde: «Achas que tens a vida difícil?», seguido de um catálogo de dificuldades próprias: guerra, pobreza, pais rígidos, menos direitos.
A história deles é válida. A dor deles é real.
O problema é o timing.
Largada no momento errado, esta frase não constrói perspetiva. Soa apenas a um concurso de sofrimento em que o prémio é «mais miserável».
Imagine uma jovem de 25 anos a explicar ao avô de 72 como é assustador enviar 100 candidaturas e não receber resposta. Ele interrompe: «Achas que tens a vida difícil? Eu cresci com três irmãos num quarto, sem aquecimento, e mesmo assim andávamos 16 quilómetros para ir à escola.»
Ele tem orgulho no que sobreviveu. Mas ela não está a comparar. Só precisa que alguém esteja com ela no medo de um futuro invisível. A conversa escorrega da vida dela para o museu de memórias dele.
Ela deixa de falar. Ele vai embora a pensar que ela não tem noção da sorte que tem. Ambos saem incompreendidos.
Comparar dores entre épocas é como discutir quem apanhou a tempestade mais molhada. Céus diferentes, ventos diferentes, roupa igualmente encharcada.
Uma abordagem mais gentil é separar ouvir de contar histórias. Primeiro: «Isso parece mesmo difícil - lamento que estejas a passar por isso.» Mais tarde: «Quando eu era jovem tínhamos outras lutas - queres que te conte um dia destes?»
Assim, a experiência não vira arma. O passado pode ser uma lanterna, não um holofote que cega a pessoa à tua frente.
Construir pontes sem andar em bicos de pés
A verdade é que a maioria destas frases não nasce da crueldade. São atalhos. Pequenos hábitos linguísticos construídos ao longo de anos a sobreviver num mundo que era radicalmente diferente. Os mais velhos recorrem a eles como quem pega num casaco conhecido numa manhã fria.
As gerações mais novas ouvem-nos e sentem-se invisíveis, julgadas, ou suavemente expulsas da conversa. Não por falta de respeito pelos mais velhos, mas porque essas frases batem com a porta na realidade deles mesmo quando estão a tentar abri-la só um bocadinho.
Há um custo nisso, pago em silêncio - em distância.
Mudar meia dúzia de frases feitas não significa andar em bicos de pés nem censurar cada pensamento. Significa escolher curiosidade em vez de comparação. Trocar «no meu tempo» por «como é que funciona para ti agora?»
Se és mais novo, pode significar ouvir o medo por trás de «telemóveis» e «rótulos» e «ética de trabalho» e dizer: «As coisas são diferentes agora, mas também quero perceber como foi para ti.»
A linguagem não vai, por magia, consertar o mercado da habitação ou curar a ansiedade. Ainda assim, estas pequenas mudanças podem criar espaço suficiente para as duas histórias viverem à mesma mesa.
Da próxima vez que ouvires uma destas frases, não tens de explodir nem de te fechar. Podes parar e traduzir com delicadeza. E se tens 65+ e te revês em algumas destas linhas, isso não é um fracasso. É um ponto de partida.
Porque entre «os miúdos de hoje» e «no meu tempo» existe uma frase frágil e poderosa que dizemos muito pouco: «Conta-me como é para ti.»
É essa que mantém as gerações a conversar muito depois de a sobremesa desaparecer.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| As frases carregam julgamentos escondidos | Expressões como «no meu tempo» ou «achas que tens a vida difícil?» soam muitas vezes a desvalorização, mesmo quando a intenção é contar uma história | Ajuda a perceber porque é que as conversas, de repente, ficam tensas ou bloqueiam |
| O choque vem do contexto, não do carácter | Economias, tecnologia e normas sociais diferentes moldam a forma como cada geração fala sobre trabalho, identidade e sofrimento | Reduz a culpa e torna os conflitos menos pessoais, abrindo espaço para empatia |
| Pequenos ajustes de linguagem abrem grandes portas | Trocar comparações por perguntas («como é agora para ti?») transforma conflito em ligação | Dá formas práticas e de baixo esforço para comunicar melhor entre idades |
FAQ:
- As pessoas mais velhas têm de deixar de usar estas frases por completo? Não necessariamente. O essencial é perceber quando estão a calar alguém e estar disposto a reformular ou acrescentar: «Foi assim para mim, mas sei que agora é diferente para ti.»
- Como posso responder com respeito quando um familiar diz algo desajustado? Experimenta refletir e acrescentar contexto: «Percebo que tenha sido assim para ti. Hoje funciona um pouco diferente - posso explicar-te como?» Valida-os sem te apagares.
- Isto é só uma questão de ser “sensível demais”? Não. As palavras moldam quem se sente à vontade para falar. Quando frases repetidamente desvalorizam experiências mais novas, as pessoas não ficam “sensíveis”; ficam caladas.
- E se eu tiver mais de 65 e me sentir julgado pela forma como falo? Não estás sozinho. Hábitos de linguagem formam-se ao longo de décadas. A curiosidade - perguntar aos mais novos o que cai mal e porquê - conta mais do que ser perfeito de um dia para o outro.
- Os mais novos também podem dizer coisas desajustadas aos mais velhos? Absolutamente. Comentários como «OK boomer» ou «tu não ias perceber» podem ser igualmente dolorosos. O respeito entre gerações é uma via de dois sentidos, e ambos os lados têm trabalho a fazer.
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